O conflito com o Irã está entrando em sua nona semana, mas os danos causados podem durar anos.

Antes de qualquer aspecto, está o custo humano: vidas perdidas, famílias deslocadas, casas e empresas prejudicadas. Uma tragédia sentida de forma ainda mais intensa pelas pessoas que vivem no Oriente Médio.

No entanto, para além das fronteiras regionais, o conflito pode impactar praticamente todos os países. O bloqueio do Estreito de Hormuz – e dos 20% do petróleo e do gás natural liquefeito (GNL) do mundo que passam por ele – desencadeou uma crise energética global. Os preços do petróleo ultrapassaram os US$ 100 por barril. Na Ásia, Europa e Estados Unidos, as pessoas já sentem os efeitos na forma de custos mais altos e na escassez de combustíveis.

Da mesma forma, os principais países produtores de alimentos no Sudeste Asiático e na África sofrem com a escassez de fertilizantes, combustível e outros insumos agrícolas essenciais transportados pelo Estreito de Hormuz. A ONU projeta que cerca de 45 milhões de pessoas poderão enfrentar insegurança alimentar até junho caso o conflito continue.

Como em qualquer crise, os mais pobres são os mais afetados. A ONU estima que o aumento dos preços dos alimentos e da energia, associado a um crescimento econômico mais fraco, pode colocar mais de 32 milhões de pessoas na pobreza. Muitas delas, moradoras de países em desenvolvimento e importadores de energia localizados no Oriente Médio, na África, na Ásia e em pequenos Estados insulares.

Os efeitos globais em cadeia de um conflito relativamente local ressaltam uma realidade desafiadora: os sistemas dos quais todos dependemos – energia e alimentos – são altamente vulneráveis.

Isso vale tanto para conflitos quanto para outros choques sistêmicos, sejam guerras comerciais ou pandemias, eventos extremos ou mudanças climáticas. Nossa fragilidade é sistêmica e exige que resiliência seja prioridade – tanto para enfrentar as ameaças que já nos afetam hoje quanto para nos prepararmos para as do futuro.

Agricultor ajusta um painel solar no Paquistão: o recente boom da energia solar no país ajudou a proteger a nação do aumento dos custos de combustível decorrentes da guerra com o Irã. (Foto: Hussain Warraich/Shutterstock)
Agricultor ajusta um painel solar no Paquistão: o recente boom da energia solar no país ajudou a proteger a nação do aumento dos custos de combustível decorrentes da guerra com o Irã. (Foto: Hussain Warraich/Shutterstock)

Construindo um sistema energético moderno

A atual crise energética é apenas o exemplo mais recente dos riscos de uma economia movida por combustíveis fósseis.

Além da produção eletricidade, o petróleo e o gás estão presentes em praticamente todos os setores econômicos, do transporte à agricultura e à indústria. Abalos como a atual crise energética podem, portanto, ser amplos e duradouros. Já vimos isso antes: a invasão da Ucrânia pela Rússia desencadeou uma crise global do custo de vida impulsionada pela disparada nos preços dos combustíveis fósseis, um conceito conhecido como “fossilflation” (“inflação fóssil”).

Mas as guerras não são as únicas responsáveis pela alta nos preços dos combustíveis fósseis. Choques impulsionados pelo clima, como ondas de calor e de frio e eventos climáticos extremos, também fazem os preços dispararem.

Os países estão respondendo à crise com o Irã de maneiras diferentes. A União Europeia planeja ampliar subsídios aos combustíveis. Algumas nações, como Japão, Filipinas e Coreia do Sul, estão aumentando temporariamente a produção de carvão. E outros países estão desincentivando o uso de carros apor meio da redução das tarifas do transporte público.

Todas essas medidas são soluções necessárias no curto prazo. Pessoas e economias precisam do fornecimento estável de energia para manter suas vidas cotidianas. Mas nenhuma dessas ações é uma solução de longo prazo eficiente para criar um sistema energético confiável e acessível.

Energia limpa e eficiência energética são os caminhos mais eficazes para alcançar uma verdadeira segurança energética. Dessa forma, é possível garantir tanto oferta doméstica quanto estabilidade de preços – dois atributos atrativos em qualquer contexto, mas especialmente no cenário atual.

Já este possível ver como os países que investiram em energia limpa no passado estão atravessando melhor a crise atual. O recente boom da energia solar no Paquistão está protegendo as famílias do aumento nos custos de combustível. Análises mostram que a energia solar ajudou o país a evitar US$ 12 bilhões em importações de petróleo e gás mesmo antes do início do conflito com o Irã. A China investiu centenas de bilhões de dólares em energia renovável e veículos elétricos ao longo das últimas duas décadas. Hoje, energia solar, eólica e hidrelétrica representam quase 36% da matriz elétrica do país, enquanto metade dos carros vendidos no ano passado eram elétricos. Tudo isso contribuiu para reduzir a necessidade de importação de petróleo e gás natural.

A energia limpa já é economicamente viável: na maioria dos lugares, as fontes renováveis são a opção mais barata de geração de energia. Uma nova pesquisa do Comitê de Mudanças Climáticas do Reino Unido mostra que o custo de atingir o zero líquido das emissões é menor do que o impacto de um único choque nos preços dos combustíveis fósseis. O que precisa ser resolvido é a logística.

Governos e empresas podem acelerar a transição energética ao estabelecer políticas e mecanismos de financiamento adequados. Isso implica acabar com subsídios aos combustíveis fósseis; incentivar eficiência energética, energia limpa e transporte elétrico; e investir em mercados emergentes e economias em desenvolvimento – uma fonte crescente da demanda global por energia e que, atualmente, recebe apenas 15% dos investimentos em energia limpa.

Mulheres da organização Private Afforestation Development Organization (PADO) regam mudas na região cacaueira de Gana: em toda a África, agricultores têm adotado sistemas agroflorestais para repor nutrientes no solo e aumentar a produtividade das lavouras. (Foto: Vision in View/WRI)
Mulheres da organização Private Afforestation Development Organization (PADO) regam mudas na região cacaueira de Gana: em toda a África, agricultores têm adotado sistemas agroflorestais para repor nutrientes no solo e aumentar a produtividade das lavouras. (Foto: Vision in View/WRI)

Criando um futuro alimentar sustentável

A situação no Irã evidencia o quanto os sistemas globais de alimentos e energia estão interligados. Os mesmos combustíveis que movem veículos, casas e empresas também abastecem máquinas agrícolas, transporte, refrigeração e processamento da cadeia global de alimentos. Além disso, cerca de um terço dos fertilizantes do mundo passa pelo Estreito de Hormuz. O GNL também é um insumo fundamental para a produção de fertilizantes.

Assim, o mesmo conflito que provoca uma crise energética também provoca uma crise alimentar, gerando custos mais altos para agricultores e tornando a escassez de alimentos e a alta de preços uma ameaça para os consumidores. Os preços da ureia, por exemplo, já subiram 40% desde o início do conflito e quase dobraram na Índia.

Em paralelo, secas prolongadas, chuvas imprevisíveis e outros impactos das mudanças climáticas continuam ameaçando os sistemas alimentares e hídricos que já sofrem com as pressões relacionadas ao conflito. A iminência do El Niño e das secas e enchentes associadas a ele pode agravar ainda mais a situação.

A única solução lógica é fortalecer o sistema alimentar global o suficiente para que resista a esses abalos.

No curto prazo, os governos devem apoiar os programas de combate à fome da ONU e manter mercados agrícolas e fluxos comerciais abertos. Não podemos permitir que uma crise energética se transforme em insegurança alimentar generalizada.

Mas, no longo prazo, o melhor caminho é investir em um sistema alimentar mais sustentável, diversificado e resiliente. Isso envolve tornar o uso de fertilizantes mais eficiente, como Brasil e Reino Unido já se comprometeram a fazer. Além disso, é necessário reduzir a demanda por fertilizantes ao diminuir o desperdício de alimentos (atualmente, 40% de todos os alimentos produzidos no mundo não são consumidos) e abandonar o uso de biocombustíveis, cuja produção utiliza terras que poderiam ser usadas para produzir alimentos. Por fim, é preciso investir na agricultura sustentável.

Já é possível ver hoje o poder dessas ações. Na África, por exemplo, pequenos agricultores têm adotado sistemas agroflorestais, integrando árvores às plantações para repor naturalmente os nutrientes do solo, aumentar a produtividade e fortalecer a resiliência frente as mudanças climáticas. Na Dinamarca, o Acordo Verde Tripartite recompensa agricultores pela redução da poluição por nitrogênio causada por fertilizantes e, ao mesmo tempo, promove a restauração de florestas e incentiva uma produção mais eficiente de leite e carne suína. Precisamos de mais abordagens como essas para criar um sistema alimentar que funcione para todas as pessoas, em todos os momentos.

Trabalhadores montam um veículo elétrico: na China, metade de todos os carros vendidos em 2025 eram elétricos, o que ajuda a reduzir a importação de petróleo e gás natural. (Foto: Ringo Chiu/Shutterstock)
Trabalhadores montam um veículo elétrico: na China, metade de todos os carros vendidos em 2025 eram elétricos, o que ajuda a reduzir a importação de petróleo e gás natural. (Foto: Ringo Chiu/Shutterstock)

Resiliência de longo prazo exige boas decisões hoje

Mesmo que a crise com o Irã termine amanhã, sabemos que novos abalos acontecerão no futuro. Conflitos geopolíticos, guerras comerciais e mudanças climáticas continuarão pressionando os sistemas dos quais todos dependemos, a menos que iniciemos o difícil trabalho de construir resiliência. E esse processo começa com boas decisões hoje.

No curto prazo, formuladores de políticas públicas precisam pensar em como oferecer alívio imediato à população sem comprometer a prosperidade futura. Existem maneiras boas e ruins de fazer isso. Alguns governos, por exemplo, estão ampliando a produção de carvão para atender necessidades energéticas urgentes. Essa é uma política sensata desde que seja temporária e reversível. Outros países têm oferecido subsídios aos combustíveis fósseis para compensar o aumento dos custos. Essa é uma medida compreensível, mas muito mais difícil de desfazer.

No médio prazo, os países precisam continuar avançando a geração de energia limpa. A crise atual provavelmente aumentará o custo do capital, dificultando o acesso a financiamento e tecnologia, especialmente nas economias emergentes. Precisamos encontrar maneiras de manter o fluxo de investimentos e, ao mesmo tempo, remover os gargalos logísticos que desaceleram o desenvolvimento da energia limpa. Os países podem expandir as energias renováveis ao simplificar processos de licenciamento, modernizar redes elétricas, superar obstáculos de localização e investir na capacitação para empregos verdes que apoiem um futuro de energia limpa.

E, no longo prazo, precisamos transformar este momento em um mudanças estruturais. A crise com o Irã evidencia o quanto nossos sistemas de alimentos e energia correm riscos. Claro, já sabemos disso há algum tempo. Muitos ainda lembram da crise do petróleo dos anos 1970 e de uma narrativa semelhante surgindo em torno da resiliência. O que temos hoje, porém, e que não tínhamos naquela época, é a enorme variedade de soluções ao nosso alcance: tecnologias robustas de energia limpa, veículos elétricos, medidas de eficiência e cada vez mais pesquisas sobre como produzir mais alimentos sem destruir o planeta no processo.

O conflito com o Irã está evoluindo rápido. Não sabemos quanto tempo vai durar nem quais impactos ainda podem acontecer. Mas uma coisa já sabemos: fortalecer os sistemas globais de alimentos e energia é essencial. A questão é: os formuladores de políticas irão além das respostas imediatas e eliminarão os riscos sistêmicos por meio da resiliência de longo prazo?

 

Especialistas do WRI que contribuíram para este artigo:

Ani Dasgupta - Presidente e CEO

 

Este artigo foi publicado originalmente no Insights.