Observatório da Restauração amplia em 33% as áreas mapeadas e fortalece a governança de dados no Brasil
O avanço da restauração de ecossistemas no Brasil depende, cada vez mais, da capacidade de transformar compromissos políticos em ações concretas no território. Para que esse processo seja efetivo, o acesso a dados qualificados são fundamentais para possibilitar o monitoramento e o reporte desses avanços. Nesse contexto, a terceira edição do Observatório da Restauração, iniciativa da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura em parceria com diversas instituições, incluindo o WRI Brasil, cumpre um papel estratégico ao reunir, sistematizar e dar transparência às informações sobre a recuperação de vegetação nativa no país.
Lançada em dezembro de 2025, a terceira edição do Observatório da Restauração evidencia avanços significativos nesse esforço. Em apenas um ano, as áreas mapeadas pelo Observatório em processo de restauração passaram de 153 mil para 204,21 mil hectares, um crescimento de 33% e um aumento de 158% em relação a 2021, quando foram mapeados 79 mil hectares. Tal avanço é resultado direto do aprimoramento dos processos de reporte, da ampliação das parcerias e do engajamento de atores que atuam diretamente no território.
A Mata Atlântica segue concentrando a maior parte das áreas em restauração mapeadas, com aproximadamente 131,2 mil hectares. Esse resultado reflete tanto do seu histórico de degradação do bioma quanto a maior maturidade da cadeia da restauração, impulsionada por décadas de articulação entre organizações da sociedade civil, produtores e governos. A Amazônia passou a ocupar a segunda posição em área mapeada, com 39,7 mil hectares, superando o Cerrado que ocupava essa posição em 2023. A Amazônia avança em grande medida devido a iniciativas governamentais e da sociedade civil voltadas à recuperação de áreas no arco do desmatamento. Todos os demais biomas também têm áreas em restauração reportadas e é possível acessar tais dados através do site do Observatório da Restauração.
Além do recorte por bioma, a plataforma apresenta um ranking regional baseado no número de hectares de áreas em restauração reportadas. A região Sudeste lidera com 112 mil hectares, registrando uma diferença de 104 mil hectares em relação à última colocada, a região Sul, conforme apresentado na Figura 1.
Além das áreas reportadas em restauração, o Observatório também disponibiliza o mapeamento de vegetação secundária, que soma 19,04 milhões de hectares (MapBiomas - Coleção 10). Esses dados são atualizados periodicamente e devem ser interpretados com cautela: vegetação secundária não é sinônimo de restauração bem-sucedida, pois sua permanência depende de fatores como proteção legal e continuidade no longo prazo. Para fins do Observatório, considera-se apenas regeneração após 2008, em conformidade com o Código Florestal.
Avanço no Reporte e Governança de Dados
Em 2025, o Observatório avançou não apenas na ampliação das áreas reportadas, mas também no fortalecimento de seus mecanismos de governança e padronização do reporte, elementos essenciais para melhorar rastreabilidade, comparabilidade e transparência das informações.
Em agosto do mesmo ano, a Coalizão Brasil promoveu uma oficina para definição de parâmetros nacionais de monitoramento da restauração, realizada no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. O encontro reuniu representantes de instituições técnicas, academia, especialistas, parceiros estratégicos e os Coletivos pela Restauração. Como resultado das discussões promovidas durante o evento e com o apoio do WRI Brasil, foi lançada uma publicação que consolida avanços importantes no reporte de áreas, na padronização de critérios para o envio dos polígonos referentes às áreas em restauração não-compulsória e no fortalecimento da governança de dados. Áreas de restauração não-compulsória se referem a iniciativas voluntárias conduzidas por diferentes atores, para além de obrigações legais de recomposição ambiental.
Um dos principais resultados desse processo foi a construção de consenso em torno de uma tabela de atributos mínimos de reporte, que acompanha os dados geoespaciais enviados ao Observatório. Essa padronização fortalece a rastreabilidade e aumenta a clareza conceitual no preenchimento das informações, reduzindo ambiguidades e melhorando a consistência do reporte em escala nacional.
A participação dos Coletivos pela Restauração foi decisiva para que essa tabela de atributos mínimos refletisse as características e realidades dos diferentes biomas, garantindo maior aderência territorial e aplicabilidade prática.
O papel dos Coletivos pela Restauração no reporte e atualização dos dados
Os coletivos pela Restauração são redes multissetoriais formadas por organizações que atuam diretamente na restauração de ecossistemas em cada bioma. De forma autônoma, promovem a articulação entre atores, o intercâmbio de experiências e a disseminação de boas práticas, funcionando como catalisadores e amplificadores da agenda da restauração em seus territórios.
No Observatório, seu papel foi reforçado como o de principais protagonistas no reporte e no acompanhamento dos dados cadastrados, reconhecendo sua legitimidade territorial e sua capilaridade necessária para garantir a atualização contínua e a qualidade das informações da plataforma.
Nesse contexto, o reporte dos dados disponibilizados pelo Observatório é realizado em sua maior parte pelos Coletivos, sendo eles, Aliança pela Restauração da Amazônia, Articulação pela Restauração do Cerrado, Pacto pela Restauração da Mata Atlântica, Pacto pela Restauração do Pantanal, Rede pela Restauração da Caatinga e Rede Sul de Restauração Ecológica.
Com critérios mais claros e padronizados, os Coletivos fortalecem sua capacidade de mobilizar atores locais e regionais e apoiar a captação, validação e atualização dos polígonos de áreas em restauração. Essa articulação com redes atuantes nos seis biomas brasileiros, torna o Observatório uma iniciativa pioneira no país ao consolidar um sistema de reporte baseado em uma metodologia comum e construída coletivamente.
Anualmente, no primeiro semestre, são realizadas mobilizações junto aos coletivos e parceiros para estimular o envio de novos dados, que são consolidados e apresentados ao público no segundo semestre, durante o lançamento anual da plataforma.
O reporte de dados no Observatório é voluntário, gratuito e autodeclaratório, aberto a instituições públicas e privadas, organizações da sociedade civil, universidades, empresas e pessoas físicas que implementam ou acompanham iniciativas de restauração no país. O envio das informações é formalizado por meio da assinatura de um Termo de Cessão de Dados, que estabelece diretrizes para o compartilhamento e o uso responsável das informações registradas.
Quais são os principais desafios enfrentados pelo Observatório?
A consolidação do Observatório da Restauração é um processo contínuo que envolve enfrentar desafios estruturais importantes. Entre eles estão o fortalecimento do engajamento dos diferentes atores, a ampliação e qualificação dos recursos técnicos disponíveis, a integração entre sistemas de informação e a garantia de sustentabilidade institucional e financeira da iniciativa.
Por que o Observatório retirou o "reflorestamento" do seu escopo?
Outra mudança importante da última atualização foi a decisão de retirar o termo “reflorestamento” de sua nomenclatura e do escopo analítico do Observatório.
A restauração de ecossistemas é entendida como um processo de interromper e reverter a degradação ambiental, com foco na recuperação da vegetação nativa e dos serviços ecossistêmicos. Já o reflorestamento está frequentemente associado ao plantio de árvores para fins produtivos, muitas vezes com espécies exóticas, e deixou de integrar as metas nacionais de restauração previstas em instrumentos como o Planaveg e a Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) brasileira.
Essa decisão reflete o amadurecimento conceitual, normativo e político da agenda de restauração no Brasil e no cenário internacional. Os principais compromissos assumidos pelo país — como o Acordo de Paris e o Marco Global da Biodiversidade de Kunming-Montreal — têm como foco a recuperação de ecossistemas e da biodiversidade nativa, e não o aumento da cobertura arbórea para fins econômicos.
Manter o reflorestamento no escopo do Observatório vinha gerando ambiguidades conceituais e desafios de comunicação com o público, comprometendo o alinhamento da plataforma com essas agendas estratégicas.
Além disso, também há grandes desafios metodológicos em permanecer com o conceito na plataforma. Os dados anteriormente utilizados eram provenientes de mapeamentos por sensoriamento remoto, o que dificulta as possibilidades de qualificação adicional ou distinção precisa entre espécies nativas e exóticas.
Ao reforçar o foco na restauração, o Observatório avança na clareza conceitual, no alinhamento com as políticas públicas e na capacidade de qualificar as informações com base em dados declaratórios e de campo.
Um esforço contínuo e colaborativo – e o que vem pela frente
Desde sua criação em 2021, o Observatório da Restauração se consolidou como uma plataforma digital de governança e transparência, integrando dados de campo e informações geoespaciais sobre áreas em processo de restauração e sobre a vegetação secundária nos seis biomas do país.
A ferramenta atende a diferentes públicos e finalidades, apoiando gestão, planejamento e tomada de decisão no âmbito público e privado, além de se consolidar como uma fonte estratégica de dados para pesquisas e análises territoriais. Ao acompanhar a evolução dessas iniciativas, o Observatório dá visibilidade a quem faz a restauração acontecer e oferece um panorama abrangente da agenda no país por meio de uma plataforma WebGIS interativa.
Entre as perspectivas futuras, destacam-se o desenvolvimento de filtros territoriais mais refinados, a análise da permanência e da idade da vegetação secundária e o cruzamento dos dados de restauração com informações sobre áreas protegidas, como Áreas de Preservação Permanente (APP), Reservas Legais, Unidades de Conservação e Terras Indígenas. Esses aprimoramentos devem contribuir para uma leitura ainda mais qualificada, estratégica e territorializada da restauração no Brasil. Assim, o Observatório da Restauração se projeta não apenas como uma plataforma nacional de monitoramento, mas como uma referência que qualifica o debate público, fortalece a governança da restauração e oferece aprendizados relevantes para iniciativas regionais e internacionais voltadas à transparência, ao engajamento da sociedade civil e à efetividade da restauração de ecossistemas.
O WRI Brasil segue apoiando o Observatório e acredita que o fortalecimento da governança de dados é um passo decisivo para transformar metas em ação, políticas públicas em resultados e compromissos em benefícios reais para o clima, a biodiversidade e a sociedade.