Restaurar pastagens degradadas aumenta o potencial da Amazônia se regenerar sozinha
A década atual foi definida pela ONU como a Década de Restauração de Ecossistemas. Ela é um momento crucial para concentrar esforços na restauração de milhões de hectares de vegetação nativa em todo o mundo.
Entretando, para realizar esse feito, é preciso de uma solução escalável e viável. Dentre as opções, utilizar do potencial já existente de regeneração dos biomas é a forma ideal de realizar essa restauração em larga escala.
O potencial de regeneração natural na floresta amazônica
É preciso saber onde e como utilizar do potencial de regeneração natural dos ecossistemas. A nova pesquisa com autoria de especialistas do WRI Brasil analisa o território do bioma amazônico para encontrar o “onde”. Com a aproximação do bioma de um “ponto de não retorno”, restaurá-lo é urgente para garantir a proteção da biodiversidade mundial, a estabilidade do clima e o bem-estar das pessoas.
A pesquisa aplicou um modelo de aprendizado de máquina utilizando tanto variáveis ambientais estáveis (como características dosolo e do clima) quanto variáveis dinâmicas (como o histórico de uso da terra e distância de remanescentes florestais). Após ser treinado com dados de anos anteriores, o modelo permitiu estimar o potencial de regeneração natural para o ano de 2021. Com base nesse cenário, foram realizadas três projeções futuras, considerando a recuperação de pastagens em diferentes estágios de degradação, o que possibilitou analisar os impactos dessas intervenções no potencial de regeneração natural na região amazônica.
A conclusão traz dados inéditos: em 2021, 668.435 km² de área no bioma amazônico possuem algum potencial de regeneração natural. Além disso, o estudo dos cenários aponta que restaurar pastagens severamente degradadas podem trazer grandes impactos positivos em seu entorno. Ao restaurar essas áreas com maiores níveis de degradação, o potencial de regeneração natural de seu entorno aumenta. Esse cenário traz uma maior área com potencial médio ou alto de regeneração natural do que se comparado ao cenário atual (sem restauração) ou aos outros testados na pesquisa.
Como restaurar na floresta amazônica?
Essa conclusão é de grande importância para orientar políticas de restauração da vegetação nativa no bioma, como o Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa, o Planaveg. Ela significa que uma intervenção inicial mais custosa na restauração de áreas severamente degradadas pode facilitar e reduzir o custo de restauração de seu entorno. O aumento de potencial de regeneração trazido pela intervenção por sua vez pode ser aproveitado para dar escala aos esforços de restauração no bioma.
Resta saber o “como” aproveitar esse novo potencial de regeneração. A abordagem da Regeneração Natural Assistida (RNA) é a solução para isso. Ela atinge altas taxas de sucesso em florestas tropicais e é ideal para dar escala à restauração. A RNA combina intervenções pontuais e planejadas no processo de regeneração natural para potencializá-lo. Essa abordagem além de possuir custo reduzido, se comparado a outras técnicas, também traz uma motivação socioeconômica ao gerar empregos e renda. Essa motivação é fundamental para um plano de restauração de sucesso, dado que além dos fatores biofísicos, os contextos sociais, econômicos e culturais não podem ser deixados de lado.
A pesquisa também apontou estados chave para a orientação de políticas de restauração. Dentre eles, os estados do Mato Grosso e Pará. O WRI Brasil já atua estrategicamente na regeneração de paisagens desses estados através do projeto “Regeneração Natural Assistida em larga escala na Amazônia brasileira”. Saiba mais sobre ele aqui.
Vale ressaltar que a restauração desse bioma deve levar em conta diversos fatores e ser adaptada de acordo com a necessidade de cada região. Se por um lado a restauração de áreas severamente degradadas traz diversos benefícios, a proteção de vegetações secundárias já em regeneração não pode ser deixada de lado. Outra recente pesquisa com autoria do WRI mostra como florestas secundárias mais velhas capturam até 8 vezes mais carbono se comparadas a novas florestas em regeneração. Logo, restaurar um bioma deve ser mais um mosaico que integra políticas do que uma única solução: enquanto em certas localidades devastadas o ideal podem ser intervenções mais intensas de restauração, em outros a proteção de vegetação que já está se regenerando é preferível.
Esses resultados obtidos podem contribuir para o avanço no cumprimento de compromissos legais e climáticos firmados pelo Brasil, como o Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (Planaveg), e metas estaduais, como o Plano de Recuperação da Vegetação Nativa do Estado do Pará (PRVN-PA). Além disso, podem subsidiar o desenvolvimento de políticas ambientais integradas, que promovam a articulação entre conservação ambiental, agricultura sustentável e ordenamento territorial.
Com a aproximação da COP30, esses achados reforçam a importância estratégica do Brasil — e, em especial, da Amazônia — nas discussões internacionais sobre a implementação de acordos globais e na redução dos impactos das mudanças climáticas.