Para transformar os sistemas alimentares, é preciso olhar para a diversidade da Agricultura Familiar
Estudo do WRI Brasil em parceria com a FOLU Brasil mostra como diferenças de território, acesso a recursos produtivos, gênero e raça ajudam a explicar a diversidade e as desigualdades dentro da agricultura familiar
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A Agricultura Familiar é fundamental para a produção de alimentos, a geração de renda e a segurança alimentar e nutricional no Brasil.
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Tratar a Agricultura Familiar como uma categoria única pode ocultar diferenças entre produtores, territórios e sistemas produtivos.
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O estudo mostra que a diversidade da Agricultura Familiar convive com desigualdades no acesso à terra, ao crédito, à assistência técnica e a outros recursos produtivos.
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Reconhecer essa heterogeneidade é essencial para aprimorar políticas públicas, ampliar oportunidades e fortalecer sistemas alimentares mais inclusivos, resilientes e sustentáveis.
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Valorizar a diversidade da Agricultura Familiar é fundamental para enfrentar desigualdades e ampliar seu potencial econômico, produtivo e territorial.
A agricultura familiar está presente em diferentes regiões, cadeias produtivas e sistemas de produção no Brasil. São 77% dos estabelecimentos agropecuários do país, responsáveis por mais da metade do Valor Bruto da Produção de 142 produtos. Essa presença faz dela um ator relevante não apenas para o desenvolvimento dos territórios, mas também para a segurança alimentar e nutricional do país. Ao mesmo tempo, os agricultores familiares têm condições muito diferentes de acesso à terra, assistência técnica, crédito, mecanização e mercados.
Entender essa diversidade é importante para avançar na transformação dos sistemas alimentares. É o que mostra o estudo “Desigualdades estruturais e heterogeneidade da Agricultura Familiar no Brasil a partir do Censo Agropecuário 2017”, que analisa como fatores territoriais, produtivos e sociodemográficos influenciam as condições de produção da agricultura familiar brasileira.
Uma agricultura familiar, diferentes realidades
Falar em agricultura familiar como uma categoria única pode esconder diferenças importantes entre produtores e territórios. As condições de produção variam conforme a região, o tamanho da propriedade, o sistema produtivo, o acesso a recursos e as características de quem produz.
O estudo identifica três perfis exploratórios de agricultura familiar. No Norte e Nordeste, predominam estabelecimentos menores e com menor acesso à assistência técnica, crédito e mecanização. No Sul e Sudeste, há maior acesso a esses recursos e maior inserção produtiva, embora, como nas demais regiões, desigualdades de gênero e raça permaneçam. Já no Centro-Oeste, a agricultura familiar representa uma parcela menor dos estabelecimentos e está inserida em contextos de maior concentração fundiária e especialização produtiva.
Esses perfis não definem de forma rígida a realidade dos agricultores, mas ajudam a mostrar como diferentes contextos exigem diferentes caminhos para fortalecer a produção.
Desigualdades também estão no acesso aos recursos
As diferenças aparecem também no acesso a condições que podem ampliar a produtividade e a capacidade de adaptação dos produtores.
Entre os estabelecimentos de agricultura familiar, apenas 18,2% recebem assistência técnica, 15,4% acessam crédito rural e 11,5% possuem tratores. O acesso também varia entre grupos. Mulheres estão à frente de 19,7% desses estabelecimentos e, entre aqueles liderados por mulheres, a proporção que recebe assistência técnica ou possui tratores é menor do que entre os liderados por homens.
As desigualdades raciais também aparecem no acesso à terra. Produtores pretos, pardos e indígenas estão proporcionalmente mais concentrados nos estabelecimentos de menor área: enquanto 28,6% dos estabelecimentos familiares dirigidos por produtores brancos têm até cinco hectares, essa proporção chega a 51% entre produtores pretos, 46,1% entre pardos e 70,8% entre indígenas. Essas diferenças influenciam a capacidade de investir, acessar mercados, agregar valor à produção e responder a mudanças econômicas e climáticas, fatores importantes para uma transformação dos sistemas alimentares que seja inclusiva e sustentável.
Diversidade produtiva pode fortalecer sistemas alimentares sustentáveis
Apesar das desigualdades, a diversidade da agricultura familiar é também uma oportunidade para construir sistemas alimentares mais sustentáveis, resilientes e inclusivos.
A agricultura familiar tem participação relevante em diferentes cadeias de produção. Representa 76% dos estabelecimentos produtores de bovinos, 80,6% dos de suínos e 80,1% dos de aves e ovos.
Essa presença também se expressa na produção de alimentos importantes para diferentes regiões, como mandioca, leite, cacau e açaí cultivado. A diversidade produtiva da agricultura familiar contribui para a segurança alimentar e nutricional, a geração de renda e o dinamismo das economias locais e regionais. Também pode contribuir para sistemas alimentares mais resilientes, capazes de responder a mudanças nos mercados e eventos climáticos, ao mesmo tempo em que fortalece os meios de vida de quem produz.
Transformar os sistemas alimentares envolve, olhar de forma integrada para produção e consumo, uso da terra, conservação e restauração da natureza, políticas públicas, mercados e meios de vida.
Diferentes realidades exigem diferentes estratégias
A transformação dos sistemas alimentares depende de condições que permitam aos produtores aumentarem sua capacidade produtiva de forma sustentável.
Para a agricultura familiar, isso passa por ampliar o acesso a recursos e oportunidades, como assistência técnica, crédito, tecnologias adequadas, infraestrutura, pesquisa e inovação, processamento e agregação de valor, organização coletiva e mercados.
Mas não há uma única estratégia capaz de responder às diferentes realidades identificadas pelo estudo. As necessidades não são iguais em todo o país. Estratégias para fortalecer a agricultura familiar precisam considerar as características dos territórios, suas vocações produtivas e as condições sociais, ambientais e econômicas de quem produz.
Uma abordagem mais integrada, que considere essas diferenças, pode gerar ganhos ao mesmo tempo para quem produz, para os territórios e para a natureza.
Mais dados para compreender a agricultura familiar
O Censo Agropecuário 2017, a fonte de dados mais abrangente sobre os estabelecimentos agropecuários brasileiros, permite enxergar diferenças que podem desaparecer quando os dados são analisados apenas de forma agregada. Embora represente um retrato daquele momento, sua abrangência possibilita identificar características e desigualdades estruturais importantes da agricultura familiar.
Ao cruzar características territoriais, produtivas e sociodemográficas, o estudo mostra que compreender a agricultura familiar exige olhar para além dos números nacionais. Ao mesmo tempo, os dados disponíveis ainda apresentam limitações para analisar algumas dimensões, como organização coletiva, participação em mercados institucionais, pluriatividade e outras características dos sistemas produtivos.
Aprimorar e integrar as informações disponíveis sobre a agricultura familiar pode contribuir para compreender melhor como características sociais, produtivas e territoriais se combinam e para orientar políticas, investimentos e outras estratégias mais adequadas às diferentes realidades. O próximo Censo Agropecuário, previsto para 2027, representa uma oportunidade importante para atualizar esse retrato, mas também é necessário avançar na integração com outras bases de dados e em análises que permitam acompanhar essas transformações ao longo do tempo.
Reconhecer a diversidade para transformar os sistemas alimentares
Transformar os sistemas alimentares exige reconhecer quem produz, em quais territórios e sob quais condições. Os resultados apresentados mostram que a diversidade da agricultura familiar é uma característica central para pensar esse processo.
Fortalecer a agricultura familiar e enfrentar as desigualdades que limitam o acesso a recursos e oportunidades pode tornar esses sistemas mais sustentáveis, inclusivos e resilientes.
Mais do que tratar a agricultura familiar como um grupo homogêneo, compreender suas diferentes realidades é um passo para construir estratégias capazes de ampliar oportunidades para quem produz e fortalecer os sistemas alimentares, combinando segurança alimentar e nutricional, geração de renda, proteção da natureza e desenvolvimento econômico.