A indústria brasileira é chave para a economia do país, respondendo por mais de 25% do PIB nacional e gerando mais de 11 milhões de empregos formais no Brasil. O setor apresenta vantagens competitivas no cenário climático internacional, operando com uma matriz elétrica majoritariamente limpa e avançando na transição de sua matriz energética para fontes predominantemente renováveis.

Entretanto, em meio a esse contexto favorável, ainda persistem desafios técnicos, regulatórios, normativos e financeiros que limitam a expansão dos investimentos necessários para a descarbonização industrial em larga escala no país - condição essencial para que o Brasil alcance sua meta de neutralidade de emissões até 2050. Esses desafios são ainda mais visíveis entre os setores chamados “de difícil abatimento”, intensivos em energia e emissões, como as indústrias do aço, alumínio, cimento, papel e celulose, químicos e vidro.

A transição industrial para uma economia de baixo carbono exigirá um arcabouço de soluções integradas: ampliação do volume de capital disponível para projetos industriais sustentáveis; governança robusta entre diferentes atores do setor industrial, poder público e instituições financeiras; alinhamento entre políticas industriais, energéticas e climáticas; e capacidade técnica mais profunda para acelerar e escalar soluções de baixo carbono.

O que é o Mapeamento do Ecossistema de Descarbonização Industrial no Brasil?

O WRI Brasil, por meio do projeto “Unlocking Finance for Industrial Decarbonisation in Brazil” e com financiamento do UK Pact (consórcio WayCarbon e WRI Brasil), liderou a realização do estudo “Mapeamento do Ecossistema de Descarbonização Industrial no Brasil” juntamente com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Ele identifica atores e interações que são ou podem ser impactados por trajetórias de descarbonização industrial no Brasil, além de destacar os pontos fortes e as limitações desse ecossistema.

O objetivo do mapeamento é ampliar a visibilidade e a compreensão sobre o cenário atual da descarbonização no Brasil, constituindo um passo inicial para melhor articular e mobilizar atores que são chave para garantir uma trajetória de baixo carbono na indústria brasileira.

Quais são os resultados do mapeamento?

O estudo identificou 104 atores e quatro tipos de interações entre eles dentro do ecossistema (veja "Mapa de relações: geral", a seguir):

  • Coordenação: identifica fluxos de governança, administração, regulação e tomada de decisão;
  • Financiamento: identifica fluxos de recursos e repasses;
  • Facilitação: identifica trocas para a facilitação por meio de alianças, hubs, padrões e referências;
  • Representação/participação: identifica composição em conselhos, comitês, além de participação em consultas públicas

O mapa abaixo mostra todos os atores e interações identificados. Ele evidencia a variedade e complexidade das interações para a descarbonização industrial do país entre diferentes tipos de atores, como instituições públicas, indústria, atores do terceiro setor, entidades internacionais e universidades e centros de pesquisa. Nesse mapa, destacam-se as indústrias, principais responsáveis pela implementação das medidas de descarbonização, e o Governo Federal, que exerce papel central na orientação e condução da trajetória de baixo carbono do país.

Mapa relações entre atores descarbonização
FONTE: BRASIL. Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Mapeamento do Ecossistema da Descarbonização Industrial no Brasil. Brasília: 2025.

Para aprofundar a análise dos atores e de suas interações, foram elaborados mapas específicos para cada tipo de relação identificada. A seguir, são apresentados os principais resultados.

Relações de Coordenação

Neste mapa, a maior parte das interações está centrada nos atores do setor público, incluindo governo e entidades reguladoras. Tais entes exercem papel decisivo na orientação da descarbonização industrial brasileira, não apenas pela provisão de recursos, mas também pela regulação, utilização de instrumentos de política e mecanismos de informação. Todos esses meios de ação norteiam as escolhas de outros atores no ecossistema.

Essa importância reflete, em parte, os avanços recentes do governo brasileiro no alinhamento de políticas climáticas, industriais e planejamento orçamentário do país, a exemplo de iniciativas como o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE). Além disso, os órgãos normativos e supervisores do Sistema Financeiro Nacional (SFN) vêm fortalecendo a transparência e criando condições institucionais e regulatórias favoráveis ao financiamento de projetos sustentáveis, inclusive na indústria. Isso inclui, por exemplo a Resolução CVM nº 193/2023 e a Resolução CMN nº 5.018/2023.

Apesar desse contexto favorável, o ecossistema ainda precisa de instrumentos de política para apoiar o setor industrial na descarbonização, sobretudo aqueles voltados ao estímulo da demanda por produtos sustentáveis, como contratos de longo prazo e mecanismos de valorização ou prêmios de mercado para produtos de baixo carbono.

Mapa mostra relação de coordenação entre atores de descarbonização
FONTE: BRASIL. Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Mapeamento do Ecossistema da Descarbonização Industrial no Brasil. Brasília: 2025.

Relações de Financiamento

Neste mapa, sobressaem os atores que atuam em ambos os lados do financiamento da indústria brasileira: de um lado, os ofertantes de recursos, como bancos públicos nacionais e, de outro, os demandantes, representados principalmente pelas empresas industriais.

Do lado da oferta de recursos, destaca-se a centralidade do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e, em menor medida, Banco do Brasil, Caixa e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), no apoio financeiro à descarbonização industrial no país. Observa-se também a limitada participação de fontes de financiamento privadas, como bancos e fundos privados, na descarbonização.

Em entrevistas, identificou-se que essa limitada participação ocorre devido às características do investimento em projetos de baixo carbono na indústria, muitas vezes apresentando alto custo, prazos longos e incertezas de demanda e retorno. Também foi identificado que tanto instituições públicas quanto privadas concentram esforços na descarbonização do setor agropecuário, enquanto há pouca destinação de recursos para a indústria.

Do lado dos demandantes de financiamento para a descarbonização industrial, destacam-se não apenas as indústrias, mas também aquelas voltadas ao desenvolvimento, execução e certificação de soluções, todas com papel fundamental na viabilização técnica e econômica das iniciativas. Identificou-se ainda que as empresas industriais vêm adotando novos modelos de negócio e arranjos institucionais para sustentar seus projetos de descarbonização, como joint ventures e estratégias de acoplamento setorial, que favorecem a integração entre diferentes segmentos produtivos e o compartilhamento de recursos e riscos.

Mapa mostra relações de financiamento entre atores da descarbonização
FONTE: BRASIL. Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Mapeamento do Ecossistema da Descarbonização Industrial no Brasil. Brasília: 2025.

Facilitação

O mapa evidencia a ampla variedade de iniciativas entre governo, cooperação internacional e instituições de pesquisa que buscam facilitar a descarbonização industrial no Brasil. Em particular, ganham destaque os atores ligados à geração de conhecimento, como universidades, centros de pesquisa; os padrões e normas, como a Taxonomia Sustentável Brasileira; e a cooperação internacional, com entes como UNIDO e GIZ.  Todos eles são centrais na mobilização de outros atores ou fluxos de recursos e no desenvolvimento de soluções em prol da descarbonização industrial brasileira.

Entre as formas de apoio, destacam-se iniciativas de sensibilização e articulação multissetorial, como a , iniciativas de suporte à formulação de projetos industriais de baixo carbono, como o Acelerador de Transição Industrial (ITA), e apoio ao desenho de instrumentos financeiros mais adequados para a indústria, como UK Pact. Além disso, padrões, normas e referências têm orientado a adoção de práticas industriais alinhadas a requisitos técnicos, ambientais e de integridade, reforçando a transparência, a consistência e a credibilidade dos processos de descarbonização. De forma similar ao mapa de coordenação, identifica-se que ainda há pouco apoio para fomento à demanda por produtos sustentáveis dentro dessas iniciativas.

Mapa mostra relações de facilitação entre atores de descarbonização
FONTE: BRASIL. Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Mapeamento do Ecossistema da Descarbonização Industrial no Brasil. Brasília: 2025.

Representação/Participação

Para este tipo de interação, ficam em evidência as associações e representações da indústria e do setor financeiro, além da sociedade civil. Todos esses atores têm bastante relevância no diálogo e na articulação com os demais, além de participarem ativamente das decisões políticas.

Em particular, as associações industriais e empresariais têm auxiliado diretamente o governo na formulação de políticas públicas, como a Nova Indústria Brasil (NIB) e o Plano Setorial da Indústria (Plano Clima). Algumas ainda contam com setor de compras ou, por meio de rateio ou recursos próprios, apoiam a contratação de serviços voltados à elaboração de projetos de descarbonização. Esses exemplos evidenciam não apenas o poder de articulação das associações, mas também a necessidade de ampliar seu engajamento, dado seu conhecimento aprofundado sobre as demandas e desafios dos atores que representam.

Mapa mostra relações de representação e participação dos atores de descarbonização
FONTE: BRASIL. Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Mapeamento do Ecossistema da Descarbonização Industrial no Brasil. Brasília: 2025.

O que é necessário para que a descarbonização industrial aconteça efetivamente?

A principal mensagens do mapeamento é a de que viabilizar o financiamento para a descarbonização industrial no país demanda muito mais do que simplesmente ampliar os recursos disponíveis. É essencial promover um ambiente colaborativo entre diversos atores, articulando políticas públicas, conhecimentos técnicos e setoriais da indústria, além de instrumentos financeiros, de forma integrada e estratégica a fim de avançar a agenda de baixo carbono na indústria. 


Leia o estudo completo 

Clique aqui e acesse o estudo, lançado durante a COP30, em Belém.

Featured WRI Experts:
Marina Caregnato Garcia -

Coordenadora de Finanças Climáticas

Lucilla Dias -

Coordenadora de Ação Climática