Brasil é o 4º maior provedor de financiamento climático entre países do Sul Global
O Brasil ocupa a 4ª posição entre os maiores provedores de financiamento climático do Sul Global, ficando atrás apenas de China, Coreia do Sul e Índia. Entre 2013 e 2023, o país mobilizou aproximadamente US$ 6,57 bilhões para apoiar ações de mitigação e adaptação climática em outras economias emergentes e em desenvolvimento.
O dado faz parte do estudo Beyond the Usual Suspects: Assessing Climate Finance from the Largest Non-Annex II Economies (Além dos Suspeitos de Sempre: Avaliando o Financiamento Climático das Maiores Economias Não Anexo II, na tradução para o português), elaborado pelo WRI. O documento mapeia, pela primeira vez, os fluxos de financiamento climático entre países do Sul Global e evidencia o papel crescente dessas economias na arquitetura financeira internacional.
O levantamento chega em um momento estratégico. Em 2024, durante a COP29, os governos chegaram a um acordo para ampliar o financiamento climático público e privado destinado aos países em desenvolvimento. A meta é alcançar pelo menos US$ 1,3 trilhão por ano até 2035 para apoiar ações que fortaleçam a resiliência climática e acelerem a redução de emissões no Sul Global. Embora a maior parte desses recursos deva ser provida pelos países desenvolvidos, os fluxos financeiros entre nações em desenvolvimento também tendem a ganhar importância. Estima-se que o financiamento climático entre o Sul Global poderia mobilizar US$ 40 bilhões anualmente até 2035.
Como esses países não têm obrigação formal de reportar seu financiamento climático, os dados disponíveis são fragmentados e difíceis de comparar. Para contornar esse desafio, o estudo do WRI estimou os recursos mobilizados por 14 grandes economias emergentes entre 2013 e 2023 para mitigação e adaptação climática por meio da combinação de múltiplas fontes, incluindo bases da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), bancos multilaterais de desenvolvimento, AidData e registros nacionais. Além disso, os atores aplicaram a metodologia Rio markers, padrão internacional para identificar e quantificar o componente climático de cada operação financeira. O resultado é uma estimativa conservadora, mas inédita em sua abrangência e comparabilidade entre países.
O estudo apontou a mobilização de US$ 102,38 bilhões, média de US$ 9,69 bilhões ao ano, entre 2013 e 2023, para mitigação e adaptação climática. São consideradas quatro modalidades de financiamento: cooperação pública bilateral, contribuições a bancos multilaterais de desenvolvimento e fundos climáticos, créditos à exportação apoiados por governos e financiamento privado mobilizado por intervenções públicas (Figura 1).
Estimativa do financiamento climático fornecido e mobilizado por 14 mercados emergentes e países em desenvolvimento no período de 2013 a 2023 por país
Fonte: Autores.
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Brasil como um provedor ativo de financiamento climático no Sul Global
Os resultados mostram que o financiamento climático Sul-Sul mais que triplicou em uma década, passando de US$ 4,92 bilhões em 2013 para US$ 17,1 bilhões em 2023. O canal dominante de financiamento foram as contribuições a bancos multilaterais de desenvolvimento, que responderam por quase 80% dos fluxos totais em 2023.
Ao longo desse período, o Brasil consolidou-se como um dos principais provedores desses recursos, ficando atrás de China, Coreia do Sul e Índia. O volume direcionado pelo país ao longo dos anos oscilou, mas seguiu uma trajetória crescente. O estudo demonstra que o Brasil, assim como outros países em desenvolvimento, não é apenas um beneficiário de fluxos de financiamento climático, mas também atua de forma ativa como provedor desses recursos.
Estimativa do financiamento climático fornecido e mobilizado pelo Brasil no período de 2013 a 2023 por ano
Fonte: Elaboração própria a partir de dados de Liu et al., 2026.
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Assim como outros países do Sul Global, as contribuições do Brasil foram direcionadas quase integralmente para instituições multilaterais, com destaque para a ampliação da capitalização dos bancos de desenvolvimento multilaterais. Cerca de 60% dos recursos mobilizados entre 2013 e 2023 tiveram como destino a instituições multilaterais da América Latina.
Em destaque estão o Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF), o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o BID Invest, reforçando o papel do Brasil como provedor regional de cooperação climática na América Latina. O restante foi distribuído entre bancos de desenvolvimento não regionais, com destaque para o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), o Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD) e a Corporação Financeira Internacional (IFC). Outras modalidades de financiamento, como contribuições bilaterais e mobilização de capital privado foram muito pouco representativas nas estimativas produzidas para o Brasil.
Vale destacar que, embora o Brasil seja um dos principais provedores de financiamento climático Sul-Sul, ele faz parte de um cenário bastante heterogêneo. A China concentra, de longe, a maior parcela do volume direcionado no período (cerca de 43% do total), que flui, em sua maioria, para grandes projetos de infraestrutura e transporte de baixo carbono.
A análise da destinação temática dos recursos — isto é, se foram voltados à mitigação, adaptação ou a projetos transversais — foi feita apenas para o financiamento não multilateral. No caso do Brasil, esse tipo de financiamento representa uma parcela muito pequena do total mobilizado, já que a maior parte dos recursos do país passa por instituições multilaterais. Por isso, o estudo não permite identificar, com segurança, a distribuição temática dos recursos fornecidos pelo Brasil.
Ainda assim, o recorte não multilateral revela um padrão importante entre as demais economias emergentes analisadas. Excluindo a China, cujo financiamento se concentra fortemente em grandes projetos de mitigação, os demais países destinaram, desde 2020, cerca de 53% de seus recursos não multilaterais a projetos de adaptação ou de natureza transversal, com benefícios tanto para adaptação quanto para mitigação. Esse padrão mostra um contraste relevante com o observado historicamente entre países desenvolvidos, cujo financiamento climático tende a se concentrar mais em mitigação.
O Brasil também recebe, mas pouco
Embora desempenhe um papel relevante como provedor, o Brasil recebe relativamente poucos recursos de financiamento climático provenientes do Sul Global. O país teve acesso a cerca de US$ 234 milhões entre 2013 e 2023, o que corresponde a apenas 0,3% dos fluxos mapeados. Na América Latina, o país é o 7º maior receptor de finanças climáticas, atrás de nações como Argentina, Cuba, Equador, Peru e Venezuela.
A China respondeu por praticamente todo o volume de financiamento climático recebido pelo Brasil (99%), que se concentrou em projetos de infraestrutura, como energia (78%) e saneamento (22%), associados, principalmente, à mobilização de capital privado. A Coreia do Sul aparece como o segundo maior provedor de capital para o Brasil por meio de fluxos bilaterais (0,7%), tendo financiado projetos de menor escala concentrados no desenvolvimento de capacitações, ciência e treinamento, o que difere do foco em infraestrutura dos aportes chineses.
O que isso significa para a agenda climática brasileira
O estudo mostra que o Brasil já desempenha um papel relevante na mobilização de financiamento climático entre países em desenvolvimento, mas também evidencia a necessidade de fortalecer a transparência sobre esses fluxos. À medida que economias emergentes ampliam sua participação no financiamento internacional do clima, será cada vez mais importante desenvolver metodologias padronizadas de reporte e monitoramento, capazes de identificar lacunas, medir resultados e direcionar recursos para onde eles são mais necessários.
O Brasil, como um dos principais provedores do bloco, tem muito a ganhar e a contribuir com a construção dessa arquitetura de informação, fortalecendo mecanismos de cooperação entre países em desenvolvimento e ampliando o impacto do financiamento climático para acelerar a transição rumo a uma economia resiliente e de baixo carbono.