Plano de segurança alimentar pode inspirar municípios no combate a fome
O Brasil conseguiu reduzir com sucesso, nos últimos dois anos, as graves taxas de fome e insegurança alimentar no país.
Ainda assim, os dados do IBGE mostram que cerca de 6 milhões de pessoas enfrentam a fome diariamente, e outros 9 milhões enfrentam insegurança alimentar moderada - quando há falta de qualidade e redução na quantidade de alimentos.
Mudar esse quadro exige não só o sucesso de políticas para a segurança alimentar na esfera federal, como o Plano Brasil sem Fome, como também a participação ativa de outros atores. Para fortalecer a agenda alimentar urbana, as cidades podem ser atores-chave.
Um exemplo desse protagonismo vem da cidade de Campinas. Nesta última quarta-feira, a cidade lançou o II Plano Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional (PLAMSAN 2026-2029). O documento, elaborado de forma participativa e com apoio técnico do WRI Brasil, estabelece metas e estratégias para assegurar o Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA), enfrentando os desafios da fome, da má nutrição e da insegurança alimentar.
Principais metas e ações do II PLAMSAN
A experiência de Campinas mostra como planos municipais de segurança alimentar e nutricional podem contribuir para integrar políticas públicas de saúde, assistência social, trabalho e renda, agricultura urbana e educação.
O plano está estruturado em três grandes eixos, com desafios e metas específicas até 2029:
- Acesso à alimentação adequada e à água de qualidade: criação de cozinhas comunitárias e refeitórios descentralizados em áreas vulneráveis; ampliação do programa Bom Prato e instalação de pontos de aceso gratuito à água potável, principalmente para a população em situação de rua.
- Produção sustentável e abastecimento: fortalecimento da agricultura familiar e urbana, regulamentação de feiras livres e ampliação das compras institucionais de produtores locais.
- Educação alimentar e integração com a saúde: criação de novos polos de Educação Alimentar e Nutricional (EAN), diagnóstico nutricional da população e fortalecimento da oferta de dietas adequadas em todas as fases da vida.
Essas metas buscam transformar o sistema alimentar de Campinas em uma rede mais resiliente, saudável e inclusiva, capaz de enfrentar crises e reduzir desigualdades.
Ao adotar uma abordagem intersetorial e participativa, o município reforça a importância da governança local para enfrentar a fome e promover sistemas alimentares sustentáveis.
Um roteiro que pode ser exemplo para demais municípios
Mais do que uma política pública, o Plano de Segurança Alimentar e Nutricional de Campinas é um roteiro estratégico que conecta governo, sociedade civil, academia e organizações internacionais em torno de um mesmo objetivo: construir um sistema alimentar local mais justo, saudável e sustentável.
Esse roteiro pode servir de exemplo para demais municípios, ajudando a combater a fome e fortalecer a segurança alimentar no ambiente urbano.
A elaboração do plano foi fruto de um processo intersetorial e participativo. Reuniu a Comissão Intersetorial de Segurança Alimentar e Nutricional (CAISAN Campinas), o Conselho Municipal de Segurança Alimentar e Nutricional (COMSEA), a Defesa Civil, universidades, agricultores familiares, cozinhas solidárias e organizações da sociedade civil.
O WRI Brasil contribuiu desde o ano passado, no início do planejamento e na construção de uma metodologia participativa e baseada em evidências, garantindo que as prioridades locais fossem traduzidas em metas claras e indicadores de monitoramento. Além disso, a instituição integra o Comitê Técnico Permanente de Monitoramento, acompanhando o cumprimento das metas ao longo dos quatro anos de vigência.
Um plano alinhado a agendas nacionais e globais
O II PLAMSAN Campinas foi construído seguindo as Diretrizes do Plano Nacional, bem como do Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (SISAN), com a Estratégia Alimenta Cidades, do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), e com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da agenda 2030. Além disso, a cidade faz parte do Pacto de Milão sobre Política de Alimentação Urbana, um acordo não vinculativo voltado para políticas alimentares nas cidades, que incentiva a troca de ideias e propostas sobre como enfrentar, de forma prática, desafios comuns relacionados à alimentação. A iniciativa deu origem a uma rede de municípios comprometidos com o desenvolvimento e a implementação de sistemas alimentares sustentáveis.
Esse alinhamento garante que Campinas avance em soluções locais que dialogam com desafios globais, como a redução da fome, um problema endêmico e histórico no país, a promoção da saúde, a valorização da produção local e a adaptação às mudanças climáticas.
A elaboração do II PLAMSAN é um exemplo de como o apoio técnico e metodológico pode fortalecer a capacidade dos municípios de planejar e monitorar políticas públicas. Essa experiência contribui para a construção de referências que podem orientar outros territórios brasileiros em iniciativas semelhantes.
Projetos
Sistemas Alimentares Sustentáveis
Programa de Florestas