WRI propõe ampliar participação de países em desenvolvimento na coalizão global de mercados de carbono
Observador da iniciativa liderada pelo Brasil, instituto também levou à reunião na China recomendações sobre a adoção de sistemas de monitoramento, reporte e verificação (MRV) e de créditos de alta integridade, além da implantação de projetos-piloto para testar soluções
O WRI participou como observador, na última segunda-feira (14) em Wuhan, na China, da segunda reunião de alto nível da Coalizão Aberta para Mercados Regulados de Carbono (OCCCM). O encontro teve por objetivo definir o plano de trabalho da iniciativa para o período entre 2026 e 2030, além dos temas prioritários que serão levados à COP31.
Como observador da Coalizão, o WRI levou três recomendações principais: fortalecer a cooperação em monitoramento, reporte e verificação (MRV) para garantir créditos de carbono de alta integridade; ampliar a participação de países em desenvolvimento na coalizão; e criar projetos-piloto voluntários para testar soluções antes de sua adoção em maior escala.
“A adoção do plano de trabalho na segunda reunião de alto nível marca um primeiro passo de amadurecimento da Coalizão. Na fase de implementação, será fundamental fortalecer o MRV dos mercados regulados nacionais e criar condições para que os países em desenvolvimento contribuam para a definição das regras, em vez de simplesmente segui-las”, avalia a diretora-executiva do WRI Brasil, Mirela Sandrini, que também destaca a importância de a Coalizão apoiar concretamente o cumprimento do Acordo de Paris e contribuir para que mercados de carbono de alta integridade acelerem a execução dos compromissos climáticos nacionais, as NDCs.
Criada por iniciativa do Brasil na COP30 e constituída em maio de 2026, a OCCCM é presidida pelo país e copresidida por China e União Europeia. A coalizão reúne governos com diferentes experiências na implementação de mercados regulados de carbono e busca ampliar a cooperação entre esses sistemas.
MRV e integridade como bases para a cooperação
Uma das prioridades defendidas pelo WRI é o fortalecimento da cooperação em monitoramento, relato e verificação (MRV) e contabilidade de carbono. Sistemas robustos de MRV são fundamentais para assegurar que as reduções de emissões sejam mensuradas de forma consistente e para aumentar a confiança nos mercados de carbono.
O tema está diretamente relacionado à experiência histórica do WRI e sua rede global de 16 países e escritórios regionais. Há quase três décadas, o instituto atua no desenvolvimento de metodologias para contabilização de emissões de gases de efeito estufa. Entre elas está o GHG Protocol, criado em 1998 pelo WRI e pelo World Business Council for Sustainable Development (WBCSD), hoje utilizado como referência para diferentes iniciativas voluntárias e reguladas.
A partir dessa experiência, o WRI propõe que a OCCCM avance na construção de referências compartilhadas para créditos de carbono de alta integridade, aproveitando padrões internacionais existentes e fortalecendo critérios de quantificação e contabilidade capazes de reduzir riscos como a dupla contagem.
“O desafio é construir referências que assegurem integridade ambiental e, ao mesmo tempo, possam ser aplicadas por países com diferentes estruturas institucionais e estágios de desenvolvimento de seus mercados. A cooperação em MRV pode ajudar a criar essa base comum”, afirma Miriam Garcia, gerente sênior de Ação Climática da WRI Brasil
Mais países em desenvolvimento e espaço para testar soluções
O WRI também recomenda ampliar a presença de países em desenvolvimento na Coalizão, que atualmente tem como membros Alemanha, Canadá, Cingapura, França, Noruega, Nova Zelândia, Reino Unido, Turquia e Mônaco. Incorporar mercados em diferentes estágios de desenvolvimento pode enriquecer a troca de experiências e ajudar a construir soluções que sejam aplicáveis a realidades econômicas e institucionais diversas.
“Os mercados de carbono e os mecanismos de precificação estão se expandindo rapidamente, inclusive entre economias emergentes e países em desenvolvimento”, destaca o diretor da Iniciativa Internacional de Clima do WRI, David Waskow. “Mercados de carbono eficazes, de alta integridade e alinhados a outras políticas nacionais podem desempenhar um papel fundamental no avanço da agenda climática nesses países.”
Outra proposta é a criação de projetos-piloto voluntários. A ideia é permitir que países e setores testem metodologias, ferramentas ou formas de cooperação em escala menor, gerando evidências antes de uma eventual ampliação.
“Para avançar, será necessário ampliar a troca de experiências práticas e a cooperação para desenvolver e implementar soluções aplicáveis”, defende a diretora do WRI China, Li Fang.
Esses pilotos poderiam ser utilizados tanto para apoiar países na estruturação de seus mercados quanto para avaliar, em setores específicos da economia, como determinados padrões ou instrumentos funcionam na prática.
Aprendizados globais para a implementação do mercado brasileiro
"A Coalizão é uma iniciativa histórica, que não apenas mostra a vontade das grandes economias de trabalharem juntas para enfrentar os desafios do clima, mas também representa um passo pioneiro na governança global do mercado de carbono", declarou a gerente do WRI Brasil.
A participação do WRI Brasil na OCCCM também dialoga com a implementação do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), acompanhada tecnicamente pelo instituto.
A troca com países que já operam mercados regulados pode trazer aprendizados mútuos, incluindo temas como registro, cobertura, definição de escopo e liquidez do mercado. Além da participação na reunião de Alto Nível da OCCCM, o WRI Brasil participou da Conferência de Mercados de Carbono da China, considerado o maior do mundo, com objetivo de melhor compreender potenciais oportunidades de inserção para o setor privado brasileiro.
Hoje, 38 sistemas de comércio de emissões estão em operação no mundo e cobrem cerca de 23% das emissões globais de gases de efeito estufa, segundo dados do International Carbon Action Partnership (ICAP), reunidos no relatório The New Carbon Order, da International Emissions Trading Association (IETA). O documento aponta que 20 governos trabalham no desenvolvimento ou avaliam a criação de novos mercados regulados.
Para o WRI, a OCCCM pode ajudar a transformar essa expansão em maior cooperação entre mercados, desde que combine integridade ambiental, diversidade de experiências e aprendizado prático.