2º Diálogo Nacional sobre Estratégia Climática de Longo Prazo debate caminhos para um Brasil neutro em carbono, resiliente e inclusivo até 2050
Como garantir que a ação climática esteja alinhada a uma visão de país e sobreviva aos ciclos eleitorais? Como aliar descarbonização e desenvolvimento econômico, garantindo ainda a incorporação de conhecimentos de comunidades vulnerabilizadas aos planos de ação climática? Afinal, o que significa, na prática, construir um Brasil resiliente às mudanças do clima até 2050?
Essas foram algumas das questões centrais debatidas durante o 2º Diálogo Nacional sobre Estratégia Climática de Longo Prazo no Brasil, realizado em 12 de maio, em São Paulo. O evento reuniu representantes do governo, academia, setor privado e sociedade civil para discutir caminhos para que o país alcance a neutralidade de carbono até 2050 promovendo desenvolvimento econômico, resiliência climática e uma transição justa e inclusiva.
Realizado em formato híbrido, o encontro contou com cerca de 80 participantes presenciais e mais de 150 on-line. O evento integra o projeto global “2050 é Agora”, iniciativa que apoia governos na elaboração de Estratégias Climáticas de Longo Prazo (LTS, na sigla em inglês) robustas e orientadas para uma transição justa. Ao todo, 24 especialistas, representando governo, ciência e sociedade civil, participaram da mesa de abertura e de quatro painéis. O encontro dá continuidade e aprofunda as discussões iniciadas na primeira edição do evento, realizado em Brasília, em 2025.
Na abertura do evento, a Diretora-executiva do WRI Brasil, Mirela Sandrini, destacou que o país vive um momento decisivo para transformar planejamento climático em ação concreta. “A gente tem condição de estar trazendo realidade, concretude e transformação para o nosso país, de acordo com o que ele merece”, disse. “Como boa brasileira, apaixonada pelo meu país, a gente quer mais é que ele seja próspero, justo, inclusivo, principalmente nessa década em que o Brasil assume um papel muito relevante para a segurança climática, segurança alimentar e a segurança de transição energética.”
Karen Silverwood-Cope, Diretora de Clima, Economia e Finanças do WRI Brasil, ressaltou que a construção de uma LTS exige articulação entre diferentes agendas e setores. “Esse é um projeto que, para o WRI Brasil, traz uma visão de conjunto intersetorial entre as múltiplas agendas que a gente trabalha”, destacou.
O encontro também reforçou que o debate sobre neutralidade climática já deixou de ser apenas ambiental, passando a envolver competitividade econômica, política industrial, saúde pública, infraestrutura, trabalho e redução de desigualdades.
A estratégia climática como projeto de Estado
Um dos consensos do encontro foi que a LTS precisa ser construída como uma política de Estado — e não apenas de governo. Para Aloisio Melo, Secretário Nacional de Mudança do Clima do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), a visão de longo prazo é essencial para garantir continuidade às políticas climáticas brasileiras, especialmente em um contexto de alternância política. “Ter uma visão de longo prazo é fundamental para que a gente construa as bases para essa continuidade”, observou.
A transparência apareceu como outro elemento-chave para transformar metas climáticas em implementação concreta. Segundo Márcio Rojas, Coordenador-Geral de Ciência do Clima do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), a transparência permite formular políticas com base em evidências, monitorar e ajustar as rotas ao longo do tempo e gerar confiança entre os atores internos.
Como exemplo desse esforço, o representante do MCTI destacou a criação de plataformas, como a AdaptaBrasil, o Sirene e o Sinapse, que apoiam a governança clara da transparência climática. “É justamente a transparência que vai fazer com que promessas e desejos se tornem ação”, afirmou.
“A natureza funciona em ciclos mais longos. O jeito que a gente vive, governa e faz investimentos têm que refletir essa realidade. É exatamente aqui entra o papel das estratégias climáticas de longo prazo. Saber o que as próximas décadas vão trazer para a gente é superimportante”, acrescentou Timon Lepold, Adido de Meio Ambiente e Clima da Embaixada da Alemanha em Brasília.
O papel do diálogo entre diferentes setores também apareceu como condição fundamental para a transição climática. “Mudanças são complexas e às vezes geram resistência e até medo nas sociedades. Mas é fundamental ter esse diálogo”, afirmou Timon.
O mundo ainda está atrasado na ação climática
Após a abertura, os participantes acompanharam uma apresentação sobre o relatório State of Climate Action 2025, que monitora o avanço global rumo às metas climáticas do Acordo de Paris. Clea Schumer, Pesquisadora Associada do Programa de Clima do WRI e uma das autoras do estudo, explicou que nenhum dos 45 indicadores analisados pelo relatório avança hoje na velocidade necessária para limitar o aquecimento global a 1,5ºC. “A questão não é se a mudança pode acontecer. A questão é se conseguiremos fazer isso a tempo”, afirmou.
Clique aqui para ampliar a imagem.
Apesar do cenário desafiador, Clea destacou avanços importantes, como o crescimento do financiamento climático e o desenvolvimento de tecnologias emergentes, incluindo hidrogênio verde e soluções de captura de carbono. Ao mesmo tempo, alertou para a lentidão global na redução do desmatamento e para o aumento contínuo de subsídios aos combustíveis fósseis.
Para ela, países que estão estruturando estratégias climáticas robustas — como o Brasil — podem desempenhar um papel decisivo para acelerar a implementação global da ação climática.
Do papel à ação: como viabilizar a LTS na prática
A discussão trouxe outra provocação importante: além de liderar internacionalmente debates sobre transição energética e afastamento gradual dos combustíveis fósseis, o Brasil precisa estruturar sua própria visão doméstica de longo prazo.
Para Stela Herschmann, Especialista em Política Climática do Observatório do Clima, o Brasil já obteve avanços a partir de alguns instrumentos, como o Plano Clima, mas é fundamental que o país planeje efetivamente a transição para longe dos combustíveis fósseis. “Estamos em um lugar muito melhor do que a gente estava antes, mas a gente precisa dar implementação e concretude a esses planos. Precisamos também avançar e ser mais ambiciosos. Acho que um mapa do caminho nacional teria que enfrentar essas questões”, afirmou.
O debate também ressaltou que a LTS pode funcionar como instrumento de previsibilidade econômica e segurança para investimentos. Marta Torres, Diretora do Programa de Clima do Institute for Sustainable Development and International Relations (IDDRI), destacou que países com estratégias de longo prazo conseguem alinhar prioridades de desenvolvimento, fortalecer governança e enviar sinais mais claros ao mercado. “Precisamos entender essas visões de longo prazo para avaliar se estamos realmente no caminho certo para alcançar a meta global”, explicou.
Clique aqui para ampliar a imagem.
O papel dos setores na descarbonização do Brasil
Os setores de indústria, energia e transporte respondem por cerca de ¼ das emissões nacionais, citou Mauro Paradella, Gerente de Descarbonização da Indústria e Energia do WRI Brasil. Portanto, a neutralidade climática depende não apenas de metas, mas de condições econômicas concretas para viabilizar investimentos.
Rosana Santos, Diretora-executiva do Instituto E+, afirmou que empresas só irão acelerar a transição se houver mercado para produtos de baixo carbono. “Ninguém vai sair da sua zona de conforto se isso não significar aumento de lucro e melhor posição de mercado”, destacou.
Foram apontados ainda gargalos relacionados a financiamento, regulação e infraestrutura. Giulia Tonon, Diretora na Systemiq, ressaltou que muitos projetos industriais de descarbonização já poderiam avançar caso houvesse contratos de compra de longo prazo e maior segurança regulatória. “Se hoje você tivesse contratos garantidos por dez anos, muitos projetos já estariam em decisão final de investimento”, afirmou.
Segundo ela, o Brasil também enfrenta o desafio de navegar diferentes padrões regulatórios internacionais para acessar mercados globais verdes, o que pode aumentar custos e dificultar a competitividade de produtos brasileiros.
Clique aqui para ampliar a imagem.
No setor de transportes, Patrícia Boson, Consultora da Confederação Nacional do Transporte (CNT), defendeu que as políticas de descarbonização precisam considerar a realidade brasileira. Ela lembrou que grande parte da frota nacional é antiga e que as condições das estradas aumentam as emissões em 4,5%. “Há um desperdício de 1,18 bilhão de litros de diesel só porque a estrada é ruim. E isso significa também mais emissão.”
Patrícia também destacou a necessidade de combinar renovação de frota, expansão de combustíveis de menor emissão e com bom desempenho no dia a dia, como o diesel verde e o biometano, e investimentos em infraestrutura para eletrificação do transporte público urbano.
Adaptação climática e impactos da crise na população
Outro eixo central do encontro foi a adaptação climática e seus impactos diretos sobre a vida da população. Helen Gurgel, Coordenadora-Geral de Mudanças Climáticas e Equidade em Saúde, afirmou que a crise climática já se tornou uma crise sanitária. “O sistema de saúde tem que estar preparado para essa nova mudança que vem por aí”, alertou.
Ela destacou que eventos extremos, como ondas de calor, já afetam a demanda hospitalar e aumentam a vulnerabilidade de grupos específicos, como gestantes e crianças. Segundo Helen, iniciativas como o AdaptaSUS buscam preparar o Sistema Único de Saúde para responder aos impactos crescentes das mudanças climáticas.
A importância da ciência climática e da produção de dados também apareceu como tema prioritário. Gilvan Sampaio, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), demonstrou preocupação com o fechamento de estações meteorológicas e a consequente perda das séries históricas de dados, fundamentais para modelagens climáticas mais confiáveis.
Após buscar pelas melhores bases de dados de temperatura e precipitação na América do Sul, a equipe do INPE complementou as informações com imagens de satélite, chegando a dez modelos para guiar tomadas de decisão. “Com uma análise dessa forma, a gente tem segurança para entregar [a modelagem] para um tomador de decisão, um pesquisador da área de saúde, por exemplo, uma informação qualificada que vai ser útil para as medidas que são necessárias, associadas à adaptação, mitigação, política pública”, ressalta.
Complementando essa perspectiva, Mariana de Paula, Diretora-executiva do Instituto Decodifica, defendeu a valorização do conhecimento produzido pelos próprios territórios vulnerabilizados. “A adaptação, de fato, vai ser efetiva se ela incorporar a inteligência do território, também enquanto produtor de conhecimento e participação social, se ela incorporar essa vulnerabilidade cotidiana à percepção desse risco climático. Os impactos invisibilizados, antes de aparecer em vários modelos, já estão aparecendo nos territórios”, enfatizou.
Clique aqui para ampliar a imagem.
Os impactos da crise climática sobre os sistemas alimentares também foram debatidos. Ricardo Mota, Gerente de Inteligência Estratégica do Pacto Contra a Fome, lembrou que um número significativo das emissões no Brasil está relacionado aos sistemas alimentares e que a disponibilidade de alimentos é diretamente afetada por eventos como enchentes e calor extremo. “Na mesma medida em que os sistemas alimentares impactam as mudanças climáticas, eles também são impactados. É um ciclo bastante perverso, que se retroalimenta e é muito invisível”, disse.
Segundo ele, a transformação dos sistemas alimentares pode simultaneamente reduzir emissões, fortalecer a segurança alimentar e melhorar a qualidade nutricional da população. Como exemplo, Ricardo citou o trabalho de revisão da cesta básica brasileira, que contemplará a isenção de tributos e o fortalecimento de alimentos in natura ou minimamente processados.
O Brasil de 2050 e o enfrentamento das desigualdades
O último painel do encontro reforçou que uma estratégia climática de longo prazo precisa ir além da redução de emissões e incorporar temas como desigualdade, trabalho, desenvolvimento produtivo e inclusão social.
Lilia Caiado Couto, Gerente do Programa de Prosperidade Econômica e Climática na Open Society Foundations, apresentou a perspectiva de que uma LTS pode auxiliar a fazer uma mudança estrutural, aumentando o valor agregado do que é produzido na economia, melhorando a distribuição de renda e diminuindo desigualdades. “O que eu proponho é identificar oportunidades de subir esses degraus na escada dos níveis de valor agregado das cadeias produtivas, com foco nas tecnologias verdes”, pontuou.
Já Daniel Bento Teixeira, Diretor-executivo do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT), alertou que a ideia de desenvolvimento precisa incorporar dimensões sociais e raciais.
Ele também chamou atenção para a necessidade de conectar as discussões sobre empregos verdes às desigualdades históricas do mercado de trabalho brasileiro, especialmente em relação à informalidade e à exclusão racial.
A preparação da força de trabalho para novos mercados também apareceu como prioridade. Vanessa Campos Guedes, do SENAI-SP, apresentou iniciativas de formação profissional voltadas para transição energética, eletromobilidade e sustentabilidade. Segundo ela, novas competências relacionadas à agenda climática já começam a ser incorporadas em cursos técnicos e programas de qualificação profissional, além da criação de centros de pesquisa e desenvolvimento que apoiam a indústria a encontrar soluções verdes para seus negócios.
Encerrando o debate, Rafael Feltran-Barbieri, Economista Sênior do WRI Brasil, destacou o potencial da bioeconomia para gerar emprego, renda e valor agregado na Amazônia. Segundo ele, o setor pode movimentar até R$ 40 bilhões com novos investimentos e gerar cerca de 840 mil empregos até 2050. A perspectiva de geração de trabalho na bioeconomia é fundamental para uma região que prevê um crescimento populacional de oito vezes em relação ao ano de 1950, sendo que a população em idade economicamente ativa crescerá 13 vezes.
Clique aqui para ampliar a imagem.
Ele reforça que o setor tem papel fundamental para toda a produção primária do Brasil, devido à manutenção de serviços ecossistêmicos. “Todo mundo sabe que o Brasil é um dos maiores produtores e exportadores de commodities, mas poucos sabem que 90% dessa produção depende da chuva. A gente não tem sistemas irrigados suficientes para essa produção e não teremos no futuro. Esse é o link dessa grande economia que é gerada na Amazônia e que é distribuída também para os outros biomas e setores”, detalhou.
Para Rafael, a bioeconomia não deve ser vista como solução isolada, mas como parte de uma estratégia mais ampla de desenvolvimento sustentável e fortalecimento da economia brasileira. "Quem mantém o crescimento do Brasil é a exportação. Então, se o mundo vai bem, eu cresço. Se o mundo vai mal, eu não cresço porque ninguém compra. O desafio é a gente ter, sim, essa industrialização, mas essa capacidade de agregar valor com pessoas”, enfatizou.
Assista ao evento completo
O 2º Diálogo Nacional sobre Estratégia Climática de Longo Prazo no Brasil pode ser visto na íntegra no YouTube do WRI Brasil.
Acesse também
- Artigo de opinião de Karen Silvewood-Cope e Miriam Garcia sobre a relevância da uma LTS para o país, publicado no JOTA: 2050 é agora: a estratégia climática de longo prazo que falta para o Brasil
- Artigo publicado pela equipe de CEF, no site do WRI Brasil: Como uma Estratégia Climática de Longo Prazo pode impulsionar o desenvolvimento socioeconômico de um país? | WRI Brasil