5 motivos pelos quais a COP31 importa para o Brasil
Em meio a pressões econômicas e climáticas, conferência na Turquia será espaço para fortalecer a cooperação internacional, ampliar o financiamento e avançar na transição justa e de baixo carbono.
A 31ª Conferência das Partes do Clima (COP31), que será realizada em Antália, na Turquia, entre os dias 9 e 20 de novembro, dará continuidade às discussões sobre o enfrentamento da crise climática após a COP30, em Belém. Em meio às tensões geopolíticas e à intensificação do El Niño, que deve atingir seu pico nos próximos meses, a conferência representa uma oportunidade para fortalecer a cooperação internacional e avançar na implementação dos compromissos climáticos. Para o Brasil, a conferência representa uma oportunidade de conectar o enfrentamento da crise climática ao desenvolvimento econômico e social.
Depois de presidir a COP30, em Belém, o país chega a Antália com avanços na proteção da vegetação nativa: segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o desmatamento caiu 41,8% na Amazônia e 23,8% no Cerrado no período de agosto de 2025 a julho de 2026, em comparação com o período anterior. Os resultados demonstram como a agenda climática da COP30 começa a se traduzir em resultados concretos no plano doméstico. Como desafios para os próximos anos estão sustentar os resultados e ampliar investimentos em atividades econômicas de baixo carbono, com destaque para o diálogo direto com empresas e diferentes níveis de governo.
Selecionamos, a seguir, cinco motivos pelos quais vale a pena acompanhar a COP31, e que explicam por que a conferência importa para o Brasil neste momento.
Fortalecer a cooperação entre os países
Considerado a espinha dorsal da cooperação internacional em torno da ação climática, o Acordo de Paris continua sendo a principal referência para construir respostas conjuntas à crise climática. Em um contexto de divergências entre os países, a COP31 abre espaço para manter o diálogo e avançar em decisões multilaterais que apoiem a redução das emissões e a adaptação. Parte das soluções depende também de iniciativas que se desenvolvem fora das negociações formais. Um exemplo é a Coalizão Aberta para Mercados Regulados de Carbono (OCCCM), criada na COP30 e presidida pelo Brasil, com China e União Europeia na copresidência, e da qual o WRI participa como observador. A coalizão busca aproximar regras e metodologias, além da contabilização de emissões, para dar maior consistência e integridade à cooperação entre mercados nacionais de carbono.
O plano de trabalho para 2026–2030 foi aprovado em setembro de 2026. Na COP31, o debate poderá avançar sobre sua execução e a cooperação técnica entre os países. O WRI defende maior participação dos países em desenvolvimento e projetos-piloto voluntários para testar abordagens antes de ampliá-las. Essa harmonização também tem implicações para o comércio internacional: no setor siderúrgico, por exemplo, diferenças na forma de medir e contabilizar as emissões podem dificultar a comparação entre produtos e sistemas. A comparabilidade entre métodos de contabilização também ganha importância para o comércio internacional, diante de instrumentos como o Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira da União Europeia (CBAM), que considera as emissões associadas à produção de determinados bens importados.
Dar continuidade à agenda de ação assumida na COP30
Na COP31, também se espera dar sequência ao trabalho sobre os 59 Indicadores de Adaptação de Belém. Adotados na conferência anterior, eles oferecem referências para acompanhar o progresso dos países na preparação e na resposta aos impactos das mudanças climáticas.
O aprimoramento das metodologias e dos metadados associados aos indicadores continuará até a COP32, em Adis Abeba, na Etiópia, como parte dos esforços para fortalecer a implementação da Meta Global de Adaptação e aprimorar o acompanhamento dos avanços nessa agenda.
Outra frente é a Agenda de Ação Climática Global, que mobiliza iniciativas voluntárias de governos, empresas e organizações da sociedade civil. Reorganizada pela presidência brasileira da COP30 em seis eixos e 30 objetivos, a agenda pode ajudar a aproximar compromissos internacionais de medidas desenvolvidas nos territórios. Acompanhamento de resultados e transparência serão importantes para identificar os avanços e os obstáculos à execução das iniciativas.
O Brasil vai à COP31 em busca de consolidar o legado de sua presidência na COP30 por meio do lançamento dos Mapas do Caminho, apresentados pela presidência brasileira da COP30 em 3 de novembro, e voltados à transição para longe dos combustíveis fósseis e ao combate ao desmatamento e à degradação florestal. Os documentos apresentam orientações voluntárias para políticas, financiamento e cooperação internacional. Como iniciativas da presidência brasileira, não integram as negociações formais da COP31.
O WRI Brasil contribuiu com a elaboração do mapa do caminho de afastamento dos fósseis considerando que a transição para uma economia menos dependente de combustíveis fósseis deve ser tratada como uma estratégia de desenvolvimento que combine ação climática, segurança energética, competitividade e inclusão social. Defendemos políticas integradas para ampliar energias renováveis, fortalecer as redes elétricas e descarbonizar a indústria e os transportes, com financiamento acessível e planejamento nacional e local. Essa transformação precisa ser justa: apoiar trabalhadores e territórios dependentes das receitas do petróleo, diversificar economias locais e combater a pobreza energética, garantindo a participação das comunidades afetadas. Assim, a redução do uso de combustíveis fósseis pode contribuir para diminuir desigualdades e construir uma economia mais resiliente.
O WRI Brasil também contribuiu com o mapa do caminho para deter o desmatamento e a degradação florestal. O documento identifica oportunidades para acelerar a proteção, o uso sustentável e a recuperação das florestas por meio da coordenação de ações nacionais, da cooperação internacional e do financiamento.
Implementar uma transição justa e centrada nas pessoas
A transição para uma economia de baixo carbono precisa considerar as desigualdades levando em conta trabalhadores, comunidades e países mais vulneráveis, suas singularidades, além dos impactos econômicos e sociais das mudanças nos sistemas produtivos.
O relatório Jobs and Skills for the New Economy, elaborado por WRI e parceiros, estima que a transição climática pode gerar, em termos líquidos, cerca de 375 milhões de empregos na próxima década. Esse saldo positivo, porém, não elimina os impactos sobre o mercado de trabalho: aproximadamente 630 milhões de postos serão afetados, entre empregos criados e eliminados. Apenas 1% dos planos climáticos nacionais apresenta propostas para financiar a qualificação profissional necessária à ocupação de empregos verdes.
Nesse cenário, ampliar o acesso ao financiamento, oferecer qualificação profissional e apoiar a realocação de trabalhadores são medidas essenciais para distribuir os benefícios da descarbonização de forma mais equitativa. O estudo Supporting Just Transitions in Climate-Vulnerable Developing Countries in the UNFCCC, publicado pelo WRI em agosto de 2026, destaca obstáculos ao financiamento, a informalidade do trabalho e os riscos climáticos enfrentados pelos países em situação de maior vulnerabilidade.
A COP31 será uma oportunidade de avançar na implementação do mecanismo de transição justa acordado em Belém, especialmente no que diz respeito à aproximação entre as agendas de clima e comércio. A conferência também deverá avaliar os resultados e os próximos passos do Programa de Trabalho de Transição Justa, que prevê o fortalecimento da cooperação internacional e da assistência técnica para apoiar os países na construção de trajetórias de desenvolvimento de baixas emissões.
Para o WRI Brasil, uma transição justa exige que as condições econômicas dos países em desenvolvimento sejam consideradas e que a descarbonização contribua para reduzir as desigualdades. O apoio técnico pode ajudar a formular estratégias nacionais e conectar políticas públicas às fontes de financiamento. Essa agenda também deve se apoiar em três pilares: qualificação profissional para os novos empregos da economia verde, proteção social aos trabalhadores e investimentos que coloquem as pessoas no centro da economia de baixo carbono, assegurando sua participação nas discussões e decisões sobre essas mudanças.
Aumentar o financiamento para a ação climática
O Roteiro Baku-Belém busca ampliar o financiamento climático destinado aos países em desenvolvimento. Elaborado pelas presidências da COP29, em Baku, no Azerbaijão, e da COP30, em Belém, o documento aponta caminhos para mobilizar pelo menos US$ 1,3 trilhão por ano até 2035. O WRI Brasil tem apoiado a Presidência brasileira na elaboração do roteiro e na condução deste diálogo global apontando alternativas para mobilização de capital de fontes públicas e privadas, na escala e urgências necessárias para o combate à crise climática.
Além de ampliar o volume de recursos, será necessário reduzir barreiras de acesso ao capital e melhorar as condições oferecidas aos países em desenvolvimento. Bancos multilaterais e financiamento público internacional, incluindo doações e empréstimos em condições favoráveis, podem contribuir para mobilizar investimentos privados e viabilizar projetos de mitigação e adaptação.
Para o Brasil, o desafio também envolve direcionar os investimentos públicos aos objetivos da transição energética. Embora a matriz energética brasileira tenha uma participação expressiva de fontes renováveis, o país ainda destina mais recursos para apoiar a produção de combustíveis fósseis. Esse cenário evidencia a importância de alinhar recursos públicos aos objetivos da transição energética.
Outra prioridade é aumentar os investimentos em adaptação climática, especialmente para preparar cidades e territórios para os impactos das mudanças do clima. Segundo estudo do WRI, cada dólar aplicado em adaptação pode gerar, em média, US$ 10,50 em benefícios ao longo de dez anos.
Acelerar as soluções de enfrentamento da crise climática
Conservar as florestas é uma medida essencial para reduzir emissões e diminuir riscos econômicos. A cobertura florestal contribui para regular as chuvas e sustentar a produção agropecuária. Um estudo do WRI Brasil a ser lançado na COP vai mostrar como desmatamento e clima podem impactar a produtividade de commodities como soja e pecuária, indicando caminhos para que questões econômicas também sejam consideradas nas políticas públicas de combate ao desmatamento e a degradação.
A ação climática precisa conectar incentivos econômicos aos objetivos de conservação, redirecionando recursos para ajudar agricultores e comunidades a desenvolverem meios de vida sustentáveis. Oportunidades não faltam: o estudo Nova Economia da Amazônia, do WRI Brasil, projeta que a expansão da bioeconomia e da restauração florestal associada a uma trajetória de desenvolvimento com desmatamento zero pode gerar 833 mil empregos nessas atividades na economia brasileira até 2050. Uma das formas de tornar esses números realidade é na promoção e desenvolvimento da bioeconomia. Para isso, vale a pena acompanhar os desdobramentos do Bioeconomy Challenge, uma iniciativa global e multissetorial lançada durante a COP30, em Belém, com o objetivo de transformar os Princípios de Alto Nível da Bioeconomia do G20 em ações concretas, mensuráveis e escaláveis até 2028.
Nas cidades, a adaptação e o transporte público de baixo carbono oferecem benefícios, que também serão pautados na conferência de clima. O compromisso 35x35, que estará em discussão na COP31, propõe elevar a participação da eletricidade no consumo final global de energia dos atuais 21% para 35% até 2035. A meta reforça a importância de combinar eficiência energética, eletrificação e ampliação do uso de fontes limpas para transformar o setor. O debate também se conecta ao compromisso assumido pelo Brasil na COP30 de reduzir em 25% a demanda total de energia do setor de transportes até 2035 e transferir um terço desse consumo para fontes renováveis.
No Brasil, avançar nessa agenda depende de políticas públicas, investimentos e articulação entre diferentes níveis de governo e setores da economia.
Um exemplo é a proposta do WRI Brasil com o BTG Pactual e o ITDP para estruturação de um fundo voltado ao financiamento de mais de 1.700 ônibus elétricos em pelo menos quatro cidades brasileiras. A iniciativa busca acelerar a descarbonização do transporte público. Essas iniciativas ajudam a aproximar os compromissos climáticos de soluções concretas, capazes de tornar as cidades mais resilientes e os sistemas de transporte menos emissores.
A importância da COP31 estará na capacidade de transformar os compromissos internacionais em avanços efetivos para o Brasil. Isso exige fortalecer a cooperação entre os países, ampliar o acesso ao financiamento climático e promover soluções que conciliem a redução das emissões, a adaptação aos impactos das mudanças do clima e o desenvolvimento econômico e social.