Em todo o mundo, as áreas agrícolas estão substituindo alguns dos nossos ecossistemas naturais mais importantes do planeta.

Há anos sabemos que a agricultura  avança rapidamente sobre as florestas — um problema que o mundo precisa enfrentar com urgência. No entanto, essa pressão não ocorre apenas nas bordas das florestas.

Uma nova pesquisa do WRI, pelo Land & Carbon Lab, pela Rainforest Alliance e pelo Senckenberg Biodiversity and Climate Research Center indica que o mundo perdeu até 95 milhões de hectares de ecossistemas naturais não florestais, incluindo campos, savanas e zonas úmidas, para a expansão de culturas  entre 2005 e 2020. Uma área semelhante (mais 95 milhões de hectares) foi provavelmente convertida em pastagens. Somadas, essas áreas têm uma extensão quase tão grande quanto a Indonésia — e cerca de  quatro vezes maior do que a área de florestas convertida para culturas anuais e pastagens no mesmo período.

Este estudo analisa apenas culturas anuais que precisam ser replantadas todos os anos como soja, trigo e milho. Ele não inclui culturas perenes ou arbóreas, como palma-de-óleo, café ou borracha, que representam uma parcela significativa da conversão florestal. O papel dessas culturas na conversão de ecossistemas fora das florestas ainda é menos conhecido.

Embora muitas vezes recebam menos atenção nos esforços de conservação,  ecossistemas não florestais são essenciais para as pessoas e para o planeta. Estima-se que os campos armazenem entre 20% e 35% do carbono terrestre, enquanto as zonas úmidas (com e sem árvores) armazenam outros 20% a 30%, apesar de ocuparem uma área muito menor. Além disso, esses ecossistemas fornecem um habitat essencial para a biodiversidade, protegem os solos, contribuem para a disponibilidade de água doce e sustentam a segurança alimentar e os meios de vida de mais de um bilhão de pessoas em todo o mundo.  

Empresas e governos começaram a adotar medidas importantes para combater a desmatamento impulsionado pela agricultura. No entanto essas políticas e compromissos muitas vezes não incluem ecossistemas naturais fora da floresta.

Ter uma visão mais completa da conversão de ecossistemas é fundamental para compreender e evitar novas perdas de campos, savanas e zonas úmidas, além das florestas.

Esta pesquisa oferece um ponto de partida ao apresentar  uma primeira análise global sobre quais commodities estão associadas à conversão de ecossistemas não florestais e onde esses impactos podem ser mais intensos.

Sobre os dados

Embora a monitoramentoda perda florestal tenha avançado de forma consistente ao longo dos anos, o monitoramento global da perda de ecossistemas não florestais só começou a ganhar escala recentemente.

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Pela primeira vez, graças a iniciativas como o Global Pasture Watch e ao GLAD Land Cover, é possível observar globalmente a perda de ecossistemas naturais fora da floresta, como pastagens, savanas e zonas úmidas. Este trabalho identificou a conversão recente desses ecossistemas naturais em culturas anuais ou pastagens intensivamente manejadas.

Os métodos utilizados neste estudo têm como objetivo fornecer uma visão geral de onde a conversão pode estar a ocorrer fora das florestas; quais culturas estão ligadas a essa conversão; e se as culturas são utilizadas para alimentação, ração ou outro fim. Os recultados indicam riscos e tendências, e não constituem prova direta de que uma cultura específica seja responsável pela conversão em cada local.

A conversão foi mapeada comparando dados anuais de cobertura da terra ao longo do tempo e contabilizando os pixels de mudança de uso do solo. Embora os dados sobre expansão agrícola tenham passado por avaliações de precisão, a validação dos dados de mudança em pastagens ainda está em andamento no momento da publicação, o que gera algum grau de incerteza nas estimativas relacionadas à conversão em pastagens.

O estudo utiliza dados estatísticos e espaciais da FAO e do MapSPAM (baseados em censos e pesquisas agrícolas) para relacionar a expansão agrícola às áreas onde houve conversão do ecossistema. Com os dados atualmente disponíveis, esta análise representa a melhor estimativa global dessas tendências.

O que está impulsionando a perda de ecossistemas não florestais?

A expansão de culturas agrícolas respondeu por cerca de metade da conversão de ecossistemas identificada em campos, savanas e zonas úmidas. A outra metade está associada à expansão de pastagens para pecuária. Compreender quais culturas estão ligadas a essa conversão é fundamental, especialmente para empresas e outras partes interessadas que buscam avaliar e reduzir esses impactos.

Grande parte da conversão identificada no estudo esta associada a commodities agrícolas comercializadas globalmente, como soja, milho, canola, algodão e cana-de-açúcar. Embora algumas dessas culturas também sejam utilizadas para alimentação humana, muitas vezes são destinadas à ração animal, produção de fibras ou biocombustíveis. Empresas e governos que compram ou importam esses produtos podem desempenhar um papel importante na redução da conversão de ecossistemas ao adotar políticas de abastecimento mais sustentáveis.

Outras culturas, como arroz, hortaliças, leguminosas e, em alguns casos, milho, são cultivadas principalmente para alimentação e podem ser essenciais para a segurança alimentar local. Nesses casos, os impactos ambientais tendem a ser mais bem abordados por meio de políticas públicas nacionais, em vez de políticas comerciais ou compromissos corporativos internacionais. Quando ações empresariais forem consideradas, é importante avaliar cuidadosamente os possíveis impactos sobre a segurança alimentar.

Embora as culturas tenham substituído grandes extensões de pastagens, zonas húmidas e savanas em todo o mundo, os tipos de culturas e as suas utilizações podem variar consoante a região.

O milho é a cultura mais amplamente associada à conversão de ecossistemas não florestais em todo o mundo. Embora o milho possa ser uma cultura alimentar básica, também é usado na alimentação animal, biocombustíveis e produtos químicos.

A procura por milho foi reforçada por mandatos e subsídios para biocombustíveis, especialmente nos Estados Unidos. Isso significa que os esforços para conter a conversão de ecossistemas impulsionada pelo milho devem considerar não apenas onde ele é cultivado, mas também como as políticas moldam a forma como ele é utilizado.

A soja também está associada à conversão de ecossistemas não florestais na maioria dos continentes. É quase sempre cultivada como uma cultura comercial, utilizada principalmente na alimentação animal, óleo de soja e produtos não alimentares, incluindo biocombustíveis.

Outras culturas comerciais, como a colza, o algodão e a cana-de-açúcar, não são tão difundidas como o milho ou a soja, mas estão associadas a pontos críticos de conversão em regiões específicas. A colza está ligada à conversão extensiva de pastagens no Canadá, nos EUA e na Austrália.

O algodão está a expandir-se juntamente com a conversão de ecossistemas na Índia e no Benim. A cana-de-açúcar está associada à conversão em países como o Brasil e o México.

Como muitos desses produtos entram nas cadeias de abastecimento globais, a procura por uma mercadoria em um país pode muitas vezes impulsionar a conversão do ecossistema em outro — efetivamente terceirizando-a. Por exemplo, alguns estudos mostram que a procura por soja na China pode ter relação com conversão de ecossistemas no Brasil.

Considerando o papel da pecuária

Entre 2005 e 2020, a expansão de pastagens para pecuária substituiu aproximadamente a mesma área de ecossistemas naturais não florestais que todas as culturas analisadas no estudo somadas. Em alguns países com altos níveis de conversão, como Brasil, Austrália e Rússia, a conversão para pastagens foi significativamente maior do que a conversão para áreas agrícolas.

No entanto, as pastagens representam apenas parte da pegada territorial da pecuária. A expansão agrícola também precisa ser considerada, já que uma parcela relevante das lavouras é destinada à produção de ração animal. Neste estudo, 34% da área convertida em terras agrícolas foi utilizada para produção de ração. Em países como Brasil, Argentina, Estados Unidos, China e na União Europeia, essa proporção ultrapassa 50% da conversão agrícola.

A demanda internacional também desempenha um papel importante. Em países como Brasil e Argentina, 80% da ração produzida em áreas convertidas foi destinada a mercados externos.

Quando somamos a expansão de pastagens e a produção de ração, fica claro que a pecuária é o principal motor da conversão de ecossistemas não florestais no mundo. Em outras palavras: carne e produtos lácteos não podem ser ignorados nos esforços para conter a expansão agrícola e proteger ecossistemas naturais.

O que isso significa para cadeias de suprimentos sustentáveis?

À medida que a demanda global por commodities agrícolas aumenta, cresce também a responsabilidade das empresas que produzem e comercializam esses produtos em identificar e reduzir impactos ambientais em suas operações e cadeias de suprimento. Embora a proteção das florestas tenha avançado nos últimos anos, políticas voltadas para outros ecossistemas naturais de alto valor ecológico ainda são insuficientes.

Este estudo ajuda a preencher uma lacuna importante. Com melhores informações sobre onde ocorre a conversão e quais commodities estão associadas a ela, empresas, governos e organizações da sociedade civil podem desenvolver políticas mais eficazes, monitorar avanços e criar incentivos para a proteção dos ecossistemas naturais. Essas informações também ajudam a evitar efeitos colaterais indesejados de políticas ambientais. Há evidências, por exemplo, de que o fortalecimento da proteção florestal na Amazônia no início dos anos 2000 reduziu o desmatamento associado à soja na região. No entanto, isso também foi associado ao aumento da conversão no Cerrado, uma das savanas com maior biodiversidade do mundo. Incluir ecossistemas não florestais nas políticas de cadeias de suprimento responsáveis pode ajudar a evitar esse deslocamento de impactos ambientais das florestas para outros ecossistemas naturais.

Como as empresas podem ajudar a conter a perda de ecossistemas?

Proteger florestas e outros ecossistemas naturais é fundamental. Em muitos casos, não é necessário criar novas estruturas — basta ampliar compromissos de sustentabilidade já existentes para incluir ecossistemas não florestais.

Existem exemplos positivos. O Accountability Framework Initiative oferece orientações detalhadas para empresas estabelecerem compromissos de cadeias de suprimento livres de desmatamento e conversão de ecossistemas naturais — conhecidos como compromissos Deforestation and Conversion-Free (DCF). Quase um quarto das principais empresas fornecedoras de soja e cerca de um quinto das principais empresas fornecedoras de carne bovina já têm compromissos que incluem a proteção de ecossistemas naturais não florestais.

Por meio da Science Based Targets Network (SBTN) e da Science Based Targets initiative (SBTi) — iniciativas que apoiam empresas na definição de metas robustas para clima e natureza — mais de 300 empresas já se comprometeram a reduzir emissões associadas à conversão ou eliminar a conversão de ecossistemas naturais em suas cadeias de valor.

As empresas também podem fortalecer o engajamento com fornecedores, estabelecendo políticas claras de não compra de produtos provenientes de áreas recentemente convertidas e criando incentivos para práticas produtivas que protejam ecossistemas naturais.

Essas ações são particularmente importantes para empresas que produzem ou comercializam carne e produtos lácteos, devido à grande pegada territorial da pecuária e da produção de ração animal. O Protocolo de Gases de Efeito Estufa para o Setor Terrestre e Padrão de Remoção exige que as empresas com produtos de origem animal nas suas cadeias de valor contabilizem a área de terra usada para pastagem, bem como a área de cultivo usada para produzir ração animal, e que as empresas relatem todas as suas emissões decorrentes da mudança no uso da terra em todos os ecossistemas e produtos terrestres.

Com uma quantidade finita de terra no planeta, os governos e as empresas devem pensar em como usar as terras agrícolas de forma mais eficiente e reduzir a pressão sobre os ecossistemas naturais remanescentes. Dado que a pecuária é responsável por uma parcela tão grande da conversão do ecossistema, medidas para mudar dietas ricas em carne para alimentos mais à base de plantas podem ajudar a diminuir a necessidade de converter mais terras para ração e pastagem. Reduzir a perda e o desperdício de alimentos é outra grande oportunidade para aumentar a eficiência; até 40% dos alimentos que o mundo produz hoje não são consumidos.

Este estudo representa um primeiro esforço global para compreender a conversão de ecossistemas naturais não florestais, e ainda há necessidade de pesquisas adicionais e soluções específicas para diferentes regiões.

Análises mais detalhadas em áreas de produção específicas, utilizando dados contextualizados, serão essenciais para identificar focos recentes de conversão associados a commodities, apoiar ações de engajamento e monitorar o progresso ao longo do tempo.

Mas as empresas não precisam esperar. Elas podem agir desde já para ajudar a garantir que seja possível alimentar o mundo enquanto protegemos os ecossistemas dos quais todos dependemos.

 

*Até à data, a conversão de ecossistemas não florestais em pastagens tem sido difícil de quantificar à escala global. As pastagens podem parecer semelhantes às naturais pastagens vistas do espaço e, historicamente, muitos produtos de cobertura do solo não têm feito distinção entre elas. Esta análise utiliza novos dados sobre pastagens (que separam as pastagens naturais e seminaturais das pastagens cultivadas onde gramíneas e outras ervas são intencionalmente plantadas ou geridas, aqui denominadas pastagens) para dar um primeiro passo importante na estimativa da conversão em pastagens em todo o mundo.