Em uma tarde quente de verão, a diferença entre uma quadra e outra pode parecer um cenário de outro mundo. Em uma rua, o sol bate diretamente sobre o pavimento, que, por sua vez, irradia calor vindo de baixo. Mas, logo na esquina, em uma calçada sombreada por árvores, o ar é notoriamente mais fresco. A mudança real de temperatura pode ser de apenas alguns graus. Mas, para pessoas esperando um ônibus ou voltando a pé do trabalho, essa diferença importa muito.

À medida que as cidades ficam mais quentes, as diferenças de temperatura de uma quadra para outra se tornam mais acentuadas. Nas maiores capitais do mundo, o número de dias extremamente quentes por ano aumentou 25% desde a década de 1990. Ondas de calor mais longas e intensas têm elevado os riscos à saúde, sobrecarregando sistemas de energia e afetando de forma desproporcional bairros de renda mais baixa, que em geral têm menos árvores. Em todo o mundo, os líderes urbanos estão em busca de soluções eficazes, acessíveis e escaláveis.

As árvores são uma das ferramentas mais práticas que as cidades podem usar para combater o calor. Oferecendo tanto sombra quanto “resfriamento evaporativo” – a versão das árvores do ar-condicionado –, elas proporcionam alívio para as pessoas na rua e, ao mesmo tempo, ajudam a reduzir as temperaturas em seu entorno. Um estudo de modelagem de 2023 constatou que quase 40% das 6.700 mortes atribuídas ao calor urbano na Europa em 2015 poderiam ter sido evitadas se as cidades tivessem aumentado a cobertura arbórea para 30% de sua área. Nas cidades dos Estados Unidos, as árvores urbanas reduzem o consumo de eletricidade em quase 39 milhões de megawatt-hora por ano, economizando bilhões de dólares em custos de refrigeração.

Uma análise do WRI com mais de 60 cidades ao redor do mundo revela uma lacuna: uma quantidade significativa de áreas de solo plantável, em especial ao longo das ruas, está subutilizada – uma oportunidade evidente para expandir a cobertura arbórea urbana. Dentro da maioria das cidades, bairros locais já demonstram o que é possível, com altos níveis de cobertura arbórea gerando benefícios mensuráveis de resfriamento. Ampliar esse nível de cobertura de forma mais ampla poderia reduzir de maneira significativa a exposição ao calor em toda a cidade.

É claro que as árvores sozinhas não resolverão o problema do calor urbano. Mas elas são uma solução acessível e prática que pode aliviar de forma significativa esse impacto para os moradores.

Rua arborizada em Freetown, Serra Leoa: a iniciativa Freetown the Treetown já plantou mais de 1 milhão de árvores na cidade.
Rua arborizada em Freetown, Serra Leoa: a iniciativa Freetown the Treetown já plantou mais de 1 milhão de árvores na cidade. (Foto: em113/Shutterstock)

Como as árvores amenizam o calor nas cidades

O poder de resfriamento das árvores começa pela sombra. Quando superfícies como pavimentos, telhados e edifícios ficam expostas à luz solar direta, absorvem e armazenam calor, liberando-o de volta para o ar mesmo muito tempo depois de o sol se pôr. As árvores interrompem esse processo ao fazer sombra sobre calçadas e ruas, evitando que as superfícies aqueçam. Além disso, também resfriam o ar do entorno por meio da evapotranspiração (a liberação de vapor d’água pelas folhas).

Um estudo com 806 cidades do mundo constatou que o aumento da cobertura arbórea está associado a reduções de cerca de 1,5°C na temperatura da superfície terrestre ao meio-dia, demonstrando como a sombra limita a quantidade de calor absorvido e reemitido pelas superfícies urbanas. Uma meta-análise global concluiu que aumentar a cobertura arbórea também resfria o próprio ar: um aumento de 10% na cobertura é capaz de reduzir a temperatura do ar ambiente em cerca de 0,3°C.

Mas a temperatura do ar e da superfície não é o único fator que determina a sensação de calor. A forma como sentimos o calor, quantificada por “índices de conforto térmico” – diferentes medidas de o quão quente uma pessoa percebe o ambiente, em média –, também é influenciada por fatores como umidade, vento e radiação solar direta. As árvores fazem com que a sensação térmica caia de forma significativa ao bloquear a luz solar direta. Dados do Cool Cities Lab, do WRI, mostram que as árvores podem melhorar o conforto térmico em 2°C a 8°C.

A sombra e a evapotranspiração permitem que as árvores proporcionem resfriamento em múltiplas escalas ao mesmo tempo – desde a redução da temperatura do ar nos bairros até a diminuição do aquecimento de superfícies e o alívio do estresse térmico hiperlocal. Tudo isso torna as condições ao ar livre mais suportáveis durante os meses mais quentes do ano e reduz doenças e mortes induzidas pelo calor.

As árvores urbanas também oferecem uma ampla gama de benefícios além do resfriamento. Podem melhorar a qualidade do ar ao remover e dispersar poluentes. Absorvem o escoamento de águas pluviais, ajudando a prevenir enchentes. Sustentam a biodiversidade e sequestram carbono, contribuindo para mitigar as mudanças climáticas. Promovem a saúde física e mental e fortalecem a coesão social ao criar espaços públicos confortáveis, onde as pessoas podem se reunir e passar tempo ao ar livre. Podem até valorizar os imóveis ao tornar os bairros mais atrativos e estimular a atividade econômica local ao aumentar o fluxo de pedestres em áreas comerciais com sombra disponível.

Em resumo, mais árvores tornam as cidades mais resilientes e habitáveis.

As cidades têm espaço para mais árvores

Apesar de todos esses benefícios, muitas cidades não plantam árvores na escala necessária para acompanhar o aumento do calor. Além disso, a cobertura arbórea é distribuída de forma desigual – bairros de menor renda frequentemente têm significativamente menos árvores do que áreas mais ricas.

Mas, de forma realista, quantas árvores as cidades poderiam cultivar?

Analisamos a cobertura arbórea existente e potencial em 66 cidades das principais regiões do mundo, desde cidades menores até grandes centros urbanos. Os resultados mostram um padrão claro: a maioria das cidades tem uma oportunidade substancial de aumentar sua cobertura arbórea ao longo das vias e em locais como parques, estacionamentos e áreas subutilizadas.

Nossa metodologia para calcular o potencial das árvores nas cidades

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Para definir metas realistas de cobertura arbórea, as cidades precisam primeiro saber quanto espaço está disponível para novas árvores. Usando dados de cobertura do solo de alta resolução, podemos mapear áreas que poderiam comportar mais árvores, incluindo parques, faixas de domínio viário, estacionamentos e terrenos abertos ou subutilizados.

Para estimar qual nível de cobertura arbórea é alcançável, analisamos quanto de cobertura já existe nas áreas mais verdes de cada tipo de uso do solo dentro de uma cidade – se um bairro atingiu determinado nível de cobertura, outros provavelmente também podem. Isso ajuda a estabelecer metas razoáveis para aumentar o número de árvores em cada tipo de área com base nas condições locais. As metas também são baseadas no tipo de uso do solo local; por exemplo, definimos metas mais altas para vias de domínio viário e parques, porque em geral as cidades são responsáveis diretas pela administração desses espaços, o que facilita o impacto real de programas de plantio.

Mapear as oportunidades de aumento da cobertura arbórea oferece às cidades uma referência realista que pode ser usada em planos e políticas, ajudando-as ir além de metas de plantio genéricas ou sem embasamento. O mapeamento destaca pontos-chave, nos quais são possíveis os maiores ganhos. Aliadas a outros dados, essas informações podem ajudar as cidades a focar os esforços onde o plantio é viável, estratégico e mais propenso a beneficiar as pessoas. Saiba mais sobre nossos métodos aqui..

As cidades analisadas poderiam aumentar sua cobertura arbórea de 2 a 13 pontos percentuais, dependendo do tipo de terreno disponível e das condições locais de crescimento. Isso representa um aumento mediano de cerca de 8 pontos percentuais, por exemplo, passando de 10% de cobertura para 18%.

Como muitas cidades começam com níveis relativamente baixos de cobertura arbórea, mesmo um aumento aparentemente modesto como esses representa mudanças significativas. Um aumento de 8 pontos percentuais a partir de 10% equivale a uma expansão de 80% em relação às condições atuais. Ainda assim, a variação relativa difere bastante entre diferentes cidades – de cerca de 40% de aumento em relação à linha de base em Charlotte, nos Estados Unidos, a um aumento expressivo de 244% em Bogotá, Colômbia.

Grande parte dessa oportunidade – aproximadamente metade do potencial adicional de cobertura arbórea – está ao longo das vias urbanas.

Começando pelas árvores de rua

Para cidades que buscam expandir a cobertura arbórea, as árvores ao longo das vias – plantadas em áreas como calçadas e canteiros centrais – representam uma das oportunidades mais significativas e viáveis. Diferentemente das árvores plantadas em parques ou terrenos privados, as árvores ao longo das vias estão inseridas nos espaços cotidianos de circulação das pessoas.

Ou seja, elas amenizam o calor exatamente onde é mais necessário. Grande parte da exposição diária das pessoas ao calor acontece nas ruas – no caminho até o transporte, na espera em cruzamentos, durante tarefas cotidianas etc. A presença de árvores pode fazer uma diferença real. Uma calçada com sombra pode parecer até 8°C mais fresca do que uma exposta ao sol, melhorando o conforto térmico e reduzindo o estresse por calor para pedestres.

Em quase 75% das cidades analisadas, as faixas de domínio viário representam mais da metade do total de oportunidade de cobertura arbórea. Em Hyderabad, na Índia, essa proporção chega a 72%. Mesmo em cidades com participação menor, como Porto Velho, em Rondônia, as ruas ainda representam impressionantes 38% da oportunidade de expansão da cobertura arbórea. As vias ocupam cerca de um quinto do solo urbano, mas, atualmente, apenas 8% dessa área possui cobertura arbórea. Esse número poderia chegar a quase 28% se as cidades analisadas plantassem árvores em todos os espaços disponíveis – um aumento de quase quatro vezes.

Veja mais de perto a cidade de Monterrey, no México, onde a cobertura arbórea atualmente corresponde a apenas 8% da cidade.

Onde há árvores, a diferença é visível: áreas sombreadas parecem significativamente mais frescas do que superfícies expostas.

Se fossem plantadas árvores em todas as áreas adequadas, a cobertura arbórea de Monterrey poderia quase dobrar, alcançando 15,7% da cidade.

Somente as árvores ao longo das vias poderiam aumentar a cobertura em quase 4%, criando corredores mais frescos para pedestres e reduzindo a sensação de calor na sombra em até 6°C.

As árvores de rua não são apenas eficazes; são práticas. Como estão localizadas em áreas públicas, costumam ser administradas por um único departamento municipal. Isso significa que podem ser mais fáceis de planejar, implementar e manter do que árvores em outros locais. Além disso, as cidades também podem priorizar áreas estratégicas para o plantio, selecionando locais onde a exposição ao calor é maior.

Os benefícios superam os custos das árvores urbanas

Apesar dos benefícios, ainda há desafios que impedem as cidades de atingir todo o potencial de cobertura arbórea.

Em áreas urbanas mais densas, o espaço para plantio pode ser restrito. As ruas precisam acomodar diferentes usos concorrentes – circulação de veículos, calçadas, infraestrutura de drenagem, ciclovias e estacionamento –, o que pode dificultar a incorporação de árvores em alguns locais. Essas restrições também se estendem abaixo da superfície: as árvores precisam de volume adequado de solo, acesso à água e espaço para o crescimento das raízes. Os custos com a manutenção a longo prazo também são uma barreira – árvores jovens costumam exigir anos de irrigação e cuidados antes de se estabelecerem. E os ambientes urbanos podem dificultar o crescimento das mudas, com solos compactados, estresse térmico, acesso limitado a lençóis freáticos e poluição. Sem planejamento e recursos suficientes para manutenção, as taxas de sobrevivência podem ser baixas.

No entanto, esses desafios precisam ser avaliados em comparação com os custos crescentes de não agir. Caso não enfrentem adequadamente o aumento das temperaturas, as cidades podem sofrer perdas econômicas de bilhões de dólares, com impactos sobre sistemas de saúde, infraestrutura, emprego e demanda por energia. Nesse contexto, as árvores urbanas se destacam como um investimento relativamente econômico e eficiente. Quando são selecionadas corretamente, plantadas em locais adequados e bem mantidas, os benefícios da arborização urbana superam os custos de plantio e cuidado. Uma meta-análise constatou que as cidades recebem mais de US$ 3 em benefícios para cada US$ 1 investido em árvores urbanas, comprovando que as árvores são uma forma de infraestrutura urbana que oferece benefícios econômicos, ambientais e de saúde pública significativos.

Diferentes cidades ao redor do mundo – como Freetown, em Serra Leoa, que plantou mais de 1,2 milhão de árvores como parte da iniciativa Freetown the Treetown, ou Nova York, nos EUA, que plantou um milhão de árvores por meio do programa MillionTreesNYC – já demonstraram que, com planejamento, investimento e engajamento comunitário, programas de arborização urbana podem ser bem-sucedidos. A questão para as cidades não é se vale a pena plantar árvores, mas como fazer isso de forma estratégica, duradoura e equitativa.

Trabalhadores plantam uma árvore em Nova York – iniciativa MillionTreesNYC já plantou mais de um milhão de árvores, levando sombra refrescante às ruas quentes.
Trabalhadores plantam uma árvore em Nova York – iniciativa MillionTreesNYC já plantou mais de um milhão de árvores, levando sombra refrescante às ruas quentes. (Foto: Here Now/Shutterstock)

Transformando oportunidade em ação

Com as estratégias adequadas, as árvores urbanas podem assumir um papel central no enfrentamento do aumento do calor nas cidades. Transformar esse potencial em ação exige alguns passos práticos:

  • Estabelecer metas realistas de cobertura arbórea baseadas em dados: dados de alta resolução sobre a cobertura existente e o espaço viável para plantio podem ajudar as cidades a estabelecer objetivos ambiciosos, mas viáveis. Essas informações podem embasar programas de plantio para áreas onde as árvores terão maior impacto.
  • Priorizar ruas e espaços públicos: como as cidades são as responsáveis diretas pela administração dessas áreas, o plantio ao longo das ruas e em parques e outros terrenos públicos pode ser ampliado mais rápido do que programas que dependem de propriedades privadas.
  • Investir na gestão de longo prazo: florestas urbanas bem-sucedidas dependem tanto da manutenção quanto do plantio – a principal razão pela qual novas árvores urbanas não sobrevivem é a falta de cuidado contínuo. Orçamentos específicos, equipes treinadas e parcerias com organizações comunitárias podem ajudar a garantir que as árvores sobrevivam e prosperem.
  • Focar na exposição ao calor e na equidade: direcionar investimentos para os bairros mais expostos ao calor e com menos árvores pode gerar os maiores benefícios para as pessoas que mais precisam.

As árvores urbanas não são uma solução imediata – o crescimento de uma floresta urbana saudável leva tempo. Ainda assim, são uma das ferramentas mais acessíveis e multifuncionais que as cidades podem usar para tornar as ruas mais frescas, os bairros mais saudáveis e as comunidades mais resilientes.

O Cool Cities Lab fornece dados locais de calor diretamente às cidades. Descubra onde o calor representa os maiores riscos e visualize como esses pontos se sobrepõem a dados de vulnerabilidade de populações e infraestruturas. Estime os impactos de soluções de resfriamento incluindo desde árvores de rua até telhados frios. Saiba mais sobre o Cool Cities Lab. Inscreva-se para receber novidades e atualizações sobre a plataforma e compartilhe como sua cidade poderia usar esses dados.

Este artigo foi publicado originalmente no Insights.