O caminho para alcançar US$ 1,3 trilhão em financiamento climático passa pela formação de coalizões
À medida que a ação climática internacional enfrenta uma onda de desafios, a união entre governos, instituições financeiras e outros atores em torno de um caminho rumo à meta de US$ 1,3 trilhão em financiamento climático é fundamental.
Na cúpula das Nações Unidas sobre mudanças climáticas de 2024 (COP29), os governos concordaram em ampliar o financiamento público e privado para países em desenvolvimento para pelo menos US$ 1,3 trilhão por ano até 2035, com o objetivo de apoiar um desenvolvimento resiliente e de baixas emissões.
Alcançar essa meta, contudo, representa um salto significativo em relação ao ponto em que estamos hoje. O Climate Policy Institute estima, por exemplo, que em 2025 apenas cerca de US$ 200 bilhões (provavelmente uma subestimativa, devido à falta de dados) chegaram a esses países.
Para ajudar a reduzir essa lacuna, em 2025 o Brasil e o Azerbaijão, presidências da COP30 e da COP29, respectivamente, apresentaram o Roteiro de Baku a Belém para 1,3T, com recomendações de como a meta poderia ser alcançada. O roteiro apresenta cinco grandes áreas nas quais instituições públicas e privadas precisam atuar: financiamento concessional, sustentabilidade da dívida, setor privado e custo de capital, capacidade institucional e regras e padrões internacionais.
A publicação desse roteiro enfrentou uma série de obstáculos. Havia pouco tempo discussões sobre o documento, o que fez com que poucos se sentissem plenamente envolvidos no processo, além de gerar muitas dúvidas sobre os próximos passos. Agora, o foco é promover essa adesão para impulsionar a implementação.
Essa necessidade urgente de expansão ocorre em um momento em que o financiamento climático internacional enfrenta uma série de desafios. Entre eles, estão a queda do financiamento concessional e o aumento dos custos associados aos conflitos globais. Ao mesmo tempo, esses conflitos revelaram que a energia renovável é uma fonte mais estável do que os combustíveis fósseis, além de oferecer um retorno financeiro sobre investimento mais alto e previsível. Em paralelo, investimentos em resiliência podem fortalecer a segurança, especialmente em regiões propensas a conflitos, onde os impactos ambientais podem agravar a instabilidade política e a disputa por recursos escassos.
Mais do que nunca, a união entre governos, instituições financeiras e outros atores em torno de um caminho para a meta de US$ 1,3 trilhão é fundamental. O desafio é construir coalizões eficazes para a ação em torno de fontes essenciais de financiamento. Iniciativas de políticas públicas como as associadas ao Roteiro para 1,3T, embora não sejam uma solução automática, podem ajudar a reunir esses atores. Ao mesmo tempo, alguns temas presentes no roteiro, como remessas enviadas por amigos e familiares, foram considerados controversos e podem receber menos ênfase daqui para frente.
A seguir, destacamos três áreas críticas que enfrentam desafios e exigem uma atuação colaborativa:
1) Fortalecer o papel dos Bancos Multilaterais de Desenvolvimento
Os Bancos Multilaterais de Desenvolvimento (BMDs) são um canal essencial para o financiamento climático internacional. O Roteiro para 1,3T pede que os BMDs – que já se comprometeram a fornecer US$ 120 bilhões por ano em financiamento climático até 2030, além de outros US$ 65 bilhões anuais em financiamento privado mobilizado – disponibilizem ainda mais recursos para alcançar a meta de US$ 1,3 trilhão. O financiamento climático dos BMDs dobrou entre 2020 e 2024 (último ano com dados disponíveis), mas esse avanço enfrenta resistência, assim como seus compromissos futuros.
Os Estados Unidos lideram uma iniciativa para tentar retirar o foco climático dos bancos, argumentando, por exemplo, que o Banco Mundial deveria abandonar sua meta de financiamento climático. Em uma declaração, o secretário do Tesouro dos EUA afirmou que a meta de financiamento climático “impede a eficiência do mercado, distorce incentivos e prejudica os esforços para reduzir a pobreza e estimular o crescimento econômico”.
Para garantir que os BMDs possam desempenhar plenamente seu papel na meta de US$ 1,3 trilhão, os países acionistas precisam se unir para assegurar que o financiamento climático continue representando uma parcela relevante dos portfólios dessas instituições. Também é necessário ampliar o volume geral de investimentos dos BMDs, inclusive por meio de aumentos de capital, conforme previsto no roteiro.
2) Retomar o financiamento bilateral concessional
O financiamento bilateral, no qual os recursos fluem diretamente de um país para outro, é uma das primeiras questões mencionadas no Roteiro para 1,3T – e por uma boa razão. Historicamente, esse tipo de financiamento, disponibilizado diretamente por governos individuais, representou cerca de um terço do financiamento climático internacional. Infelizmente, o financiamento bilateral para o clima está em declínio. O maior impacto veio da administração de Trump, que praticamente eliminou o financiamento climático internacional dos Estados Unidos (que chegou a US$ 11 bilhões no último ano do governo Biden). Mas os EUA não estão sozinhos. Diante do aumento dos custos militares com guerras internacionais e de mudanças políticas, muitos países europeus também estão reduzindo seus recursos.
Reverter essa tendência não é um processo rápido e exige pressão política interna e internacional consistente, além da construção de coalizões. Para isso, é necessário formar coalizões entre países dispostos a manter o compromisso com a assistência ao desenvolvimento. Esse movimento também pode ser impulsionado pela participação de países de renda mais alta mas que, historicamente, não foram considerados provedores de financiamento climático – como China, Coreia ou Emirados Árabes Unidos. Será igualmente necessário renovar o compromisso com o financiamento ao desenvolvimento, destacando seus benefícios: maior bem-estar por meio do fortalecimento da resiliência a abalos, redução das emissões globais e ampliação da cooperação e solidariedade internacionais
3) Mobilizar os grandes investidores privados
De acordo com o Grupo de Especialistas de Alto Nível sobre Financiamento Climático, o Roteiro para 1,3T estima que cerca de metade desse valor precisa vir de empresas privadas e instituições financeiras, um aumento de dezesseis vezes em relação ao cenário atual. Trata-se de um crescimento substancial, que exige muitos tipos diferentes de investidores privados. No entanto, mudanças políticas também estão impactando a forma como o setor privado se envolve com a sustentabilidade e podem estar reduzindo investimentos sustentáveis.
A Força-Tarefa de Mercados Emergentes e Países em Desenvolvimento, do Reino Unido, avaliou oportunidades para que investidores institucionais – responsáveis pela gestão de grandes volumes de capital – contribuam para a meta de US$ 1,3 trilhão. O grupo conclui que um aumento dos investimentos climáticos em mercados emergentes e em desenvolvimento é viável, desde que sejam criadas melhores condições. Esses investidores precisam de ambientes políticos e regulatórios favoráveis tanto em seus países de origem quanto nos países receptores, sem depender excessivamente de recursos públicos escassos. Também precisam criar estruturas internas de incentivos que estimulem uma visão além dos padrões normais de investimento.
Uma coalizão internacional mais ampla de instituições financeiras privadas poderia impulsionar investimentos climáticos em países membros da Força-Tarefa, ajudando a superar barreiras, aproximar investidores e governos e ampliar a confiança em novos mercados e oportunidades.
Um ano importante
O Roteiro para 1,3T ocupa o espaço entre as negociações climáticas e o financiamento na prática – um espaço fundamental a ser preenchido agora que metas e acordos internacionais de financiamento foram estabelecidos e precisam ser implementados. Apesar dos obstáculos políticos, as razões para investir são sólidas: fontes de energia mais seguras, sistemas alimentares mais resilientes, transporte mais barato e limpo, frequentemente com bons retornos financeiros.
O momento exige priorização e foco, além de alianças novas e mais fortes e coalizões dispostas a agir. Ao longo dos próximos dez anos, essas parcerias precisarão continuar impulsionando as principais etapas necessárias para alcançar a meta de US$ 1,3 trilhão.
Países, bancos multilaterais de desenvolvimento e investidores privados estão cada vez mais alinhados em torno da ampliação do financiamento climático porque não há outra alternativa viável para enfrentar os riscos econômicos, sociais e físicos cada vez mais graves associados às mudanças climáticas. Os custos da inação já superam os custos do investimento, tornando o financiamento climático não apenas uma questão de resiliência e gestão de riscos, mas também de oportunidade econômica.
Ao mesmo tempo, mercados de baixo carbono têm se mostrado cada vez mais lucrativos e atrativos. Evidências do Brasil e de outras economias emergentes e em desenvolvimento mostram um crescimento constante nos fluxos de capital direcionados à descarbonização, energia renovável, infraestrutura sustentável e desenvolvimento resiliente ao clima. Refletindo esse movimento, 2026 pode se tornar o ano de maior volume de investimentos em indústria limpa já registrado, com investidores comprometendo-se com 19 projetos de escala comercial avaliados em US$ 43 bilhões apenas nos últimos seis meses – mais que o dobro do ritmo observado em 2025, mesmo diante de incertezas geopolíticas. Essas tendências demonstram que o financiamento climático não é mais movido apenas por compromissos ambientais, mas por ganhos econômicos visíveis, vantagens competitivas e pela necessidade de proteger a prosperidade de longo prazo.
O caminho até a meta de US$ 1,3 trilhão levará uma década, mas as decisões e ações tomadas agora serão determinantes para alcançá-la em 2035.
O WRI tem atuado em parceria com o governo brasileiro para promover encontros em locais como Adis Abeba, Mumbai e Nova York ao longo dos próximos seis meses, com o objetivo de discutir o Roteiro de Baku a Belém para US$ 1,3T e os próximos passos. A iniciativa busca fortalecer o engajamento e apoiar parcerias em torno das etapas prioritárias do roteiro, incluindo a ampliação do financiamento por parte de BMDs, instituições financeiras bilaterais e setor privado.
Este texto foi publicado originalmente no Insights.
Especialistas do WRI que contribuíram para este artigo:
Gaia Larsen - Diretora, Acesso ao Financiamento Climático, Centro de Finanças
Karen Silverwood-Cope - Diretora de Clima