Muito além de uma questão de risco: por que investir em adaptação climática é uma estratégia de alto retorno econômico
A crise climática já está transformando realidades em todo o mundo. Segundo o Sexto Relatório de Avaliação do IPCC, quase metade da população global - cerca de 3,6 bilhões de pessoas - vive hoje em condições altamente vulneráveis aos impactos das mudanças do clima, como secas, inundações, tempestades, ondas de calor e insegurança alimentar. No Brasil, os recentes desastres, como as enchentes no Rio Grande do Sul em 2024, mostraram que a falta de preparo custa vidas e gera perdas bilionárias.
Com o aumento da frequência e da intensidade desses eventos, seus impactos tendem a se tornar mais graves. Diante desse cenário, torna-se essencial avançar em soluções que não apenas protejam populações e setores vulneráveis, mas também fortaleçam a resiliência das economias e sociedades. Em outras palavras, precisamos investir em adaptação climática para ajudar pessoas, setores e economias a reduzirem os riscos e os danos decorrentes de eventos climáticos extremos.
A boa notícia é que esse tipo de investimento traz benefícios concretos e alto retorno. Um estudo do WRI mostrou que cada US$ 1 aplicado em adaptação gera, em média, US$ 10,5 em benefícios sociais, ambientais e econômicos, incluindo perdas evitadas ao longo de uma década.
Apesar disso, os aportes financeiros ainda estão muito aquém das necessidades globais, especialmente por parte do setor privado. Tradicionalmente, a adaptação é vista como um gasto emergencial ou uma forma de conter perdas pós-desastre. Mas é hora de mudar essa lógica: financiar adaptação não é despesa, e sim estratégia inteligente de negócios e de gestão pública, capaz de reduzir riscos, evitar prejuízos futuros e gerar desenvolvimento sustentável.
Por que investir em adaptação é urgente
Evitar perdas
As mudanças climáticas já causam impactos adversos generalizados e prejuízos significativos para pessoas, ecossistemas e economias. Os danos são especialmente visíveis em setores diretamente dependentes do clima, como agricultura, pesca, energia e turismo.
Cada dólar não investido em adaptação hoje se transforma em múltiplos custos no futuro. Estimativas recentes indicam que, até 2050, os impactos climáticos podem causar 14,5 milhões de mortes adicionais e gerar perdas anuais de até US$ 38 trilhões na economia global.
Reduzir desigualdades existentes e futuras
Apesar da mudança do clima atingir todas as economias e populações, seus impactos são distribuídos de forma desigual entre grupos, regiões e setores. Populações com menor renda, infraestrutura precária e menos acesso a recursos sofrem de maneira desproporcional.
A perda de propriedades (como moradias, veículos, maquinários), renda e infraestruturas, bem como os impactos sobre a saúde e a segurança alimentar, reduz ainda mais as condições de vida dessas comunidades e compromete sua capacidade de recuperação. Estima-se que cerca de 132 milhões de pessoas poderão entrar em situação de extrema pobreza até 2030 devido à mudança do clima.
Em suma, a ausência de recursos suficientes para promover a adaptação climática ameaça décadas de avanços em redução da pobreza e em desenvolvimento, podendo ampliar desigualdades históricas e gerar novos ciclos de exclusão, tanto dentro como entre países e regiões.
Tempo é fator-chave
Adiar investimentos em adaptação torna o desafio mais caro e complexo. O não investimento hoje exigirá valores muito maiores e em prazos menores no futuro para conter perdas crescentes.
Essa necessidade é especialmente urgente em países em desenvolvimento, que já enfrentam restrições estruturais de capacidade técnica e recursos. Mantido o cenário atual, os custos anuais de adaptação em países em desenvolvimento podem variar entre US$ 140 bilhões e US$ 300 bilhões até 2030, e chegar a US$ 500 bilhões por ano até 2050.
Adaptação é investimento de alto retorno
Investir em adaptação é financeiramente vantajoso e socialmente estratégico. Um estudo do WRI analisou 320 investimentos em 12 países, totalizando US$ 133 bilhões, e concluiu que esses projetos têm potencial para gerar US$ 1,4 trilhão em benefícios sociais, ambientais e econômicos, totalizando 27% de taxa interna de retorno econômico.
O estudo mostrou que os benefícios econômicos induzidos (como aumento da produtividade e desenvolvimento de áreas que antes eram alagáveis) e benefícios sociais e ambientais (como requalificação de áreas informais e melhoria na qualidade do ar) frequentemente superam o valor das perdas evitadas e não dependem da ocorrência do desastre climático.
Ou seja, investir em adaptação é bom para o desenvolvimento em qualquer cenário.
Contudo, o déficit de financiamento é enorme
Apesar da urgência, a necessidade global de financiamento para adaptação supera amplamente os fluxos atuais. Segundo a UNEP, a lacuna anual de financiamento para adaptação no mundo varia entre US$ 187 bilhões e US$ 359 bilhões.
O problema vai além do volume: envolve também a distribuição e a origem dos recursos. De acordo com a Climate Policy Initiative (CPI), mais de 90% do financiamento climático global é direcionado à mitigação, sendo cerca de 70% proveniente do setor privado. A adaptação, por outro lado, depende quase totalmente de recursos públicos, que representam cerca de 90% dos investimentos na área - revelando um desequilíbrio estrutural.
No Brasil, um estudo da CPI, ainda não publicado, mostra que a maior parte do financiamento para adaptação está concentrada no setor de agricultura, florestas e uso da terra (AFOLU), com predominância de recursos nacionais. Esse setor responde por 65% dos investimentos em adaptação, mas apenas 8% do total de recursos climáticos mapeados.
Como ampliar o financiamento para adaptação?
Durante o webinar “Adaptação como investimento: benefícios econômicos e caminhos para mobilizar financiamento climático no Brasil”, realizado pelo WRI Brasil na Rio Climate Action Week de 2025, especialistas do setor público, privado e da sociedade civil destacaram três caminhos fundamentais para avançarmos na pauta:
1) Reduzir a assimetria de informação
Um dos principais motivos da lacuna de financiamento para adaptação climática é o entendimento limitado sobre custos, benefícios e a distribuição de riscos e ganhos entre pagadores e beneficiários. Sem uma visão abrangente desses fatores, os modelos de negócio costumam subestimar os retornos potenciais, comprometendo a análise de viabilidade econômica. O estudo do WRI Strengthening the Investment Case for Climate Adaptation, por exemplo, busca ampliar esse entendimento, mostrando que os benefícios sociais, ambientais e econômicos do investimento em adaptação climática são duas vezes maiores que as perdas evitadas.
Fortalecer a base de evidências sobre adaptação também é essencial. É preciso investir na estruturação de banco de dados abertos, padronizados e verificáveis, e incluir a adaptação em taxonomias de finanças sustentáveis, com métricas e metodologias comuns que deem visibilidade ao tema nos mercados financeiros.
Vários países, como União Europeia, China, México e Colômbia, já criaram taxonomias verdes que definem atividades econômicas ambientalmente sustentáveis. A Taxonomia da União Europeia, por exemplo, reconhece a adaptação como um de seus seis objetivos ambientais centrais. No Brasil, a Taxonomia Sustentável Brasileira (TSB) foi recentemente aprovada e inclui a adaptação climática, mas ainda carece de critérios técnicos detalhados que definam sua operacionalização.
Além disso, os riscos físicos climáticos estão cada vez mais contemplados em padrões internacionais de divulgação financeira, como o IFRS S2 e os European Sustainability Reporting Standards (ESRS). Segundo o relatório OECD FCA Highlights (2024), desenvolver métricas padronizadas para oportunidades de adaptação reforça a transparência e a comparabilidade dos investimentos.
O Brasil é o primeiro país do mundo a adotar oficialmente as normas de sustentabilidade do International Sustainability Standards Board (ISSB) desde a Resolução 193 da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), em 2023. Atualmente, empresas públicas, fundos de investimento e securitizadoras podem divulgar informações com base nos padrões IFRS S1 e S2, ainda de forma voluntária. A partir de 2026, essa divulgação será obrigatória, consolidando a integração entre finanças e riscos climáticos no sistema nacional.
2) Criar instrumentos financeiros e mecanismos de governança para captação
Globalmente, multiplicam-se iniciativas financeiras inovadoras para mobilizar capital privado na adaptação, como títulos de catástrofe e modelos de blended finance. No Brasil, esses instrumentos ainda estão em fase inicial. Hoje, predominam mecanismos de cobertura pós-desastre, como seguros, enquanto investimentos preventivos em resiliência seguem em segundo plano. O seguro rural tem papel relevante e estrutura consolidada, mas a cobertura em outros setores ainda é limitada.
Segundo a CNSeg, as enchentes no Rio Grande do Sul em 2024 geraram perdas de cerca de R$ 100 bilhões, das quais apenas 6% estavam seguradas — um alerta sobre a necessidade de ampliar seguros e parcerias público-privadas para reduzir riscos climáticos.
No campo da mobilização de capital preventivo, o governo vem avançando com a Plataforma Brasil de Investimentos (BIP) e o Eco Invest. Ambas são iniciativas relevantes para o investimento sustentável, mas ainda não incorporam explicitamente a adaptação climática, representando uma oportunidade de aperfeiçoar o marco de governança financeira e fortalecer a resiliência do sistema nacional.
3) Integrar riscos climáticos e critérios de resiliência nos mercados
O G20, no Sustainable Finance Report 2024, destaca que riscos físicos e critérios de adaptação e de resiliência sejam integrados aos planos de transição financeira. Os bancos centrais também avançam nessa agenda. Segundo o Network for Greening the Financial System, instituições financeiras estão ampliando o uso de testes de estresse climático para avaliar os impactos de eventos extremos sobre a estabilidade econômica.
Os cenários atuais, porém, ainda não capturam plenamente pontos de não retorno climáticos (tipping points), eventos compostos e impactos não lineares. Evoluir essas metodologias é essencial para integrar riscos climáticos às análises financeiras e aumentar a transparência das finanças sustentáveis.
A criação de ambientes regulatórios estáveis, transparentes e previsíveis é outro pilar para direcionar capital a investimentos resilientes. De acordo com o OECD FCA Highlights (2024), regulações devem apoiar, e não dificultar, as metas de adaptação. Isso inclui: revisar subsídios que geram incentivos perversos em setores como agricultura e energia; atualizar códigos técnicos e normas regulatórias; e adotar padrões baseados em desempenho, que estimulam inovação e flexibilidade.
Além disso, incentivos regulatórios específicos podem promover soluções baseadas na natureza, construções resilientes e uso eficiente da água. Setores como água, energia e transporte devem incorporar a adaptação em seus modelos de precificação e investimento.
O relatório da OECD também destaca que medidas direcionadas podem estimular inovação e investimentos com benefícios sociais amplos. Entre as opções estão incentivos fiscais, fundos de preparação de projetos e aceleradoras de inovação — fundamentais para transformar ideias em projetos financiáveis.
No Brasil, há amplas oportunidades em projetos com cobenefícios, como recuperação de pastagens degradadas, requalificação urbana sustentável e infraestrutura verde. Essas iniciativas reduzem riscos climáticos, atraem capital e geram desenvolvimento local, consolidando a adaptação como eixo estratégico da política econômica e ambiental brasileira.
Olhando para a COP30: oportunidade de mudança
Nas negociações da UNFCCC cresce o reconhecimento de que a adaptação deve ter paridade com a mitigação. A COP30, no Brasil, será uma oportunidade única para colocar o tema no centro da agenda global.
Com a perspectiva de um roadmap para mobilizar US$ 1,3 trilhão em financiamento climático, o país pode liderar o debate internacional e consolidar a adaptação como prioridade incontornável.
Investir em adaptação não é apenas evitar custos futuros: é gerar desenvolvimento sustentável, reduzir desigualdades e criar prosperidade econômica duradoura. É, portanto, um investimento de alto impacto e alto retorno, que precisa alcançar o mesmo patamar da mitigação na agenda global de finanças climáticas.