Este artigo foca nas descobertas de 2025 da série de relatórios State of Climate Action. Consulte os artigos anteriores aqui: 2023 | 2022 | 2021 | 2020

Contribuições de pesquisa de Joel Jaeger, Yuke Kirana, Kelly Levin, Raychel Santo, Katie Lebling, Danielle Riedl, Anderson Lee, Neelam Singh, Michelle Sims, Neil Chin, Aman Majid, Sarah Cassius, Will Lamb, Ankita Gangotra, Neil Grant, Yiqian Zhang-Billert e Michael Petroni

O ano de 2025 marca o 10º aniversário do Acordo de Paris, um marco histórico na ação climática, quando mais de 190 países concordaram em promover esforços para limitar o aquecimento global a até 1,5°C acima dos níveis pré-industriais. Alcançar essa meta pode não apenas ajudar a humanidade a evitar impactos climáticos cada vez mais catastróficos, como gerar inúmeros benefícios, desde o avanço da segurança energética e a melhoria da saúde e bem-estar humanos até a proteção de ecossistemas que fornecem serviços essenciais para a vida na Terra.

A década que se passou desde a assinatura do Acordo testemunhou uma transição profunda, com muitas mudanças inimagináveis em 2015.

Os veículos elétricos passaram de menos de 1% das vendas de veículos de passeio há uma década para mais de um quinto atualmente.

Desde 2015, a participação da energia solar e eólica na geração de eletricidade mais que triplicou.

E a proporção entre o financiamento de fontes de energia limpa e o de combustíveis fósseis mais que dobrou, com os investimentos em oferta de energia limpa superando os de combustíveis fósseis pelo segundo ano consecutivo em 2024.

Tecnologias que na época eram apenas ideias ou projetos-piloto de pequena escala, como o hidrogênio verde e a captura direta de ar, agora são implementadas em todo o mundo. Esses avanços devem ser celebrados, pois demonstram que mudanças rápidas não só são possíveis como estão em andamento em alguns setores.

No entanto, olhando para 2030, fica claro que ainda há um longo caminho pela frente. Os esforços globais para reduzir as emissões de gases de efeito estufa (GEE) e aumentar a remoção de carbono não têm ocorrido na velocidade e escala necessárias para manter ao alcance a meta de temperatura do Acordo de Paris, de acordo com novas descobertas do relatório State of Climate Action 2025 (Estado da Ação Climática 2025).

Esse relatório fornece o roteiro mais abrangente até hoje para preencher a lacuna global na ação climática. Ele traduz o limite de 1,5°C em metas concretas para 2030, 2035 e 2050 e, com isso, mostra o quão rápidas precisam ser as mudanças nos setores mais intensivos em emissões. A pesquisa também indica como realinhar fluxos financeiros ao Acordo de Paris e ampliar a remoção tecnológica de dióxido de carbono, além de avaliar os avanços em relação a esses parâmetros.

O boletim deste ano, o quinto da série, é claro: nenhum dos 45 indicadores avaliados está no ritmo certo para atingir sua meta de 2030.

Em cinco desses indicadores, as taxas recentes estão totalmente na direção errada, de modo que uma mudança imediata é necessária para corrigir os rumos. Em outros 29 indicadores, embora as mudanças avancem na direção certa, estão fora do ritmo e evoluindo tão lentamente que será necessária uma aceleração de pelo menos duas vezes (para a maioria, de mais de quatro vezes) até o final desta década. E, para cinco indicadores, os dados disponíveis são limitados demais para avaliar o progresso recente.

Os seis indicadores restantes, embora fora do ritmo, oferecem uma fagulha de esperança. Nesses casos, os esforços para atingir as metas de 2030 têm avançado mais rápido que os demais e estão significativamente mais próximos de se alinharem com o conjunto certo de políticas, investimentos e liderança.


O mundo já ultrapassou o limite de 1,5°C do Acordo de Paris?

O ano de 2024 foi o primeiro ano completo de que se tem registro em que a elevação média da temperatura global superou o limite de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais, com uma anomalia estimada de 1,55°C. Mas isso não significa que o mundo tenha ultrapassado a meta de temperatura do Acordo de Paris ou que ela não seja mais possível.

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Isso porque os cientistas estimam a elevação média da temperatura global ao longo de um período mais longo (em geral, entre 20 e 30 anos) para amenizar a variabilidade de fenômenos naturais que podem impactar o aquecimento de forma significativa de um ano para o outro, como o El Niño - Oscilação Sul e atividades vulcânicas. As estimativas atuais dessa anomalia de longo prazo variam entre 1,34 e 1,41°C.

Além disso, os cientistas interpretaram “promover esforços para limitar o aquecimento global a até 1,5°C acima dos níveis pré-industriais” como estabilizar a elevação média global da temperatura nesse limite ou abaixo dele até 2100. Isso significa que o aquecimento pode ultrapassar esse limite de forma temporária antes de voltar a 1,5°C até o final do século – algo que exigirá remoção de carbono em larga escala. Dito isso, minimizar a magnitude e a duração desse excesso é essencial. Cada fração de grau de aquecimento, mesmo que temporária, resulta em impactos cada vez mais irreversíveis e adversos. Saiba mais aqui e aqui.


A seguir, detalhamos as 10 principais conclusões do State of Climate Action deste ano, incluindo desde os sinais mais promissores de progresso até setores extremamente atrasados.

1) O financiamento climático privado aumentou de forma tão expressiva que passou de “muito fora do ritmo” para apenas “fora do ritmo”.

Entre 2022 e 2023, o financiamento climático do setor privado passou de cerca de US$ 870 bilhões para um recorde de US$ 1,3 trilhão, e estimativas preliminares de 2024 sugerem que essa tendência se manteve. Tanto consumidores, individualmente, quanto empresas e investidores institucionais, em especial na China e na Europa Ocidental, impulsionaram grande parte desse crescimento.

Embora ainda fora do ritmo para atingir pelo menos US$ 3,1 trilhões até 2030, esse avanço é motivo de otimismo. O financiamento climático privado já tem possibilitado a expansão de tecnologias de zero carbono como veículos elétricos e bombas de calor. E, combinado com recursos públicos, pode acelerar ainda mais a implementação, além de incentivar a inovação e iniciativas pioneiras.

Ainda assim, apenas o capital privado não será suficiente. É preciso mobilizar e alinhar com urgência todas as fontes de financiamento ao Acordo de Paris para promover as transformações necessárias em todos os setores. Um aumento substancial do financiamento climático público é imperativo, principalmente em áreas em que o setor privado resiste em atuar ou não se encontra bem posicionado para investir devido a riscos altos ou baixos retornos esperados. Esforços como restaurar florestas, expandir infraestruturas de transporte público e desenvolver tecnologias agrícolas inteligentes para o clima, por exemplo, em geral atraem investimentos privados desproporcionalmente mais baixos.

Capa do Relatório State of Climate Action
State of Climate Action 2025

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2) Inovações relativamente recentes, como hidrogênio verde, remoção tecnológica de dióxido de carbono e caminhões elétricos, também registraram avanços anuais expressivos.

Embora ainda não estejam próximas de uma adoção generalizada, essas tecnologias apresentaram avanços significativos em 2023 e 2024 que, se mantidos, podem sinalizar uma aceleração futura também expressiva. A produção de hidrogênio verde, por exemplo, mais que quadruplicou em apenas um ano. E a parcela de caminhões elétricos nas vendas de veículos comerciais médios e pesados aumentou 67% entre 2023 e 2024.

Da mesma forma, mais de 30 projetos de captura direta do ar estão em operação hoje, além de muitos outros em desenvolvimento. Estima-se que até 50 instalações possam entrar em operação em breve, incluindo três que podem capturar até 500 mil toneladas de CO2 por ano – quase 14 vezes mais que a maior usina atual. Embora seja uma tecnologia promissora e em rápida expansão, a captura direta do ar ainda representa uma parcela pequena da remoção tecnológica de dióxido de carbono. Para cumprir a meta de 2030, será necessário ampliar todas as abordagens inovadoras em mais de 10 vezes. Em perspectiva, isso equivale a construir nove das maiores instalações de captura direta do ar por mês até o fim da década.

Medidas para estimular uma maior demanda por essas inovações, bem como investimentos em seu desenvolvimento e implementação, são fundamentais para garantir que esses ganhos recentes se mantenham em longo prazo.

3) As vendas de veículos elétricos ainda estão em alta, mas a desaceleração em alguns mercados importantes reverteu a tendência de progresso, que passou de “no ritmo certo” para “fora do ritmo”.

As vendas de veículos elétricos (VEs) continuam em ascensão, atingindo 22% das vendas globais de carros de passageiros em 2024, contra apenas 4,4% em 2020. Grande parte desse crescimento veio da China – o maior consumidor e fabricante de VEs do mundo hoje –, onde quase metade dos carros de passageiros vendidos são elétricos.

No entanto, em outros dois mercados importantes, esse crescimento estagnou. As vendas de VEs caíram ligeiramente na Europa após o recuo de subsídios em países como Alemanha e França. Nos EUA, o crescimento desacelerou devido a fatores como expansão lenta da infraestrutura pública de recarga e disponibilidade limitada de SUVs elétricos acessíveis, modelo que representa três quartos das vendas de carros de passageiros no país.

Consequentemente, a taxa de crescimento da participação dos VEs nas vendas totais de veículos leves caiu para uma média de cerca de 20% ao ano em 2023 e 2024, contra mais de 60% nos três anos anteriores. Embora considerável, esse avanço recente está abaixo do necessário para atingir a meta de temperatura do Acordo de Paris. Isso marca um retrocesso em relação à última edição do State of Climate Action, quando as vendas de VEs eram o único indicador no ritmo certo.

4) As fontes de energia solar e eólica continuam batendo recordes, mas manter as atuais taxas atuais de crescimento não é suficiente para atingir a meta de 2030.

A energia solar é a fonte de eletricidade que mais cresce na história, superando repetidamente projeções de aumento de capacidade e geração. Hoje, a energia solar global gera cerca de 2.100 terawatts-hora por ano – cerca de oito vezes mais que em 2015 e 66 vezes mais que em 2010. Apenas em 2024, os países instalaram coletivamente capacidade solar na rede suficiente para atender à demanda total da França naquele ano.

Juntas, a participação das fontes solar e eólica na geração de eletricidade cresceu a uma taxa média de cerca de 13% ao ano desde 2020. Apenas manter esse crescimento, porém, não é suficiente para atingir a meta de 2030. Ambas as fontes precisam crescer mais de duas vezes mais rápido, a 29% ao ano – e atrasos nesse avanço tornam o desafio cada vez maior.

Esse cenário evidencia uma realidade complexa para todos os indicadores avaliados. A cada ano em que as taxas atuais são mantidas (em vez de aceleradas), aumenta a magnitude da aceleração necessária posteriormente. Somente acelerando substancialmente esse ritmo o mundo será capaz de compensar o atraso e se aproximar do necessário para a meta de 2030.

5) O mundo avançou muito pouco em algumas das ações climáticas mais importantes, como eliminar o carvão e interromper o desmatamento.

Reduzir drasticamente o desmatamento é crucial para combater as mudanças climáticas. As florestas armazenam cerca de 870 gigatoneladas de carbono – quase o dobro do que foi emitido pelos combustíveis fósseis desde 1850. Pelo menos um terço desse estoque (cerca de 280 GtC) é vulnerável a alterações causadas por humanos – ou seja, o carbono seria liberado imediatamente caso as florestas sejam convertidas em pastagens ou terras agrícolas. Uma vez perdida, seria extremamente difícil recuperar a maior parte dessa reserva de carbono a tempo de contribuir para atingir o zero líquido das emissões até meados do século.

Ainda assim, apesar do papel fundamental desses ecossistemas, os esforços para acabar com o desmatamento continuam muito aquém do necessário. Embora a perda permanente de florestas tenha registrado um declínio do pico de 10,7 milhões de hectares por ano (Mha/ano) em 2017 para 7,8 Mha/ano em 2021, desde então subiu para 8,1 Mha/ano em 2024, o equivalente à perda de quase 22 campos de futebol por minuto – de forma permanente. Esse aumento desacelerou a tendência de queda que vinha sendo observada desde 2015, de modo que o alinhamento à meta de 2030 exigirá reduzir a perda florestal nove vezes mais rápido.

Igualmente preocupante é a lentidão para eliminar o uso de carvão – de longe a maior fonte de emissões de GEE no setor elétrico. A parcela de carvão na geração global de eletricidade caiu apenas de 37% em 2019 para 34% em 2024, permanecendo “muito fora do ritmo”, já pelo quarto relatório consecutivo.

Manter a meta do Acordo de Paris ao alcance exigirá reduzir essa participação mais de 10 vezes mais rápido, chegando a 4% até 2030. Isso equivale a desativar quase 360 usinas de carvão médias por ano até o final desta década, além de interromper todo o planejamento e desenvolvimento de novas usinas em andamento. A persistência desses atrasos também pode comprometer os esforços de mitigação nos setores de construção civil, indústria e transporte, que dependem fundamentalmente da eletrificação e de uma matriz energética descarbonizada.

6) Mesmo com as promessas internacionais para eliminar subsídios, o financiamento público para combustíveis fósseis continua aumentando.

O financiamento público para petróleo, gás e carvão registrou um aumento alarmante, justamente no momento em que esses investimentos precisavam de um corte acentuado. Desde 2014, o apoio financeiro de governos a combustíveis fósseis – como subsídios à produção e consumo e financiamento de instituições de desenvolvimento nacionais e internacionais – aumentou em média US$ 75 bilhões por ano.

Embora esses investimentos tenham caído de um recorde de US$ 2,1 trilhões em 2022 para US$ 1,5 trilhão em 2023, grande parte dessa queda se deve à redução dos preços internacionais de petróleo e gás, que levou à diminuição dos fundos públicos que subsidiam o consumo de combustíveis fósseis como a gasolina. É importante notar que esses subsídios representam a principal forma de apoio governamental aos combustíveis fósseis e costumam variar em função dos preços do petróleo e gás. A redução recente observada, por conseguinte, indica um progresso limitado. Será necessária uma mudança de ação para eliminar o apoio público aos combustíveis fósseis até 2030.

7) O avanço na descarbonização da produção de aço e cimento, setores com alta intensidade de emissões, tem sido inconsistente.

O aço e o cimento são alicerces de nossas cidades, casas e locais de trabalho. Mas também estão entre os materiais que exigem mais emissão de carbono para serem produzidos. E, dada a necessidade de altas temperaturas durante a produção, além das consideráveis “emissões de processo” (GEE liberados pelas reações químicas durante a produção), esses materiais são alguns dos mais difíceis de descarbonizar com as abordagens existentes hoje, como a eletrificação.

Desde 2018, a intensidade de carbono da produção global de aço aumentou. Essa é uma tendência preocupante, considerando que o aço sozinho responde por mais de 7% das emissões globais de CO2. Existem soluções, como reutilização de aço reciclado, substituição de carvão e gás fóssil por hidrogênio verde e uso de fornos elétricos, mas ainda não estão amplamente disponíveis. O uso de hidrogênio verde, embora esteja crescendo rápido, ainda caro e relativamente incipiente, e o aço reciclado é limitado.

Os esforços globais de descarbonização do cimento tem sido mais promissores. O State of Climate Action 2023 apontou, contudo, que o progresso estava estagnado e precisava ser mais de 10 vezes mais rápido para alcançar as metas estabelecidas para 2030. Desde então, a quantidade de CO2 emitida por tonelada de cimento começou a cair devido a ganhos de eficiência energética, maior uso de combustíveis alternativos de baixo carbono e substituição parcial de clínquer (componente primário do cimento) por materiais menos intensivos em emissões, como argila calcinada. Agora, parar entrar no ritmo certo para 2030, é necessária uma aceleração de quatro vezes. De forma encorajadora, nos últimos cinco anos foi registrado um aumento de iniciativas focadas na descarbonização da produção de cimento, sinalizando que o mundo está dando mais atenção a esse desafio.

8) Existem soluções promissoras para reduzir os GEE mais potentes na agricultura, mas os esforços para ampliar sua escala ainda são insuficientes.

A produção agrícola é responsável por cerca de metade das emissões globais de metano e óxido nitroso, dois GEE mais potentes que o CO2, principalmente no curto prazo. As maiores fontes incluem fermentação entérica (processo pelo qual alguns animais liberam metano na digestão); aplicação de fertilizantes sintéticos e orgânicos, como esterco e composto; produção de arroz; e manejo de dejetos de animais.

Embora as emissões absolutas da agricultura tenham registrado um aumento lento desde 2000, a intensidade de emissões (GEE por quilocaloria de alimento produzido) do setor diminuiu em todas as principais fontes. Para 2030, será necessário acelerar essas melhorias 1,2 vez para fertilizantes, 2,5 vezes para fermentação entérica e 6 vezes para manejo de dejetos e cultivo de arroz.

No entanto, acelerar esses avanços não é uma tarefa fácil. Diferente do setor elétrico – no qual a energia solar ou eólica pode ser usada em quase qualquer lugar –, não existe uma solução principal equivalente para reduzir emissões na agricultura. As tecnologias e práticas precisam ser adaptadas a cada contexto, considerando clima, solo, variedades de culturas, raças de animais e tradições agrícolas, entre outros fatores.

Existem muitas estratégias promissoras disponíveis, mas ainda não adotadas em larga escala. Um método já consolidado de alternar os ciclos de inundação e drenagem em arrozais, por exemplo, reduziu de forma significativa as emissões de metano da produção de arroz em alguns países asiáticos. Em paralelo, a introdução de rações de digestão mais fácil diminuiu as emissões por fermentação entérica em grande parte da Europa e América do Norte. É urgente a necessidade de esforços mais coordenados e apoio financeiro para levar e adaptar essas estratégias às regiões que mais precisam.

9) Mudanças na demanda – em dietas, transportes e construções – podem gerar uma redução substancial de emissões, mas essas transformações ainda não se consolidaram.

O IPCC aponta que mudanças nos padrões de consumo, principalmente entre as famílias de maior poder aquisitivo, pode reduzir as emissões de GEE entre 40% e 70% até 2050, em comparação com as políticas climáticas atuais. Andar de bicicleta, caminhar ou usar transporte público em vez de dirigir; evitar voos de longa distância; adotar dietas mais ricas em vegetais; reduzir o desperdício de alimentos; e melhorar a eficiência energética em casas e locais de trabalho estão entre as mudanças mais eficazes.

Ainda assim, essas transições globais praticamente pararam. A parcela de deslocamentos feitos em carros particulares, que em sua maioria ainda usam gasolina, continua aumentando e hoje responde por cerca de metade de todos os quilômetros percorridos – mesmo com a expansão de ciclovias e redes de transporte público nas cidades mais populosas do mundo. A eficiência energética das construções (definida de forma aproximada pela quantidade de energia consumida por metro quadrado de área) também desacelerou nos últimos anos. Além disso, as evidências disponíveis indicam que o mundo não obteve quase nenhum progresso na meta de reduzir pela metade a perda e o desperdício de alimentos até 2030.

Enquanto isso, o consumo per capita de carne bovina, de cordeiro e de cabra nas principais regiões consumidoras registrou uma pequena queda, passando de 107 kcal/dia em 2018 para 104 kcal/dia em 2022. Contudo, para atingir as metas de 2030, esse consumo precisa cair para, no máximo, 79 kcal/dia – cerca de 1,9 porção a menos por semana na Austrália e Nova Zelândia, 1,3 na América do Sul e 1,2 na América do Norte. Felizmente, diversas iniciativas para tornar feijões, lentilhas e outras leguminosas ricas em proteínas mais acessíveis e atrativos estão em andamento no mundo. Além disso, os investimentos públicos para apoiar a pesquisa, desenvolvimento e implementação de proteínas alternativas, como carnes à base de vegetais e carnes cultivadas, também aumentaram. 

Políticas de apoio – incluindo medidas que incentivam melhorias de eficiência e ajudam a fazer com que os comportamentos sustentáveis sejam as opções mais fáceis e acessíveis – podem ajudar a acelerar essas transformações.

10) Limitações persistentes de dados em alguns setores ainda impedem uma avaliação completa da ação climática global.

Em todos os relatórios da série State of Climate Action, os dados disponíveis para alguns indicadores, em especial os relacionados à descarbonização de edifícios e à conservação de ecossistemas úmidos, foram insuficientes para avaliar os avanços. Isso inclui indicadores que poderiam gerar reduções substanciais de GEE.

As turfeiras, por exemplo, ocupam apenas 3,8% da superfície terrestre, mas contêm pelo menos um quinto das reservas mundiais de carbono orgânico do solo e armazenam consideravelmente mais carbono por hectare que as florestas. Uma vez degradados, esses ecossistemas podem emitir CO2 e óxido nitroso por décadas ou séculos, até a perda total da turfa ou reidratação dos solos. Por isso, interromper a degradação das turfeiras e restaurar 15 milhões de hectares até 2030 pode gerar reduções de GEE imediatas e relativamente altas. No entanto, apesar do progresso recente no mapeamento desses ecossistemas, os esforços para monitorar as mudanças anuais na extensão das turfeiras são insuficientes para avaliar o avanço. Sem dados melhores, o mundo tem uma visão muito limitada sobre se esses importantes sumidouros de carbono perdendo ou recuperando esses vitais sumidouros de carbono estão sendo perdidos ou recuperados.

Rumo a um futuro mais próspero e sustentável

Para manter a meta do Acordo de Paris ao alcance, são necessárias mudanças transformacionais imediatas e sem precedentes em todos os setores e aliadas à remoção de carbono em larga escala. Apesar de alguns avanços, como o rápido crescimento das vendas de VEs e na geração de energia a partir de fontes renováveis, a ação climática continua muito aquém do necessário.

Justamente porque o progresso global está tão atrasado, esses desafios tornam as metas estabelecidas para 2030, alinhadas ao Acordo de Paris, ainda mais importantes. Se o aquecimento ultrapassar o limite de 1,5°C, mesmo que temporariamente, os impactos devastadores já existentes se intensificarão, expondo ainda mais pessoas a tempestades mais frequentes e severas, ondas de calor e secas prolongadas, inundações extremas e elevação do nível do mar, entre outros. Ultrapassar esse limiar de aquecimento também aumenta a probabilidade de que esses riscos futuros se combinem simultaneamente, com múltiplas ameaças atingindo as comunidades ao mesmo tempo.

Cada fração de um grau é importante para diminuir a escala e a gravidade desses impactos. E o roteiro para reduzir as emissões de GEE e aumentar a remoção de carbono é claro: tudo, desde a eliminação gradual do gás fóssil sem abatimento de emissões até a eletrificação da indústria, é urgente e necessário nesta década – e ainda tecnicamente viável.

Nesta hora decisiva, ainda temos tempo para corrigir o rumo. Não se pode negar que o desafio à frente é imensurável, e a escala da mudança necessária, sem precedentes. Mas o fato de algo ser inédito não significa que seja impossível. As soluções existem. Nós sabemos o que fazer. Só precisamos agir com a urgência que este momento exige.

Veja os dados do State of Climate Action 2025:

*Sophie Boehm e Clea Schumer contribuíram igualmente para este trabalho e compartilham a autoria principal.


Este artigo foi publicado originalmente no Insights