Como podemos avançar na ação climática em tempos difíceis? Especialistas da área analisam a questão
Uma coisa é certa quando o assunto é o combate às mudanças climáticas: mais do mesmo não será suficiente.
Temos testemunhado avanços concretos e rápidos em setores como energia renovável e transporte elétrico – mudanças inimagináveis dez anos atrás. Mas nossa trajetória não está mudando de direção. As emissões continuam aumentando, as temperaturas continuam subindo e o uso de combustíveis fósseis continua se expandindo. Todos os principais indicadores de progresso climático estão fora do ritmo necessário para cumprir as metas estabelecidas para 2030.
Em paralelo, o contexto para a ação climática mudou. Tensões geopolíticas, instabilidade na ordem mundial e recursos públicos cada vez mais limitados restringem a agenda climática e limitam a diplomacia climática internacional.
É hora de mudar a lógica que seguimos até aqui. As abordagens atuais não conseguem acompanhar a escala da crise climática. Mas o que é necessário para promover mudanças realmente significativas?
O grupo Allied for Climate Transformation (Aliados pela Transformação Climática) levou essa pergunta a um painel com especialistas da área. Moderada pelo CEO e Presidente do WRI, Ani Dasgupta, o debate contou com a participação de Mary Robinson, ex-presidente da República da Irlanda e integrante do The Elders; Hon. Ralph Regenvanu, ministro da Mudança do Clima de Vanuatu; Rachel Kyte, representante especial para o Clima do Reino Unido; María Fernanda Torres Penagos, diretora de Mudanças Climáticas e Gestão de Riscos da Colômbia; e Mohamed Adow, diretor da Power Shift Africa.
Eles oferecem diferentes visões de como podemos promover avanços significativos na ação climática, em linha com as necessidades dos países mais vulneráveis às mudanças do clima, mesmo em tempos difíceis como esses.
1) Ir além das narrativas conhecidas
Abrindo a discussão, Dasgupta destacou a urgência dos próximos cinco anos e a necessidade de novas abordagens para a ação climática. “À medida que entramos na segunda metade desta década, esse é um momento-chave para irmos além das narrativas que já conhecemos”, afirma. “As temperaturas globais continuam quebrando recordes, e ultrapassar o limite de 1,5°C de aquecimento já não é uma possibilidade distante.”
Dasgupta esclarece que, embora os avanços até aqui sejam importantes, a próxima etapa exige ampliar a escala das soluções que funcionam. O crescimento exponencial de setores como energia limpa e veículos elétricos mostra que transformações rápidas são possíveis. O desafio, agora, é transformar esses avanços em mudanças mais amplas, que abranjam toda a economia e sejam capazes de parar a curva ascendente das emissões ao mesmo tempo em que beneficiam as pessoas e a natureza.
Dasgupta alerta que, embora os riscos sejam grandes, a oportunidade de agir com propósito e urgência também é substancial. “À medida que nossos esforços atuais falham, os impactos climáticos se intensificam, as dívidas aumentam e a desigualdade se agrava. Para países vulneráveis do Sul Global, construir resiliência é uma corrida contra o tempo – não apenas para sobreviver, mas para prosperar.”
Que caminho devemos seguir, então? Como afirma Dasgupta, “a questão não é se é necessário mais ação – isso é óbvio”. A verdadeira questão, ele argumenta, “é onde estamos falhando com a ação climática atualmente e quais decisões ou parcerias diferentes podem mudar isso – não por meio de ajustes incrementais, mas com foco e ação concretos, capazes de mudar o jogo”.
2) Usar a legislação internacional para transformar a ciência climática em lei
Especialista em destaque:

Hon. Ralph Regenvanu,
Ministro da Mudança do Clima, Meteorologia e Geoameaças, Energia, Meio Ambiente e Gestão de Desastres, Vanuatu
O ministro Regenvanu considera a liderança climática uma questão de responsabilidade e obrigação legal. Como ele disse: “Não estamos pedindo simpatia. Estamos exigindo integridade. Agir de acordo com a ciência. Agir de acordo com as leis internacionais”.
Desdobramentos recentes na esfera legal reforçam essa posição. As cortes internacionais começaram a modificar as bases do cenário legal para a ação climática. Pareceres consultivos emitidos pelo Tribunal Internacional do Direito do Mar (2024), pela Corte Interamericana de Direitos Humanos (2025) e pela Corte Internacional de Justiça (2025) esclareceram que os Estados têm obrigações legais de prevenir danos climáticos, proteger os direitos humanos e adotar medidas preventivas diante das mudanças climáticas. Essas decisões reforçam o que os países mais vulneráveis ao clima, como Vanuatu, vêm argumentando há bastante tempo: os governos de países altamente emissores não podem continuar apoiando a expansão do uso de combustíveis fósseis enquanto alegam exercer responsabilidade e liderança climática.
Embora os pareceres consultivos não sejam juridicamente vinculantes, Regenvanu ressaltou como podem catalisar mudanças em âmbito nacional. “Acredito que é no cenário interno que o parecer da Corte Internacional de Justiça (CIJ) terá os maiores efeitos – com a população pressionando seus governantes a promoverem mudanças na legislação e nas políticas nacionais por meio de ações judiciais. Quase imediatamente após a divulgação do parecer consultivo em julho de 2025, vimos ele começar a ser citado em litígios em todo o mundo.”
Evidências dessas mudanças já são visíveis. Em janeiro de 2026, uma corte holandesa exigiu que o governo desenvolvesse um plano de adaptação juridicamente vinculante para proteger os moradores da ilha caribenha holandesa de Bonaire dos impactos das mudanças climáticas, como a elevação do nível do mar e o calor extremo. A decisão foi baseada diretamente em pareceres consultivos internacionais e no Acordo de Paris. Na África do Sul, uma decisão recente de um tribunal superior anulou a autorização do governo para novas perfurações offshore de petróleo e gás. A decisão citou o parecer consultivo da CIJ apenas uma semana após sua publicação – sinalizando a velocidade com que o direito climático internacional tem sido incorporado em disputas judiciais nacionais.
3) Reforma fiscal para construir resiliência climática
Especialista em destaque:

Rachel Kyte,
Representante Especial para o Clima, Reino Unido
“Há uma escassez de financiamento público em todo o mundo”, avalia Rachel Kyte, ao alertar para o fato de que orçamentos públicos cada vez mais limitados encaram riscos climáticos crescentes. Kyte apontou o reconhecimento, entre os órgãos estatutários e instituições de supervisão do Reino Unido, de que, apesar dos recursos limitados, os riscos climáticos estão se tornando fiscalmente inevitáveis. “O custo de nossa própria adaptação será enorme”, afirma. “O governo precisa agir.”
Essa ação, para Kyte, exige uma mudança de paradigma substancial na forma de pensar a política fiscal. “Vivemos agora em um mundo onde a política fiscal precisa considerar as ameaças à resiliência.”
Ela defende a diversificação das fontes de receita públicas, “encontrando formas novas e criativas” de financiar a resiliência climática, como taxas e impostos, juntamente com reformas regulatórias nos mercados financeiros. Kyte enfatiza também a necessidade de garantir que os recursos cheguem diretamente às iniciativas de adaptação e resiliência.
No que diz respeito aos fluxos de capital privado, ela afirma: “Um dos maiores problemas é que o financiamento privado ainda vai para os países desenvolvidos. Não estamos direcionando esse capital para mercados emergentes e economias em desenvolvimento” – ou seja, aqueles que mais precisam de financiamento internacional.
Parte disso se deve à percepção de risco desses investimentos. No entanto, dados de bancos multilaterais de desenvolvimento mostram que os investimentos em mercados emergentes têm um bom desempenho. Isso reforça o argumento de Kyte de que as limitações não são apenas financeiras, mas estruturais e perceptivas.
Quanto aos governos, os ganhos de longo prazo do investimento em resiliência podem superar os custos iniciais. “Existem coisas que nós sabemos que precisamos fazer”, afirma Kyte, e agir agora será mais barato do que “empurrar o problema para a frente”.
4) Construir uma coalizão para a transição dos combustíveis fósseis
Especialista em destaque:

María Fernanda Torres Penagos,
Diretora de Mudanças Climáticas e Gestão de Riscos, Colômbia
A cúpula climática da ONU de 2025 (COP30), em Belém, no Pará, colocou os combustíveis fósseis como nunca antes. Ainda assim, não se chegou a um consenso. A expectativa de um compromisso dos países com roteiros para encerrar o uso de combustíveis fósseis caiu por terra diante da resistência dos “petroestados” (países cuja economia depende da exportação de petróleo e gás natural).
O ímpeto agora está se deslocando para fora das negociações formais da ONU. Em abril de 2026, a Colômbia e os Países Baixos organizarão em conjunto a primeira conferência internacional focada explicitamente na transição dos combustíveis fósseis. Em vez do foco já tradicional, em metas de emissões, a conferência propõe debater a dependência de combustíveis fósseis e as implicações práticas de sua eliminação de uma forma que não desestabilize as economias nacionais nem prejudique trabalhadores e comunidades.
Como Torres Penagos explica, “o objetivo é estabelecer uma plataforma internacional permanente focada em implementar a transição dos combustíveis fósseis – uma que acompanhe uma coalisão de países dispostos a colocar essa mudança em prática, considere os diferentes contextos e capacidades nacionais e tenha sua continuidade garantida no futuro”.
O que diferencia esse esforço de outros, ela explica, é o foco na implementação e continuidade. Ao reunir uma coalisão de países dispostos a fazer a transição, a conferência visa construir confiança, traçar roteiros práticos para a transição e manter a cooperação em questões como financiamento e proteção social. Se bem-sucedido, esse movimento pode deslocar o debate sobre os combustíveis fósseis para fora dos impasses políticos (e de sua condição de estar “confinado exclusivamente aos ciclos de negociação da COP”) e consolidar a discussão como “um pilar fundamental da cooperação climática internacional”.
5) Avançar com quem estiver pronto para agir
A iniciativa da Colômbia e da Holanda é uma reação realista a um mundo cada vez mais fragmentado: esperar um acordo universal já não é viável.
Especialista em destaque:

Mohamed Adow,
Diretor da Power Shift Africa
Como destacou Mohamed Adow, parceiro do grupo Allied for Climate Transformation, “obviamente será difícil obter o apoio de todos os grandes emissores, mas a liderança não precisa esperar unanimidade. A história nos mostra que o progresso muitas vezes começa com coalizões de países dispostos. Quando uma massa crítica se move, isso estabelece um padrão, desloca fluxos de financiamento, amplia tecnologias limpas e outros tendem a seguir o exemplo. Porque essa é a economia da mudança. Já estamos vendo isso acontecer com as energias renováveis, que hoje são mais baratas do que os combustíveis fósseis em grande parte do mundo.”
Adow argumenta que “a transição dos combustíveis fósseis não é mais um tópico marginal”. Países pioneiros já estão remodelando os mercados globais de energia e a percepção pública. A tarefa agora é organizar esse movimento por meio de coalizões de países dispostos a fazer a transição, a fim de continuar avançando em direção a “uma transição justa e equitativa”.
No entanto, as coalizões não substituem o multilateralismo. “Para os países vulneráveis ao clima, fóruns multilaterais são as únicas vias por meio das quais agimos de forma coletiva”, diz Adow. Esses espaços continuam sendo indispensáveis para avançar em prioridades como o financiamento para adaptação e perdas e danos, assim como para operar dentro de uma estrutura de responsabilidade compartilhada. Esses estão entre os poucos fóruns aos quais os países vulneráveis ao clima têm um lugar à mesa. Em um sistema geopolítico cada vez mais fragmentado, manter canais multilaterais sólidos é essencial para preservar a capacidade de influência desses países, responsabilizar os grandes emissores e manter um sistema capaz de catalisar transições em larga escala.
6) Fazer da ação climática um esforço focado na natureza e nas pessoas
Especialista em destaque:

Mary Robinson,
Ex-presidente da República da Irlanda; ex-alta comissária da ONU para os Direitos Humanos; integrante do The Elders
Muitos líderes mundiais têm destacado a instabilidade dos sistemas financeiros e climáticos globais, descrevendo “uma ruptura na ordem mundial” que agora molda os principais debates climáticos. Nesse cenário, Mary Robinson oferece uma perspectiva diferente, uma que busca unir em vez de fragmentar. Ela defende a “humanização da narrativa climática – falar a partir do coração”. Isso implica liderar por meio de ações baseadas nos direitos humanos, na justiça e em nossa relação compartilhada com a natureza.
“Para combater essa crise, precisamos fazer desse um esforço humano. Precisamos trabalhar juntos para preservar uma ordem baseada em regras e nos direitos humanos e, nesse contexto, focar muito mais no que realmente precisamos fazer: eliminar o uso de combustíveis fósseis por meio de uma transição justa, além de proteger e regenerar a natureza. E também precisamos de coalizões dos países dispostos, comprometidos com esses valores e com essa ordem baseada em regras.
“Isso implica garantir os direitos humanos. Implica o direito a um meio ambiente saudável. Implica proteger os ganhos que já alcançamos – e não deixar que se percam. Nós podemos fazer isso se falarmos a língua do coração, se mostrarmos o que realmente está em jogo. Nós podemos perder os recifes de corais do mundo em menos de uma década. Nós podemos perder a Amazônia em não muito mais tempo que isso.
“Essa realidade choca as pessoas, mas elas também precisam se mover e agir. Essas catástrofes não precisam acontecer. Nós temos o ímpeto político necessário – se mudarmos para onde vai o dinheiro e se mudarmos lideranças e mentalidade. Nós podemos e precisamos agir.”
Não se trata apenas de um imperativo moral, ela destaca, mas de um caminho para garantir a sobrevivência e o futuro no momento em que a janela de tempo para corrigir o rumo está se fechando diante de nós.
Robinson nos lembra que um mundo melhor não está fora de alcance. Mesmo quando “o copo não está nem meio cheio, pode haver apenas um gole restando – você trabalha com isso. Você colabora e faz crescer. Você faz tudo o que pode fazer, e você trabalha o quanto for possível em comunidade. E é assim que você consegue trazer um pouco de esperança.”
Este texto foi publicado originalmente no Insights.
