Proteger as florestas em regeneração natural é uma solução fundamental – mas negligenciada
Proteger e restaurar florestas é essencial para combater as mudanças climáticas. No entanto, embora os esforços em geral sejam concentrados na conservação de florestas maduras e no plantio de novas árvores (ambas medidas necessárias), uma peça fundamental desse quebra-cabeça tem sido negligenciada: o manejo de florestas em regeneração natural para aumentar a quantidade de carbono que elas removem.
Até agora, os cientistas não tinham uma visão detalhada da contribuição das florestas em regeneração natural para a remoção de carbono. Mas uma nova pesquisa realizada pela The Nature Conservancy em parceria com o WRI e outros parceiros mostra que as “florestas secundárias”, em processo de regeneração natural (aquelas que voltaram a crescer após serem desmatadas por colheitas, incêndios, agricultura ou outros distúrbios), podem desempenhar um papel poderoso no combate às mudanças climáticas. Esse foi o primeiro estudo a mostrar onde e em que idades essas florestas podem ter o maior impacto.
Descobrimos que florestas secundárias com entre 20 e 40 anos de idade podem remover carbono da atmosfera até 8 vezes mais rápido por hectare do que florestas novas em crescimento natural – desde que consigam alcançar essas idades mais avançadas. A dificuldade é que muitas florestas secundárias não se regeneram por tanto tempo, seja devido a atividades humana (como desmatamento ou extração) ou em decorrência de distúrbios relacionados ao clima (como incêndios ou pragas).
Esses resultados indicam que os países podem estar subestimando o valor das florestas secundárias em regeneração natural em seus relatórios climáticos — e que protegê-las, ou incentivar sua regeneração por períodos mais longos, oferece oportunidades ainda não exploradas para a ação climática.
Quão rápido as florestas secundárias conseguem remover carbono?
A taxa com que florestas naturais removem carbono da atmosfera varia de acordo com o local e com a idade da floresta. Nos primeiros 100 anos de regeneração após uma floresta ser desmatada ou destruída (o intervalo considerado nesta pesquisa), as taxas de remoção de carbono em geral começam relativamente baixas, depois aceleram e voltam a diminuir. Isso significa que pode levar muitos anos até que florestas recém-estabelecidas ofereçam seus maiores benefícios climáticos.
Nossa nova pesquisa apresenta os primeiros mapas globais que mostram como essas taxas de remoção de carbono variam no espaço e no tempo à medida que florestas secundárias se regeneram naturalmente. Os mapas cobrem qualquer quilômetro quadrado da Terra onde florestas podem crescer. Estimativas anteriores não eram capazes de uma variação geográfica ou etária com esse nível de detalhamento nem ofereciam cobertura global.
Descobrimos que florestas em regeneração natural removem carbono mais rápido quando têm entre 20 e 40 anos de idade. Isso significa que florestas secundárias mais antigas podem proporcionar remoções de carbono mais imediatas e, muitas vezes, mais altas do que florestas mais jovens em regeneração.
No entanto, a idade em que as florestas atingem suas taxas máximas de remoção de carbono varia ao redor do mundo. Florestas tropicais e subtropicais úmidas (como a Amazônia e a Bacia do Congo) e algumas florestas temperadas (como nos Estados Unidos) capturam carbono mais rápido quando são mais jovens. Já florestas boreais (como no Canadá e na Rússia), florestas mediterrâneas e áreas florestadas em regiões de savana tropical e subtropical (como o Cerrado brasileiro) atingem suas taxas máximas – e geralmente mais baixas – de remoção de carbono em idades mais avançadas.
Taxas máximas de remoção de carbono também variam consideravelmente entre as regiões. Em média, florestas secundárias já estabelecidas, em seu pico de remoção, absorvem 10% mais carbono do que florestas em fase inicial de crescimento. Em algumas áreas, porém, essa diferença pode chegar a até 820%.
As taxas de remoção de carbono conforme a idade da floresta mudam de forma mais acentuada em florestas úmidas tropicais e subtropicais e são menos expressivas em florestas e bosques mediterrâneos. Ainda assim, dentro de cada uma dessas ecorregiões também existem variações, o que reforça a importância de entender como a remoção de carbono evolui ao longo do tempo em cada quilômetro quadrado de floresta potencial.
Sobre os dados
Para entender melhor a remoção de carbono por florestas em regeneração natural, desenvolvemos um modelo global de aprendizado de máquina que mapeia as taxas de remoção de carbono em florestas secundárias com até 100 anos. O modelo combina mais de 100 mil medições de campo de estoques de carbono em florestas de diferentes idades, considerando 66 variáveis ambientais, e prevê estoques de carbono com resolução de 1 quilômetro a cada 5 anos conforme a floresta envelhece. A partir dos mapas de estoques de carbono, foram derivadas curvas de acumulação de carbono. Os mapas resultantes mostram quanto carbono pode ser removido caso as florestas sejam deixadas para se regenerar de forma natural, sem grandes interferências, em qualquer idade e em qualquer local onde a presença de floresta seja natural. (Vale destacar que os mapas mostram o que aconteceria caso a regeneração ocorra, mas não indicam onde ela pode ou deve acontecer.)
Muitas florestas secundárias não chegam à idade-pico de remoção de carbono
Saber quando as florestas removem mais carbono é essencial. O mundo precisa intensificar drasticamente a ação climática nos próximos 25 anos (2025-2050) para alcançar as metas de neutralização de emissões e evitar os piores impactos da crise no clima. Esses novos dados mostram que florestas secundárias mais antigas estão entre as mais eficazes na remoção de carbono dentro dessa janela. E indicam com precisão quando e onde as florestas em regeneração podem gerar mais impacto.
Apesar dessa importância, as florestas secundárias em regeneração natural seguem negligenciadas nas políticas climáticas – e continuam sob ameaça. Nos trópicos, essas florestas se regeneram por uma média de apenas 7,5 anos antes de serem derrubadas, com apenas 6% alcançando 20 anos de crescimento. Na Amazônia brasileira, metade das florestas secundárias é desmatada em até oito anos. Na Costa Rica, onde o ciclo de corte é um dos mais longos da região, a idade média das florestas em regeneração ainda é de apenas 20 anos.
Isso significa que muitas florestas secundárias nunca atingem a idade-pico em que poderiam remover mais carbono, o que compromete não só seu potencial climático, mas também os benefícios que oferecem às pessoas e à natureza. Além de maior eficiência na remoção de carbono, permitir a regeneração natural – em vez de recorrer ao plantio ativo – pode trazer benefícios como a restauração da biodiversidade e a proteção de corpos d’água, a custos muito mais baixos.
O que essas descobertas implicam para as soluções climáticas baseadas na natureza?
Restaurar e proteger florestas são estratégias comprovadas, acessíveis e escaláveis para enfrentar a crise climática. Essas novas informações trazem reflexões valiosas sobre como priorizar os esforços de manejo florestal para maximizar seu impacto:
- Florestas secundárias devem ser protegidas ou mantidas em crescimento por mais tempo.
Atualmente, as florestas secundárias não costumam ser priorizadas nos esforços de proteção e restauração. Agora, porém, é possível quantificar a remoção de carbono que deixamos de obter ao derrubar essas florestas enquanto ainda são jovens. Embora manter as florestas maduras intactas e em pé continue sendo um esforço fundamental, esta pesquisa mostra que proteger florestas secundárias – ou, no caso de florestas de produção, adiar o corte raso até depois que a floresta atinja sua idade-pico de remoção de carbono – é uma medida que merece mais atenção, já que essas florestas em geral oferecem as maiores taxas de remoção de carbono por hectare. Além disso, algumas florestas não sobrevivem até sua idade-pico de remoção de carbono por conta de eventos como queda por vento, pragas, incêndios ou secas (que são fenômenos naturais, mas agravados pelas mudanças climáticas). Para proteger florestas secundárias de forma eficaz, é preciso torná-las resilientes a esses riscos.
- A regeneração natural de florestas em larga escala precisa começar agora.
Dessa forma, novas florestas poderão atingir sua idade-pico de remoção de carbono dentro da janela de tempo necessária para alcançar as metas climáticas. Nossa pesquisa mostra ainda que adiar a regeneração natural por cinco ou dez anos reduz o potencial de remoção de carbono global em 25% ou 50%, respectivamente, até meados do século. Ou seja, começar agora a regeneração em todas as áreas passíveis de reflorestamento é fundamental para aproveitar esse potencial a tempo de cumprir as metas climáticas.
- Formuladores de políticas públicas e órgãos de gestão territorial podem tomar decisões mais estratégicas sobre o manejo florestal.
Esses mapas podem indicar onde e quando serão maiores os retornos de permitir que as florestas se regenerem ou continuem crescendo como uma solução natural para o clima. Esses resultados podem ser combinados com mapas de oportunidades de restauração florestal para estimar a remoção de carbono em novas florestas ao longo de períodos de tempo específicos. Também podem ser integrados com mapas que mostram a idade de florestas secundárias em regeneração natural e com mapas de risco de perda florestal, para estimar o quanto de carbono essas florestas poderiam remover se fossem mantidas em pé por mais tempo.
- Os países podem aprimorar seus inventários de carbono e fazer projeções climáticas mais precisas.
Em comparação com as taxas de remoção das diretrizes para inventários de GEE do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), uma referência comumente utilizada pelos países, as taxas de remoção de carbono que encontramos são 26% mais baixas para florestas com menos de 20 anos e 18% mais altas para aquelas com 20 a 100 anos (com variações regionais). Isso significa que governos e outras instituições que usam as taxas do IPCC provavelmente subestimam as remoções de carbono por florestas secundárias mais velhas. Estimativas aprimoradas poderiam ser utilizadas na elaboração de Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) e em ações de conservação territorial, entre outras frentes.
A proteção de florestas secundárias deve caminhar junto com a conservação de florestas maduras (ricas em carbono e biodiversidade) e com o investimento na restauração de áreas desmatadas, gerando benefícios de longo prazo para o clima e o meio ambiente. Em outras palavras, não se trata de escolher entre uma ou outra estratégia, e sim de adotar todas elas.
A conservação e a restauração também precisam ser feitas de forma a beneficiar mais de 1 bilhão de pessoas que vivem próximas a florestas ou dependem delas. Florestas secundárias são muito utilizadas por comunidades rurais ou de baixa renda como fonte de sustento, e sua proteção deve considerar as necessidades, os saberes e os desejos dessas comunidades locais.
Apoiando soluções climáticas mais eficazes
Com as florestas ameaçadas e subvalorizadas, o mundo precisa mobilizar todos os recursos disponíveis para demonstrar o valor que elas oferecem e priorizar sua proteção. Manter florestas secundárias existentes, conservar florestas maduras e permitir o crescimento de novas florestas são ações igualmente importantes para fortalecer o papel dos sumidouros de carbono florestais globais – mas tudo isso precisa ser feito ao mesmo tempo em que se garantem alimentos, fibras e outros recursos em uma terra finita para uma população crescente.
O mapeamento de taxas de remoção de carbono em florestas é um campo que tem avançado rapidamente. Ainda é necessário obter mais dados de regiões sub-representadas, como grande parte dos trópicos (especialmente na África). Também precisamos compreender melhor os fatores humanos e ambientais que afetam o acúmulo de carbono nas florestas. Isso pode ajudar a determinar com mais precisão onde e como focar os esforços de proteção florestal para maximizar os benefícios climáticos das remoções de carbono baseadas na natureza, sem perder de vista as necessidades sociais e outros serviços ecossistêmicos conforme cada contexto.
Esses mapas oferecem mais uma evidência do valor das florestas. As novas informações podem ajudar profissionais e tomadores de decisão a focar esforços de restauração e proteção florestal para que sejam os mais eficazes possíveis no combate às mudanças climáticas.
Este artigo foi escrito em colaboração com Susan Cook-Patton e Nathaniel Robinson, da The Nature Conservancy.