Os impactos das mudanças climáticas estão cada vez mais evidentes – e os benefícios de agir também.

A transição para tecnologias como energia renovável e veículos elétricos já contribui para melhorar a qualidade do ar e evitar mortes causadas pela poluição. Países que investem em modelos de desenvolvimento mais verdes criam milhões de novos empregos em setores como energia e manufatura. E a energia limpa ajuda a reduzir o custo da eletricidade, levando energia a quem antes não tinha acesso.

No entanto, essa transição não acontece em um ritmo rápido o suficiente para evitar impactos climáticos cada vez mais perigosos, e o progresso segue desigual. Enquanto alguns países avançam no desenvolvimento de baixo carbono, outros retrocedem. Ao mesmo tempo, o custo das mudanças climáticas continua subindo: apenas no último ano, eventos climáticos extremos causaram mais de US$ 300 bilhões em prejuízos.

O que precisamos agora é de uma mudança em escala. O mundo precisa parar de estabelecer metas e efetivamente cumpri-las. A próxima Cúpula do Clima da ONU (COP30), em Belém, no Pará, é uma oportunidade fundamental para isso.

Especialistas do WRI identificaram quatro áreas principais por meio das quais a COP30 pode colocar o mundo no ritmo certo rumo a um futuro mais seguro e próspero:

  1. Estabelecer compromissos climáticos nacionais robustos, utilizando tanto planos globais quanto nacionais para preencher as lacunas da ação climática.
  2. Transformar o sistema financeiro global para que todas as formas de financiamento (público e privado, doméstico e internacional) apoiem a transição para economias verdes, inclusivas e resilientes. Garantir que os recursos cheguem aos países e comunidades que mais precisam.
  3. Reforçar a resiliência climática, reconhecendo que investir em adaptação é investir em crescimento, segurança e desenvolvimento; estabelecer uma nova meta ambiciosa de financiamento para adaptação; e definir indicadores claros e mensuráveis para acompanhar os avanços.
  4. Proteger a natureza, reformar os sistemas alimentares e assegurar os direitos dos povos indígenas sobre seus territórios: três elementos-chave para enfrentar ao mesmo tempo as crises do clima e da natureza.

Diante disso, quais devem ser os principais resultados da COP30 nessas áreas (e além delas) para que a Conferência seja considerada bem-sucedida? A seguir, confira o que pensam nossos especialistas.

Encarar a ação climática como uma estratégia econômica

Profile photo.Ani Dasgupta, Presidente e CEO do WRI 

A Cúpula do Clima da ONU de 2025 (COP30) acontecerá de 10 a 21 de novembro de 2025, em Belém, no Pará. Para saber mais sobre as principais questões em jogo e ficar por dentro das últimas notícias, pesquisas e eventos, acesse o Resource Hub do WRI

Atualmente, enfrentamos muitos ventos contrários à ação climática e ao multilateralismo. Os Estados Unidos recuaram, e há discussões apontando para uma direção semelhante em partes da Europa. Mas esse não é o cenário completo – nos 50 países em que o WRI atua, observamos que há avanços acontecendo.

Todos os líderes de países em desenvolvimento com quem converso veem essa transição como uma grande oportunidade econômica, não como um fardo. Essa afirmação é particularmente verdadeira em grandes economias de renda média. China e Índia, por exemplo, estão impulsionando recordes de implantação de energia renovável, principalmente solar. O crescimento econômico impulsionado pela energia limpa se tornou um catalisador mais forte do que o próprio clima. Como país anfitrião da COP, o Brasil também tem mostrado como uma economia baseada na proteção das florestas (e não em sua destruição), pode gerar mais de US$ 8 bilhões adicionais no PIB e mais de 300 mil novos empregos na Amazônia até 2050. Para esses países, prosperidade econômica, segurança energética e descarbonização são a mesma coisa – e é essa convergência que tem impulsionado o avanço da transição que observamos hoje. 

Está em curso um realinhamento geopolítico da liderança climática. Esses países de renda média desempenharam um papel fundamental para os resultados da COP29 em 2024, em Baku. Com suas grandes populações, emissões expressivas e imensa riqueza em biodiversidade, esses países continuarão a ter um papel determinante no êxito da transição global em prol das pessoas, da natureza e do clima. Estamos atentos para ver como formatarão essa liderança na COP30.

Banners fora do prédio das Nações Unidas na Alemanha
Banners externos ao lado do local onde ocorrem as negociações climáticas da ONU em Bonn, na Alemanha, antes da conferência anual do clima (COP). (Foto: UNclimatechange/flickr)

Avançar na implementação de compromissos climáticos, financiamento e adaptação

Profile photo.Melanie Robinson, Diretora Global de Clima, Economia e Finanças do WRI

Todos os países devem apresentar novos planos climáticos nacionais (as chamadas Contribuições Nacionalmente Determinadas, ou NDCs) este ano. Até o dia 27 de outubro, 65 países já haviam submetido formalmente suas NDCs – e os planos atuais estão muito aquém do necessário para atingir as metas do Acordo de Paris. Muitos dos principais emissores ainda devem apresentar suas NDCs antes ou durante a COP30, o que pode ajudar a mudar esse cenário, mas permanecemos diante de uma lacuna significativa.

Em Belém, os líderes precisam concordar com uma resposta global decisiva para enfrentar essa defasagem. Isso inclui: 1) Reforçar o compromisso com o limite de 1,5°C e estabelecer um plano claro para alcançar essa meta; 2) Avançar a implementação de estratégias específicas para reduzir emissões em setores como energia e transportes até 2030, refletindo os resultados do Balanço Global de 2023; e 3) Traçar caminhos para atingir as metas de zero líquido de emissões, em particular por meio de estratégias de longo prazo atualizadas.

Em termos de financiamento, os líderes estabeleceram no ano passado a meta de mobilizar US$ 1,3 trilhão por ano de todas as fontes internacionais para a ação climática em países em desenvolvimento até 2035. O Roteiro Baku-Belém, que será apresentado em breve, traçará estratégias para alcançar esse objetivo, mostrando como coordenar todas as fontes de financiamento em torno do mesmo objetivo, como um sistema, para obter o financiamento necessário para a transição. Na COP30, os países precisam demonstrar como colocar esse plano em prática. Uma novidade promissora é o lançamento das “plataformas nacionais”: abordagens lideradas pelos países para alinhar todas as fontes de financiamento aos seus planos climáticos e de desenvolvimento, reformas políticas e carteiras de investimento.

Quanto à resiliência, o compromisso de Glasgow de 2021 de dobrar o financiamento para adaptação termina este ano, e os países precisam definir uma nova meta na COP30. Algumas nações em desenvolvimento defendem uma meta baseada em necessidades; outras, que o financiamento para adaptação deve ser triplicado até 2030. Nossa análise mostra que triplicar o valor até 2035 é viável, mas exigirá aumentos em todas as fontes (fundos multilaterais para os países mais pobres, fundos bilaterais, novas fontes de financiamento concessional e mais capital privado), além de um sistema financeiro mais integrado.

A COP30 também é uma oportunidade para adotar indicadores alinhados à Meta Global de Adaptação. Dessa forma, será possível criar uma linguagem comum para acompanhar os avanços na construção da resiliência e as necessidades de apoio correspondentes. Se bem implementada, essa abordagem pode colocar a resiliência no centro do planejamento econômico, social e empresarial de países, comunidades e organizações.

Usina de painel solar na China
Construção de usina solar na China. Na Conferência do Clima deste ano, é essencial que os países apresentem planos concretos para implementar seus compromissos climáticos nacionais. (Foto: Xiangli Li/Shutterstock)

Reforçar compromissos que aliem a ação em prol do clima e da natureza

Profile photo.Mariana Oliveira, Diretora de Florestas e Uso da Terra do WRI Brasil

Nós não conseguiremos cumprir as metas climáticas – nem as de mitigação e adaptação – se as florestas e ecossistemas naturais não fizerem parte do plano. A ciência é clara: proteger e restaurar a natureza e transformar os sistemas alimentares são ferramentas poderosas para reduzir emissões, aumentar a resiliência e diminuir os impactos climáticos. O desafio é mobilizar recursos para aumentar a escala dessas soluções.

Uma iniciativa que devemos observar na COP30 é o fundo Tropical Forest Forever Facility (TFFF), que será lançado pelo governo brasileiro. Essa proposta ousada oferece pagamentos previsíveis e baseados em desempenho a países que mantêm suas florestas em pé, reduzindo a dependência da filantropia. O Brasil já se comprometeu com US$ 1 bilhão para o fundo, e países como Reino Unido, Colômbia, Noruega e Indonésia manifestaram seu apoio. Mas, para que o TFFF funcione, é preciso que pelo menos mais US$ 25 bilhões sejam anunciados durante a COP30. A grande questão é se os países desenvolvidos estarão dispostos a contribuir.

Os países também devem apresentar um pacote robusto para fortalecer os direitos dos povos indígenas e comunidades locais sobre seus territórios e aumentar o financiamento destinado a eles. Embora essas comunidades sejam algumas das mais eficazes guardiãs das florestas do mundo, seus territórios estão sob ameaças crescentes – e esses grupos muitas vezes não possuem os direitos legais sobre as terras que administram. A COP30 pode ajudar ao lançar uma versão aprimorada do Forest Tenure Pledge 2.0 e garantir que povos indígenas e comunidades locais recebam pelo menos 20% do financiamento do TFFF.

Também é essencial fazer investimentos em agricultura sustentável e na restauração de terras. Um potencial avanço para acompanhar durante a COP30 é o lançamento da iniciativa RAIZ (Resilient Agriculture Investment for Net-Zero Land Degradation ou “Investimento em agricultura resiliente para degradação zero do solo”, em tradução livre), que propõe mecanismos financeiros inovadores para restaurar até 250 milhões de hectares de terras degradadas até 2050, contribuindo também para o aumento da produção global de alimentos.

Além da RAIZ, iniciativas complementares já em andamento no Brasil (como o Programa Nacional de Florestas Produtivas e o Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia) reforçam a liderança emergente do país em promover ações integradas em prol do clima, natureza e sistemas alimentares. Ampliar essa agenda pode garantir que a COP30 gere resultados positivos não apenas em termos de ambição climática, mas também de resiliência, equidade e prosperidade.

Mulheres agachadas plantando
Iniciativa de restauração liderada pela organização BIOCOOR em Ruanda. Soluções como restaurar terras degradadas e adotar práticas sustentáveis na agricultura podem gerar benefícios para as pessoas, a natureza e o clima. (Foto: Serrah Galos/WRI)

Sob a liderança do Brasil, fazer da COP30 a “COP da Implementação”

Profile photo.Karen Silverwood-Cope, Diretora de Clima, Economia e Finanças do WRI Brasil

Ocupando a presidência da conferência deste ano, o Brasil traz uma visão clara e ambiciosa para a COP30: fazer de Belém a “COP da Implementação”. O principal desafio da presidência brasileira na conferência é transformar promessas em ações concretas, conciliando diferentes interesses dos países desenvolvidos e em desenvolvimento no que diz respeito a ambição, equidade, mitigação e adaptação. A presidência brasileira delineou três prioridades que começaram a ser articuladas e implementadas em 2024, com conclusão prevista até o fim de 2026.

Primeiro, o Brasil tem trabalhado para alinhar prioridades climáticas e econômicas ao longo do último ano, por meio de fóruns como o G20 e o BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), colocando o financiamento no centro das discussões internacionais sobre clima. O país também lançou o Círculo de Ministros das Finanças da COP30, reunindo representantes de 37 países que desenvolveram recomendações concretas sobre financiamento concessional, reforma dos bancos multilaterais, plataformas de investimento e marcos regulatórios para liberar fluxos de capital. Esse trabalho forneceu insumos importantes para o Roteiro Baku-Belém e foi um passo essencial para integrar ministros de finanças – atores estratégicos para ampliar o financiamento climático – nas negociações internacionais.

Além disso, o Brasil está redefinindo sua liderança regional com base na cooperação entre economias emergentes. A Declaração do Rio na recente cúpula do BRICS, por exemplo, sinalizou a disposição desses países em liderar uma transição resiliente e de baixo carbono, incluindo desde títulos verdes e proteção de florestas tropicais até novas iniciativas para o comércio e contabilidade de carbono.

Por fim, a presidência brasileira trabalha para articular uma rede mais ampla de atores engajados em acelerar o avanço da agenda climática além das negociações formais da COP. O objetivo é entregar uma “Agenda de Ação” que alinhe todos os atores aos diversos compromissos e processos climáticos (como o Balanço Global, as NDCs e as estratégias climáticas de longo prazo), promovendo transparência e responsabilidade na ação climática.

Outros resultados importantes para observarmos na liderança do Brasil da COP30 incluem avanços no Programa de Transição Justa, no Plano de Ação de Gênero e no desenvolvimento de indicadores para a Meta Global de Adaptação.

Acompanhe

Os especialistas do WRI estão acompanhando de perto essas discussões antes da conferência e estarão em Belém durante a cúpula. Para saber mais sobre as questões em jogo, ler artigos e pesquisas sobre o assunto e ficar por dentro dos resultados, acesse o Resource Hub da COP30 do WRI.


Este artigo foi publicado originalmente no Insights.