Quando o tempo esquenta em Belo Horizonte, os moradores do Morro do Papagaio encontram formas criativas de lidar com a situação.

“Muita gente coloca o cobertor na geladeira”, conta Amanda Lima, estudante universitária de 24 anos, ativista e moradora da região centro-sul de Belo Horizonte. “Quem pode fica em casa o mais quieta possível, tentando se refrescar, bebendo água o tempo todo. Mas a maioria precisa trabalhar, correr atrás.”

A temperatura na cidade – a sexta maior do Brasil – aumentou 3°C neste século, segundo declarações recentes do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET). Se esse dado já é preocupante para a população em geral, é ainda mais alarmante para quem vive em assentamentos informais como o Morro do Papagaio.

“Quando faz calor lá, é sempre muito quente”, diz Lima. “Não tem arborização, as casas são muito próximas umas das outras, não tem ventilação. E as pessoas não têm ar condicionado para deixar o ambiente mais confortável.” Sem medidas de mitigação, os moradores de comunidades informais ficam mais expostos a riscos como desidratação, insolação, sobrecarga cardiovascular e problemas de saúde mental, de acordo com a Organização Mundial da Saúde.

O Morro do Papagaio, em Belo Horizonte, é uma área especialmente vulnerável durante ondas de calor intenso. A alta densidade das moradias e o acesso limitado a ventilação e ar condicionado ampliam o risco para os moradores.
Em comunidades como o Morro do Papagaio, em Belo Horizonte, a alta densidade das moradias e o acesso limitado a ventilação e ar condicionado ampliam o risco para os moradores. (Foto: Fora do Eixo/Flickr)

O calor é uma ameaça cada vez mais grave em todo o mundo, mas seus impactos sobre as pessoas e a infraestrutura variam de cidade para cidade. O ambiente construído (como prédios e vias) e a infraestrutura natural (árvores e corpos d’água, entre outros) podem tanto intensificar quanto amenizar o calor local e seus efeitos sobre a saúde. Entender como essas variações se manifestam em diferentes territórios – e, consequentemente, como diferentes grupos são afetados – é fundamental para formular políticas públicas mais eficazes.

Para responder a essas questões, o WRI e o projeto Salud Urbana en América Latina (SALURBAL), da Universidade Drexel, estão conduzindo pesquisas e promovendo engajamento comunitário em Belo Horizonte e Campinas, duas cidades que já enfrentam episódios frequentes de calor extremo e estão comprometidas em atuar para reduzi-lo. O projeto colaborativo Calor e Saúde em Cidades Brasileiras investiga como o calor urbano interage com características físicas e socioeconômicas das cidades para impactar a saúde e o bem-estar da população.

Desde 2024, especialistas do WRI Brasil, do WRI e do Salurbal promovem encontros e oficinas regulares para compreender os desafios relacionados ao calor em cada cidade. A equipe trabalha em colaboração com secretarias de saúde, meio ambiente e defesa civil, além de profissionais que atuam diretamente com a população, como agentes comunitários de saúde e professores da rede municipal. O objetivo é apoiar o desenvolvimento de políticas mais integradas e eficazes na interseção entre clima, meio ambiente, infraestrutura e saúde, garantindo que funcionem em bairros com diferentes níveis de exposição ao calor e vulnerabilidade a seus efeitos.

Como a densidade construtiva influencia o calor urbano

Tanto em Belo Horizonte quanto Campinas, os períodos de calor extremo não atingem todos os bairros nem todos os moradores da mesma forma. Pessoas de baixa renda, que em geral vivem em áreas mais densas e com poucos recursos como áreas verdes e ventilação adequada, tendem a sentir os efeitos do calor com maior intensidade.

Comunidades como o Morro do Papagaio são particularmente vulneráveis durante ondas de calor. Do lado de fora, ruas estreitas e sem árvores retêm o calor. O adensamento dificulta a implementação de soluções que poderiam ser eficazes em outras áreas, como o aumento da cobertura arbórea, que seria capaz de reduzir a temperatura local em vários graus. Um estudo do WRI Brasil mostrou que, em Belo Horizonte, a população de baixa renda tem cinco vezes menos acesso a áreas verdes.

Amanda Lima (a estudante moradora do Morro do Papagaio) afirma que gostaria de ver mais árvores e espaços verdes na comunidade, mas reconhece as dificuldades. “A Prefeitura tem uma ótima iniciativa que permite aos moradores solicitar o plantio de árvores”, diz. “Mas nas favelas isso é mais complicado, porque as casas são muito próximas.”

Em Campinas, o Jardim Bassoli, embora seja um bairro formalmente estruturado, enfrenta desafios semelhantes. Segundo Eduardo Feliz Sobrinho Trevisolli, agente comunitário de saúde da região, os condomínios altos e padronizados que compõem o bairro “têm características de uma favela verticalizada e compartilham desafios semelhantes, como a perda de áreas verdes e de espaços comuns”. Localizado na periferia, o bairro sofre com pouca ventilação e falta de manutenção para apoiar os moradores em períodos de clima extremo.

Residencial Jardim Bassoli
No Jardim Bassoli, os condomínios altos e a falta de árvores e áreas verdes tornam os períodos de calor intenso ainda mais difíceis. Foto: Roosevelt Cássio/WRI Brasil

No centro da cidade, edifícios mais altos, arborização e amplos espaços para pedestres oferecem algum alívio térmico. Já em áreas periféricas como o Jardim Bassoli, explica Trevisolli, a ausência de árvores e calçadas adequadas dificulta a circulação durante ondas de calor, em especial para idosos, pessoas com mobilidade reduzida e crianças.

À medida que cidades no Brasil e no mundo enfrentam períodos cada vez mais prolongados de calor extremo, é essencial compreender quais comunidades são mais vulneráveis – e por quê. Ao trabalhar diretamente com territórios como o Morro do Papagaio e o Jardim Bassoli, o projeto Calor e Saúde em Cidades Brasileiras busca entender como os desafios relacionados ao calor variam dentro das mesmas cidades e quais fatores físicos e socioeconômicos mais influenciam essas desigualdades. A partir desse entendimento, a iniciativa busca promover soluções específicas para cada comunidade, que complementem estratégias municipais e nacionais.

Como o calor urbano afeta a saúde pública e o sistema de saúde

Saúde e bem-estar estão no centro dos desafios impostos pelo calor extremo. Em Belo Horizonte e Campinas, profissionais da saúde acompanham de perto o aumento dos casos e a pressão crescente sobre a capacidade de atendimento. Envolver esses profissionais na busca por soluções e compreender suas necessidades é um dos pilares do projeto, que pretende desenvolver orientações adaptadas à realidade de cada comunidade.

Em uma tarde quente de outubro de 2025, a equipe reuniu mais de 70 profissionais de saúde em Belo Horizonte para compartilhar percepções sobre os impactos do calor extremo tanto na população quanto nos trabalhadores da linha de frente.

reunião de pessoas
Equipe do projeto em um workshop de sensibilização realizado em Belo Horizonte. (Foto: Vitor Tornello/WRI Brasil)

“Os mais afetados são idosos e crianças, principalmente porque não consomem líquido o suficiente”, afirmou Penha Rosária Costa Paula, profissional de um centro de saúde da capital mineira. A falta de acesso à água potável com frequência leva moradores a buscar atendimento médico, seja por desidratação ou pelo consumo de água inadequada.

“Algumas comorbidades, como hipertensão, também se agravam”, acrescentou sua colega, Milvânia Magalhães dos Santos.

Agentes comunitários como Penha e Milvânia atuam em territórios vulneráveis e veem de perto como o calor agrava outros problemas de saúde. De Campinas, Trevisolli faz um relato semelhante: “Durante períodos de calor intenso, há um aumento na demanda por atendimento nas unidades básicas de saúde, tanto por problemas respiratórios quanto cardiovasculares”, afirma, falando de sua experiência com o atendimento aos moradores do Jardim Bassoli.

Os diálogos do projeto com gestores e profissionais evidenciaram a necessidade de maior apoio para lidar com os impactos do calor na saúde. Isso inclui ações voltadas a grupos vulneráveis (como idosos, crianças e pessoas com comorbidades) e moradores de áreas com infraestrutura precária e pouco acesso a serviços básicos. Também ficou clara a necessidade de políticas mais robustas para proteger os próprios trabalhadores da saúde, uma vez que se deslocam de porta em porta em comunidades vulneráveis, expostos a altas temperaturas. “Viver esse momento climático é uma guerra – ter que trabalhar sob uma temperatura de 38°C”, ressalta Milvânia.

centro de saúde taquaral
Em centros de saúde em Campinas, são frequentes os atendimentos relacionados ao calor, como desidratação e insolação. (Foto: Roosevelt Cássio/WRI Brasil)

O governo federal publicou guias com orientações de prevenção, cuidado e vigilância sobre os impactos do clima na saúde. A atuação de profissionais locais é essencial para que essas diretrizes cheguem rapidamente às comunidades, especialmente às mais vulneráveis aos riscos do calor extremo.

Do global ao local

O trabalho para compreender as desigualdades relacionadas ao calor e à saúde nas comunidades em Belo Horizonte e Campinas ocorre em um contexto de crescente reconhecimento global sobre a urgência de enfrentar o calor extremo. Durante a COP30, realizada em novembro de 2025 em Belém (PA), o tema ganhou destaque na agenda internacional. Líderes anunciaram o Plano de Ação em Saúde de Belém, uma iniciativa abrangente criada para mobilizar recursos para os sistemas de saúde, a fim de aprimorá-los para responder aos desafios impostos pelas mudanças climáticas. Ao mesmo tempo, centenas de cidades aderiram à iniciativa Beat the Heat, que apoia governos locais no avanço de soluções baseadas na natureza e estratégias passivas de resfriamento, oferecendo capacitação, ferramentas e acesso a financiamento.

Também na COP30, moradores de comunidades vulneráveis de Belo Horizonte entregaram à presidência da conferência um manifesto reivindicando maior reconhecimento aos desafios enfrentados por quem vive em favelas. Inspirado no trabalho de Amanda Lima, que elaborou uma Carta de Direitos Climáticos do Morro do Papagaio, o documento ampliou e unificou a reivindicação por mais investimentos, ampliação de áreas verdes e participação comunitária efetiva e justa nas decisões que influenciam o futuro dos territórios mais vulneráveis da cidade. Em meio aos compromissos anunciados na conferência, Amanda e outros moradores de assentamentos informais deixaram um recado claro: políticas voltadas à mitigação do calor extremo nas cidades precisam considerar as diferentes realidades dos territórios urbanos, sobretudo as das comunidades mais vulneráveis.

Calor e Saúde em Cidades Brasileiras: próximos passos

O projeto Calor e Saúde em Cidades Brasileiras responde a esse chamado ao desenvolver uma abordagem replicável para envolver diferentes comunidades e os atores mais impactados em processos de pesquisa e formulação de políticas públicas. A participação comunitária e o engajamento entre diferentes setores estão no centro da iniciativa. Em cada cidade, equipes do WRI e do SALURBAL reuniram dezenas de representantes de diferentes secretarias municipais em grupos de trabalho voltados à construção de soluções concretas para a resiliência ao calor, combinando evidências produzidas pelas equipes de pesquisa do projeto com as necessidades específicas de cada comunidade.

Enquanto pesquisadores utilizam análises de dados inovadoras para identificar onde o calor extremo representa mais riscos e quais populações são mais afetadas, a equipe do projeto também promove oficinas dentro das próprias comunidades, convidando moradores a participar das discussões sobre calor, saúde e vulnerabilidade social. Esses encontros vão além da sensibilização: também geram informações valiosas sobre como o calor é sentido e enfrentado nos diferentes territórios, os pontos em que as políticas têm funcionado ou não e quais grupos estão mais expostos aos riscos.

As próximas atividades do projeto continuarão aprofundando essa abordagem participativa com a realização de painéis públicos, mesas-redondas sobre os impactos do calor e novas oficinas em ambas as cidades. Com o tempo, a partir da identificação dos desafios – e à medida que os resultados das pesquisas forem integrados aos conhecimentos e experiências locais –, esses esforços devem avançar para a etapa de construção conjunta de orientações e definição de ações que sejam ao mesmo tempo tecnicamente consistentes e socialmente justas.

Ao longo do próximo ano, os aprendizados obtidos por meio de análises de dados, diálogos com as comunidades e grupos de trabalho serão consolidados em roteiros específicos para cada cidade e servirão de base para recomendações de políticas públicas. A proposta não é criar novos marcos do zero, mas apoiar cada município no aprimoramento e fortalecimento de iniciativas já existentes para enfrentar o calor extremo.

bairro em Belo Horizonte
Na região norte de Belo Horizonte, árvores ajudam a reduzir a temperatura local. (Foto: Jackson Romanelli/WRI Brasil)

Em Campinas, por exemplo, o orçamento municipal já prevê recursos específicos para adaptação climática. As recomendações do projeto podem contribuir para orientar como esses recursos serão utilizados, com atenção especial às populações e territórios mais expostos aos impactos do calor sobre a saúde. Oportunidades semelhantes também existem em Belo Horizonte, onde planos já existentes podem se beneficiar de evidências mais detalhadas e baseadas na realidade das comunidades.

Ao engajar as comunidades ao longo de todo o processo de pesquisa e formulação de políticas, o projeto Calor e Saúde em Cidades Brasileiras demonstra que enfrentar o calor extremo exige mais do que dados e planejamento: é necessário manter diálogo contínuo, construir relações de confiança e assumir um compromisso claro com a equidade, garantindo que as soluções sejam construídas a partir da experiência de quem mais sente os impactos e contribuam para cidades mais saudáveis e justas.

O projeto Calor e Saúde em Cidades Brasileiras é apoiado pelo Wellcome Trust e liderado pelo WRI Ross Center for Sustainable Cities, WRI Brasil e SALURBAL. A equipe internacional também inclui o WRI México; a Urban Health Collaborative, da Universidade Drexel; a Universidade Federal de Minas Gerais; a Universidade de São Paulo; a Fundação Oswaldo Cruz; e a Universidade da Califórnia.

Este artigo está disponível em inglês no TheCityFix.

Featured WRI Experts:
Vitor Tramontin Tornello -

Analista Pleno de Adaptação Urbana

Clara Strack -

Assistente de Adaptação Urbana

Fernando Corrêa -

Coordenador de Comunicação

Lara Caccia -

Coordenadora de Adaptação Urbana