Na maioria dos dias, Doc Mau, defensora dos direitos das pessoas com deficiência e moradora da cidade de Manila, capital das Filipinas, caminha entre cinco e dez mil passos com muletas, escolhendo trajetos que tenham calçadas regulares e travessias bem sinalizadas. Ela faz pausas para recuperar o fôlego em trechos arborizados antes de seguir. “Isso ajudou muito no meu bem-estar mental”, comenta ela sobre melhorias realizadas nas ruas e calçadas. “Não tenho mais medo de sair de casa.”

Para Doc Mau, as mudanças transformaram sua rotina diária. Durante anos, andar de muletas pela cidade implicava se deparar com calçadas íngremes ou esburacadas, embarcar em veículos não projetados para suas necessidades e lidar com a expectativa implícita de que ela deveria caminhar acompanhada, e não sozinha.

A experiência dela reflete a de milhões de moradores de Manila, onde os deslocamentos diários em geral são feitos em jeepneys (micro-ônibus abertos) superlotados, percorrendo ruas inseguras para pedestres e trajetos longos e pouco confiáveis. Tudo isso em um sistema projetado principalmente para carros, e não para pessoas.

Esse modelo só atende uma pequena parcela dos moradores. Apenas 6% dos habitantes de Manila possuem veículo particular; o restante caminha, pedala ou depende do transporte público. Ainda assim, apesar de serem a esmagadora maioria, pedestres e outros usuários tiveram pouca influência sobre o planejamento das ruas e dos sistemas de transporte. “O planejamento do transporte costumava tratar os carros como se fossem o usuário padrão”, afirma Robert Siy, ativista pela mobilidade urbana e morador da capital filipina.

Em Manila, apenas 6% dos habitantes possuem veículos particulares. Os demais dependem de caminhadas ou do transporte público.
Em Manila, apenas 6% dos habitantes possuem veículos particulares. Os demais dependem de caminhadas ou do transporte público. (Foto: WRI Ross Center Prize for Cities)

Essa disparidade, porém, orientou orçamentos e padrões técnicos, aumentando a exposição dos pedestres ao tráfego, não oferecendo ciclovias protegidas aos ciclistas e impondo falta de segurança na renda e nas condições de trabalho para os funcionários do transporte público. Passageiros de ônibus contavam com serviços pouco confiáveis e pontos de parada mal planejados. “Eu nunca pegava um ônibus porque ficava com medo de perder minha parada”, relembra Riz Comia, usuário regular do transporte público. “Não havia paradas formais, então parecia perigoso. E, como me perco com frequência, eu tinha medo disso.”

Mas esse cenário está começando a mudar. Hoje, as experiências mais positivas de Doc Mau ao circular pela cidade refletem uma ampla transformação promovida na cidade. Tanto em Manila quanto em outras cidades das Filipinas, o planejamento de transportes aos poucos tem se tornado mais centrado nas pessoas, impulsionado por uma mobilização cidadã liderada pela coalizão Move As One. A aliança reúne 142 organizações da sociedade civil e mais de 77 mil pessoas – incluindo trabalhadores do setor de transportes, lideranças jovens e passageiros comuns – e trabalha para colocar as pessoas, e não os carros, no centro das políticas de transporte.

Uma coalizão que nasceu em meio à crise

A coalizão surgiu durante a pandemia de covid-19, quando as desigualdades no transporte em Manila se tornaram impossíveis de ignorar. A suspensão do transporte público evidenciou a dependência da cidade de um sistema inadequado e pouco confiável. Funcionários do setor perderam sua renda da noite para o dia, enquanto trabalhadores essenciais lutavam para chegar ao trabalho, aos mercados e aos hospitais. O que os passageiros há muito vivenciavam como um desgaste diário tornou-se uma emergência nacional.

Frustrados com a inação do governo e impulsionados pela necessidade urgente de que os profissionais de saúde pudessem se deslocar com segurança, grupos de ciclistas criaram ciclovias improvisadas usando recipientes com água e pedras. Em paralelo, a Move As One lançou uma petição no Change.org reivindicando reformas no sistema de transporte. O apoio virtual rapidamente se transformou em uma ampla coalizão que reuniu motoristas de jeepney, operadores de ônibus, passageiros, defensores das pessoas com deficiência, grupos de mulheres, organizadores jovens, ativistas LGBTQIAPN+ e coletivos de ciclismo. Antes, esses grupos pressionavam por mudanças de forma Isolada, mas a Move As One os articulou em torno de um movimento comum que amplificou sua voz.

Reunindo um grupo que inclui passageiros, pessoas com deficiência e trabalhadores do sistema de transporte, os esforços de advocacy da coalizão Move As One refletem as diferentes necessidades dos moradores de Manila.
Reunindo um grupo que inclui passageiros, pessoas com deficiência e trabalhadores do sistema de transporte, os esforços de advocacy da coalizão Move As One refletem as diferentes necessidades dos moradores de Manila. (Foto: Move As One Coalition)

Mudando a narrativa: dos carros para as pessoas

Antes da Move As One, os debates sobre transporte giravam havia muito tempo em torno da mesma pergunta: “Como mover os veículos com mais eficiência?”. Os parâmetros centrais dessas discussões – como congestionamento, velocidade de deslocamento e fluxo de tráfego – atendiam apenas aos proprietários de carros. A Move As One reformulou a pergunta ao focar em formas mais seguras e equitativas para as pessoas se deslocarem na cidade – uma mudança fundamental em uma cidade onde 94% da população caminha, pedala ou utiliza transporte público.

Para embasar essa mudança, a coalizão investiu em pesquisas e dados para entender quem era de fato atendido pelos investimentos em transporte e quem ficava de fora. Uma dessas análises mostrou que apenas 1% dos investimentos viários era direcionado ao transporte público, caminhada ou ciclismo. Essa constatação se tornou uma base para a mobilização e ajudou a redefinir o debate sobre políticas públicas.

“Dados e pesquisas são fundamentais para o nosso trabalho de advocacy”, afirma Ken Abante, cofundador e conselheiro da coalizão. “Usamos dados e estudos para garantir que os tomadores de decisão tenham as melhores evidências para tomar decisões sobre a mobilidade urbana em nossas cidades.”

Como reúne diferentes atores, a Move As One consegue abordar diversas necessidades concomitantes: tarifas acessíveis para passageiros, remuneração justa para trabalhadores, viagens mais seguras para mulheres, acessibilidade para pessoas com deficiência, ampliação do serviço em comunidades desassistidas e promoção da mobilidade de baixo carbono. Organizada entre diferentes setores, a coalizão transformou demandas fragmentadas em ação coletiva, redefinindo o transporte como um serviço público determinante para a renda, a saúde e as oportunidades de milhões de pessoas.

Transformando advocacy em mudanças políticas

Munidos de dados, membros da Move As One batem à porta de autoridades, ligam diretamente para representantes públicos, prestam depoimentos em audiências do Senado e da Câmara e constroem relações dentro das prefeituras e das agências nacionais. Também organizam manifestações e ações públicas, incluindo auditorias de acessibilidade e caminhadas por ruas e corredores de transporte que levam legisladores a vivenciar de perto condições inseguras.

Em essência, as demandas da coalizão são simples: autoridades eleitas devem oferecer aquilo que os passageiros e trabalhadores merecem – ruas seguras, transporte confiável e condições de trabalho justas. “Durante muito tempo, nós, filipinos, aceitamos que merecíamos esse tipo de serviço”, diz Rycel “Hya” Bendaña, coordenadora nacional da coalizão Move As One. “Mas a coalizão Move As One está mudando essa percepção. Merecemos mais, queremos mais e, portanto, nos mobilizamos por mais.”

Os esforços da coalizão têm dado resultado.

O movimento influenciou decisões envolvendo cerca de US$ 946 milhões em financiamento imediato para transporte e US$ 12 bilhões em investimentos de médio e longo prazo, ajudando a redirecionar recursos para uma mobilidade mais segura e inclusiva. Em Manila, isso inclui a criação de um boulevard para pedestres ao longo do rio Pasig e de uma zona livre de carros no distrito histórico de Intramuros como espaço público voltado às pessoas. Também inclui a implementação de um corredor exclusivo de ônibus ao longo da Avenida Epifanio de los Santos, a principal via arterial da cidade, com estações dedicadas, acesso seguro e inclusivo para pedestres e embarque organizado. Em todo o país, mais de 1.200 quilômetros de ciclovias agora conectam bairros em diversas cidades.

Os esforços de advocacy da coalizão resultaram no redirecionamento de recursos públicos para a construção do Boulevard de Pedestres do Rio Pasig.
Os esforços de advocacy da coalizão resultaram no redirecionamento de recursos públicos para a construção do Boulevard de Pedestres do Rio Pasig. (Foto: WRI Ross Center Prize for Cities)

Outros avanços são menos visíveis, mas tiveram um impacto importante para os trabalhadores do sistema de transporte de Manila. Reformas apoiadas pela Move As One garantiram melhores salários e condições de trabalho para milhares de trabalhadores, muitos dos quais operavam há anos em arranjos informais.

“Durante a pandemia, mal conseguíamos nos manter – nossas receitas não cobriam nem o combustível e as despesas diárias”, relata Maria Angelica Mata, coordenadora da Confederação Nacional do Sindicato dos Trabalhadores do Transporte e integrante da Move As One, descrevendo as condições de trabalho dos motoristas de ônibus, que normalmente eram pagos com base no volume de passageiros. “Com a Move As One pressionando por contratos de prestação de serviço, finalmente passamos a receber por quilômetro, e não apenas pelas tarifas dos passageiros. Assim, conseguimos pagar nossos empréstimos, cobrir os custos e realmente voltar a gerar alguma receita. Fez uma diferença real em nossas vidas.”

A implementação do corredor de ônibus Avenida Epifanio de los Santos reduziu os tempos de viagem para 180 mil passageiros diários.
A implementação do corredor de ônibus Avenida Epifanio de los Santos reduziu os tempos de viagem para 180 mil passageiros diários. (Foto: WRI Ross Center Prize for Cities)

Um movimento baseado na confiança

O sucesso da Move As One é baseado tanto em relações quanto em políticas. A coalizão é informal, mantida por voluntários e financiada de forma independente. “Com a Move As One, oferecemos a todos uma plataforma para se conectar, se encontrar, ouvir as dificuldades comuns uns dos outros, criar esse senso compartilhado de solidariedade para entrar em consenso”, reforça Bendaña. “Isso garantiu que, sempre que propostas de políticas públicas são apresentadas, todas as vozes que precisam ser ouvidas sejam representadas.”

Internamente, os membros descrevem a coalizão como próxima e solidária: “Se fôssemos apenas indivíduos lutando por nossos próprios interesses, esses esforços não teriam impacto real”, considera Romeo Macaio, trabalhador do sistema de transporte. “Por meio do poder coletivo e da união de nossos esforços, conseguimos alcançar aquilo que buscamos.”

Reformas apoiadas pela coalizão melhoraram as condições de trabalho e a remuneração de milhares de trabalhadores do sistema de transporte de Manila.
Reformas apoiadas pela coalizão melhoraram as condições de trabalho e a remuneração de milhares de trabalhadores do sistema de transporte de Manila. (Foto: WRI Ross Center Prize for Cities)

Externamente, a Move As One construiu relações sólidas tanto com autoridades eleitas quanto com servidores públicos de carreira. Ao levar diferentes perspectivas para as discussões de políticas públicas, a coalizão ajuda a explicar iniciativas governamentais em termos claros e a conectar agências municipais e nacionais. Com o tempo, essas parcerias transformaram advocacy em colaboração, ajudando a manter as reformas feitas mesmo durante transições de liderança.

“A Move As One funciona como um verdadeiro canivete suíço para o governo. Eles têm tudo de que precisamos: apoio da mídia, conhecimento técnico, visão financeira, advocacy orçamentário e capacidade de fornecer orientação estratégica, tudo em um só lugar”, avalia Mark Steven Pastor, Subsecretário de Transporte Rodoviário e Infraestrutura do Departamento de Transportes das Filipinas.

Membros da coalizão constroem relações com servidores públicos para garantir continuidade do trabalho mesmo em meio a transições de liderança.
Membros da coalizão constroem relações com servidores públicos para garantir continuidade do trabalho mesmo em meio a transições de liderança. (Foto: WRI Ross Center Prize for Cities)

Construindo poder a partir da base

Um pilar central do trabalho da coalizão é o programa Young Mobility Leaders (Lideranças Jovens da Mobilidade), que capacita jovens ativistas em todo o país para coletar dados, analisar orçamentos, dialogar com autoridades e mobilizar comunidades, a fim de que possam liderar campanhas em suas próprias cidades.

Em um arquipélago com mais de 7.500 ilhas, a reforma do sistema de transporte não pode ser moldada apenas a partir de Manila. Ao organizar trabalhadores locais, passageiros e jovens lideranças, a coalizão ajuda a ampliar a influência para além da capital. Ex-alunos levaram esse trabalho para cidades como Cebu, Batangas e Naga, adaptando as ferramentas da coalizão aos contextos e prioridades locais e, ao mesmo tempo, contribuindo para o movimento nacional.

“Fazemos a ponte entre as comunidades locais e o governo”, ressalta Dom Nobleza, formado pelo programa Young Mobility Leaders e atualmente organizador comunitário da Metro Naga Active Transport Community, um grupo de advocacy de base que trabalha para melhorar o transporte na região de Metro Naga. “Agora as pessoas têm uma plataforma para se manifestar, influenciar orçamentos públicos e aprovar ações que tornam nossa cidade mais saudável e mais habitável.”

Hoje os ciclistas contam com mais de 1.200 quilômetros de ciclovias em Manila e em outras cidades graças ao trabalho de advocacy da coalizão.
Hoje os ciclistas contam com mais de 1.200 quilômetros de ciclovias em Manila e em outras cidades graças ao trabalho de advocacy da coalizão. (Foto: WRI Ross Center Prize for Cities)

Por que essa transformação vai além de Manila

Cidades em todo o mundo enfrentam desafios semelhantes: como os sistemas de transporte podem reduzir emissões, melhorar a segurança e ampliar o acesso ao atender milhões de usuários que dependem deles para se deslocar?

A Move As One oferece uma resposta: colocar as pessoas e suas vozes no centro das políticas de transporte em vez de construir sistemas projetados para os carros. A coalizão mostra que grupos liderados por cidadãos podem reformular políticas em larga escala, mesmo em contextos políticos complexos. Ao organizar comunidades e dialogar com formuladores de políticas, o movimento transformou experiências cotidianas em motores de mudança sistêmica.

Para Doc Mau, essa mudança aparece no simples ato de circular pela cidade de forma independente, contando com calçadas mais acessíveis, travessias mais seguras, espaços verdes e sombra – tudo isso sem medo. Para a cidade de Manila, é o marco do avanço rumo a um sistema de transporte feito para melhorar a vida de milhões de pessoas, e não apenas de uma pequena minoria.

 

A Move As One Coalition foi a grande vencedora do WRI Ross Center Prize for Cities 2025-2026, que reconhece projetos e iniciativas que promovem cidades saudáveis.

Artigo publicado originalmente no Insights.