Os eventos climáticos extremos ocupam o terceiro lugar entre os principais riscos globais em 2026 e primeiro lugar no horizonte de dez anos, segundo o Global Risks Report 2026 do Fórum Econômico Mundial. A diferença entre esses horizontes importa para empresas e investidores: riscos imediatos competem por atenção, mas os impactos climáticos permanecem estruturais para decisões de longo prazo. Quando perdas diretas, efeitos indiretos e danos aos ecossistemas são considerados, o custo global dos desastres ultrapassa US$ 2,3 trilhões por ano, de acordo com o Global Assessment Report 2025 da UNDRR.  

Apesar dessa materialidade, avaliações financeiras tendem a capturar melhor riscos diretos e de curto prazo do que efeitos sistêmicos e benefícios de investimentos em adaptação e resiliência. Essa limitação gera uma dupla distorção. Primeiro, efeitos em cascata sobre fornecedores, infraestrutura e cadeias produtivas podem ficar fora das análises, o que dificulta que empresas dimensionem seus riscos e priorizem investir em medidas de adaptação. Segundo, mesmo quando o risco é reconhecido, empresas que investem em resiliência nem sempre são diferenciadas daquelas que não o fazem. 

Para as instituições financeiras, os mesmos impactos se propagam pelos portfólios. Interrupções operacionais e perdas de receita reduzem a capacidade de pagamento dos clientes e elevam o risco de inadimplência. Danos e desvalorização de ativos diminuem o valor das garantias, enquanto a redução da cobertura ou o encarecimento dos seguros transfere uma parcela maior das perdas para empresas e financiadores. Em mercados emergentes, esses canais já aparecem nos balanços dos bancos na forma de inadimplência, perda de valor das garantias e menor cobertura de seguros, segundo o BCG. 

Essa distorção também esconde parte do valor econômico da adaptação. Análises de investimento costumam considerar principalmente as perdas evitadas e deixar de lado ganhos econômicos, sociais e ambientais. Um estudo do WRI com 320 investimentos de adaptação em 12 países estimou mais de US$ 10,50 em benefícios para cada dólar investido ao longo de dez anos. Embora o resultado refira-se ao retorno econômico total e não necessariamente ao retorno financeiro apropriável por uma empresa ou um investidor, os achados do estudo reforçam que adaptação gera valor para além das perdas evitadas. Parte desses benefícios pode retornar indiretamente à empresa ao fortalecer condições essenciais para a geração de valor — por exemplo, ao favorecer a saúde e a produtividade de trabalhadores próprios e de fornecedores críticos ou contribuir para um ambiente de negócios mais resiliente.   

Por isso, investir em adaptação e resiliência climática não deve ser tratado apenas como posicionamento ESG ou responsabilidade socioambiental empresarial. É também uma condição para proteger ativos, operações, fluxos de caixa e a capacidade de gerar valor no longo prazo. Adaptação e resiliência precisam estar no centro do planejamento estratégico — tanto no nível da empresa quanto no nível agregado da economia — em que a capacidade de adaptação do setor produtivo influencia diretamente a estabilidade fiscal e econômica de um país. 

Na prática, porém, o financiamento está longe de acompanhar essa ambição. Segundo o Global Landscape of Climate Finance 2026 da Climate Policy Initiative (CPI), o investimento global rastreado em adaptação se estabilizou em US$ 64 bilhões em 2024 — menos de um terço dos US$ 212 bilhões anuais estimados como necessários até 2030 somente nos mercados emergentes e economias em desenvolvimento. Não há dados que isolem o investimento empresarial, mas as evidências apontam barreiras recorrentes: dificuldade de demonstrar retorno no horizonte exigido, assimetrias de informação e projetos com escala e características pouco aderentes aos critérios financeiros.  

Ao mesmo tempo, a adaptação representa uma oportunidade de mercado. O Boston Consulting Group (BCG) estima que o investimento empresarial global em adaptação e resiliência alcance entre US$ 800 bilhões e US$ 1,2 trilhão por ano entre 2026 e 2030, criando uma oportunidade anual de US$ 100 bilhões a US$ 130 bilhões em financiamento bancário. Esses números não são diretamente comparáveis aos fluxos rastreados pelo CPI, pois adotam conceitos, universos e metodologias diferentes. Ainda assim, mostram que o desafio não é apenas disponibilizar mais capital, mas construir as condições para que uma demanda empresarial crescente seja reconhecida, estruturada e financiada. 

Embora não exista resposta única, ampliar o investimento empresarial em adaptação exige dois movimentos complementares: empresas precisam reconhecer e relatar seus riscos, medidas e resultados de resiliência; instituições financeiras precisam incorporar essas informações à avaliação de risco e às condições de crédito, investimento e seguros. 

Sem reconhecer e relatar a adaptação, a resiliência permanece invisível 

Os impactos das mudanças climáticas alcançam empresas de diferentes setores. Além das perdas diretas provocadas por danos causados por eventos extremos cada vez mais frequentes, chuvas fortes, inundações e secas podem danificar ativos próprios (como sedes e plantas, máquinas e equipamentos), interromper a cadeia de suprimentos, impedir turnos de trabalho, comprometer operações e reduzir o valor de ativos. 

Apesar dos impactos já sentidos, os riscos físicos das mudanças climáticas ainda são pouco incorporados às decisões empresariais e à alocação do capital. Por outro lado, muitas organizações já adotam medidas capazes de reduzir sua vulnerabilidade sem reconhecê-las como investimentos em adaptação climática. Uma mudança operacional pensada para evitar interrupções na produção, por exemplo, pode aumentar a resiliência de uma empresa sem nunca ser identificada internamente como parte de sua estratégia de adaptação. 

As empresas partem de quatro situações distintas. Algumas investem deliberadamente em resiliência, mas não conseguem demonstrar seu valor financeiro aos provedores de capital. Outras reduzem riscos sem classificar ou mensurar essas ações como adaptação. Um terceiro grupo reconhece sua exposição, mas não dispõe de dados, ferramentas ou capacidade técnica para agir. Há ainda empresas que não consideram os riscos físicos materiais para suas decisões. Cada situação exige uma combinação diferente de diagnóstico, assistência técnica, relato e instrumentos financeiros. 

Essa lacuna de reconhecimento e classificação tem três consequências. Primeiro, impede que a empresa tenha uma visão integrada de sua exposição e das medidas já adotadas. Segundo, dificulta identificar riscos residuais e lacunas de investimento. Terceiro, limita a capacidade de demonstrar a investidores, financiadores e seguradoras como a empresa está reduzindo riscos materiais. 

Referências comuns de monitoramento e relato ajudam a superar essa lacuna. Elas permitem que as empresas acompanhem sua resposta aos riscos climáticos e comuniquem riscos, medidas e resultados a investidores, clientes, fornecedores e outros públicos com base em critérios consistentes e comparáveis. 

No Brasil, essa lacuna é um dos focos do Programa Brasileiro de Relato Empresarial em Adaptação (PBRA), liderado pela Fundação Getulio Vargas (FGV) em colaboração com o WRI Brasil e parceiros técnicos e institucionais. Em 2025, o processo resultou nas Diretrizes para o Relato Empresarial em Adaptação à Mudança do Clima, que organizam as informações a serem reportadas nos pilares de estratégia, governança, gestão de riscos, metas e métricas, com justiça climática como dimensão transversal. 

Em maio de 2026, o programa lançou a Plataforma de Relato em Adaptação, desenhada para dialogar com referências como IFRS S2, GRI, CDP e as normas ISO 14090 e 14091, que já estruturam a gestão de riscos climáticos, a transparência e a adaptação no setor privado. As diretrizes e a plataforma estão em teste por meio de pilotos com três empresas de portes e setores diferentes. Os resultados devem orientar o aprimoramento do programa e as primeiras notas técnicas setoriais em 2027. 

O raciocínio por trás do PBRA é simples: sem referências comuns para o relato, é difícil distinguir uma empresa que investe em resiliência daquela que ainda não incorporou os riscos físicos às suas decisões. Informações comparáveis também permitem identificar lacunas, definir prioridades e comparar o desempenho entre empresas e setores. Ao reduzir a assimetria de informação, o relato cria condições para que ações e investimentos em resiliência hoje pouco visíveis sejam considerados na alocação de capital, na precificação de risco e na oferta de seguros.  

Relatar requer que riscos tenham sido diagnosticados, prioridades definidas e medidas planejadas. Sua função é tornar essa trajetória visível, comparável e utilizável por quem toma decisões dentro e fora da empresa.  

Mas tornar a adaptação visível é apenas o primeiro passo. 

Dados comparáveis só mobilizam capital quando alteram decisões financeiras 

Reconhecer e relatar a adaptação, a partir de estratégias consistentes de gestão de riscos e oportunidades climáticas, é a condição de entrada. Porém, informação, sozinha, não mobiliza capital. O desafio é fazer com que dados comparáveis sobre resiliência entrem na avaliação de risco financeiro e ajudem a demonstrar o retorno dos investimentos. Sem isso, os incentivos financeiros permanecem fracos e a tese de investimento não se sustenta aos olhos de quem aloca capital. 

Estudos recentes apontam nessa direção. Em mercados de capitais, maior risco físico está associado à exigência de retornos mais altos. Empresas com maior capacidade de adaptação, por sua vez, podem ter menor prêmio de risco exigido por investidores, sobretudo quando estão mais expostas a riscos físicos (Senni & Goel, 2024). No setor agrícola europeu, Auci et al. (2021) também encontraram uma associação positiva entre inovação em adaptação e desempenho empresarial. 

Isso não significa que todo investimento em adaptação reduzirá automaticamente o custo de capital. Quando medidas de resiliência reduzem exposição ou vulnerabilidade, preservam fluxos de caixa e protegem a continuidade operacional, elas podem diminuir perdas esperadas. Se esse efeito for demonstrado de forma consistente, investidores, financiadores e seguradoras poderão incorporá-lo às suas avaliações. Para isso, indicadores de resultado são mais úteis do que o valor investido isoladamente: redução de perdas esperadas, menor tempo de interrupção, preservação de receitas e ativos, menor volatilidade dos fluxos de caixa e manutenção da cobertura de seguros são exemplos de informações com possível relevância financeira. 

O problema é que esse ciclo — adaptação visível, menor risco percebido e melhores condições de financiamento — ainda não é a regra. E o efeito pode ser desigual: empresas maiores, com mais flexibilidade financeira e capacidade técnica, tendem a ter mais condições de investir em adaptação, enquanto pequenas e médias empresas em economias em desenvolvimento enfrentam maiores barreiras de acesso a capital e conhecimento. Esse ponto é especialmente relevante no Brasil, onde 97% das empresas são pequenos negócios e respondem por 26,5% do PIB em 2025. 

Uma precificação mais precisa tampouco garante condições melhores para todas as empresas. Quando revela exposição elevada sem capacidade de resposta, ela pode encarecer ou restringir o crédito, justamente para os negócios que mais precisam investir. Como alguns benefícios da adaptação são públicos, difusos ou difíceis de monetizar, o capital privado, sozinho, não fechará a lacuna de financiamento. Garantias, financiamento concessional, compartilhamento de risco e assistência técnica são necessários para evitar que a melhor mensuração do risco aprofunde desigualdades de acesso ao capital. 

Instituições financeiras comerciais podem oferecer crédito corporativo, financiamento de ativos, linhas para pequenas empresas, financiamento de projetos e produtos vinculados a resultados de resiliência. Bancos de desenvolvimento nacionais, bilaterais e multilaterais podem complementar essa atuação com garantias, capital concessional e assistência técnica. Essa combinação permite atender tanto empresas expostas que precisam reduzir riscos quanto fornecedores de soluções de adaptação com potencial de crescimento. 

É aqui que reconhecimento e financiamento precisam avançar juntos. Instrumentos como o PBRA começam a oferecer dados empresariais mais comparáveis sobre resiliência. 

A necessidade brasileira de conectar relato empresarial e condições financeiras 

O Brasil tem uma janela concreta para aproximar adaptação empresarial e finanças. Esses instrumentos cumprem funções complementares: o Plano Clima 2024–2035 orienta prioridades nacionais de adaptação; a Taxonomia Sustentável Brasileira ajuda a classificar atividades e investimentos; e as regras do Banco Central sobre divulgação de riscos climáticos inserem esses riscos na governança e na gestão das instituições financeiras. O PBRA pode preencher uma lacuna no nível da empresa, tornando riscos, medidas e resultados de resiliência mais visíveis e comparáveis. O desafio é fazer com que essas informações ajudem instituições financeiras a distinguir entre exposição ao risco e capacidade de adaptação e, quando essa diferença for material, refleti-la nas condições de financiamento. Reconhecimento sem consequência financeira fecha apenas metade do ciclo. 

Fechar esse ciclo também é condição para que o Brasil direcione para a adaptação parte do capital mobilizado para a transição ecológica. Segundo o BCG, o país tem potencial para atrair entre US$ 2,6 e US$ 3 trilhões em investimentos em soluções climáticas até 2050 (BCG, 2024). O Eco Invest Brasil, por sua vez, mobilizou mais de R$ 190 bilhões após seus cinco primeiros leilões. Esses valores não isolam recursos destinados à adaptação empresarial, mas mostram a escala dos fluxos que informações e instrumentos de resiliência precisam alcançar. 

Para que a adaptação empresarial ocupe espaço crescente nesses fluxos, empresas precisam diagnosticar e relatar seus riscos, ações e resultados de resiliência; instituições financeiras devem incorporar essas informações às decisões de crédito, investimento e seguros; e bancos de desenvolvimento precisam combinar financiamento, garantias e assistência técnica, sobretudo para pequenas e médias empresas. Reconhecer e relatar, de um lado, e fazer a resiliência contar nas decisões financeiras, de outro, são condições não apenas para a continuidade dos negócios, mas para converter o potencial brasileiro em investimento, competitividade e desenvolvimento resiliente. 

 

Referências 

 

Especialistas do WRI Brasil que assinam este artigo:
Luana Betti -

Especialista em Socioeconomia e Finanças do Clima