Em uma era marcada por conflitos geopolíticos, volatilidade dos preços da energia, interrupções nas cadeias de valor, relações comerciais em transformação e impactos climáticos cada vez mais intensos, os governos precisam de um rumo firme, vinculando as decisões políticas de hoje às metas de amanhã. 

Isso é o que oferecem as estratégias climáticas de longo prazo: alinhamento entre as metas climáticas e de desenvolvimento e as políticas públicas e instrumentos de investimento que lhes dão suporte, de modo a beneficiar as pessoas, a natureza e o clima. Essas estratégias mantêm o rumo mesmo durante transições políticas, ajudando os governos a tomar decisões melhores no curto prazo para construir o futuro que desejam alcançar. 

Também conhecidas como estratégias de desenvolvimento de longo prazo e baixa emissão (LT-LEDS, na sigla em inglês), essas estratégias partem de um objetivo de longo prazo (como alcançar o zero líquido das emissões) e de prioridades de desenvolvimento (como a criação de empregos, o acesso à energia e o crescimento econômico) para orientar as decisões de curto e médio prazo que efetivamente recebem financiamento. Isso inclui desde os planos climáticos nacionais com horizonte de cinco anos até os orçamentos anuais e os investimentos setoriais. Ao longo desse processo, as estratégias ajudam a superar a fragmentação entre as áreas de governo e oferecem a previsibilidade de que os investidores precisam para ampliar o financiamento. 

Como atuar em um cenário de instabilidade 

Como afirmou Venugopal Mothkoor, do NITI Aayog, centro de estudos e formulação de políticas públicas da Índia, em um webinar recente organizado pelo 2050 is Now (“2050 é Agora”, em português), consórcio que apoia países na elaboração e atualização de estratégias de longo prazo: “Em um ambiente estável, as estratégias de longo prazo são importantes; em um mundo instável, são indispensáveis”. 

Durante meses, a guerra contra o Irã e o bloqueio do Estreito de Ormuz interromperam o fluxo de um quarto do petróleo transportado por via marítima no mundo e de um quinto do gás natural liquefeito. A crise deixou evidente que abandonar os combustíveis fósseis já não é apenas uma meta climática, mas também uma questão central para a segurança energética e a estabilidade econômica. Essa tendência ganhou força na primeira Conferência sobre a Transição para o Abandono dos Combustíveis Fósseis, realizada em abril, em Santa Marta, na Colômbia. No entanto, quando os países precisam avançar simultaneamente no cumprimento das metas climáticas, na segurança energética, na estabilidade econômica e na redução das desigualdades, o planejamento cuidadoso de longo prazo se torna ainda mais importante. 

Em um momento em que alguns países recuam de seus compromissos climáticos, nações como Índia, Etiópia, África do Sul, Austrália e França têm aproveitado a oportunidade para avançar em suas estratégias de longo prazo. O objetivo é proteger as comunidades, lidar com as escolhas difíceis entre diferentes prioridades, aproveitar oportunidades econômicas e construir a resiliência exigida por um mundo volátil. Veja como esses países estão fazendo isso. 

Às vésperas da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP31), em Antália, na Turquia, o consórcio 2050 is Now apresenta seis prioridades para a cúpula. 

 Leia o comunicado. 

Construir uma visão comum no 

governo  

As estratégias de longo prazo só geram resultados quando são assumidas por todo o governo e incorporadas ao planejamento econômico, aos orçamentos e às decisões dos diferentes setores. 

A Etiópia, por exemplo, alinhou a implementação de sua visão de Economia Verde Resiliente ao Clima, de seu Plano Nacional de Adaptação, de sua estratégia de longo prazo e de seu plano climático nacional mais recente ao de desenvolvimento decenal, elaborado pelas instituições responsáveis pelo planejamento público. Em conjunto, esses instrumentos orientam a formulação de políticas nacionais, de modo que as metas climáticas sejam incorporadas às prioridades de desenvolvimento do país, em vez de tratadas como uma agenda separada. 

“Se as mudanças climáticas não forem integradas ao planejamento do desenvolvimento e às discussões orçamentárias, bem como às reformas setoriais e macroeconômicas, continuarão sendo apenas uma ambição no papel”, afirmou Abas Mohammed, diretor executivo de Políticas e Ações sobre Mudanças Climáticas do Ministério do Planejamento e Desenvolvimento da Etiópia, durante o webinar do 2050 is Now. “E uma ambição, no papel, não protege nem agricultores, nem cidades e nem as finanças públicas”, acrescentou. 

A recente proibição da Etiópia da importação de veículos movidos por combustíveis fósseis mostra como esse alinhamento funciona na prática, quando diferentes ministérios podem apoiar a implementação de uma nova política. A medida foi proposta pelo Ministério dos Transportes e Logística, em coordenação com o Ministério da Fazenda e com os Conselhos de Ministros, tanto como forma de promover a transição para veículos elétricos quanto como política financeira, capaz de gerar uma economia de bilhões em importações de combustíveis. Em um país com o governo alinhado em relação às metas climáticas e de desenvolvimento, esse tipo de integração acontece de maneira natural. 

Rua movimentada em Adis Abeba, na Etiópia. A recente proibição da importação de veículos movidos a combustíveis fósseis demonstra como diferentes áreas do governo podem apoiar políticas que alinham os planos climáticos e de desenvolvimento. (Foto: Bazigala Derrick/iStock)
Rua movimentada em Adis Abeba, na Etiópia. A recente proibição da importação de veículos movidos a combustíveis fósseis demonstra como diferentes áreas do governo podem apoiar políticas que alinham os planos climáticos e de desenvolvimento. / Foto: Bazigala Derrick/iStock

O envolvimento também precisa ir além do governo. Paseka Mabina, diretor de pesquisa e análise sobre mitigação das mudanças climáticas do Departamento de Florestas, Pesca e Meio Ambiente da África do Sul, argumenta que as estratégias são mais sólidas quando incluem, desde o início, diferentes grupos de interesse, inclusive os mais vulneráveis, pois afetam os meios de subsistência, as comunidades e as economias locais. 

Ao atualizar sua estratégia de longo prazo, a África do Sul desenvolveu oito narrativas para explorar o significado de ter uma “vida boa” e mostrar como o país pode enfrentar, simultaneamente, a pobreza, a desigualdade, o desemprego, a adaptação e a descarbonização. Essas narrativas foram elaboradas por especialistas do governo e representantes da sociedade civil, do setor empresarial e do meio acadêmico, centros de estudos e organizações de trabalhadores. Essa abordagem tem potencial para tornar os planos climáticos e de desenvolvimento da África do Sul mais aceitos pela sociedade e mais duradouros, além de oferecer um exemplo para outros países. 

Traduzir a visão nacional em planos setoriais 

Uma meta nacional só se concretiza quando é desdobrada em transições específicas para cada setor, com marcos, responsabilidades e cronogramas de implementação claramente definidos. Os exemplos a seguir mostram como as estratégias de longo prazo podem ajudar a superar os obstáculos práticos que se interpõem entre as ambições e sua concretização. 

O Roteiro da França para a Transição dos Combustíveis Fósseis, de 2026, está entre os exemplos recentes mais explícitos. Fundamentado na Estratégia Nacional de Baixo Carbono e no Planejamento Energético Plurianual, o documento prevê eliminar gradualmente a dependência do carvão até 2030, do petróleo até 2045 e do gás fóssil até 2050. Também estabelece metas intermediárias para reduzir a participação dos combustíveis fósseis no consumo final de energia para 40% até 2030 e 30% até 2035. Combinado a medidas concretas – como eletrificação dos transportes, renovação de construções, expansão do uso de bombas de calor e eliminação gradual de caldeiras movidas a combustíveis fósseis –, o roteiro transforma intenções gerais em decisões operacionais para setores com ciclos de investimento bastante distintos. 

O Plano do Zero Líquido da Austrália estabelece uma trajetória geral, com base em seis planos setoriais, cada um deles desenvolvido em conjunto com o ministério responsável e fundamentado na mesma modelagem e análise econômica realizadas pelo Tesouro australiano. Essa divisão de responsabilidades incorpora os objetivos climáticos aos setores de energia, indústria, transportes, agricultura, meio ambiente, habitação e desenvolvimento regional. 

O plano também evidencia obstáculos práticos. Por exemplo, os prazos para a implantação de usinas de energia renovável chegavam a sete anos para parques eólicos terrestres e a seis anos para grandes usinas solares, o que desestimulava os investimentos e prejudicava a confiança das comunidades. Ao evidenciar esse problema, o diagnóstico permitiu que fosse abordado no âmbito das recentes reformas de proteção ambiental. 

Como resultado, o governo destinou, em 2026, mais de 70 milhões de dólares australianos (US$ 48,8 milhões) para agilizar a aprovação de projetos, em colaboração com governos locais e regionais. Ao mesmo tempo em que fortalece a proteção ambiental, a iniciativa também prevê processos mais simples para outras áreas prioritárias, como habitação e minerais críticos. 

Usina solar instalada em um edifício em Adelaide, na Austrália, país que tem destinado milhões de dólares para acelerar a implantação de novas usinas de energia renovável. (Foto: moisseyev/iStock)
Usina solar instalada em um edifício em Adelaide, na Austrália, país que tem destinado milhões de dólares para acelerar a implantação de novas usinas de energia renovável. / Foto: moisseyev/iStock

Equilibrar desafios e potencializar sinergias  

Uma estratégia de longo prazo confiável evidencia desde cedo as escolhas difíceis envolvidas na transição verde e estabelece uma agenda prática para alcançar diferentes objetivos de forma simultânea. 

Para muitas economias em desenvolvimento e emergentes, o principal desafio é como descarbonizar a economia e, ao mesmo tempo, ampliar o acesso à energia, expandir a indústria e melhorar os padrões de vida. Na Índia, o desenvolvimento é o centro da estratégia. “Para nós, o desenvolvimento é uma meta, e não vamos falar em zero líquido sem falar em desenvolvimento”, afirmou Mothkoor, do NITI Aayog. Essa posição orienta as escolhas do país, que está expandindo a geração de energia renovável e a capacidade de armazenamento em larga escala, em conjunto com a energia nuclear, a fim de atender a uma demanda por eletricidade três vezes maior. 

Inevitavelmente, a Índia precisará reduzir o uso do carvão, mas esse combustível continuará na matriz energética no curto prazo, pois o armazenamento de longa duração ainda não é comercialmente competitivo na escala necessária. Reconhecer essa escolha torna a estratégia mais confiável e evidencia as áreas que ainda precisam de pesquisas e investimentos para tornar o carvão menos viável como recurso energético. 

Um planejamento de longo prazo confiável também antecipa a volatilidade em suas estratégias. No caso da Índia, isso significa eletrificar a economia com energia renovável produzida internamente, reduzindo a exposição a aumentos repentinos nos preços de importação de combustíveis fósseis. Essa estratégia, porém, levanta outra questão: como evitar que a dependência de combustíveis fósseis dê lugar à dependência de minerais críticos? A resposta da Índia passa pela combinação da exploração e processamento nacionais com parcerias diversificadas na Austrália, África e América Latina, o que também pode ajudar a aumentar a competitividade do país nas tecnologias verdes. 

O planejamento de longo prazo da Austrália se concentra no andamento de sua transição. A análise econômica identificou os setores em que uma ação rápida é mais eficiente – eletricidade e eficiência energética – e aquelas em que a transição levará mais tempo, como transportes, habitação, indústria pesada e agricultura. O resultado: preparar desde cedo os setores em que a renovação dos ativos leva décadas e agir com maior rapidez naqueles em que os retornos são mais imediatos. 

Na habitação, por exemplo, os efeitos das decisões de projetos das construções serão sentidos por décadas. Por isso, o governo aprimorou os padrões de eficiência energética para novas moradias no Código Nacional de Construção e lançou recentemente um sistema nacional de classificação energética residencial. A iniciativa ajuda as pessoas a tomar decisões embasadas sobre imóveis existentes, reduzir o consumo de energia e melhorar o conforto e a segurança de suas casas. 

Novas moradias em construção em Melbourne, na Austrália. A estratégia de longo prazo do país inclui padrões atualizados de eficiência energética para novas residências. (Foto: Alena Levykin/Shutterstock)
Novas moradias em construção em Melbourne, na Austrália. A estratégia de longo prazo do país inclui padrões atualizados de eficiência energética para novas residências. / Foto: Alena Levykin/Shutterstock

Já no caso da França, a estratégia mostra como as metas climáticas e de segurança energética podem se reforçar mutuamente. Os combustíveis fósseis representam menos de 60% do consumo de energia do país, mas quase 95% dessas fontes são importadas. Isso faz da transição tanto uma prioridade de segurança nacional quanto um caminho para garantir a soberania energética do país em longo prazo. 

Capacitar os trabalhadores e apoiar comunidades 

Planos que ignoram as pessoas e os territórios correm o risco de agravar as desigualdades econômicas e provocar reações políticas contrárias. A África do Sul, por exemplo, está incluindo na elaboração de sua transição trabalhadores formais e informais, municípios, jovens, mulheres e famílias de baixa renda. Além disso, o país tem estruturado estratégias com base nas especificidades territoriais, uma vez que diferentes regiões vivenciam a transição de maneiras distintas. Como explicou Mabina, do Departamento de Florestas, Pesca e Meio Ambiente da África do Sul: “A verdadeira questão não é apenas o quanto somos ambiciosos, mas também o quanto conseguimos administrar bem a transformação do mercado de trabalho”. 

A modelagem mais recente da África do Sul indica que trajetórias de desenvolvimento alinhadas ao zero líquido podem gerar empregos nos setores de eletricidade, construção e serviços. Para aproveitar essa oportunidade, porém, são necessárias políticas focadas no mercado de trabalho, investimentos em requalificação profissional, proteção social e projetos-piloto locais que possam ser ampliados. Essas transições devem ser planejadas em conjunto com os trabalhadores desde o início. Da mesma forma, a modelagem realizada para a Etiópia indica que uma trajetória rumo ao zero líquido poderia gerar aumento de renda e 672 mil empregos verdes a mais em relação ao cenário tendencial. 

Direcionar recursos e estruturar projetos financiáveis 

Um plano de longo prazo sem uma estratégia de financiamento permanece no campo conceitual. Os orçamentos públicos, sozinhos, não são suficientes para financiar transições estruturais profundas. Os governos precisam utilizar recursos públicos nacionais e internacionais e reformar políticas e instituições para mobilizar recursos privados em escala, tanto em âmbito nacional quanto internacional. 

O compromisso da Etiópia com o financiamento nacional demonstra aos parceiros o quanto o país leva a sério a implementação de suas metas. O país se comprometeu a destinar aproximadamente 22,5% dos recursos necessários à implementação de seu plano climático nacional a partir de fontes nacionais. Isso inclui o Fundo Especial para o Legado Verde e a Restauração de Paisagens Degradadas, financiado com cerca de 1% do orçamento anual. Esse montante inicial, combinado a políticas, carteiras de projetos e estruturas sólidas, pode ser fundamental para mobilizar recursos adicionais. 

No caso da Índia, as necessidades do país ilustram a dimensão do desafio. Atualmente, os investimentos em energia somam cerca de US$ 130 bilhões por ano, enquanto o necessário para a transição se aproxima de US$ 500 bilhões anuais, totalizando US$ 22,7 trilhões até 2070. Segundo Mothkoor, os investidores procuram três elementos: uma estratégia que defina a direção, uma taxonomia que esclareça as prioridades e uma carteira de projetos financiáveis. 

A Índia tem encarado esse desafio dividindo o financiamento de acordo com o grau de maturidade das tecnologias: mecanismos de implantação para energia solar e eólica; financiamento combinado e estímulo à demanda para hidrogênio verde e captura de carbono; e financiamento à inovação para tecnologias em estágios iniciais de desenvolvimento. O país também tem avaliado a criação de uma instituição de financiamento verde para reunir e alavancar capital de fundos soberanos e bancos multilaterais de desenvolvimento.

Turbinas eólicas do Parque Eólico de Kudankulam, em Tamil Nadu, na Índia, próximo à Usina Nuclear de Kudankulam. O parque está entre os maiores do país e faz parte dos esforços da Índia para atender à crescente demanda por energia. (Foto: Parimita Krishna/iStock)
Turbinas eólicas do Parque Eólico de Kudankulam, em Tamil Nadu, na Índia, próximo à Usina Nuclear de Kudankulam. O parque está entre os maiores do país e faz parte dos esforços da Índia para atender à crescente demanda por energia. / Foto: Parimita Krishna/iStock

As decisões que precisam ser tomadas agora 

O planejamento estratégico de longo prazo define uma direção clara e desenvolve a capacidade institucional necessária para conduzir a transição de uma forma que beneficie as pessoas. É isso, também, que permite que as estratégias perdurem. As políticas públicas resistem às mudanças de governo quando reduzem custos, geram empregos e fortalecem a resiliência. 

Quando restritas a uma apresentação formal à Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, sem conexão com as decisões efetivas, as estratégias climáticas de longo prazo produzem resultados inexpressivos. Os exemplos da Austrália, Etiópia, França, Índia e África do Sul demonstram que o valor dessas estratégias depende de como são colocadas em prática. Quando tratadas como documentos vivos – incorporados ao planejamento econômico, às decisões setoriais, aos orçamentos e às carteiras de investimentos –, tornam-se uma das ferramentas mais poderosas de que os governos dispõem para enfrentar a volatilidade geopolítica atual. 

 

Às vésperas da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP31), que será realizada em novembro, em Antália, na Turquia, o consórcio 2050 é Agora publicou um comunicado que pede à cúpula que promova o planejamento climático e de desenvolvimento de longo prazo com base em seis prioridades centrais. Entre elas, estão o reconhecimento formal de estratégias de longo prazo novas e atualizadas, o alinhamento do financiamento e da cooperação internacional a essas estratégias e o incentivo para que os países continuem revisando seus planos diante das mudanças nas condições políticas, econômicas e energéticas. 

Este artigo foi publicado originalmente no Insights.