A proposta do Roadmap Baku a Belém é estabelecer um roteiro para alcançar US$ 1,3 trilhão por ano em financiamento climático de fontes públicas e privadas até 2035. O plano conecta discussões da COP29, realizada no Azerbaijão em 2024, à conferência que está prestes a acontecer em Belém. A boa notícia é que, pela primeira vez, há um plano articulado que integrará múltiplas agendas de financiamento internacional para este que é o principal desafio global do ano. O ponto de atenção é que, como está, ele pode não atender às reais necessidades dos países em desenvolvimento. 

Esse roteiro consiste em cinco alavancas: reforma dos Bancos Multilaterais de Desenvolvimento (MDBs), expansão do capital concessional e dos fundos climáticos, criação de capacidade doméstica de atração de capital, mobilização do capital do setor privado e regulação de uma taxonomia global.

O objetivo é elevar os recursos internacionais de financiamento de US$ 116 bilhões em 2022 para US$ 300 bilhões anuais até 2035, abrindo caminho para chegar a US$ 1,3 trilhão. O valor de US$ 300 bilhões é três vezes maior do que a antiga meta de US$ 100 bilhões até 2020, mas ainda está longe do necessário diante de um déficit anual de investimentos climáticos, por exemplo, considerando a atual estimativa de déficit de US$ 360 bilhões anuais apenas para adaptação. O WRI analisou que alcançar o valor de US$ 300 bilhões até 2035 já está muito próximo. 

Além disso, a forma como esse recurso será arrecadado pode ter implicações no tipo de financiamento disponibilizado e em quem poderá acessá-lo com mais facilidade, agravando o desequilíbrio que já é constatado hoje no destino do capital para o norte global e para projetos de mitigação com altas taxas de retorno, especialmente para o setor energético.

A conta total é muito maior

Segundo o Grupo Independente de Especialistas em Financiamento Climático (IHLEG), os países em desenvolvimento precisarão de US$ 2,7 trilhões anuais até 2030 para cumprir suas metas climáticas. Desse total, US$ 1,3 trilhão viria de fluxos internacionais – exatamente o que o Roadmap tenta organizar. E desta fatia, metade deverá vir do capital privado.

Mas a fatia maior – US$ 1,4 trilhão por ano – depende de recursos públicos domésticos. E esse é o ponto cego. Muitos países em desenvolvimento já enfrentam dívidas elevadas, juros altos e espaço fiscal reduzido. O Roadmap não responde à pergunta central: como financiar essa parcela monumental em países com orçamentos pressionados e instituições frágeis?

Esse vazio de um roteiro para US$ 1,4 trilhão por ano pode comprometer a implementação das novas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) pois o problema não será apenas de falta de capital internacional, mas da incapacidade de muitas nações em mobilizar recursos internos para viabilizar projetos.

As cinco alavancas apresentadas no relatório do Círculo de Finanças para o Roadmap

Apesar desses pontos de atenção, a expectativa é que o plano traga resultados concretos conforme as frentes propostas pelo Relatório do Círculo de Finanças?

Leia o relatório completo do Círculo de Ministros de Finanças da COP30, preparado como contribuição para a agenda de Belém.  

1 - Reforma dos Bancos Multilaterais de Desenvolvimento (MDBs)

A primeira alavanca é a reforma dos MDBs, parte de um plano de ação até 2030 já acordado no G20 sob a presidência brasileira. Na COP29 foi anunciado que eles aumentarão seus fluxos para US$ 120 bilhões até 2030 – o dobro de 2022. É razoável esperar que, no horizonte de dez anos do roteiro, esse valor dobre novamente, alcançando US$ 240 bilhões até 2035.

Isso é expressivo, especialmente pelo efeito multiplicador: cada dólar dos MDBs pode alavancar de 4 a 10 dólares adicionais. Ainda assim, o desafio é político e institucional. A governança desses bancos segue lenta, conservadora e pouco adaptada ao perfil de risco dos países emergentes. E ainda há um grande risco geopolítico sobre esta agenda considerando que os EUA podem assumir a presidência do G20 em 2026, o que pode atrasar a reforma dos MDBs.

2 - Expansão do financiamento concessional e dos fundos climáticos

A segunda alavanca trata do financiamento concessional e da ampliação dos fundos climáticos multilaterais. Atualmente, esses fundos representam apenas 3% do total global, com algo em torno de US$ 3,4 bilhões em 2022. A expectativa é que sejam triplicados até 2030, atingindo pelo menos US$ 10 bilhões anuais.

Apesar disso, mesmo triplicados, os fundos terão impacto limitado diante das necessidades. O problema central é a burocracia de acesso e a fragmentação: sem simplificação e alinhamento às prioridades nacionais, correm o risco de seguir subutilizados. Há iniciativas inovadoras sendo propostas como o Fundo Florestas Tropicais Para Sempre (TFFF, na sigla em inglês), sob liderança do Brasil, que podem trazer soluções para o financiamento de setores críticos para os objetivos climáticos.

Foto aérea de floresta em Manaus
Floresta vista do MUSA - Museu da Amazônia, em Manaus (foto: Joana de Oliveira/WRI Brasil)

3 - Criação de capacidade doméstica para atrair investimentos

A terceira alavanca foca no lado da demanda. Muitos países em desenvolvimento ainda não têm capacidade institucional para estruturar projetos bancáveis que atraiam financiamento climático. É aí que entram as country platforms, além de estratégias fiscais e regulatórias nacionais para gestão de riscos e atração de investimentos.

Na prática, essas plataformas ainda são incipientes. Sem investimento em capacidade técnica e de governança, os projetos disponíveis não se convertem em fluxos de investimento. O alerta é que o sucesso da capacidade doméstica de atrair investimentos dependerá de projetos viáveis e de alto impacto, o que também pressionará o espaço fiscal por recursos nacionais para estes projetos, ainda que na forma de capital catalítico. E para isso, os países de economias emergentes precisarão fazer uma ampla melhoria nas suas políticas fiscais e monetárias e liberar espaço fiscal para considerar as prioridades de mitigação e adaptação.

Em resumo, a capacidade doméstica de atração de investimentos requer um novo arcabouço nacional de investimentos com foco nos setores críticos da mitigação e adaptação. Isso significa rediscutir o papel dos bancos públicos de desenvolvimento e das agências de fomento nacional e reestruturar os incentivos econômicos existentes.

4 - Mecanismos inovadores para o capital privado

A quarta alavanca é a mais desafiadora: metade do montante de US$ 1,3 trilhão precisa vir do setor privado para ações além do setor energético, mas, atualmente, 11% apenas têm origem privada. Para isso, será necessário desenvolver instrumentos de compartilhamento de risco, mitigação cambial e garantias inovadoras, reduzindo o custo do capital em países emergentes.

O problema é que, até agora, o capital privado tem sido direcionado, sobretudo, para projetos de mitigação em países desenvolvidos. Se não houver mecanismos para mudar esse viés, o setor privado continuará longe de financiar as áreas mais críticas, como adaptação e transição justa em países vulneráveis.

5 - Regulação e interoperabilidade das taxonomias

A quinta alavanca trata da regulação, incluindo mercado de carbono, regulação prudencial e o papel das autoridades monetárias. A criação de uma taxonomia interoperável global é necessária para classificar, monitorar e dar transparência aos fluxos de financiamento climático. Essa taxonomia interoperável deverá responder a perguntas centrais:

  • O recurso mobilizado é realmente climático?
  • Ele tem impacto positivo ou negativo para o clima?
  • Ele está chegando aos países e setores que mais precisam?

Sem esse instrumento, corre-se o risco de perpetuar greenwashing, dispersão de critérios e fragilidade de confiança.

Oferta, demanda e qualidade: os verdadeiros desafios

As cinco alavancas se articulam em um sistema. O lado da oferta do financiamento via recursos públicos internacionais, que se originam de MDBs e fundos climáticos, e de recursos públicos bilaterais, que são mobilizados entre países, e capital privado. Para o lado da demanda, a aposta é organizar via plataformas nacionais, que permitem estruturação de projetos e capital catalítico público. E a regulação de tudo isso seria feita via taxonomia global interoperável.

E mesmo que o roteiro funcione, o verdadeiro desafio não está apenas no volume, e sim na qualidade do investimento. Hoje, o capital climático tende a seguir os interesses do mercado – baixo risco e alto retorno, como em projetos de energia renovável e eletrificação de transportes, em geral em países desenvolvidos – e não as prioridades dos países em desenvolvimento. Isso perpetua o desequilíbrio entre mitigação e adaptação e restringe o acesso de setores mais vulneráveis. Este é outro ponto cego do debate do Roteiro Baku-Belém.

Méritos e limites do Roadmap

O mérito do Roadmap é tentar conectar todas as peças da arquitetura financeira internacional: as reformas dos MDBs no G20, as medidas discutidas nos BRICS, os fundos multilaterais e o setor privado. Mas sem uma solução para a mobilização do US$ 1,4 trilhão doméstico e para as medidas de baixo retorno financeiro, a equação continuará incompleta.

O Roadmap para Belém é um passo político essencial e a melhor aposta que temos, mas não é a solução completa para o financiamento climático. Ele organiza o fluxo internacional, mas deixa em aberto a maior parte da conta: como países em desenvolvimento, muitos já sem espaço fiscal, vão financiar ou alavancar o restante? 

Mais do que números, o futuro dependerá da capacidade de articular o internacional e o doméstico, ampliando o espaço fiscal, reduzindo o custo do capital e fortalecendo as capacidades estatais. Sem isso, o Roadmap será apenas um mapa incompleto – e a transição climática seguirá em risco.

Featured WRI Experts:
Karen Silverwood-Cope -

Diretora de Clima, Finanças e Economia