Conectar descarbonização e crescimento industrial; coordenar políticas públicas já existentes, orquestrando os atores envolvidos; tornar instrumentos financeiros mais eficazes às diferentes realidades do setor industrial brasileiro; e desenvolver um arcabouço de soluções integradas: esses foram os fatores centrais levantados por especialistas para que o financiamento da descarbonização da indústria no Brasil seja destravado. 

O assunto foi tema do webinar “Oportunidades de políticas públicas e financiamento para a descarbonização dos setores de difícil abatimento”, realizado em 3 de março pelo WRI Brasil em parceria com a WayCarbon. O evento contou com 156 participantes e painelistas convidados que representaram o governo brasileiro e britânico, além de especialistas do WRI Brasil e WayCarbon.  

A indústria brasileira responde por 25% do PIB nacional e gera mais de 11 milhões de empregos formais no país. O setor é responsável por aproximadamente 9% das emissões de gases de efeito estufa, especialmente em setores de difícil abatimento (cimento, aço, vidro, química, alumínio e papel e celulose), segundo o Plano Clima Indústria Mitigação. Os dados evidenciam a relevância da indústria para a economia nacional e para atingir as metas climáticas. 

Segundo os especialistas, não há dúvidas: o caminho rumo à neutralidade de carbono em 2050 também poderá trazer crescimento para a indústria do país. Confira, a seguir, a perspectiva de cada participante sobre a discussão e como o processo de descarbonização pode ganhar força no Brasil.   

1) Conectar descarbonização e crescimento  

Especialista em destaque: 

Foto de Júlia Cruz, secretária MDIC

Júlia Cruz
Secretária de Economia Verde, Descarbonização e Bioindústria do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC)

“Quando a gente faz os cálculos dos números das metas, em um primeiro momento, a gente está reconhecendo que a indústria cresce e que, mesmo assim, ao longo do tempo, ela vai baixar as emissões”, destacou Júlia Cruz, Secretária de Economia Verde, Descarbonização e Bioindústria do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). “Veja que chegamos a um meio do caminho muito interessante que pressupõe a melhoria de desempenho da indústria e não simplesmente sua redução.” 

Ao abrir o evento, a secretária enfatizou: o governo reconhece a necessidade de o Brasil alcançar a neutralidade climática em 2050, mas isso não deve ser feito “às custas da indústria”. “O capítulo Indústria do Plano Clima foi desenhado com base nessa premissa: a gente precisa atingir neutralidade climática em 2050, e temos metas bastante sérias para determinar esse caminho, mas isso precisa ser feito com o reconhecimento de um plano de desenvolvimento que reduza desigualdades”, explica. 
 
Júlia indicou quatro pilares previstos pela Estratégia Nacional de Descarbonização Industrial (ENDI) para implementação das metas traçadas no Plano Clima voltadas para a indústria: fortalecimento da Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (P&D+I) e de capacitação; oferta de insumos verdes de qualidade, com previsibilidade e preços competitivos; mercado para absorver os produtos brasileiros; e financiamento de incentivos. 

A secretária alertou ainda sobre a importância de pensar em soluções adaptadas à realidade brasileira, como o fato de as indústrias do país consumirem energia de uma matriz majoritariamente limpa. “A matriz energética brasileira é super limpa, e isso precisa ser valorizado. Nem sempre, quando a gente está em foros internacionais, os outros países querem reconhecer o Escopo 2*, mas isso faz sentido para o Brasil e para a política climática global, porque a maior fonte de emissões da indústria vem justamente da energia que possibilita a produção”, observa. 
 

* O Escopo 2 refere-se às emissões indiretas, provenientes da compra de eletricidade e processos de vaporização, aquecimento e resfriamento na indústria. Ele é um dos três escopos previstos pelo GHG Protocol para a contabilização de emissões corporativas. 

 2) Tornar instrumentos financeiros mais eficazes 

Especialista em destaque:

Foto de Nathalia Pereira, especialista WayCarbon

Nathalia Pereira
Coordenadora de Finanças Sustentáveis da WayCarbon

Para Nathalia Pereira, Coordenadora de Finanças Sustentáveis da WayCarbon, o arranjo de instrumentos financeiros dentro do contexto de cada setor industrial é fundamental para destravar a descarbonização industrial. “A necessidade de assegurar a demanda pelos produtos industriais verdes e de embutir nesses instrumentos [financeiros] formas de redução de risco para investimento, seja com um seguro por custo excedente, seja com um fundo garantidor ou algo semelhante, é o que vai efetivamente desbloquear a capacidade do setor de pensar em investimento de longo prazo, para muito além da oferta de novos produtos de financiamento”, diz.  

A especialista ainda destaca a necessidade de utilizar instrumentos já existentes para não onerar as instituições financeiras. “A ideia é ver o que funciona hoje e pensar como a gente consegue ter insumos para avaliar o que pode ser escalável e, principalmente, atrativos para o setor privado.” 

Um fator central levantado para a discussão do financiamento foi a competitividade, ponto também abordado pela secretária Júlia Cruz. “A gente sabe que qualquer iniciativa de descarbonização precisa contribuir com a competitividade da indústria brasileira. Precisamos entender sobre mercado, demanda, custo de produção e valor agregado”, explica. Nesse sentido, os questionamentos levantados pela especialista foram: não seria necessário garantir primeiramente uma demanda por produtos industriais verdes antes de pensar em ofertar soluções de crédito? Qual é o mercado que demanda, de fato, esse produto? 

A pesquisa realizada pela equipe da WayCarbon analisou 28 instrumentos financeiros voltados à descarbonização do setor industrial no país, abrangendo financiamento público e privado, nacional e internacional. O estudo buscou elencar desafios e oportunidades para instituições financeiras de desenvolvimento local, com foco no que poderia ser replicável e escalável.  

Entre as lacunas para alavancar o financiamento em prol da descarbonização da indústria brasileira identificadas pelo estudo estão o processo de desindustrialização do país nas últimas décadas; os riscos financeiros associados a um cenário de incertezas, o que afeta a capacidade de investimentos; a concentração do financiamento climático brasileiro em algumas estratégias e tecnologias, como energia renovável e agricultura sustentável; e uma prioridade menor para o financiamento da indústria quando comparado a outros setores, enquanto o custo adicional em investimentos em tecnologias limpas para descarbonização da indústria estimado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) é de U$ 40 bilhões até 2050.   

A análise identificou um protagonismo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) no financiamento de soluções de descarbonização. Esse destaque está relacionado tanto à gestão do Fundo Clima, quanto à oferta de linhas elegíveis para a indústria, voltadas, por exemplo, para a substituição de máquinas e equipamentos.  

3) Desenvolver arcabouço de soluções que lide com múltiplos desafios 

Especialista em destaque:

Foto de Maria Garcia, analista WRI Brasil

Marina Garcia
Analista de Investimentos em Descarbonização da Indústria do WRI Brasil 

“A gente entendeu que viabilizar a descarbonização industrial brasileira em larga escala vai exigir mais do que simplesmente direcionar recursos para essa pauta. A gente vai precisar de um arcabouço de soluções que lide com esses múltiplos desafios, que são financeiros, técnicos e regulatórios, de forma simultânea e coordenada”, explica Marina Garcia, Analista de Investimentos em Descarbonização da Indústria do WRI Brasil.  

Essa afirmação parte do estudo que identificou os principais atores que impulsionam a descarbonização industrial no país e as relações entre eles: o Mapeamento do Ecossistema da Descarbonização Industrial do Brasil. Ao todo, foram mapeados 104 atores em seis áreas diferentes (setores privado e público, fontes de financiamento, facilitadores, geração de conhecimento e engajamento social), e quatro tipos de relações (financiamento, coordenação, facilitação e representação). Ao olhar para esse ecossistema, foi possível identificar onde há articulações e iniciativas que estão funcionando bem e onde há lacunas e oportunidades.  

Entre os pontos encontrados que podem fortalecer a descarbonização na indústria estão a diversidade dessa rede de atores; o amplo leque de soluções, impulsionado pelo alto potencial de recursos renováveis no país; avanços recentes no campo regulatório e de políticas públicas; participação ativa de centros de pesquisa e cooperação internacional; e o engajamento de associações industriais e setor financeiro na formulação de políticas públicas. 

Complementando o ponto levantado por Nathalia, Marina destacou as condições de mercado ainda frágeis como uma das lacunas para alavancar a descarbonização da indústria. “Em termos práticos, significa que, muitas vezes, as empresas têm interesse em investir em projetos de baixo carbono, mas enfrentam falta de infraestrutura habilitadora e incerteza com relação ao retorno desses tipos de projeto. Essa fragilidade de mercado se conecta diretamente com a segunda lacuna, que é a baixa diversidade de fontes de financiamento para projetos de baixo carbono industrial, que acabam sendo majoritariamente financiados por fontes públicas”, detalha Marina.  

Outro ponto de melhoria identificado na pesquisa é a harmonização de padrões e métricas de sustentabilidade para os setores de difícil abatimento. Também foi destacada a necessidade de criação de mecanismos que permitam a coordenação e conexão das frentes que atuam na capacitação dos atores, bem como a facilitação para evitar uma sobreposição de esforços ou lacunas no trabalho.  

A especialista conclui que é necessário ver a descarbonização como uma oportunidade para melhorar a competitividade da indústria. “A transição para uma indústria de baixo carbono deve ser concebida não apenas como uma resposta às demandas ambientais, mas também como uma oportunidade estratégica para fortalecer a competitividade da indústria nacional”, observa. 

4) Coordenar as políticas já existentes 

Especialista em destaque:

Imagem de Luana Betto, gerente WRI Brasil

Luana Betti
Gerente de Socioeconomia e Finanças do Clima do WRI Brasil 

“A descarbonização industrial depende menos da criação de novos instrumentos e mais da coordenação, da estabilidade das políticas existentes. E uma estratégia industrial estruturada, com sinais de longo prazo, fazendo a orquestração dos atores do setor público, do setor privado e da sociedade civil e da academia”, defende Luana Betti, Gerente de Socioeconomia e Finanças do Clima do WRI Brasil. 

A pesquisa que trouxe a reflexão compartilhada por Luana foi apresentada no webinar e investiga o quanto as políticas públicas e o arcabouço regulatório estão orquestrando os atores e viabilizando, de fato, a implementação da descarbonização industrial no país. Para isso, foram analisados 26 instrumentos regulatórios e de políticas públicas e identificados desafios e oportunidades para cada um deles. O trabalho também contou com a realização de 12 entrevistas com o setor privado para mapear percepções. 
 
“O Brasil tem uma estrutura de instrumentos fortes, e eles precisam, de alguma forma, estar alinhados com um objetivo único e com formas de implementação coordenadas para não sobrecarregar o setor. Esse é o principal mote que a gente identificou em todas as entrevistas”, explica Luana. Além dessa, foram encontradas mais seis oportunidades: estruturar sistemas robustos de monitoramento e governança; aprimorar o desenho regulatório e a clareza operacional dos instrumentos para facilitar o entendimento do próprio setor; escalar e direcionar instrumentos financeiros estratégicos; reduzir riscos e destravar investimentos em tecnologias emergentes; fortalecer inovação, capacitação e competitividade industrial; e garantir que esses instrumentos estão sendo efetivos no que se propõem e trazendo impactos adicionais.  
 
Para Luana, além de garantir esse alinhamento de instrumentos e a coordenação de atores envolvidos no processo de descarbonização, é necessário pensar a longo prazo. “Acho que foi uma mensagem muito clara a perenidade desse caminho e dessa missão. Tornar o Brasil carbono zero até 2050 demanda tempo e muito investimento. Então é importante que essas políticas se mantenham no longo prazo”, diz. 

Por que o financiamento da descarbonização da indústria é estratégico para o país neste momento? 

Falar sobre financiamento da descarbonização da indústria no Brasil é algo relativamente novo e crucial no atual contexto. “Estamos em um momento no Brasil em que temos várias iniciativas ligadas à política climática e à descarbonização da indústria. A gente tem a Plataforma Brasil de Investimentos Climáticos e para a Transformação Ecológica (BIP); a ENDI, a Estratégia Nacional de Descarbonização Industrial no Brasil; o SBCE, o nosso mercado regulado de carbono; o Eco Invest”, elenca Bruna Araújo, Gerente de Finanças Sustentáveis da WayCarbon. “Temos várias iniciativas capitaneadas para a gente aprimorar esse ecossistema para viabilizar o financiamento climático, viabilizar o cumprimento das NDCs no Brasil.” 
 
O WRI Brasil e a WayCarbon vêm se dedicando à temática de financiamento para a descarbonização da indústria e sua contribuição para a implementação de soluções que sejam efetivas, justas e alinhadas à realidade brasileira. Exemplo disso é o desenvolvimento do projeto “Unlocking Finance for Industrial Decarbonisation in Brazil”, com apoio da Embaixada do Reino Unido e do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).  

O foco é aproximar a demanda da oferta por financiamento climático e, especificamente, para setores de difícil abatimento, como aço e cimento. O projeto, ainda em andamento, investiga:  

  • Como funcionam os mecanismos financeiros.  
  • Quais recursos estão à disposição, sejam eles nacionais ou internacionais. 
  • O que é necessário para mobilizar esse recurso. 
  • O que motiva as empresas a financiarem projetos de baixo carbono. 

“Esse projeto trata de temas absolutamente estratégicos para a transformação do Brasil e da economia brasileira rumo à sua trajetória de zero carbono até 2050. E ele traz de uma forma muito importante um diálogo do setor produtivo, da pesquisa e do governo”, ressalta Karen Silverwood-Cope, Diretora de Clima, Economia e Finanças do WRI Brasil. 

Andres Comba, Head da Embaixada Britânica e Conselheiro Sênior em Finanças Verdes, destaca o alinhamento entre esforços brasileiros e do Reino Unido, apoiador da iniciativa. “A essência do nosso programa UK Pact é atingir as necessidades definidas pelo governo brasileiro em que a assistência técnica é necessária”, explica. “Fico muito feliz que estamos apoiando áreas estratégicas e que [esse projeto] vai ter um grande impacto”, afirma Andreas ao destacar que a iniciativa poderá contribuir para a transformação da economia brasileira em uma economia verde, sem deixar de lado as particularidades do país. 

Assista ao webinar 

O webinar completo está disponível no YouTube

Featured WRI Experts:
Martina Medina Cavalcanti -

Coordenadora de Comunicação de Clima, Finanças e Economia

Marina Caregnato Garcia -

Coordenadora de Finanças Climáticas

Luana Betti -

Especialista em Socioeconomia e Finanças do Clima

Stéfany Ferreira de Lima -

Estagiária em Socioeconomia e Finanças do Clima