Em Nairóbi, a revitalização de bibliotecas tem construído comunidades mais saudáveis
A Book Bunk Trust está transformando as bibliotecas de Nairóbi em centros cívicos vibrantes onde os moradores da cidade podem aprender novas habilidades, explorar as artes, participar de programas ambientais e se conectar uns com os outros.
Na Biblioteca Eastlands, em Nairóbi, no Quênia, estudantes comparam anotações e fazem suas tarefas enquanto a música de um pátio arborizado invade as janelas. Em outra parte da biblioteca, um instrutor de dança orienta um grupo de crianças em exercícios de respiração e passos de aquecimento antes que a sala se encha de risadas quando tentam a coreografia novamente.
Para muitos visitantes, a energia dentro da biblioteca surpreende. Bibliotecas públicas costumam ser lugares silenciosos, com fileiras de mesas, salas de leitura tranquilas e sussurros entre estantes. Aqui, a atmosfera é animada, colaborativa e viva.
Essa transformação é obra do Book Bunk Trust, uma organização queniana sem fins lucrativos que restaura bibliotecas públicas históricas e muda a forma como elas atendem suas comunidades. Em Nairóbi, uma cidade moldada por preconceitos coloniais, espaços públicos muitas vezes são sinônimo de negligência e perigo. Por mais de três décadas, as poucas bibliotecas públicas da cidade foram restritas a pessoas brancas. Depois, muitas simplesmente se deterioraram.
Hoje, o Book Bunk trabalha para revitalizar essas bibliotecas, física e socialmente, transformando-as em espaços cívicos vibrantes onde todos podem aprender novas habilidades, explorar diferentes formas de arte, participar de programas ambientais e se conectar uns com os outros.
Nos últimos anos, quase 200 mil pessoas visitaram as duas bibliotecas revitalizadas pelo Book Bunk, que se tornaram espaços de confiança onde as crianças podem passar as tardes aprendendo, criando e se desenvolvendo ao lado de seus colegas. “Eles se sentem seguros ao entrar na biblioteca”, celebra Sharon Tarus, gerente de comunicação do Book Bunk Trust. “E os pais ficam tranquilos ao enviar seus filhos para as bibliotecas e deixá-los lá o dia todo.”
“Palácios para as Pessoas”
O Book Bunk começou com uma ideia simples, mas ambiciosa: recuperar bibliotecas negligenciadas e transformá-las em “palácios para as pessoas” – espaços cívicos gratuitos e de confiança no coração da vida comunitária.
“Queríamos restaurar as bibliotecas públicas para que se tornassem centros cívicos”, comenta Angela Wachuka, editora e cofundadora do Book Bunk Trust em 2017, junto à escritora Wanjiru Koinange. O objetivo, explicou Wachuka, era criar espaços dignos onde as pessoas pudessem acessar conhecimento, educação artística, apoio para tarefas escolares e até serviços como atendimento em saúde mental.
A configuração espacial de Nairóbi – incluindo os locais onde as bibliotecas foram construídas – ainda carrega as marcas da era colonial. Mesmo depois da independência do Quênia do Reino Unido, em 1963, o baixo investimento deixou muitos desses edifícios históricos subutilizados ou em deterioração. Em uma cidade onde mais da metade dos moradores vive em bairros informais, os espaços públicos são criados e mantidos tanto pelos moradores quanto pela própria administração municipal.
Em 2018, o Book Bunk estabeleceu uma parceria com o governo do condado de Nairóbi para restaurar bibliotecas históricas, mantendo-as públicas e acessíveis. Até agora, a organização restaurou as bibliotecas Eastlands e Kaloleni e está com trabalhos em andamento também na Biblioteca Memorial McMillan, a biblioteca pública mais antiga de Nairóbi. O Book Bunk lidera a restauração, a captação de recursos, a programação e a ativação cotidiana dos espaços, enquanto o governo do condado de Nairóbi mantém a propriedade e é responsável pela equipe principal de profissionais das bibliotecas.
A restauração trouxe mais do que melhorias estéticas: mudou a forma como as pessoas usam as bibliotecas e o que esperam delas. De oficinas criativas a refeições para crianças, as bibliotecas revitalizadas de Nairóbi ajudam a garantir serviços sociais e educacionais essenciais.
Por meio de consultas comunitárias, entrevistas e grupos focais, a equipe identificou as prioridades da comunidade, que agora orientam a programação. Iniciativas como Music Bunk, Dance Bunk e Play Bunk introduzem educação artística junto a horários para reforço escolar, programas de leitura e eventos culturais.
“Diferentes locais têm públicos diferentes”, explicou Marianne Wamuyu, diretora de programas e eventos do Book Bunk Trust. Na Biblioteca Kaloleni, em um dos bairros mais antigos da cidade, a programação é focada em atividades de férias e educação artística para crianças. Na Biblioteca Eastlands, os programas apoiam o estudo acadêmico, habilidades digitais e colaboração criativa para estudantes mais velhos e universitários.
As contribuições da comunidade ajudam a orientar o trabalho, que muitas vezes segue por caminhos inesperados. Durante um programa em Kaloleni, por exemplo, Wachuka conheceu uma jovem que tinha dificuldades de visão, então o Book Bunk estabeleceu uma parceria com uma organização local para passar a oferecer testes de visão.
Essa mesma abordagem também se aplica ao funcionamento do Book Bunk de forma mais ampla. Originalmente mantida por voluntários, a organização agora permite que membros da comunidade se tornem funcionários e responsáveis de longo prazo pelos espaços. As operações e trabalhos de restauração já geraram 93 empregos, incluindo 21 cargos permanentes – muitos ocupados por ex-voluntários e usuários das bibliotecas –, além de apoiar mais de 400 fornecedores locais e pequenos negócios.
Aprendizado além da sala de aula
Para muitas crianças, as bibliotecas oferecem oportunidades que vão além do aprendizado tradicional.
O instrutor de dança Kelvin Kamuhia King’ori, que cresceu nas proximidades de Makongeni e frequentava a Biblioteca Kaloleni quando criança, combina coreografia e aulas de dança com treinamentos focados em autoconhecimento, trabalho em equipe e confiança.
“Essas crianças têm muito dentro delas”, afirma. “Mas não têm espaços seguros onde possam se expressar plenamente.”
Entre as paredes da biblioteca, os estudantes ensaiam rotinas, praticam oratória e constroem autoestima por meio da expressão criativa. Para alguns, os programas apresentam possibilidades totalmente novas. “Eu nunca imaginei que teria a chance de tocar violino”, conta Naya, participante do Music Bunk. “Mas quando vim aqui, me deram a oportunidade de aprender.”
Professores envolvidos nos programas garantem que os benefícios são multidisciplinares. Grace Nyongemukoya, tutora da biblioteca, destaca a importância de desenvolver o crescimento emocional e social junto com o aprendizado acadêmico. “Alguns alunos vêm porque sentem que a biblioteca é um espaço seguro”, conta. Apoiar os estudantes de forma integral – emocional e intelectualmente – pode ajudá-los a enfrentar desafios dentro e fora da sala de aula.
Espaços verdes para o bem-estar na cidade
A gestão ambiental é outra dimensão central do projeto.
Por meio do Green Bunk, o projeto incorpora a conscientização ambiental ao cotidiano das bibliotecas. Painéis solares e sistemas de captação de água da chuva ajudam os espaços a operar com mais eficiência, enquanto pátios, jardins e áreas externas com sombra trazem a natureza de volta a bairros urbanos densos, onde muitas vezes é difícil encontrar áreas verdes.
Wachuka descreve a ação climática como um dos eixos de atuação do Book Bunk, que promove desde o plantio de microflorestas nos terrenos das bibliotecas até o reaproveitamento de móveis históricos. Esses esforços ajudaram as bibliotecas a se tornarem espaços verdes pequenos, mas essenciais nas comunidades em que estão inseridos.
O Book Bunk também distribui bolas de sementes revestidas com carvão e terra que os moradores podem lançar em terrenos abertos para ajudar novas árvores a crescerem pela cidade. E atividades envolvendo dias de limpeza, plantio de árvores e outras práticas ambientais convidam os moradores a cuidar dos espaços públicos enquanto aprendem como é possível construir resiliência climática na escala dos bairros (Nairóbi enfrenta frequentemente enchentes catastróficas).
Bibliotecas como âncoras comunitárias
As bibliotecas revitalizadas também auxiliam as famílias de outras maneiras. Até o momento, por exemplo, os programas do Book Bunk forneceram mais de 140 mil refeições gratuitas para crianças, ajudando-as a se manterem alimentadas e engajadas ao longo do dia.
“As vezes, recebemos inscrições de até 600 crianças”, afirma Diana Were, administradora do Book Bunk Trust. “Mas, infelizmente, só conseguimos atender cerca de 200.”
Os pais desempenham um papel essencial para manter os programas. Muitos mantêm contato frequente com a equipe ou incentivam outras famílias a participar. “Eles são nossos maiores incentivadores”, garante Were. “Eles confiam seus filhos a nós.”
Essa confiança reforça o papel das bibliotecas como âncoras comunitárias – locais onde os moradores se sentem bem-vindos, independentemente da idade, origem ou renda. “Quando você entra na biblioteca, faz parte de uma comunidade”, acrescenta Were. “Todos são iguais.”
Para Liny Faith Onyi, escritora e frequentadora da biblioteca, o aspecto mais significativo do espaço é o fato de ser aberto para todos. “É um espaço seguro”, comenta ela. “Qualquer pessoa pode entrar. Você não precisa ter uma determinada aparência nem agir de uma forma específica para estar ali.”
Na visão de Sharon Tarus, o trabalho do Book Bunk ajudou os moradores a “recuperar a confiança na vida cívica”. E também incentivou as comunidades a verem as bibliotecas como espaços que lhes pertencem – lugares dignos de orgulho, cuidado e investimento contínuo.
Restaurando a cultura e a conexão
A programação do Book Bunk também inclui a história e o patrimônio cultural. O projeto Missing Bit convida pessoas mais velhas para contarem histórias sobre o passado do Quênia – desde a vida nas décadas de 1940 e 1950 até experiências de antes e depois da independência do país – e disponibiliza essas gravações online para públicos mais jovens. Para Tarus, o projeto é uma homenagem às tradições orais africanas e ajuda a preservar a história do Quênia e da África, anterior a muitos registros escritos.
Professores e bibliotecários também têm atuado para ampliar os acervos de literatura africana e criar espaços de valorização de autores e histórias locais. Jacob Ananda, diretor assistente das Bibliotecas do Condado de Nairóbi, descreve esse esforço como parte de um processo mais amplo de restauração cultural. Muitas bibliotecas no Quênia foram originalmente modeladas a partir de instituições britânicas, explicou, e seus acervos refletiam esse legado. “Estamos tentando ‘africanizar’ o espaço”, relata ele, destacando autores, editoras e histórias africanas. “Se uma pessoa abandona sua herança, torna-se escrava do mundo.”
Construindo uma rede de conhecimento público
Embora as duas bibliotecas restauradas em Nairóbi sejam relativamente modestas em tamanho (cerca de 850 metros quadrados no total, considerando os dois locais), a iniciativa busca expandir esse modelo. No início do projeto, a equipe ficou surpresa ao descobrir quão pouca informação havia sobre o sistema completo de bibliotecas públicas do Quênia. E, para mudar o cenário, deram início a um mapeamento de bibliotecas em todo o país, identificando quase 1.200 bibliotecas públicas e criando o primeiro panorama abrangente da rede nacional de bibliotecas.
A pesquisa alimenta o Book Bunk Blueprint – um guia prático criado para compartilhar lições do projeto, incluindo abordagens de restauração, governança, financiamento e engajamento comunitário que podem ser aplicadas a qualquer biblioteca ou espaço público semelhante. Na prática, o guia transforma anos de experimentação em uma metodologia adaptável para os chamados “terceiros espaços”: locais públicos de convivência que não são nem a casa nem o trabalho.
“Não havia um modelo para restaurar uma infraestrutura cívica como essa”, relata Wachuka. Com o mapa das bibliotecas e o guia – além de um terceiro projeto de restauração em andamento na Biblioteca McMillan –, o Book Bunk busca ampliar essas abordagens.
Espaços que pertencem a todos
À medida que a programação da tarde chega ao fim na Biblioteca Eastlands, os estudantes reúnem seus pertences e seguem para o pátio. Alguns comparam anotações das aulas de reforço, enquanto outros permanecem para terminar uma música ou rotina de dança antes de voltar para casa.
Para Orpah Anyango Agunda, agente de ligação da biblioteca que cresceu em Nairóbi, a mudança que o Book Bunk trouxe para a cidade é visível nesses momentos. O projeto, na visão dela, “deu vida às bibliotecas”: “Eles transformaram em um lugar para onde as pessoas vão”, disse a coordenadora sênior de instalações Lydia Mumbi. “É como um segundo lar.”
Ao transformar instituições negligenciadas, o Book Bunk está conectando o passado de Nairóbi a um futuro mais promissor, no qual espaços públicos seguros e confiáveis estão abertos a todos os moradores e os atendem de múltiplas maneiras.
O Book Bunk foi um dos cinco finalistas do Prêmio WRI Ross Center para Cidades 2025-2026, que reconhece projetos e iniciativas que promovem cidades saudáveis. O vencedor do Grande Prêmio, selecionado por um júri independente, será anunciado em abril de 2026 e receberá um prêmio de US$ 250 mil.
Este artigo foi publicado originalmente no Insights.