Pontos-chave
  • Principais conclusões

    Sem intervenções, as interrupções nos sistemas de saúde causadas por desastres relacionados ao clima em países de baixa e média renda podem gerar US$ 21 trilhões em perdas econômicas.

     

    Para cada US$ 1 investido em ferramentas e iniciativas baseadas em dados que preparam os sistemas de saúde para os impactos climáticos, os países podem gerar quase US$ 4 em benefícios para a saúde; ou até US$ 68, dependendo do cenário.

Adapting to climate-related health risks

Adaptando-se aos riscos do clima para a saúde: as vantagens econômicas de serviços climáticos focados na saúde

Este relatório foi preparado para a The Rockefeller Foundation.

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As mudanças climáticas são uma das maiores ameaças à saúde que enfrentamos. Até 2050, podem causar quase 16 milhões de mortes em países de baixa e média renda. O calor extremo, a disseminação de doenças sensíveis ao clima, como malária e cólera, e as interrupções em hospitais e outros serviços de saúde podem resultar em perdas econômicas próximas de US$ 21 trilhões.

Em todo o mundo, as pessoas já sentem os impactos. Recentemente, temperaturas elevadas e persistentes em diversos estados da Índia atingiram níveis perigosos de calor, chegando a 42°C. No Quênia, enchentes severas danificaram unidades de saúde e levaram o Ministério da Saúde do país a emitir alertas sobre os riscos de doenças como cólera e malária. Há dois anos, a América Latina enfrentou a epidemia de dengue mais grave desde o início do monitoramento, em 1980, como resultado do aumento das temperaturas e do acúmulo de água parada, que cria as condições ideais para a proliferação dos mosquitos transmissores da doença.

Proteger a vida das pessoas exige uma compreensão mais aprofundada de como as mudanças nos padrões climáticos podem comprometer a saúde humana e até a capacidade da população de acessar cuidados médicos. Um primeiro passo essencial para os países é investir em “serviços climáticos para a saúde”, um termo abrangente que se refere a ferramentas e iniciativas baseadas em dados que ajudam as comunidades a se preparar para esses riscos antes que uma crise aconteça.

Placa no aeroporto de Roma alerta os viajantes sobre os perigos da dengue. A doença transmitida por mosquitos pode atingir níveis epidêmicos com o aumento das temperaturas.
Placa no aeroporto de Roma alerta os viajantes sobre os perigos da dengue. A doença transmitida por mosquitos pode atingir níveis epidêmicos com o aumento das temperaturas. (Foto: BalkansCat/iStock)

Uma nova pesquisa do WRI, encomendada pela Rockefeller Foundation, mostra que investir em serviços climáticos para a saúde pode gerar retornos econômicos significativos ao reduzir doenças e mortes associadas ao aumento dos casos de malária, dengue, diarreia, cólera e enfermidades relacionadas ao calor. Mesmo em cenários pessimistas, com custos elevados e menos benefícios, estima-se que cada US$ 1 investido gere quase US$ 4 em benefícios para a saúde. Em outros cenários, os retornos podem chegar a US$ 68 para cada dólar investido. Essa ampla variação decorre de diferenças nos custos dos programas, capacidades institucionais, implementação e intensidade das tendências climáticas entre os países.

Não surpreende que haja uma sólida justificativa econômica para investir na preparação dos sistemas de saúde diante dos riscos climáticos. Quanto melhor a compreensão dos desafios, maiores são os benefícios. Sem análises climáticas e planejamento de qualidade, os sistemas de saúde acabam apenas reagindo a emergências em vez de estarem preparados para elas. Os retornos estimados são significativos porque salvar vidas tem um valor imenso, enquanto as necessidades de financiamento são relativamente modestas.

Serviços climáticos para a saúde
Fonte: Autores do WRI
18/03/2026

Em todo o mundo, governos e comunidades estão se preparando para enfrentar os riscos climáticos para a saúde.

Paquistão prepara comunidades para o calor intenso

Em Karachi, no Paquistão, onde as temperaturas atualmente alcançam com frequência marcas entre 38°C e 40°C, o programa Heat Emergency Awareness and Treatment (HEAT) capacitou agentes comunitários de saúde para orientar as famílias e comunidades sobre doenças relacionadas ao calor que podem salvar vidas. As informações abrangem desde comportamentos preventivos e adaptações na alimentação durante ondas de calor até o reconhecimento de sintomas por meio de triagens e medidas de tratamento precoce.

O impacto foi visível: implementado a um custo modesto de aproximadamente US$ 2.000 ao longo de três meses, o programa contribuiu para mais de US$ 5.800 em economia de gastos diretos com saúde, graças à redução das hospitalizações. Mesmo sem considerar o valor econômico das doenças e mortes evitadas, cada US$ 1 investido em educação sobre clima e saúde para profissionais e comunidades de Karachi gerou US$ 3 em retorno.

Garantindo o funcionamento de hospitais e clínicas no Caribe em situações de desastre

A iniciativa SMART Hospitals, da Organização Pan-Americana da Saúde, identificou e modernizou 54 unidades de saúde em sete países caribenhos vulneráveis ao clima para torná-las mais seguras e sustentáveis. As medidas incluíram reforço de telhados, instalação de sistemas de energia solar e treinamento de emergência às equipes.

O impacto foi substancial. Dezessete unidades que alcançaram o “padrão ouro” em segurança e desempenho ambiental permaneceram operacionais durante furacões e erupções vulcânicas, garantindo acesso a cuidados seguros e confiáveis para 850 mil pessoas e evitando interrupções nos serviços. Na Jamaica e em Santa Lúcia, cada US$ 1 investido gerou retornos muito superiores a US$ 68 em perdas evitadas e benefícios econômicos.

 

Instalar painéis solares nos telhados de hospitais, como nessa unidade em Chiang Mai, na Tailândia, é uma das formas pelas quais os governos podem investir na preparação para desastres relacionados ao clima. (Foto: N Team/Shutterstock)
Instalar painéis solares nos telhados de hospitais, como nessa unidade em Chiang Mai, na Tailândia, é uma das formas pelas quais os governos podem investir na preparação para desastres relacionados ao clima. (Foto: N Team/Shutterstock)

Alertas antecipados de calor extremo salvam vidas nas cidades

Em resposta aos chamados “efeitos de ilha de calor urbana”, que fazem com que as cidades sejam significativamente mais quentes do que as áreas ao redor, diversas cidades ao redor do mundo – incluindo Londres, Madri e as cidades indianas de Lucknow e Chennai – têm implementado sistemas de alerta para ondas de calor que avisam e preparam os moradores antes que as temperaturas atinjam níveis perigosos. Esses sistemas normalmente emitem alertas por meio de sites, aplicativos, redes sociais, linhas telefônicas de apoio e veículos de comunicação tradicionais quando são previstas temperaturas extremas. Alguns sistemas capacitam trabalhadores e profissionais de saúde para interpretar informações de alerta precoce, reconhecer sinais de desidratação relacionada ao calor e reduzir os efeitos do estresse térmico. Outros produzem infográficos e vídeos com orientações sobre como lidar com o calor extremo, que são divulgados pelos meios de comunicação.

Os benefícios potenciais são significativos. Em Londres, Madri e Praga, cada US$ 1 investido em sistemas urbanos de alerta para ondas de calor pode gerar pelo menos US$ 11 em benefícios econômicos, medidos pela redução de mortes, doenças e perdas de produtividade no trabalho relacionadas ao calor. Os retornos estimados são ainda maiores para cidades da Índia, onde cada US$ 1 investido pode gerar, em média, US$ 50 em benefícios para a saúde.

Água é despejada sobre a cabeça de um homem durante para refresca-lo durante uma onda de calor em Karachi, no Paquistão: temperaturas escaldantes são cada vez mais comuns na cidade.
Água é despejada sobre a cabeça de um homem durante para refresca-lo durante uma onda de calor em Karachi, no Paquistão: temperaturas escaldantes são cada vez mais comuns na cidade. (Foto: Asianet-Pakistan/Shutterstock)

 

Como transformar oportunidades em impacto que salva vidas

Esses exemplos mostram os benefícios e retornos que podem ser obtidos quando os sistemas de saúde levam em conta as mudanças climáticas.

Os serviços climáticos para a saúde reúnem departamentos meteorológicos, órgãos de saúde e outras instituições responsáveis pela proteção da saúde para garantir que dados climáticos e meteorológicos sejam utilizados da melhor forma possível para proteger vidas e meios de subsistência. Como resultado, governos, setor privado e comunidades passam a compreender melhor como a mudança do clima afetará a escala, a localização e a gravidade das doenças sensíveis ao clima.

Aprimorar as análises e o planejamento pode modelar com ainda mais precisão os impactos ecológicos das mudanças climáticas sobre bactérias causadoras de doenças e vetores como mosquitos; identificar onde suprimentos médicos e treinamento de equipes são necessários em emergências causadas pelo clima; determinar o momento de ativar abrigos, antes que os eventos climáticos extremos se tornem fatais; e identificar unidades de saúde vulneráveis a enchentes e tempestades.

Na pesquisa do WRI, os serviços climáticos para a saúde abrangem sete tipos de atividades: geração de dados meteorológicos, climáticos e hidrológicos; sistemas de alerta precoce; sistemas de vigilância de doenças; planejamento de saúde sensível ao clima; treinamento para preparação e resposta a emergências; campanhas de conscientização comunitária; e fortalecimento da resiliência de unidades de saúde e infraestrutura frente às mudanças climáticas.

Com base na análise de 46 projetos de financiamento em saúde do Banco Mundial, o estudo constatou que, em países de baixa e média renda com população em torno de 25 milhões de habitantes, investir nessas atividades custaria aos governos cerca de US$ 18 milhões por ano, enquanto cada uma separadamente custa entre US$ 1,4 milhão e US$ 5,9 milhões anuais. As iniciativas voltadas ao planejamento, fortalecimento de capacidades e campanhas de conscientização e mudança de comportamento em geral são as que exigem os menores investimentos, enquanto a construção de unidades e infraestrutura de saúde resilientes requer valores relativamente mais elevados.

Em comparação aos 2% a 4% do PIB que os países costumam destinar à saúde, o investimento necessário para alcançar bons retornos com serviços climáticos para a saúde representa uma fração mínima desse valor – ainda assim, esses serviços continuam pouco utilizados e financiados. Embora 81% dos membros da Organização Meteorológica Mundial forneçam informações climáticas e meteorológicas ao setor de saúde, menos da metade dos ministérios da saúde atualmente integra esses dados aos sistemas nacionais de vigilância, segundo apontou uma pesquisa da Organização Mundial da Saúde, a ser divulgada em breve. Poucas agências nacionais de meteorologia, clima e recursos hídricos dispõem de recursos para financiar a colaboração especializada entre diferentes órgãos que as instituições de saúde podem necessitar. Os ministérios da saúde também relatam que as atividades colaborativas voltadas ao planejamento antecipado são as mais difíceis de financiar. Essa lacuna de financiamento pode estar relacionada à compreensão limitada sobre o alcance, os custos e os benefícios da preparação para riscos climáticos à saúde.

Impulsionando novos investimentos

Apesar desses desafios, cresce o reconhecimento político da importância de investir nas ferramentas necessárias para enfrentar melhor os riscos à saúde associados às mudanças climáticas. Os serviços climáticos para a saúde têm sido cada vez mais incorporados às estratégias nacionais e globais de clima e saúde, contribuindo para embasar a tomada de decisões e aprimorar a eficácia dos serviços. Entre as três áreas prioritárias para os países destacadas no Plano de Ação para a Saúde de Belém, lançado durante a Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima de 2025 (COP30), duas envolvem diretamente os serviços climáticos para a saúde: 1) vigilância e monitoramento; e 2) políticas, estratégias e capacitação baseadas em evidências.

Os países também têm incorporado mais prioridades relacionadas aos serviços climáticos para a saúde em seus processos nacionais de planejamento. Mais de 90% dos Planos Nacionais de Adaptação concluídos identificam o setor de saúde como vulnerável e incluem pelo menos uma ação de adaptação na área da saúde. Além disso, a vigilância orientada por dados climáticos é uma das intervenções prioritárias mais mencionadas nesses planos.

Aproveitar o cenário político favorável é fundamental, porque investir em ferramentas e iniciativas baseadas em dados, além de ajudar os governos e comunidades a se adaptarem, é uma das formas mais econômicas de proteger vidas. Isso é especialmente verdadeiro para populações vulneráveis, incluindo pessoas pobres em áreas rurais e periurbanas e mulheres, crianças e idosos em zonas de alto risco, onde as doenças sensíveis ao clima aprofundam as desigualdades já existentes. Sem esses investimentos, os países tendem a permanecer em um ciclo de resposta tardia às crises de saúde, enfrentando impactos econômicos e sociais muito mais severos.

Implementar serviços climáticos para a saúde, no entanto, não é uma tarefa simples. Por sua natureza interdisciplinar e interinstitucional, eles exigem estreita colaboração entre órgãos de meteorologia e saúde, além da participação frequente de outros atores, como prestadores privados de serviços de saúde e universidades.

Ainda assim, com milhões de vidas potencialmente em risco até 2050, ampliar as ferramentas capazes de prever e preparar a sociedade para desastres climáticos não é apenas uma política inteligente, mas uma prioridade urgente para a saúde e o desenvolvimento.

 


Especialistas do WRI que contribuíram para este artigo:

Carter Brandon - Pesquisador Sênior

Bradley Kratzer - Associado II, Economia e Financiamento da Adaptação

Celine Novenario - Gerente de Comunicação, Programa de Clima, Economia e Finanças

 

Este artigo foi publicado originalmente no Insights.