Os principais objetivos estabelecidos no Acordo de Paris*, em 2015, foram: manter a temperatura global “bem abaixo de 2 ºC” e “fazer esforços” para limitar esse aumento a 1,5 ºC; aumentar a capacidade de adaptação aos impactos das mudanças climáticas; e alinhar os fluxos financeiros para uma economia de baixas emissões e alta resiliência. Para atingir essas metas, os países contam com um instrumento ainda pouco debatido: as Estratégias Climáticas de Longo Prazo (Long-Term Strategies - LTS).  

*Foi a primeira vez que a meta de 1,5 ºC de aumento da temperatura foi adotada em um acordo climático da UNFCCC, após anos de debates entre cientistas, ambientalistas e tomadores de decisões.

Desde sua adoção, a meta de 1,5º C se tornou um poderoso símbolo de ambição na busca pela ação climática e uma das principais referências para avaliação de políticas climáticas. O relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), lançado em 2018, reforçou o posicionamento, notadamente de países vulneráveis, para a necessidade do cumprimento da meta de 1,5 ºC e por mais ação e ambição climática pelas nações. 

O mundo já ultrapassou a meta de 1,5 ºC de aumento de temperatura?   

Nos últimos anos, cresceu o debate entre cientistas e tomadores de decisões sobre se ainda é factível limitar o aumento da temperatura em 1,5 ºC. Essa discussão ganhou força com dados divulgados no início de 2025, que mostraram que 2024 foi o primeiro ano que se tem registro em que a temperatura média da superfície global passou do limite de 1,5ºC, comparada com os níveis pré-industriais. Consequentemente, uma pergunta começou a ser feita com mais frequência: a meta de 1,5 ºC já está perdida?  

Em primeiro lugar, é preciso ressaltar que o Acordo de Paris estabelece que a meta de 1,5 ºC deve ser avaliada no longo prazo. O consenso científico é que o aumento da temperatura global seja medido com base na média das temperaturas registradas ao longo de um período de 20 anos. Portanto, um único ano acima do limite não significa, por si só, que a meta foi ultrapassada. Ainda assim, trata-se de um sinal alarmante e que deveria acelerar ainda mais a ação climática.  

Mesmo adotando a média de 20 anos, como é feito nas análises científicas, as estimativas atuais indicam que a temperatura global já subiu entre 1,34 °C e 1,41 °C — o que reforça a urgência em acelerar a ação climática, e alguns modelos já sugerem que o resultado de 2024 pode representar uma tendência, e não um episódio isolado.   

É possível limitar o aumento da temperatura? A neutralidade das emissões em 2050 é a chave 

Em teoria, sim, é possível limitar o aumento da temperatura global em 1,5 °C. O relatório do IPCC de 2022 traça o caminho necessário para isso: as emissões de gases de efeito estufa (Greenhouse Gas – GHG) devem atingir um pico em 2025, cair 43% até 2030 e 60% até 2035 (ambas comparadas aos níveis de emissões em 2019), e alcançar emissões líquidas zero por volta de 2050.   

Para ter uma ideia do desafio, os cientistas climáticos têm adotado um conceito de “orçamento de carbono” para estimar o quanto ainda podemos emitir globalmente de GHG, considerando o que propõe o Acordo de Paris. A estimativa é que esse orçamento seja atualmente de 130 Gt CO2 (gigatoneladas de dióxido de carbono). Entretanto, as emissões globais atuais estão em torno de 43 Gt CO2 por ano, o que significa que em pouco menos de três anos esse limite do “orçamento” seria ultrapassado.  

Ou seja, serão necessárias mudanças rápidas e em grande escala para reduzir drasticamente a produção e o consumo de petróleo, o desmatamento de florestas no mundo, além da adoção de novas tecnologias sustentáveis no setor de energia e da indústria. Apesar do desafio no curto prazo, é crucial que os países desenvolvam estratégias de descarbonização e trajetórias claras para atingir a neutralidade de emissões em 2050 e que estejam alinhadas com a implementação de ações de curto prazo.  

O que os países estão fazendo é suficiente para atingir a meta de 1,5 ºC?  

Em 2023, foi finalizado o primeiro Global Stocktake, instrumento estabelecido no Acordo de Paris que avalia se os esforços somados dos países estão alcançando os objetivos estabelecidos. Os primeiros resultados ilustram que as Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) colocam o planeta em uma trajetória de aumento de temperatura entre 2,1 ºC e 2,8 ºC.  

As NDCs, principalmente dos maiores emissores, precisam aumentar e muito sua ambição climática no curto prazo e terem um alinhamento com metas e estratégias de longo prazo (LTS). Os países que já atingiram seu pico de emissões devem detalhar em seus documentos as ações necessárias para acelerar as taxas de descarbonização de suas economias e alcançar suas metas nacionais de neutralidade. Já aqueles que ainda estão em trajetória de crescimento das emissões precisam usar as NDCs para definir quando, como e em que níveis suas emissões chegarão ao pico, seguido por um rápido declínio, para alcançar emissões líquidas em 2050.   

Esse alinhamento entre NDC e LTS é vital para que os países planejem suas políticas de forma eficiente e coesa, garantindo uma transição justa e inclusiva, ao mesmo tempo que contribuem para alcançar a meta de 1,5 ºC.   

O papel das LTS para mantermos viva e factível a meta de 1,5 ºC 

As Estratégias Climáticas de Longo Prazo (LTS) são planos que exploram os caminhos e estratégias que um país pode adotar para alcançar suas metas climáticas até meados do século, além de promover outros objetivos estratégicos, como os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU).   

As LTS foram criadas pelo Acordo de Paris (Artigo 4, parágrafo 19) que recomenda que todos os países formulem e comuniquem suas estratégias de longo prazo visando limitar o aumento de temperatura em 1,5 ºC.  Diferentemente das NDCs, as LTS não têm caráter obrigatório, nem de atualização, dentro do âmbito jurídico do Acordo de Paris.  

Os países que já elaboraram ou atualizaram suas LTS relatam vários benefícios da sua construção: mapeamento de oportunidades de crescimento econômico; criação de novos empregos na transição energética; redução das desigualdades por meio da descarbonização; fortalecimento da resiliência urbana e estímulo à inovação tecnológica.  

Ao integrarem as LTS às outras políticas públicas estruturantes de desenvolvimento, articulando metas climáticas com prioridades socioeconômicas e ambientais, esses países promovem uma mudança de paradigma: a descarbonização deixa de ser vista como um custo e passa a ser um vetor de desenvolvimento e melhoria da qualidade de vida. 

Além disso, o processo de construção da LTS é tão importante quanto o seu documento final. Países como Jamaica, Guatemala e Costa Rica têm conduzido processos participativos amplos, envolvendo vários stakeholders da sociedade para garantir que todos os grupos e populações impactados pelas mudanças climáticas sejam ouvidos e tenham suas demandas endereçadas. Tal processo gera um engajamento genuíno, que vai além da construção do documento, mas também mobiliza atores-chave para a ação climática no nível local.  

Atualmente, 78 países já submeteram suas LTS para a UNFCCC e cerca de 50 estão em processo de elaboração. Isso demonstra que as estratégias de longo prazo tendem a se consolidar como um grande “guarda-chuva” do planejamento climático nos próximos anos. 

Se as metas globais de redução de emissões parecem distantes no curto prazo, as LTS têm o potencial de se tornarem o grande norteador de como cada país poderá alcançar a neutralidade de emissões em 2050. As LTS são, portanto, fundamentais para manter viva a esperança de limitar o aumento da temperatura global em 1,5 ºC. 

Recomendações "2050 é Agora"

O consórcio global “2050 é Agora”, do qual o WRI Brasil faz parte, divulgou recomendações à COP30 para fortalecer o papel das LTS e alinhar as metas nacionais à trajetória de 1,5°C. Leia o posicionamento completo do consórcio e entenda por que 2050 é agora:

Comunicado Conjunto sobre Estratégias Climáticas de Longo Prazo (LTS) para informar ações alinhadas ao aumento de 1,5º C na temperatura global