Como Atlanta fez de uma antiga linha férrea um caminho para se tornar mais saudável e conectada
Atlanta Beltline é hoje um cinturão de 35 quilômetros conectando trilhas, parques, habitações populares e comércios locais, que mostra como o crescimento urbano pode criar comunidades saudáveis e amigas do clima.
Logo cedo em um dia de semana, em Atlanta, nos Estados Unidos, uma coreografia cotidiana toma forma ao longo de uma via: estudantes do ensino médio seguem para o norte a caminho da escola; alunos mais novos vão para o sul, com suas mochilas balançando enquanto pedalam; patinetes elétricos cruzam por corredores e pessoas passeando com seus cães ou caminhando com um café na mão. Apenas uma geração atrás, cenas como essa não aconteciam na cidade.
A Atlanta Beltline, antigamente uma linha ferroviária de carga abandonada, é hoje um anel de 35 quilômetros que se tornou uma rede vibrante de trilhas, parques, habitações populares e comércios locais. “Antes da Beltline, Atlanta não era o tipo de lugar onde você gostaria de andar de bicicleta”, comenta Ryan Gravel, urbanista cuja dissertação de mestrado deu origem ao projeto. Agora, o cenário é outro: “Se fosse mais cedo, veríamos meu filho indo de bicicleta para a escola. É impressionante que isso seja possível”, afirma.
A forma como uma cidade em rápido crescimento se desenvolve tem implicações profundas. Atlanta há muito era definida pelo trânsito intenso e pela expansão desordenada. A Beltline, porém, demonstra como o crescimento urbano acelerado pode ser saudável, favorável ao clima e prazeroso.
“Seu lugar favorito para se divertir”
Todos os anos, mais de 2 milhões de pessoas passam pela Beltline, um eixo central que hoje conecta 45 bairros anteriormente fragmentados. Por décadas, rodovias e linhas férreas retalharam a cidade, muitas vezes isolando comunidades historicamente negras. Com a aceleração da expansão urbana e da dependência do uso dos carros durante as décadas de 1990 e 2000, as famílias ficaram desconectadas de empregos, áreas verdes e serviços essenciais. O que começou como uma visão ambiciosa para reaproveitar linhas ferroviárias desativadas tornou-se um esforço concreto para desfazer divisões históricas, qualificar o espaço público e retraçar o caminho rumo a uma cidade mais saudável.
“Se você nunca esteve em Atlanta, pense no seu lugar favorito para se divertir”, convida Clyde Higgs, presidente e CEO da Atlanta Beltline, Inc. (ABI), organização semipública que lidera o projeto. “Tudo o que importa para você nesse espaço, a Beltline oferece. Ela conecta tudo o que você ama sem que você precise entrar em um veículo particular”, avalia.
Higgs descreve a Beltline como “o projeto das pessoas”. Uma iniciativa moldada pela comunidade e concebida para promover uma vida saudável, reunindo infraestrutura verde, moradias acessíveis, oportunidades econômicas e transporte em um mesmo corredor. “A era de criar praças isoladas ficou para trás”, afirma. “Esse é um projeto de revitalização urbana realmente abrangente.”
A saúde no coração da Beltline
A saúde é fundamental para o sucesso da Beltline, projetada para que caminhar, correr e pedalar se tornem parte do dia a dia da população. Durante a pandemia da Covid-19, o cinturão verde e de mobilidade se tornou um respiro para muitos moradores, um dos poucos lugares onde as pessoas podiam se mexer, conviver e respirar livremente.
“A saúde é um dos maiores ganhos da Beltline”, afirma Higgs. “E estamos falando de todo o espectro desse conceito.”
A Beltline abriga o maior programa gratuito de atividades físicas do sudeste dos Estados Unidos, oferecendo uma ampla variedade de aulas – de yoga a Zumba –, realizadas em parques públicos e ao longo do corredor. Feiras itinerantes levam clínicas móveis e unidades de triagem à Beltline por meio de parcerias com a Associação Americana de Saúde e departamentos locais de saúde. E existem ainda programas voltados ao bem-estar mental e à conexão social.
“Acompanhamos de perto pessoas perdendo peso com nossos programas”, diz Tamia Goodman, diretora associada do Engage Programs da ABI e nascida em Atlanta. “Nós aproximamos as pessoas de recursos de saúde, permitindo que façam – em muitos casos pela primeira vez – exames preventivos para doenças crônicas que nem sabiam que tinham”, comenta. Caminhar, acrescenta ela, é muito mais do que exercício: é um caminho para o bem-estar mental e para criar laços com a vizinhança.
Os benefícios da Beltline para a saúde também estão relacionados à natureza. Em parceria com a Trees Atlanta, organização sem fins lucrativos dedicada à proteção das árvores da cidade, mais de sete mil árvores foram plantadas, transformando antigas áreas industriais em um ecossistema natural saudável. Uma vez concluído, a previsão é de que se torne a maior coleção de árvores linear do mundo.
“Antigamente, este corredor era um depósito de lixo e de plantas invasoras como o kudzu”, diz Greg Levine, diretor executivo da Trees Atlanta, que mora às margens da trilha leste. “Agora, está se transformando em um cinturão de cura que atravessa a cidade.”
Até o momento, a Beltline já recuperou 30 hectares de terrenos industriais contaminados e criou 190 hectares de novas áreas verdes, levando sombra, drenagem de águas pluviais e lazer seguro para bairros que foram desassistidos por muito tempo.
Aprender com o passado
O êxito da Beltline, porém, trouxe custos. À medida que os bairros se tornaram mais valorizados, os preços dos imóveis subiram, dificultando a permanência de moradores antigos e pequenos negócios – efeitos que não foram totalmente previstos no início do projeto.
“A moradia acessível sempre foi um objetivo”, garante Dennis Richards, vice-presidente de política habitacional e desenvolvimento da ABI. “Mas não se sabia como chegar lá.”
Em algumas áreas, a rápida valorização imobiliária causou deslocamentos, especialmente em comunidades negras. Diante desse cenário, a administração de Atlanta passou a exigir a construção de moradias populares em novos empreendimentos. Até o momento, mais de 6.300 unidades acessíveis foram criadas ou preservadas ao longo do corredor da Beltline.
Também foram criadas organizações para ajudar a financiar novas casas e amenizar os impostos para moradores antigos. Empreendimentos como o Madison Reynoldstown – um edifício de 116 apartamentos populares ao longo da parte sudeste da Beltline – são um exemplo disso.
“Com habitação acessível, é possível trazer de volta à comunidade as pessoas que ajudaram a construí-la”, avalia a gerente comunitária Najah Eskridge. “Pessoas que tiveram que se mudar agora podem voltar para casa.”
Um lugar onde a comunidade e os negócios podem prosperar
A participação comunitária está no DNA da Beltline. Uma resolução do Conselho Municipal obriga a realização de reuniões trimestrais, encontros específicos focados em projetos e bairros e a apresentação de relatórios públicos regulares. Os moradores participam de conselhos consultivos sobre habitação, finanças e implementação, garantindo que a comunidade participe das decisões.
“Nós não avançamos um passo sequer sem conversar com a comunidade”, afirma Higgs.
Esse compromisso vai além do discurso. No caso de Murphy Crossing, um projeto de redesenvolvimento de uso misto de 8 hectares ao longo do trecho sudoeste, a ABI estabeleceu uma relação de confiança, transparência e parceria. Ao trabalhar em estreita colaboração com os membros da comunidade desde 2025, foi possível criar uma visão conjunta refletindo tanto as prioridades locais quanto as realidades do mercado.
Essa abordagem inclusiva reflete o compromisso da Beltline com a prosperidade compartilhada. Por meio de sua estratégia de aquisição de terrenos e de programas como o Atlanta Beltline Marketplace, uma incubadora de pequenas empresas, o projeto auxilia empreendedores locais e negócios liderados por mulheres e minorias a garantirem espaços comerciais, permitindo que permaneçam enraizados em suas comunidades.
Para Makeisha Robey, moradora do bairro Pittsburgh, localizado ao longo do trecho sul da Beltline, essa visibilidade foi essencial. Robey é fundadora da Happy Black Parent, um pequeno negócio que oferece atividades para crianças e famílias, muitas delas ao ar livre. “Nosso orçamento de marketing é mínimo”, disse. “Estar perto da Beltline significa que as pessoas podem nos encontrar simplesmente por estarem aqui. Isso foi crucial para manter nosso negócio aberto.”
Essa não é uma experiência isolada. Ao contrário, reflete um padrão observado ao longo de todo o corredor da Beltline. “Os negócios querem estar na Beltline porque é lá que as pessoas estão”, considera Natalie Jones, gerente de projetos do Escritório de Soluções Empresariais da ABI.
Os resultados são visíveis: mais de 29 mil empregos estão hoje localizados a menos de 800 metros do corredor, evidenciando como a Beltline se tornou um motor econômico, além de um espaço público vibrante.
“Uma cidade não existe sem seus pequenos negócios”, enfatiza Sarah Pierre, moradora da Beltline e proprietária da 3 Parks Wine Shop, que tem duas unidades ao longo do corredor. “Esses negócios são a energia da cidade.”
Um modelo para cidades em todo o mundo
A influência da Beltline hoje vai além de Atlanta. Líderes municipais, urbanistas e delegações de diversas partes dos Estados Unidos e do mundo percorrem o corredor reunindo aprendizados de como reaproveitar infraestruturas negligenciadas, lidar com a expansão urbana desordenada e construir cidades voltadas para as pessoas e não mais para os carros.
“A Beltline representa uma maneira diferente de crescer”, acredita Jill Johnson, vice-presidente de relações governamentais da ABI. “É um projeto que surgiu quando as pessoas de Atlanta se manifestaram e realmente abraçaram a ideia de que poderíamos crescer de forma diferente, que barreiras erguidas ao longo de décadas poderiam ser rompidas.”
Uma das razões para o sucesso da Beltline é seu modelo de governança. A ABI foi criada em 2006 como uma agência semipública exclusivamente para planejar, coordenar e executar o projeto. Essa estrutura dedicada, com um foco específico, garantiu a dedicação e a continuidade que muitos departamentos municipais têm dificuldade em manter.
Ainda assim, mesmo uma organização sólida precisa de financiamento seguro e de longo prazo para se manter. O financiamento da Beltline combina um Distrito de Alocação de Impostos (TAD), que capta o aumento na receita de impostos prediais para financiar melhorias públicas, com um Distrito de Serviços Especiais (SSD). Este último, uma contribuição sobre propriedades comerciais e multifamiliares estabelecida em 2021, já gerou mais de US$ 100 milhões para viabilizar a conclusão da Beltline até 2030. Juntas, essas ferramentas garantem investimento contínuo, livre da influência de ciclos eleitorais, e, ao mesmo tempo, exigem transparência e apoio comunitário permanente.
Como resultado, mais de US$ 9 bilhões em investimentos privados ao longo do corredor têm impulsionado a abertura de novos negócios e a construção de residências e espaços públicos.
Ainda assim, o sucesso da Beltline não é calculado apenas em dinheiro, mas em como o projeto une as pessoas. A arte e a cultura deram vida ao corredor desde o início. O desfile anual de lanternas (Atlanta Beltline Lantern Parade), que começou como uma iniciativa artística comunitária, atrai hoje mais de 70 mil pessoas todos os anos.
“Antigamente, a gente se perguntava se alguém usaria a trilha, se os moradores de Atlanta algum dia sairiam de seus carros para caminhar juntos”, relembra Chantelle Rytter, fundadora do desfile e moradora da Beltline. “Hoje, pensar isso parece loucura.”
Um futuro ainda em movimento
A Beltline ainda não está concluída. O transporte sobre trilhos ao nível de rua, por exemplo – um dos pilares da visão original do projeto –, ainda é um objetivo a ser alcançado, e os desafios de acessibilidade financeira persistem. No entanto, a solidez do projeto, aliada ao engajamento comunitário institucionalizado, a uma governança personalizada a fontes de financiamento contínuo, são motivos de otimismo.
“Mesmo em seu estado inacabado”, diz Gravel, “a Beltline já dá às pessoas a confiança de que Atlanta se tornará o tipo de lugar onde elas querem estar.”
Para outras cidades ao redor do mundo, a lição não é copiar a Beltline, mas aprender com seus valores e abordagem.
“Sempre reforçamos para outras cidades que não é preciso reproduzir exatamente o que fizemos”, garante Higgs. “Mas é preciso reproduzir nossos princípios: ser abrangente no desenvolvimento comunitário e garantir que cada parte da comunidade consiga se enxergar no projeto.”
Ao longo de um corredor que antes dividia a cidade, esses valores são visíveis o dia todo – no ritmo constante e esperançoso de pessoas circulando por uma cidade que está aprendendo a crescer melhor, junto à sua população.
Este artigo foi publicado originalmente no Insights.
A Atlanta Beltline foi uma das cinco finalistas do WRI Ross Center Prize for Cities 2025-2026, que reconhece projetos e iniciativas que promovem cidades saudáveis. O vencedor do Grande Prêmio, selecionado por um júri independente, será anunciado em abril de 2026 e receberá um prêmio de US$ 250 mil.