A descarbonização da produção de cimento e aço – que, juntos, são responsáveis por quase 14% das emissões globais de dióxido de carbono (CO2) – é fundamental para atingir metas climáticas nacionais e globais. No entanto, o avanço nessa área tem sido mais lento do que em outros setores, como transportes e energia, por diversas razões.

Um dos principais motivos é o papel de processos químicos que emitem CO2 durante a produção de aço e cimento. Somam-se a isso práticas industriais já consolidadas, a lenta renovação de equipamentos nas unidades produtivas e o custo relativamente alto de tecnologias de baixo carbono – fatores que dificultam a implementação de mudanças para reduzir as emissões.

É nesse contexto que entram as “compras verdes”. As compras verdes têm se mostrado uma forma eficaz de impulsionar a demanda inicial por cimento, concreto e aço de baixa emissão. No setor público, optar por “compras verdes” significa priorizar produtos de baixo carbono em projetos de construção financiados pelo governo. No setor privado, implica alavancar o poder de compra das empresas para descarbonizar suas cadeias de valor e investimentos.

Nos últimos anos, diversas iniciativas e políticas de compras verdes para cimento e aço foram implementadas ao redor do mundo. No entanto, há diferenças relevantes entre elas – seja nos requisitos de divulgação, nas definições do que é considerado “verde” ou de baixa emissão, seja no nível de ambição dos indicadores de intensidade de emissões –, o que pode limitar a comparabilidade e impor desafios a fornecedores e compradores que atuam em múltiplas jurisdições.

Para promover avanços significativos em escala global, essas iniciativas precisam funcionar de forma coordenada. Harmonizar normas de compras verdes por meio de definições, estruturas de dados e abordagens metodológicas é essencial para garantir interoperabilidade e reforço mútuo. É importante destacar que essa harmonização não implica uniformidade – significa que diferentes sistemas devem ser capazes de interagir e se alinhar de maneira consistente.


Como medir emissões em produtos

Iniciativas e políticas de compras verdes têm sido cada vez mais baseadas em indicadores de intensidade de emissões – como o volume de CO2 emitido por tonelada de cimento ou aço. Esses parâmetros de referência servem para avaliar se um produto cumpre determinados padrões ou se pode receber certificação.

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Para estabelecer esses marcos referenciais, os programas costumam exigir que os fabricantes reportem dados padronizados de emissões para cada produto. Isso é feito por meio de Declarações Ambientais de Produto Tipo III (EPDs, na sigla em inglês), que funcionam como “rótulos nutricionais” dos impactos ambientais. As EPDs são baseadas em Regras de Categoria de Produto que explicam como os impactos ambientais – incluindo, mas não se limitando às emissões de GEE – são medidos e reportados para tipos específicos de produtos. Na base desse sistema, estão dados de Avaliação do Ciclo de Vida, com informações sobre emissões e uso de recursos que os fornecedores utilizam para desenvolver suas EPDs.

Embora tanto as declarações ambientais quanto as regras de categoria forneçam normas padronizadas para mensurar e reportar emissões de produtos, a forma como diferentes iniciativas e políticas de compras verdes aplicam essas ferramentas pode variar.


Principais iniciativas e políticas de compras verdes

A seguir, estão exemplos de iniciativas e políticas governamentais de compras verdes atualmente em fase de implementação para cimento, concreto e aço:

Iniciativas (parâmetros de referência listados na Tabela 1):

  • A Iniciativa de Descarbonização Industrial Profunda (IDDI, na sigla em inglês) foi criada pela Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial. Em setembro de 2022, a Iniciativa lançou um compromisso de compras públicas verdes com o objetivo de incentivar governos a reportar dados ambientais e priorizar o uso de cimento, concreto e aço de baixa emissão ou emissão próxima de zero em projetos de construção. Atualmente, a IDDI reúne nove países membros, incluindo Brasil, Canadá, Alemanha, Índia, Japão, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Reino Unido e Estados Unidos.
  • A Coalizão dos Pioneiros (First Movers’ Coalition), do Fórum Econômico Mundial, é uma parceria público-privada lançada em 2021 que busca estimular a demanda corporativa por produtos emissões próximas de zero em sete setores intensivos em carbono. A iniciativa reúne 102 empresas globais, cada uma comprometida a usar seu poder de compra para ajudar a viabilizar mercados em pelo menos um desses setores. Até agora, 27 empresas aderiram à meta para o aço e sete à meta para cimento e concreto.
  • As iniciativas SteelZero e ConcreteZero, lideradas pelo Climate Group, reúnem empresas comprometidas com a transição para aço com emissões líquidas zero e concreto de baixa ou zero emissão líquida (e, por extensão, também o cimento, seu principal componente). A SteelZero, lançada em 2020 em parceria com a ResponsibleSteel, conta atualmente com 42 empresas. Já a ConcreteZero, lançada em 2022 em parceria com o WBCSD e o WorldGBC, reúne 36 empresas.

Políticas governamentais (parâmetros de referência listados na Tabela 2):

  • Nos Estados Unidos, a Lei de Redução da Inflação de 2022 destinou US$ 4,5 bilhões à Administração de Serviços Gerais (GSA), à Administração Federal de Rodovias (FHWA) e à Agência de Proteção Ambiental (EPA) para a compra de materiais de construção com “carbono incorporado significativamente menor”, no âmbito da iniciativa federal Buy Clean (“Compre Limpo”). Entre 2023 e 2024, a GSA e a FHWA publicaram referências de baixa emissão (veja na Tabela 2) com base em diretrizes provisórias da EPA. No fim de 2024, a EPA apresentou uma proposta preliminar no âmbito de seu Programa de Classificação de Carbono. Embora essas medidas tenham estabelecido as bases para a implementação da Buy Clean, a administração Trump posteriormente orientou as agências a deixar essas prioridades de lado no âmbito federal. O futuro da participação dos Estados Unidos em iniciativas internacionais como a IDDI e a FMC permanece incerto, embora estados como Califórnia, Colorado e Nova York continuem avançando com suas próprias políticas Buy Clean.
  • Desde 2025, a Regulamentação de Ecodesign para Produtos Sustentáveis (ESPR) da União Europeia permite que sejam definidos requisitos de ecodesign para ferro, aço e outros produtos com base em atributos de sustentabilidade, como a pegada de carbono. No caso do cimento, esses requisitos serão estabelecidos no âmbito do Regulamento de Produtos de Construção (CPR) e devem orientar a criação de regras obrigatórias e incentivos para compras públicas verdes dentro da ESPR. Ainda não está claro, porém, como essa regulamentação vai se articular com iniciativas internacionais como a IDDI ou com políticas nacionais.
  • Em 2024, a Irlanda adotou uma política que torna obrigatórias compras públicas verdes de cimento e concreto. A medida exige o uso de cimentos compostos com, no mínimo, 30% do clínquer – o componente mais intensivo em emissões – substituído por materiais suplementares em todas as obras públicas. Também passa a ser obrigatória a apresentação de Declarações Ambientais de Produto para cimento e concreto nas licitações. Trata-se da primeira etapa de uma estratégia de longo prazo para descarbonizar o setor no país.
  • A Turquia iniciou, no começo de 2025, a implementação de um programa de compras públicas verdes para cimento. O governo estabeleceu limites para o teor de clínquer no cimento utilizado em obras públicas: os contratos devem prever pelo menos 20% de substituição até 2029 e 25% a partir de 2030.

Essas iniciativas focam na contabilização de emissões no nível do produto. Já políticas que exigem a mensuração no nível do projeto – considerando a obra como um todo, e não apenas os materiais de forma isolada – vêm sendo adotadas em países como Canadá, Alemanha, Países Baixos, Reino Unido e Suécia.

Imagem mostra homem trabalhando na construção um prédio, cercado de estruturas de metal
Na iniciativa SteelZero, as organizações participantes devem assumir publicamente o compromisso de comprar e utilizar 100% de aço com emissões líquidas zero até 2050, além de atingir, até 2030, uma meta intermediária de 50% de aço de baixa emissão em seu consumo total. (Foto: Anthony Fomin/Unsplash)

Comparação de parâmetros referenciais e níveis de ambição de descarbonização em programas focados no produto

As principais iniciativas e políticas de compras verdes para cimento e aço diferem nas definições do material regulado nos parâmetros referenciais para classificar o que é “baixa emissão” ou “emissão próxima de zero” e nos próprios níveis de intensidade de emissões adotados como referência. Também variam quanto ao grau de maturidade das tecnologias capazes de atender a esses parâmetros e à parcela das compras que deve atender a esses padrões.

Entender essas diferenças é fundamental para orientar o debate sobre harmonização de padrões à medida que produtos de baixo carbono ganham escala e se tornam mais acessíveis.

Entre as iniciativas, a FMC é a mais voltada a acelerar a adoção de tecnologias avançadas de descarbonização no setor industrial. Ela reúne empresas com alto nível de ambição climática e estabelece que, até 2030, pelo menos 10% do cimento, concreto e/ou aço adquiridos devem atender ao padrão de “emissão próxima de zero” (veja os parâmetros da Tabela 1). Os parâmetros de descarbonização da FMC aplicam-se a uma parcela ainda pequena do mercado e dependem de tecnologias com grande potencial de redução, mas ainda em estágio inicial e longe de atingir uma escala mais ampla. O objetivo é estimular investimentos e criar demanda inicial por esses produtos, mesmo que hoje ainda tragam um custo adicional de sustentabilidade elevado. Expandir essas soluções requer políticas públicas consistentes e investimentos que reduzam custos ao longo do tempo.

A IDDI, por sua vez, busca ampliar a adoção de compras públicas verdes entre países membros por meio de diferentes níveis de compromisso, com exigências crescentes de redução da intensidade de carbono. São quatro níveis: o primeiro exige apenas a divulgação de dados, enquanto os demais incorporam metas progressivas de uso de produtos de baixa emissão ou emissão próxima de zero. A iniciativa permite múltiplas metodologias e referências – incluindo IEA, ResponsibleSteel, FMC, SteelZero, ConcreteZero e rótulos nacionais – para que os países definam metas alinhadas às suas realidades. Como na FMC, níveis mais ambiciosos tendem a implicar um custo adicional de sustentabilidade.

SteelZero e ConcreteZero possuem parâmetros menos rigorosos, mas visam uma penetração de mercado mais ampla em comparação à FMC. Elas estabelecem metas intermediárias para a compra de 50% de aço e concreto de baixa emissão até 2030, aumentando para 100% de produtos com emissão líquida zero até 2050. Essas duas iniciativas oferecem maior flexibilidade às empresas ao permitir múltiplos caminhos para certificação, como por meio da ResponsibleSteel, SBTi ou outras normas correlatas. Produtos que atendem a esses parâmetros podem ter um custo adicional de sustentabilidade.

Tabela 1. Parâmetros referenciais adotados por iniciativas públicas e privadas de compras

Iniciativa/PolíticaTipo Definições & Parâmetros Meta de porcentagem das compras

 

FMC

Público-privada

Aço de emissão próxima de zero: 50-400 kg CO2e/t

Cimento de emissão próxima de zero: 184 kg CO2/t

Concreto de emissão próxima de zero: 70-144 kg CO2/m³

10% até 2030
IDDIPública

Múltiplas opções, incluindo padrões da IEA, Responsible Steel, FMC, SteelZero, ConcreteZero e rótulos nacionais.


 

IEA: -

Aço de baixa emissão: 400-2400 kgCO2e/t de aço bruto

Cimento de baixa emissão: 240-750 kgCO2e/t de cimento

Aço de emissão próxima de zero: 50-400 kgCO2e/t de aço bruto

Cimento de emissão próxima de zero: 40-125 kgCO2e/t cimento

A ser definida pelos signatários
SteelZeroPrivada

Aço de baixa emissão: 350-2000 kg CO2e/t

Aço zero líquido: o mais próximo possível de zero

50% de aço de baixa emissão até 2030; 100% de aço zero líquido até 2050
ConcreteZeroPrivada

Concreto de baixo carbono incorporado: 150-382 kg CO2/m³

Concreto zero líquido: o mais próximo possível de zero, com pelo menos 90% de mitigação

30% de concreto de baixo carbono até 2025; 50% até 2030; 100% de concreto zero líquido até 2050

Observação: as faixas para o aço, cimento e concreto dependem, respectivamente, da proporção de sucata e clínquer e da resistência à compressão do concreto. Fonte: análise dos autores.

Tabela 2. Parâmetros referenciais adotados por políticas públicas de compras em diversos países

Governo ou departamentoTipo de políticaMaterialDefinições e parâmetros
Administração de Serviços Gerais (GSA), Estados UnidosRecomendação / prioridadeAço

Percentil 20: 611-2.228 kgCO2e/t

Percentil 40: 713-2.324 kgCO2e/t

Acima da média: 760-2.408 kgCO2e/t

Cimento

Percentil 20: 0,751 kgCO2e/kg

Percentil 40: 0,819 kgCO2e/kg

Acima da média: 0,858 kgCO2e/kg

Concreto

Percentil 20: 228-321 kgCO2/m³*

Percentil 40: 261-362 kgCO2/m³*

Acima da média: 277-402 kgCO2/m³*

Administração Federal de Rodovias (FHWA), Estados Unidos

Recomendação / prioridade

 

Aço

Vergalhão para reforço não fabricado:

Percentil 20: 0,614 kgCO2e/kg

Percentil 40: 0,678 kgCO2e/kg

Acima da média: 0,755 kgCO2e/kg
 

Perfis estruturais laminados a quente não fabricadas:

Percentil 20: 0,713 kgCO2e/kg

Percentil 40: 0,816 kgCO2e/kg

Acima da média: 1 kgCO2e/kg

 

Telha de aço / deck metálico:

Percentil 20: 1,63 kgCO2e/kg

Percentil 40: 1,85 kgCO2e/kg

Acima da média: 2,32 kgCO2e/kg

Concreto

Percentil 20: 146-406 kgCO2e/yd³**

Percentil 40: 168-448 kgCO2e/kgCO2e/yd³**

Acima da média: 177-478 kgCO2e/yd³**

Califórnia

Recomendação / prioridade

 

Aço

Aço estrutural laminado a quente: 1,01 tCO2e/t

Perfis estruturais cavos (HSS): 1,71 tCO2e/t

Chapa de aço: 1,49 tCO2e/t

Aço para reforço de concreto (vergalhão): 0,755 tCO2e/t

Colorado

Recomendação / prioridade

 

Aço

Vergalhão de aço para reforço fabricado: 1.030 kgCO2e/t

Aço laminado a quente fabricado: 1.220 kgCO2e/t

Chapa de aço fabricada: 1.730 kgCO2e/t

Perfis estruturais cavos fabricados: 1.990 kgCO2e/t

CimentoCimento: 1.112 kgCO2e/t
ConcretoConcreto: 232-580 kgCO2e/m³
Nova YorkRecomendação / prioridadeConcretoConcreto: 275-541 kgCO2e/yd³
União EuropeiaRecomendação / prioridade; taxonomia / classificação verdeAço, cimento e concretoA ser determinado a partir de 2025 por meio do ESPR e da Lei de Aceleração da Descarbonização Industrial
IrlandaObrigatóriaCimentoConteúdo máximo de clínquer no cimento: 70%
TurquiaObrigatóriaCimentoConteúdo máximo de clínquer no cimento: 80%

Observação: embora os padrões definidos pela GSA e pela FHWA dos EUA devessem ser substituídos pelos adotados pela EPA, a implementação da iniciativa federal Buy Clean foi interrompida.

*Conforme resistência à compressão.

**Conforme resistência à compressão e região.

***Conforme proporção de sucata utilizada.

Comparar parâmetros referenciais de baixas emissões entre políticas de compras públicas é um desafio devido às diferenças nos tipos de produtos abrangidos, às variações regionais na disponibilidade de matéria-prima e à falta de definições harmonizadas e interoperabilidade. Grande parte disso decorre das divergências entre subtipos e categorias de produtos, cada um com características, processos de produção e perfis de emissões distintos. A tabela acima utiliza as políticas federais dos EUA e o California Buy Clean como exemplos para ilustrar como elas se comparam com as principais iniciativas de compras verdes.

Como essas iniciativas e políticas visam vários níveis de descarbonização e exigiriam tecnologias em diferentes estágios de desenvolvimento, elas podem se complementar. 

Por exemplo, parâmetros referenciais de intensidade de emissões menos rigorosos, mas com uma exigência maior de penetração no mercado, podem incentivar a adoção de tecnologias e abordagens que já estão amplamente disponíveis hoje. Enquanto isso, parâmetros mais rigorosos podem enviar sinais de que há interesse em tecnologias de descarbonização profunda no setor industrial e ajudar a aumentar o investimento e o desenvolvimento. Ao abordar diferentes estágios de descarbonização, essa gama de iniciativas permite que países e empresas assumam compromissos que melhor se adaptem às suas circunstâncias.

Harmonização dos padrões

Existe uma necessidade de harmonização, ou alinhamento, nos padrões entre as iniciativas e políticas de compras verdes. Mas isso não significa que exista uma solução única para todos os casos. A tendência é que sejam necessários diversos padrões e protocolos que abranjam todos os tipos de produção e as diferentes práticas de fabricação ao redor do mundo.

O importante é que esses padrões sejam interoperáveis. Metodologias consistentes para medições e relatórios, bem como definições claras para a definição de escopos e parâmetros de referência, são necessárias para garantir que os padrões utilizem uma linguagem comum e ajudem a evitar uma sobrecarga administrativa sobre os fabricantes. A falta desse tipo de alinhamento pode enviar sinais contraditórios ao mercado, resultando em uma desigualdade de condições e prejudicando os esforços de descarbonização.

A seguir, confira algumas considerações importantes para a harmonização dos padrões de compras verdes:

  • Nível de contabilização: as iniciativas devem considerar as particularidades de como diferentes entidades (como os setores público e privado) realizam a medição e definem metas para as emissões de cimento, concreto e aço. As abordagens abrangem o monitoramento em nível de produto, de projeto, de unidade industrial ou de setor (isto é, se o parâmetro de referência de emissões é específico para o produto, como o concreto; para um projeto que engloba diversos materiais; para instalações individuais; ou se constitui uma média setorial para o insumo). Grande parte das políticas de compras verdes lançadas nos últimos anos priorizou a contabilização de emissões em nível de produto. Contudo, o monitoramento em nível de projeto – como as avaliações de ciclo de vida de construções, por exemplo – também é fundamental para a descarbonização das cadeias do cimento e do aço. Esse modelo de contabilização por projeto é uma exigência dos requisitos de Nível 2 da IDDI.
  • Abrangência do escopo: o escopo precisa ser coerente quanto aos limites da contabilização de emissões e da tipologia de gases de efeito estufa contemplados em cada iniciativa (por exemplo, se consideram apenas o CO2 ou incluem outros GEEs). Fabricantes que fornecem insumos de baixa emissão para fornecedores governamentais e empresas privadas devem utilizar as mesmas metodologias para a contabilização e a divulgação de suas intensidades de emissão.
  • Mecanismos de divulgação: iniciativas e políticas devem buscar o alinhamento em suas metodologias de medição, coleta de dados e mecanismos de divulgação para permitir uma comparação direta. Isso pode incluir regras de categoria de produto harmonizadas e uma metodologia comum para declarações ambientais de produto. Em abril de 2023, a Agência Internacional de Energia publicou um relatório detalhando as metodologias de medição de emissões e coleta de dados necessárias para atingir o zero líquido na indústria do aço. Iniciativas como a IDDI também publicaram orientações para a harmonização dos padrões de divulgação de dados. A fim de garantir a confiabilidade e a interoperabilidade das informações, as iniciativas precisam assegurar que o tipo de contabilização utilizado na divulgação seja declarado de forma transparente, em um formato digital padronizado.
  • Definições: as definições de termos como “baixa emissão”, “emissões próximas de zero” e “emissões líquidas zero” (zero líquido) precisam ser consistentes entre as diferentes iniciativas e políticas para evitar confusão e desalinhamento de metas. No entanto, essa consistência não precisa restringir a flexibilidade. Os padrões podem ser flexibilizados ao estabelecer faixas e categorias para os parâmetros de intensidade de emissões, como a Classificação de Baixo Carbono para Cimento e Concreto da Associação Global de Cimento e Concreto (GCCA, na sigla em inglês).

Outros fatores a considerar

Até o momento, os padrões implementados por iniciativas internacionais de compras verdes têm se concentrado nas práticas norte-americanas e europeias. No entanto, a maior parte da produção e do consumo mundial de cimento e aço ocorre atualmente na Ásia, e a demanda por esses produtos tende a aumentar na África. As iniciativas de compras verdes precisam incluir essas regiões e seus respectivos padrões para criar um alinhamento capaz de promover a descarbonização de forma significativa para além das fronteiras. As taxonomias verdes para produtos industriais em fase de implementação na Índia e na China podem fornecer uma base para as políticas de compras públicas nesses países, a partir de seus contextos nacionais.

As iniciativas de compras verdes também devem ser alinhadas aos padrões definidos por políticas comerciais relacionadas ao clima – como o Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira, da União Europeia – e às taxonomias verdes nacionais, a fim de evitar a duplicidade de esforços e o risco de sinalizações divergentes.

As compras verdes têm emergido como uma ferramenta poderosa para acelerar a descarbonização no setor de cimento e aço, criando uma demanda inicial por produtos de baixa emissão ou emissão próxima de zero. No entanto, a eficácia dessas iniciativas depende do alinhamento de definições, padrões de dados e metodologias entre países e setores. Com a coordenação e o apoio adequados, as compras verdes podem desempenhar um papel central na transição industrial de baixo carbono em escala global.

Este texto foi publicado originalmente no Insights.