As ações climáticas geralmente se encaixam em duas estratégias: esforços de mitigação, que buscam reduzir ou remover as emissões de gases de efeito estufa (GEE) da atmosfera, e de adaptação, que ajudam comunidades e ecossistemas a suportar os impactos das mudanças climáticas.

Embora ambas sejam fundamentais para enfrentar a crise climática, a mitigação e a adaptação costumam ser vistas como prioridades conflitantes, competindo por recursos financeiros escassos. Em geral, a mitigação recebe mais atenção e investimentos, enquanto o financiamento para a adaptação fica atrás, deixando comunidades cada vez mais vulneráveis a tempestades, enchentes, incêndios e outras ameaças climáticas.

No entanto, essa divisão nem sempre reflete a realidade. Métodos e tecnologias capazes de reduzir as mudanças climáticas e lidar com seus impactos ao mesmo tempo já existem – e as duas estratégias se sobrepõem mais do que se imagina.

Com o mundo próximo de atingir temperaturas que trarão impactos ainda mais severos para pessoas, ecossistemas e economias, é fundamental investir em soluções que reduzam emissões e fortaleçam a resiliência ao mesmo tempo.

Estudos mostram que mitigação e adaptação climática podem avançar juntas

Recentemente, o WRI analisou mais de 300 investimentos em adaptação e descobriu que mais da metade também pode reduzir emissões de GEE em longo prazo; por exemplo, por meio da adoção de práticas agrícolas inteligentes para o clima, da criação de áreas verdes e arborização nas cidades ou da introdução de fontes de energia renovável mais resilientes.

Homens cultivando mudas
Estratégias como o plantio de árvores podem conter as mudanças climáticas e, ao mesmo tempo, proteger comunidades contra impactos como secas e enchentes. (Foto: Jake Lyell/Alamy)

Em alguns projetos, o valor econômico esperado das reduções de emissões igualou ou até superou os benefícios de resiliência. Estimativas apontaram que o Resilient Landscapes Restoration Project (Projeto de Restauração de Paisagens Resilientes), no Uzbequistão, por exemplo, poderia gerar o equivalente a US$ 350 milhões em reduções de emissões, em comparação a US$ 166,7 milhões em perdas evitadas e outros benefícios sociais e de desenvolvimento. De forma semelhante, o projeto Heritage Colombia, voltado ao manejo sustentável da terra, foi projetado para gerar mais de US$ 1,5 bilhão em reduções de emissões e US$ 1,35 bilhão em outros benefícios.

Ainda assim, a maioria dos projetos não realizou uma avaliação completa do valor das reduções de emissões calculadas, o que levou a uma subestimação dos retornos desses investimentos. Considerar integralmente os benefícios de mitigação gerados por iniciativas de adaptação pode evidenciar a relação entre ambos e direcionar recursos para ações que gerem resultados nas duas frentes.

6 soluções climáticas que podem promover mitigação e adaptação

A seguir, estão seis exemplos de ações que podem reduzir emissões em setores altamente poluentes e, ao mesmo tempo, aumentar nossa capacidade de enfrentar os impactos cada vez mais severos do clima.

1) Expandir a geração descentralizada de energia renovável

O uso e a demanda de energia estão aumentando em todo o mundo, principalmente em mercados emergentes e economias em desenvolvimento, onde a população e as necessidades de infraestrutura crescem rapidamente. Ao mesmo tempo, ondas de calor recordes e tempestades sem precedentes, intensificadas pelas mudanças climáticas, danificam infraestruturas de energia e causam picos de demanda, levando a apagões cada vez mais frequentes.

O desenho das redes elétricas contribui para esse risco. Hoje, os combustíveis fósseis – responsáveis por mais de 50% da produção global de eletricidade em 2024 – dominam as redes centralizadas, compostas por longas cadeias de infraestrutura interligada. Uma falha em um ponto dessas redes pode comprometer todo o sistema. Isso torna os sistemas elétricos vulneráveis à variabilidade climática em um momento em que os eventos extremos são cada vez mais frequentes e intensos.

Redes descentralizadas movidas a energia renovável podem reduzir emissões e resistir melhor aos impactos climáticos. As fontes renováveis são viáveis mesmo em pequena escala, e é possível explorá-las mais perto dos pontos de consumo; dessa forma, elas se ajustam bem a redes descentralizadas, que têm linhas de transmissão mais curtas e áreas de distribuição menores. No caso desastre, uma comunidade com fornecimento independente de energia, projetado para ser resiliente ao clima, não é afetada por apagões em outras regiões.

Fontes menores e locais também conseguem se recuperar mais rápido de desastres. Além disso, painéis solares ou turbinas eólicas não conectados à rede (como a energia solar em telhados ou turbinas montadas em edifícios) podem garantir fornecimento limpo e confiável para hospitais e outros serviços de emergência essenciais após enchentes, incêndios ou outros eventos extremos.

Homens instalam painel solar em Hopital de Ruanda
A instalação de painéis solares em postos de saúde rurais, como este em Ruanda, pode tornar os serviços de saúde mais resilientes a eventos climáticos extremos e, ao mesmo tempo, reduzir as emissões de GEE. (Foto: Walt Ratternman/Sunepi)

2) Promover a agricultura e o uso da terra sustentáveis

A pesquisa do WRI constatou que quase 57% dos investimentos em adaptação voltados para agricultura e manejo florestal sustentáveis também devem gerar benefícios de mitigação. Esse setor fica atrás apenas do de energia, no qual a sobreposição entre mitigação e adaptação é ainda maior.

Hoje, agricultura, florestas e uso da terra respondem por até 21% das emissões globais de GEE. No entanto, a adoção de práticas como agrofloresta, rotação de culturas, sistemas silvipastoris e manejo comunitário de florestas pode reduzir as emissões ligadas ao uso da terra e, ao mesmo tempo, aumentar a resiliência dos agricultores frente aos impactos das mudanças climáticas.

Um sistema silvipastoril, por exemplo, integra diferentes espécies de árvores e arbustos a lavouras e rebanhos. Do ponto de vista das emissões, pastagens arborizadas podem capturar de 5 a 10 vezes mais carbono do que áreas sem árvores de mesmo tamanho. Além disso, árvores e arbustos protegem os rebanhos do calor extremo, oferecem forragem mais nutritiva e garantem o fornecimento de alimentos mesmo em períodos quentes e secos, quando o capim geralmente não cresce. Dessa forma, a produtividade do rebanho aumenta, mantendo a renda e a segurança alimentar dos agricultores durante eventos climáticos extremos.

Diversificar as culturas e incluir árvores nas propriedades rurais também gera novas fontes de receita. Expandir o uso do sistema silvipastoril para cerca de 770 milhões de hectares em todo o mundo, a um custo estimado de até US$ 273 bilhões, poderia render ganhos financeiros de até US$ 2,36 trilhões para os agricultores, graças à diversificação das fontes de renda.

Foto mostra gado em área florestal
Incorporar árvores em lavouras e pastagens permite que os agricultores diversifiquem suas fontes de renda enquanto o solo absorve mais carbono. (Foto: USDA/Flickr)

3) Investir em construções com inteligência climática

O setor de construção é responsável por 37% das emissões globais de GEE. Grande parte vem da produção de materiais como cimento, aço e alumínio, além do consumo de energia nos prédios. Reduzir essas emissões é essencial. Ao mesmo tempo, os edifícios precisam ser resistentes a impactos climáticos cada vez mais severos. E existem formas de tratar os dois desafios ao mesmo tempo.

Um exemplo é melhorar o design das construções e investir em modelos mais eficientes, capazes de reduzir a temperatura interna e proteger os moradores do calor extremo. Esse tipo de melhoria diminui a demanda por ar-condicionado e reduz as emissões associadas à energia em um momento em que ambas têm aumentado devido ao aquecimento global. Posicionar as janelas de frente para o norte no hemisfério norte e para o sul no hemisfério sul ajuda a manter os ambientes frescos ao reduzir a exposição solar. Pintar telhados de branco pode refletir entre 60% e 90% da luz solar, diminuindo as temperaturas dentro e fora dos edifícios. Melhorar a eficiência energética das construções também ajuda a reduzir o consumo e as emissões relacionadas.

Outra possibilidade é substituir materiais de construção de alta intensidade de emissões por alternativas de baixo carbono. As fundações de edifícios, por exemplo, podem ser sustentadas por madeira tratada. Quando utilizada de forma sustentável, a madeira emite menos carbono do que materiais como o concreto e, ao mesmo tempo, reduz danos causados por enchentes e perdas econômicas.

4) Qualificar o transporte coletivo

O setor de transportes é um dos principais causadores das mudanças climáticas, uma vez que é responsável por 24% das emissões globais de CO2. Ao mesmo tempo, estradas e pontes estão entre as infraestruturas mais vulneráveis aos impactos do clima, como tempestades, enchentes e chuvas intensas. Investir na ampliação de sistemas de transporte público resilientes é uma forma de enfrentar os dois desafios ao mesmo tempo.

Pesquisas mostram que, em comparação a veículos privados individuais, ônibus e trens podem reduzir as emissões de GEE em até dois terços por passageiro, por quilômetro rodado. Expandir o uso do transporte público para 34% de todas as viagens urbanas de passageiros pode evitar mais de 15 gigatoneladas de emissões de CO2 equivalente, o mesmo que retirar quase 3,5 milhões de carros das ruas por ano.

Com a ampliação da infraestrutura de transporte público, as cidades também podem adotar medidas para torná-la mais resiliente a eventos climáticos extremos. Reformar e projetar sistemas de transporte capazes de resistir a riscos como desastres naturais, elevação do nível do mar ou ondas de calor garante que esses serviços sejam seguros e confiáveis a longo prazo. Isso ajuda a reduzir as interrupções do serviço, um ponto fundamental especialmente para populações de baixa renda e outros grupos vulneráveis que dependem do transporte coletivo em seu dia a dia.

Medidas de resiliência também podem tornar o transporte coletivo uma opção mais atrativa. Por exemplo, o uso de revestimentos reflexivos em ônibus e o plantio de árvores em pontos de parada podem manter os passageiros refrescados durante ondas de calor. Cidades como Buenos Aires já mostraram que iniciativas como essas aumentam tanto a confiabilidade quanto o número de usuários, ampliando os benefícios climáticos do transporte coletivo.

5) Proteger e restaurar zonas úmidas costeiras

As zonas úmidas costeiras, que incluem marismas, manguezais e pradarias marinhas, são ecossistemas únicos que funcionam como filtros naturais de água e habitats marinhos. Elas protegem as áreas costeiras de enchentes e da elevação do nível do mar, amortecendo tempestades e inundações. Além disso, armazenam entre 10 e 24 bilhões de toneladas métricas de carbono em seus solos e vegetação – o equivalente ao que quase 25 bilhões de acres de florestas sequestram em um ano. O valor desse carbono estocado é estimado em até US$ 190 bilhões por ano.

Restaurar e proteger zonas úmidas costeiras pode sequestrar mais 290 milhões de toneladas de CO2 equivalente por ano até 2050 e, ao mesmo tempo, aumentar a eficácia desses ecossistemas como barreira contra os impactos climáticos. Os esforços de conservação precisam envolver as comunidades locais que dependem desses ambientes para viver e garantir seu sustento. Países como Fiji e Papua-Nova Guiné já contam com diversas experiências bem-sucedidas em conservação comunitária e educação para manejar essas áreas e apoiar o desenvolvimento das comunidades ao redor.

Foto mostra manguezal
Manguezais sustentam meios de subsistência, abrigam uma ampla diversidade de espécies e ajudam a proteger as comunidades costeiras de impactos climáticos como tempestades e a elevação do nível do mar – tudo isso enquanto absorvem quantidades significativas de CO2 que causam o aquecimento do planeta. (Foto: Damocean/iStock)

6) Garantir os direitos territoriais dos povos indígenas

Os povos indígenas e comunidades locais administram quase 50% das terras do planeta, incluindo mais da metade das florestas intactas que ainda restam no mundo. Esses ecossistemas são essenciais: além de armazenar 17% de todo o carbono florestal, fornecem habitat para a biodiversidade e oferecem benefícios de resiliência para as comunidades próximas, como regulação climática e segurança hídrica. A perda de cobertura arbórea tende a ser menor em territórios geridos por comunidades indígenas, como observado em países como Peru e Brasil.

Ainda assim, apesar da enorme área que administram, os direitos legais de povos indígenas e comunidades locais são reconhecidos em apenas 14% das florestas do mundo. Reconhecer seus os direitos territoriais e garantir que tenham a posse de suas terras, além de evitar emissões a longo prazo, fortalece a ação desses grupos para que possam ampliar soluções baseadas na natureza capazes de evitar riscos climáticos e aumentar a resiliência. Esse esforço também contribuir para difundir esses conhecimentos, desenvolvidos ao longo de gerações, entre outras comunidades e, assim, promover práticas sustentáveis de uso da terra.

Priorizar soluções climáticas multifuncionais

Esses são apenas alguns exemplos de ações climáticas que envolvem, ao mesmo tempo, adaptação e mitigação. Existem muitas outras estratégias que podem ser aplicadas em diferentes setores, ecossistemas, países e comunidades. A crise climática é generalizada e urgente. Diante da restrição de financiamento e capacidade, formuladores de políticas precisam priorizar esforços integrados como esses para melhorar a vida das pessoas e proteger o planeta.

Nota do editor: este artigo foi publicado originalmente em fevereiro de 2020 e atualizado em setembro de 2025 para incorporar novas pesquisas e exemplos.

Agradecemos a Isabella Suarez, autora da primeira versão deste artigo.

___________________________________________________________________________________________

Este artigo foi publicado originalmente no Insights.