COP31: financiamento será decisivo para transformar compromissos climáticos em transição econômica, avalia WRI Brasil
A implementação do Acordo de Paris depende da mobilização de recursos em escala compatível com os desafios climáticos, como o super El Niño, aponta o WRI Brasil. Para o instituto, o país chega à conferência com avanços como queda no desmatamento e o impulso à industrialização verde, demonstrando como a agenda climática da COP30 começa a se traduzir em resultados concretos no plano doméstico.
A crise climática se tornou, também, uma crise econômica. É nesse cenário que acontece, entre os dias 9 e 20 de novembro, em Antália, na Turquia, a 31ª Conferência das Partes para o Clima (COP31). Para o WRI Brasil, um instituto independente de pesquisas que participará do evento com quatro especialistas nas áreas de clima, cidades, florestas e uso da terra, espera-se que, nesta COP, a transição econômica ocupe o centro das decisões de desenvolvimento para que se possa implementar os compromissos firmados no Acordo de Paris.
Em 2026, a mudança do clima traz incertezas para setores como energia, alimentos, água e cidades, ampliando os riscos para a produção, a renda e a segurança das populações. Choques geopolíticos, como os que afetam o mercado de energia com a guerra no Irã, somam-se a ondas de calor que resultaram em cerca de 35 mil mortes na Europa, além de secas, enchentes e incêndios mais frequentes. O El Niño, cujos efeitos devem se intensificar neste final de ano, pode levar ao menos 49 milhões de pessoas adicionais a uma situação de insegurança alimentar aguda até o fim de 2027, segundo projeção do Programa Mundial de Alimentos (PMA).
O cenário impõe uma pressão crescente sobre os preços, contas públicas e na capacidade de planejamento dos países. Mirela Sandrini, diretora executiva do WRI Brasil, aponta que o fortalecimento da cooperação internacional e o acesso ao financiamento serão fundamentais para o avanço dos compromissos climáticos e do apoio aos países na construção de economias mais resilientes. “A ultrapassagem temporária do limite de 1,5 °C de aquecimento global reforça a urgência dessa agenda. Cada ano de atraso aumenta os riscos e os custos da adaptação, da recuperação de infraestruturas e da proteção das populações mais vulneráveis”, pontua.
“Temos um portfólio expressivo de estudos relacionados a esses temas e, na COP31, vamos contribuir com recomendações técnicas e compartilhar nossa experiência de cooperação com diferentes esferas de governo, sociedade civil e atores do setor privado para que as melhores decisões sejam tomadas”, explica Sandrini. Ela cita como exemplo o estudo Arcabouço para Justiça Climática no Brasil, desenvolvido pelo instituto, que traz uma proposta metodológica para orientar políticas públicas e estratégias do setor privado frente à mudança do clima.
Financiamento climático
Um dos principais desafios da COP31 será avançar no debate sobre a ampliação do financiamento climático para países em desenvolvimento. O Roteiro Baku–Belém aponta caminhos para mobilizar pelo menos US$ 1,3 trilhão por ano até 2035, considerando diferentes fontes de recursos.
A necessidade de ampliar os recursos ocorre em um cenário de retração do financiamento internacional para o clima. Segundo dados preliminares da OCDE, a assistência oficial ao desenvolvimento, concedida pelos principais países doadores, caiu 23,1% em termos reais em 2025, a maior redução anual já registrada.
“A redução da ajuda internacional aumenta a pressão sobre os compromissos de financiamento climático, justamente quando os países precisam investir mais em adaptação e na transição para uma economia de baixo carbono. Na COP31, precisamos avançar em mecanismos que permitam utilizar melhor os recursos públicos para mobilizar investimentos privados, especialmente nos países em desenvolvimento”, afirma Karen Silverwood-Cope, diretora de Clima, Finanças e Economia do WRI Brasil.
A especialista também reforça que o debate deve considerar as condições de acesso ao financiamento. Para o WRI Brasil, o custo elevado do capital e as dificuldades para estruturar projetos limitam a capacidade de países em desenvolvimento de investir na redução de emissões e na adaptação climática. A ampliação do financiamento público internacional, incluindo doações e empréstimos em condições favoráveis, pode ajudar a superar essas barreiras.
Além de ampliar o volume de recursos e combinar fontes públicas e privadas, o WRI Brasil considera importante que as discussões da COP31 avancem sobre formas de agilizar o desembolso do financiamento climático e acompanhar os recursos mobilizados. Para o Brasil, o desafio também envolve garantir acesso a financiamento para projetos prioritários da agenda climática nacional, como a preparação das cidades para eventos extremos e a descarbonização da indústria.
A ampliação do financiamento é decisiva, também, para incorporar a adaptação climática ao planejamento econômico e viabilizar investimentos em resiliência. Na COP31, o debate avança sobre os 59 Indicadores de Adaptação de Belém, adotados na COP30. O trabalho técnico para aperfeiçoar suas metodologias segue até a COP32, em 2027 em Adis-Abeba, Etiópia.
Segundo estudo do WRI, cada dólar aplicado em adaptação pode gerar, em média, US$ 10,50 em benefícios ao longo de dez anos. “Investir em adaptação é uma estratégia de desenvolvimento capaz de reduzir perdas e gerar benefícios econômicos, ambientais e sociais”, destaca Miriam Garcia, gerente sênior de Ação Climática do WRI Brasil.
Participação do Brasil
A edição de Antália marca a primeira participação do Brasil após entregar a presidência da COP30, e o acompanhamento de iniciativas acordadas em Belém, como o roteiro Baku-Belém e os novos acordos da Agenda de Ação Climática. O WRI Brasil destaca a participação do país em meio a resultados históricos da queda do desmatamento na Amazônia e no Cerrado. Dados divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) em outubro apontam quedas de 41,8% e 23,8%, respectivamente, entre agosto de 2025 e julho de 2026, em comparação com o período anterior.
Para Mariana Oliveira, diretora de Florestas e Uso da Terra do WRI Brasil, os resultados demonstram como a agenda climática da COP30 começa a se traduzir em resultados concretos no plano doméstico, reforçando a importância das políticas de proteção ambiental e de investimentos em atividades econômicas sustentáveis.
As medidas se tornam ainda mais relevantes diante das perdas econômicas do desmatamento para o agronegócio. Um estudo que será lançado no contexto da COP31 pelo WRI Brasil mostra como a perda de cobertura florestal e as mudanças climáticas já estão impactando severamente as áreas de produção de soja na Amazônia e no Cerrado, com diminuição de até 75 dias na estação chuvosa. Outra conclusão da pesquisa é que mais de 37 milhões de hectares de produção de soja e pecuária enfrentam aumento de temperaturas acima de 35°C, impactando negativamente a produção.
“Eliminar o desmatamento das cadeias de soja e carne bovina não é apenas uma exigência de mercado. É uma condição para a resiliência climática, a segurança alimentar global e a reputação do agronegócio brasileiro no longo prazo”, afirma Oliveira. Ela também destaca ganhos econômicos a partir do investimento em bioeconomia.
Uma pesquisa da FAO e do WRI Brasil, a ser lançada, mostra que o tamanho da sociobioeconomia na Amazônia Legal é duas vezes maior do que o estimado, atingindo um PIB de quase US$ 5 bilhões. Já o estudo Nova Economia da Amazônia projeta que uma trajetória de desenvolvimento de baixo carbono, associada ao desmatamento zero, pode gerar 833 mil empregos adicionais em atividades de bioeconomia, incluindo a restauração florestal, até 2050.
Na COP31, o desafio é manter na pauta das ações de implementação a sociobioeconomia, que permitirá fortalecer a participação das comunidades e ao mesmo tempo pensar em como fazer desses benefícios econômicos algo compartilhado. A agenda de florestas também ganha um novo instrumento com o Mapa do Caminho da Presidência da COP30 para Ampliar Esforços para Parar e Reverter o Desmatamento e a Degradação Florestal até 2030, lançado esta semana. Apresentado pela presidência brasileira da COP30, o documento faz propostas para ampliar a conservação, o uso sustentável e a restauração das florestas, articulando governança, monitoramento, financiamento e cooperação internacional.
Apesar dos bons resultados do país, o desafio ainda é significativo. Segundo dados do WRI, em 2025 a taxa global de desmatamento estava 70% acima do nível necessário para alcançar a meta de zerar o desmatamento até 2030.
“O Mapa do Caminho é uma contribuição importante para orientar políticas e investimentos voltados à conservação das florestas. O Brasil tem demonstrado que é possível avançar, mas o desafio global permanece significativo", afirma a diretora de Florestas e Uso da Terra do WRI Brasil. "Precisamos alinhar os incentivos econômicos à conservação, direcionando mais recursos para atividades sustentáveis. Isso exige transformar a lógica da economia e do comércio, para que o valor das florestas em pé seja reconhecido como parte do desenvolvimento econômico."
Transição justa e oportunidades econômicas
A COP31 também deverá avançar nas discussões sobre o funcionamento do mecanismo internacional de transição justa acordado na COP30. O instrumento busca apoiar países na condução das mudanças econômicas necessárias à redução das emissões considerando a proteção dos trabalhadores e das comunidades afetadas.
Um estudo do WRI e parceiros estima que a transição climática pode gerar cerca de 375 milhões de empregos no mundo na próxima década. Ao mesmo tempo, apenas 1% dos planos climáticos nacionais apresenta propostas para financiar a preparação dos trabalhadores para os empregos verdes.
O Brasil vive um paradoxo nessa transição. Praticamente 50% da matriz energética do país é oriunda de fontes renováveis (hidroelétrica, solar, eólica, biocombustíveis e biomassa). Contudo, o país ainda destina mais recursos para apoiar a produção de combustíveis fósseis do que para fontes renováveis.
Para Silverwood-Cope, diretora de Clima do WRI Brasil, a transição para longe dos combustíveis fósseis exige mais do que a expansão das energias renováveis. Para ela, é necessário alinhar políticas econômicas, fiscais, financeiras e sociais para reduzir a dependência do petróleo, do gás natural e do carvão sem comprometer a segurança energética, o desenvolvimento econômico e a inclusão social. “No Brasil, precisamos combinar segurança energética, crescimento econômico, inclusão social e redução de emissões de gases de efeito estufa”, sugere.
A diretora também destaca a importância de avançar na descarbonização industrial, uma das prioridades da Agenda de Ação Climática Global. Para o WRI Brasil, ampliar os investimentos em tecnologias de baixo carbono, especialmente em setores como aço e cimento, exige instrumentos financeiros que reduzam os riscos e políticas que estimulem a demanda, como a adoção de critérios climáticos nas compras públicas. O instituto também desenvolve estudos sobre remoção de dióxido de carbono (CDR), que buscam mobilizar financiamento e ampliar essas soluções de forma complementar à redução das emissões.
Descarbonização do transporte
“A descarbonização do transporte permite conciliar mitigação, competitividade industrial e desenvolvimento econômico”, garante Luis Antonio Lindau, diretor do Programa de Cidades do WRI Brasil. Na COP30, o Brasil assinou um compromisso proposto pelo governo do Chile para reduzir a demanda total de energia do setor em 25% até 2035 e transferir um terço dessa energia para fontes renováveis. Segundo o diretor do Programa de Cidades do WRI Brasil, esse acordo está alinhado com compromisso 35x35, pautado para a COP31, para aumentar a participação da eletricidade no consumo final de energia dos atuais 21% para 35% até 2035.
Nesse quesito, há uma oportunidade grande nas cidades. Lindau informa que o WRI tem articulado com governos, setor privado e instituições financeiras a descarbonização do setor. Um exemplo é a parceria com BTG Pactual e com o Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP) na estruturação de um fundo para financiar a aquisição de mais de 1.700 ônibus elétricos em, pelo menos, quatro cidades brasileiras.
Mercado de carbono
A cooperação entre mercados regulados de carbono também integra a transformação econômica. O WRI Brasil acompanhará, na COP31, as discussões da Coalizão Aberta para Mercados Regulados de Carbono (OCCCM), presidida pelo Brasil e da qual participa como observador. A iniciativa busca fortalecer a cooperação entre sistemas nacionais de comércio de emissões e aprimorar a comparabilidade das regras de monitoramento e contabilização. Para o Brasil, as discussões podem contribuir ainda para o desenvolvimento do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE).
Aos olhos de Sandrini, diretora executiva do WRI Brasil, a iniciativa é particularmente importante para a agenda do Brasil, justamente pelo foco em mercados capazes de mobilizar financiamento para a descarbonização e apoiar as metas climáticas brasileiras. “Ao mesmo tempo, tem a vantagem de conectar a agenda brasileira a experiências globais e contribuir para avanços em governança, interoperabilidade e integridade dos mercados de carbono”, conclui.
Delegação WRI Brasil
Os porta-vozes da delegação WRI Brasil que deverão participar da COP31 são:
Mirela Sandrini | WRI Brasil - diretora executiva
Karen Silverwood-Cope | WRI Brasil - diretora de Clima, Finanças e Economia
Mariana Oliveira | WRI Brasil - diretora do Programa de Florestas e Uso da Terra
Miriam Garcia | WRI Brasil - gerente Sênior de Ação Climática
ATENÇÃO JORNALISTAS
O WRI Brasil abrirá um grupo temporário no Whatsapp, exclusivo para jornalistas, com atualizações diárias sobre o andamento da COP31, com informações de bastidores, comentários e testemunhos sobre as discussões em curso.
Os informes serão realizados, diariamente, a partir da Turquia, pela equipe do WRI Brasil que irá acompanhar o evento, com participação ativa em diversas atividades da programação principal da conferência. Caso tenha interesse em participar do grupo, envie uma solicitação para Davi Machado, pelo e-mail [email protected]