Como Shenzhen, na China, tem sido pioneira em comunidades de “carbono quase zero”
Resumo: Shenzhen está implementando 113 projetos-piloto de comunidades de carbono quase zero, um plano ambicioso para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, diminuir os custos de energia e expandir parques e áreas para caminhada. Nesse processo, a cidade chinesa está criando, também, um modelo para uma cidade verde moderna.
No Distrito Central de Houhai, em Shenzhen, as temperaturas sobem a cada ano. No último verão a cidade registrou 37,5°C, um dos dias mais quentes em décadas. E, para moradores de prédios de apartamentos mais antigos, amenizar o calor não é apenas uma questão de conforto – é uma questão de custo. Cada vez mais, as pessoas recorrem ao ar-condicionado, como resultado, as contas de eletricidade ficam cada vez mais altas.
Esse é um desafio comum nas cidades chinesas, onde o consumo de eletricidade per capita dobrou na última década. A rápida urbanização e a melhoria dos padrões de vida da população fizeram do consumo residencial de energia um dos principais motores da demanda energética e das emissões de carbono. Em Shenzhen, uma potência industrial com 18 milhões de habitantes, o consumo de eletricidade das residências aumentou 10,3% apenas de 2023 para 2024.
Os moradores querem contas mais baixas, ruas mais frescas e bairros melhores. E é isso o que Shenzhen se propõe a oferecer.
A cidade está em processo de implementação de 113 projetos-piloto de comunidades de carbono quase zero, um plano ambicioso para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, diminuir os custos de energia e construir um futuro mais verde. Em Houhai, um dos maiores bairros de Shenzhen, o WRI trabalhou com a cidade para implementar uma série de soluções – desde painéis solares e sistemas inteligentes de gestão de energia até retrofits de eficiência energética, ampliação de áreas verdes e de espaços para caminhada.
Juntas, essas mudanças estão gerando benefícios que vão muito além da redução de carbono – estão criando um modelo de cidade moderna e sustentável.
O trabalho do WRI nas comunidades de carbono quase zero de Shenzhen
O projeto faz parte da iniciativa Deep Dive Cities, do WRI Ross Center, que se concentra em projetos liderados localmente como ponto de entrada para promover mudanças intersetoriais e transformadoras de longo prazo. Por meio da iniciativa, o WRI fornece financiamento estratégico e assistência técnica para diversos tipos de projetos. A iniciativa também permite que o WRI compartilhe lições aprendidas em sua rede de cidades parceiras.
Em Shenzhen, o WRI China trabalhou com governos locais, institutos de design, incorporadoras, empresas de serviços públicos e moradores para implementar comunidades de carbono quase zero em Houhai, uma área de uso misto e alta densidade no distrito de Nanshan, em Shenzhen. Por meio de análises de custo-benefício, orientação técnica e envolvimento das partes interessadas, o projeto identificou soluções práticas e acessíveis para reduzir emissões sem elevar o custo de vida. O trabalho contribuiu para quatro dos primeiros projetos-piloto de comunidades de carbono quase zero de Shenzhen e serviu de base para diversas políticas e padrões locais.
O desafio de viver com baixo carbono
Um dos maiores desafios na criação de comunidades de carbono quase zero é garantir que permaneçam acessíveis para todos. Shenzhen mostrou o que uma grande cidade pode fazer quando se compromete com sistemas de energia mais limpos e eficientes. Foi a primeira cidade da China a eletrificar completamente suas frotas de ônibus, táxis e veículos de transporte por aplicativo, tornando os deslocamentos mais limpos, seguros e acessíveis.
No Distrito Central de Houhai, a cidade está implementando soluções econômicas para reduzir emissões de carbono e melhorar a qualidade de vida dos moradores.
Melhorando a eficiência energética de grandes edifícios
As autoridades começaram pelos maiores consumidores de energia. Dos 20 maiores edifícios públicos em Houhai conectados à plataforma de monitoramento energético da cidade, todos consomem muito mais energia do que a média de Shenzhen. A modernização de sistemas de ar-condicionado e iluminação, a instalação de energia solar fotovoltaica em telhados e a adoção de sistemas inteligentes de gestão de energia nesses edifícios reduzirão o consumo de energia em cerca de 15% e as emissões de carbono em mais de 22 mil toneladas, o equivalente a retirar cerca de 10 mil carros das ruas da cidade a cada ano.
Modernizações como essas já estão em andamento e reduzindo custos. O sistema de painéis solares do edifício de escritórios de Shekou, por exemplo, gera mais de 314.800 kWh por ano, o que reduzirá as contas de eletricidade em até 50%.
Soluções criativas com energia de baixo carbono
Embora energias renováveis como solar fotovoltaica, solar térmica e geotérmica sejam o padrão de excelência para viver com carbono quase zero, Houhai, devido à alta demanda de energia e espaço limitado, precisou buscar soluções criativas.
O distrito foi além das soluções renováveis tradicionais e adotou projetos integrados que combinam sistemas solares com edifícios e paisagens. Parques, praças e outras áreas abertas receberão painéis solares, aliando estética e geração de energia em um desenho urbano contínuo.
O distrito planeja, por exemplo implementar painéis solares nos telhados de estacionamentos e iluminação pública movida a energia renovável. Para edifícios comerciais, são usados painéis fotovoltaicos integrados à edificação. Um desses projetos é o Shenzhen Bay Sports Center, onde painéis de vidro fotovoltaico já geram cerca de 960.000 kWh por ano, o equivalente ao consumo de energia de aproximadamente 300 famílias. Com coberturas solares para estacionamento, um sistema de armazenamento de energia e carregamento ultrarrápido para veículos elétricos, o centro é um local atrativo para a realização de apresentações, aulas e grandes eventos esportivos, entre outras atividades.
Construindo um sistema de transporte de baixo carbono
Shenzhen agora exige que 40% das novas vagas de estacionamento incluam carregadores para veículos elétricos, um índice bem acima dos padrões anteriores.
Ainda assim, as metas da cidade incluem reduzir substancialmente as viagens de carro, priorizando ruas confortáveis para pedestres e áreas livres de carros. Houhai construiu um corredor elevado de caminhada de dois quilômetros que conecta mais de dez complexos comerciais, marcos culturais e parques. Desde a inauguração, em setembro de 2025, o corredor rapidamente passou a fazer parte da rotina diária dos moradores. Trabalhadores o utilizam para acessar estações de metrô sem cruzar vias movimentadas, enquanto famílias desfrutam de um percurso seguro para caminhar, livre do tráfego de veículos. Os usuários destacam o impacto da nova estrutura: alguns relatam economizar até US$ 117 por mês em corridas de táxi ao optar por ir a pé ao trabalho.
Sumidouros ecológicos de carbono
Energia renovável e eficiência podem reduzir os custos com ar-condicionado. Áreas verdes podem diminuir a necessidade de uso dos aparelhos ao fornecer sombra e amenizar a temperatura do entorno. Pesquisas também mostram que parques, árvores e outras áreas verdes podem melhorar a saúde física e mental ao incentivar atividades ao ar livre.
Com esse objetivo, Shenzhen construiu diversos pequenos parques de bairro, conectando-os aos já existentes. Houhai criou um sistema integrado de parques – preservando áreas verdes existentes, revitalizando espaços subutilizados e introduzindo novos parques projetados para absorver emissões de carbono. O Shenzhen Talent Park (Fase II), por exemplo, oferece amplas áreas verdes, além de um grande espaço de recreação infantil, e se tornou um destino atrativo para as famílias.
Como disse Cheng, moradora, a um veículo da imprensa local: “O ar é ótimo, e há muitas coisas para as crianças brincarem, elas adoram”.
Houhai também implementou telhados verdes e jardins em terraços e vegetação vertical nas fachadas dos edifícios, além de introduzir áreas verdes em espaços “cinzas” subutilizados. Em conjunto, esses esforços de arborização devem aumentar a capacidade de sequestro de carbono do bairro de 12% a 16%, ajudando a reduzir o impacto climático da cidade.
Envolvendo os moradores
O desenvolvimento de baixo carbono vai além do planejamento e da infraestrutura: também depende de monitoramento, gestão e envolvimento da comunidade. Por isso, Houhai também incentiva práticas sustentáveis dentro das residências.
Um exemplo é o Dia de Redução de Resíduos, realizado no Shenzhen Talent Park, que foi estabelecido para que os moradores possam trocar itens não utilizados em um “mercado de trocas”. Ao promover vendas beneficentes, doações e jogos interativos de separação de resíduos, o evento une aprendizado e diversão para incentivar estilos de vida sustentáveis.
Incorporando metas verdes às políticas públicas
Imaginar Houhai como uma comunidade de carbono quase zero não se resume à modernização tecnológica – exige políticas inteligentes, financiamento e colaboração. Embora os moradores estivessem dispostos a apoiar melhorias menores, como estações de carregamento para veículos elétricos, medidas mais amplas de economia de energia exigiram apoio governamental. Líderes municipais e distritais trabalharam juntos na elaboração de um plano de financiamento que equilibra metas energéticas ambiciosas e acessibilidade. Ao analisar os custos e benefícios de diferentes tecnologias de baixo carbono, identificaram uma faixa de subsídios que atendia às expectativas dos incorporadores, normalmente com um período de retorno de 6 a 7 anos. O governo distrital, então, se comprometeu com o investimento de até 1 milhão de RMB por projeto (US$ 146.000), viabilizando que as comunidades de carbono quase zero se tornassem realidade.
Transformando ideias em ação
Quando a cidade finalizar a implementação completa das estratégias de baixo carbono previstas para Houhai, reduzirá as emissões de carbono da área em 30%. E, com reformas de eficiência energética e instalação de sistemas solares fotovoltaicos, as famílias nas comunidades residenciais participantes podem esperar uma redução de 22% em suas contas anuais de eletricidade (cerca de US$ 80).
Ao mesmo tempo, o governo municipal de Shenzhen desenvolveu seus próprios padrões para comunidades de carbono quase zero, usando as lições aprendidas em Houhai e em outros projetos-piloto. O WRI China apoia esse esforço, ajudando a criar parâmetros de referência para eficiência energética e redução de emissões. Com isso, Shenzhen pretende estabelecer mais 100 projetos-piloto de comunidades de carbono quase zero até 2030.
A abordagem de Houhai também tem sido usada como referência para iniciativas em outras cidades chinesas. Até agora, oito províncias e quatro cidades no país planejam construir seus próprios projetos de demonstração de carbono quase zero.
Este artigo foi publicado originalmente no Insights.