Há dez anos, testemunhamos algo parecido com um milagre.

Centenas de líderes se reuniram em Paris para a conferência climática anual da ONU (COP21). Ali, construíram algo que muitos consideravam impossível: um acordo global para conter as mudanças climáticas – no qual praticamente todos os países se comprometeram a fazer a sua parte.

O Acordo de Paris, como ficou conhecido, foi o resultado de anos de trabalho árduo e de uma liderança corajosa de ministras e ministros, chefes de Estado, filantropos, organizações da sociedade civil e comunidades. Desde então, ele tem servido como a espinha dorsal da cooperação internacional em torno da ação climática. O pacto uniu o mundo em torno de um objetivo comum: limitar o aumento da temperatura global a 1,5°C, um limite que, segundo a ciência, é essencial para evitar os piores impactos da crise climática.

Uma década depois, a ciência mostra que as metas do Acordo de Paris estão fora do ritmo necessário. As emissões de gases de efeito estufa não caíram nem perto do que seria preciso para alcançar o objetivo de 1,5°C.

Mas isso não significa que o acordo não esteja funcionando.

Na verdade, o Acordo de Paris ainda merece ser celebrado. Ele está fazendo o que se propôs a fazer – ainda que não com a velocidade necessária. E, de forma crucial, está preparando o terreno para uma nova década de ação climática.

Líderes celebram a adoção do Acordo de Paris em 2015
Lideranças celebram a adoção do Acordo de Paris em 2015 (foto: James Dowson/UN Climate Change)

O Acordo de Paris mudou nossa trajetória

Antes de sua adoção, em 2015, o planeta caminhava para um aquecimento de até 4,8°C até 2100, em comparação aos níveis pré-industriais. Para se ter uma dimensão disso, com 4,5°C de aquecimento, cerca de 4,7 bilhões de pessoas – mais da metade da população mundial atual – estariam expostas a níveis potencialmente letais de calor. Um cenário catastrófico.

Hoje, assumindo que todos os países cumpram seus compromissos, a projeção é de um aquecimento entre 2,3°C e 2,9°C. Ainda é um cenário perigoso, mas muito melhor do que aquele de dez anos atrás. Cada décimo de grau faz diferença quando falamos de vidas humanas, segurança alimentar e hídrica e da intensidade de eventos climáticos extremos.

O que alterou de forma tão significativa a trajetória do aquecimento global foi o modelo inovador do Acordo de Paris. Seus 195 signatários se comprometeram a apresentar novos planos climáticos nacionais – as chamadas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) – a cada cinco anos, sempre com maior ambição. Dez anos depois, todos os países, com exceção dos Estados Unidos, continuam participando.

Ao mesmo tempo, o crescimento das tecnologias limpas superou as expectativas. Há dez anos, os veículos elétricos representavam menos de 1% das vendas globais de automóveis. Hoje, já são cerca de 20%, com vendas 23% maiores neste ano em comparação ao anterior. Os custos das energias renováveis caíram drasticamente. Segundo a Agência Internacional de Energias Renováveis, 91% dos projetos renováveis contratados em 2024 foram mais baratos do que alternativas baseadas em combustíveis fósseis. A participação da energia solar e eólica na geração global de eletricidade triplicou desde 2015.

 

Esses avanços seriam inimagináveis há dez anos. Ainda assim, sabemos que não são suficientes.

Ainda temos um longo caminho para enfrentar a crise climática

As NDCs dos países ajudam a alterar a trajetória do aquecimento. Mas mesmo que sejam plenamente implementadas – o que já é um grande desafio – elas entregariam menos de 14% das reduções de emissões necessárias até 2035 para limitar o aquecimento a 1,5°C.

 

Pesquisas do Systems Change Lab mostram que, entre 45 indicadores de progresso climático, nenhum está alinhado com um mundo de 1,5°C. Nenhum. Enquanto isso, os impactos das mudanças climáticas – do calor recorde na Europa às enchentes devastadoras na Ásia – se tornam cada vez mais ameaçadores.

Há razões para isso. Olhando para trás, percebemos que, ao desenhar o Acordo de Paris, simplesmente não antecipamos alguns desafios que agora precisam ser enfrentados à medida que entramos na próxima década de ação climática.

Em primeiro lugar, não basta reduzir emissões: precisamos de transformação econômica.

O Acordo de Paris foi concebido principalmente como um pacto de descarbonização. Hoje sabemos que alcançar seus objetivos exige mais do que cortar emissões ou trocar uma fonte de energia por outra. É necessária uma transformação profunda da economia – e uma reorientação de todo o sistema financeiro para apoiar o desenvolvimento de baixo carbono.

Os países precisam mudar radicalmente a forma como produzem alimentos, constroem edifícios e fabricam aço, vidro e concreto. Quando os incentivos econômicos mudam, o financiamento acompanha. As economias atuais foram construídas ao longo de séculos. Embora a urgência seja enorme, levará mais de dez anos para reinventá-las.

Em segundo lugar, precisamos de uma nova abordagem em relação à indústria de combustíveis fósseis.

Garantir um futuro seguro exige reduzir drasticamente o uso de carvão, petróleo e gás, responsáveis por quase 70% das emissões globais de gases de efeito estufa.

Assumimos, de forma otimista, que o Acordo de Paris levaria a indústria fóssil a reconhecer seu papel na transição para uma economia de baixo carbono. Esperávamos planos para uma redução gradual e ordenada do uso desses combustíveis. A indústria possui enormes capacidades técnicas e financeiras que, se bem direcionadas, poderiam acelerar a transição.

Infelizmente, isso não aconteceu. Pelo contrário, o setor cresceu e parece ter usado seu poder econômico e político para desacelerar a transição. Parte disso se deve ao fato de que a demanda global por energia cresce mais rápido do que a implantação de alternativas limpas.

Vimos essa força em ação na COP30, realizada em Belém. Mais de 80 países defenderam a criação de um mapa do caminho para o fim do uso de combustíveis fósseis, mas a proposta foi retirada do acordo final após pressão de países produtores de petróleo.

Essas são realidades que precisam ser compreendidas e enfrentadas. Vale celebrar o compromisso da Presidência brasileira da COP em avançar com os mapas do caminho para a transição energética e o fim do desmatamento, assim como a próxima cúpula liderada pela Holanda e pela Colômbia.

Precisamos de liderança e visão neste momento – seguidas de medidas práticas que enfrentem os obstáculos geopolíticos e econômicos para a eliminação dos combustíveis fósseis.

A próxima década da ação climática

Os ventos contrários são reais, mas o Acordo de Paris continua sendo uma base sólida. Precisamos de um fórum global onde todos os países tenham voz.

No entanto, o Acordo de Paris, sozinho, não resolverá a crise climática. Na próxima década, será necessário construir sobre esse pacto, garantindo que os países cumpram seus compromissos e aumentem sua ambição. Isso exigirá ações dentro e fora do sistema da ONU. Eu exploro esse assunto no meu livro The New Global Possible.

Três coisas são essenciais:

1) Apoiar países grandes de média renda

Enquanto os Estados Unidos e outras nações recuam na ação climática, países como China, Índia, Brasil, Quênia e outros seguem avançando em suas transições econômicas. Isso não acontece por um imperativo moral, mas porque esses países enxergam o desenvolvimento de baixo carbono como parte central de seu crescimento econômico e do bem-estar de suas populações.

Por exemplo, o avanço da energia limpa na China reduziu suas emissões em 1% no primeiro semestre de 2025, ao mesmo tempo em que contribuiu para 10% do crescimento do PIB no ano anterior. O Paquistão passou de quase não utilizar energia solar para ter essa fonte respondendo por 20% de sua eletricidade já no próximo ano. A rápida adoção de energias renováveis no país não ocorreu com o objetivo principal de reduzir emissões, mas porque agricultores, empresas e famílias passaram a enxergar a energia solar como a fonte mais barata e acessível.

Países grandes, de renda média e em crescimento respondem por 60% das emissões globais e 40% do PIB mundial. As transições de suas economias, juntas, podem colocar o mundo na direção certa, ao mesmo tempo em que garantem sua própria prosperidade. Por outro lado, o inverso também é verdadeiro: sem a transição desses países, não há como o mundo limitar o aumento da temperatura global a 1,5°C.]

2) Construir um novo tipo de multilateralismo

Mas esses países não podem agir sozinhos. Enfrentar a crise climática exige um esforço verdadeiramente global e multilateral para ter sucesso. A infraestrutura institucional já existe, por meio do Acordo de Paris e das negociações climáticas da ONU, mas é preciso remodelar esses processos para responder à urgência do momento.

Por exemplo, decisões nas COPs simplesmente não podem depender de unanimidade e, ao mesmo tempo, ser eficazes. Vimos na COP30 como um pequeno grupo de países dissidentes pode travar ações apoiadas pela maioria. As COPs devem garantir voz a todos os países, mas não poder de veto. Da mesma forma, os governos nacionais precisam ser responsabilizados não apenas por seus compromissos de redução de emissões, mas também por como integram suas NDCs às políticas econômicas. O processo das COPs também precisa dar muito mais foco ao financiamento e envolver ministros da Fazenda nas discussões, para garantir que os recursos cheguem aos países que mais precisam.

Também é fundamental reconhecer que as COPs, por si só, não são suficientes. Atores fora do regime climático da ONU – como cidades, coalizões climáticas, os países do BRICS e outros – exercem enorme influência sobre as economias. São necessárias reformas mais amplas em todo o sistema financeiro, incluindo bancos multilaterais de desenvolvimento, políticas comerciais e o setor privado. Precisamos apoiar esses atores e, ao mesmo tempo, conectá-los de forma mais eficaz ao processo climático da ONU. 

3) Tornar a ação climática politicamente viável

A transição econômica para um futuro de baixo carbono – em qualquer país – não terá sucesso sem um apoio político sólido. A boa notícia é que, quando bem implementada, a ação climática é uma das formas mais eficazes de melhorar a vida das pessoas no curto prazo. Ainda assim, ela costuma ser percebida como incompatível com o crescimento econômico e a qualidade de vida.

Cabe a organizações como a nossa deixar claro que existem soluções que beneficiam tanto as pessoas quanto o planeta, ajudando a mudar essa narrativa. Como temos visto em inúmeras cidades e países, ações que são boas para o clima e para a natureza são, em essência, boas para as pessoas. Um exemplo é a política de cobrança pelo congestionamento em Londres — uma medida que muitos inicialmente questionaram, mas que não só resistiu ao tempo como foi ampliada ao longo das últimas duas décadas. Isso não aconteceu apenas porque essa política reduz as emissões de gases de efeito estufa (o que de fato acontece), mas porque ela é popular. O plano melhora a vida das pessoas ao reduzir o trânsito, economizar tempo e tornar o ar mais limpo.

Precisamos garantir que governantes e cidadãos reconheçam os enormes benefícios que podem ser alcançados com a ação climática agora — e não apenas no futuro.

Um homem planta uma árvore de mangue em Batubara, na Indonésia
Homem planta árvore de mangue em Batubara, na Indonésia. A restauração de manguezais pode proteger comunidades costeiras contra enchentes e a elevação das marés provocada por tempestades (foto: Huyogo Simbolon/Shutterstock)

Manter vivo o espírito de Paris

Há uma década, muitos duvidavam que líderes mundiais seriam capazes de se unir para firmar um acordo climático. Mas isso aconteceu – graças à coragem, à cooperação e à convicção de que essa decisão melhoraria vidas e economias.

Ao olharmos para a próxima década da ação climática, é fundamental que tomadores de decisão resgatem esse mesmo espírito que tornou possível o histórico Acordo de Paris. Fazer isso pode colocar suas metas – e um futuro melhor – ao nosso alcance.


Este artigo foi publicado originalmente no Insights.