A aprovação de uma nova proposta para o Plano de Ação de Gênero, da UNFCCC na COP30  (GAP - Gender Action Plan), em Belém, reforça um ponto essencial: a crise climática não é neutra. Seus impactos recaem de forma desproporcional sobre mulheres e meninas, especialmente no Sul Global, aprofundando desigualdades existentes e pressionando orçamentos familiares, sistemas de cuidado e meios de subsistência, como indicam pesquisas e análises recentes de Gicheru, Mwenda e Omwami (2024), Gonda (2019), Tinker e Alvarenga (2019).  

Essa sobreposição aparece globalmente. Segundo o relatório Progresso nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: O panorama de gênero 2025, da Organização das Nações Unidas (ONU), as mulheres já apresentam maior vulnerabilidade socioeconômica: 9,2% vivem em extrema pobreza em 2025, frente a 8,6% dos homens. Em cenários de agravamento climático, até 158,3 milhões de mulheres e meninas podem ser empurradas para a extrema pobreza até 2050.  

Essa realidade ganha nitidez no estudo She Pays the Climate Bill: How women-headed homes bear the hidden costs of the crisis (Elas pagam a conta do clima: como famílias chefiadas por mulheres arcam com os custos invisíveis da crise, em tradução livre), realizado no Brasil e na Zâmbia pela Hivos, com apoio do WRI Brasil. Em contextos distintos, mas marcados por desigualdades estruturais semelhantes, o estudo analisa como mulheres, sobretudo chefes de família, financiam a adaptação climática no dia a dia, com seu próprio tempo, renda e saúde. 

Quando o risco climático vira conta doméstica  

O estudo parte do conceito de contas climáticas: uma abordagem que identifica como os impactos da mudança do clima se transformam em custos econômicos e sociais no cotidiano das famílias. Essas contas incluem gastos diretos — como água, alimentos, saúde, transporte e reparos — e gastos indiretos, considerados menos visíveis, como tempo de cuidado, interrupção de trabalho, estudo e impactos na saúde física e mental.  

Nos dois países analisados, a crise climática se traduz em aumento de despesas. No Brasil, 92% das mulheres entrevistadas afirmaram que os gastos da casa com alimentação, consumo de energia elétrica, remédios, por exemplo, sobem durante eventos climáticos. Na Zâmbia, esse percentual chega a 94%. Ou seja: para praticamente todas as participantes, a crise climática aparece como novas contas a pagar, mês após mês. 

Esses custos estão associados a riscos climáticos diferentes. Conforme o Gráfico 1 (a seguir), constam tipos de risco decorrentes de eventos climáticos percebidos por 166 mulheres chefes de família ou com responsabilidade compartilhada. Conforme as entrevistadas no Brasil, os gastos se concentram em riscos compostos — quando mais de um tipo de risco ocorre em conjunto (27 registros, sendo 21 entre mulheres chefes de família e 6 entre aquelas com responsabilidade compartilhada) — e, em seguida, em eventos de calor/extremos térmicos (11) e eventos climáticos extremos combinados (9), além de chuvas intensas, inundações e alagamentos (3). 

Na Zâmbia, por sua vez, predomina de forma clara a mudança nos padrões de precipitação (79 registros, com 61 entre chefes de família e 18 entre responsabilidade compartilhada), acompanhada por menções relevantes a riscos compostos (25) e, em menor escala, a secas e escassez hídrica (5) e a eventos extremos combinados (8). 

Apesar das diferenças, o resultado é semelhante: quando o risco climático se materializa, ele vira custo — e esse custo recai majoritariamente sobre as mulheres. 

Gráfico 1: Tipos de risco percebidos durante eventos climáticos por mulheres chefes de família ou com responsabilidade compartilhada no Brasil e na Zâmbia

Tipos de risco percebidos durante eventos climáticos por mulheres chefes de família ou com responsabilidade compartilhada no Brasil e na Zâmbia
Fonte: Elaboração própria, com base em dados do estudo Climate Bills: Research and Policy Recommendations.

Nota 1: Os dados do gráfico referem-se apenas ao número total qualificado de mulheres cis como chefe de família principal ou com responsabilidade compartilhada no Brasil, que foi de 48, enquanto na Zâmbia foi de 118.
Nota 2: Seguindo o IPCC AR6, risco climático composto refere-se à ocorrência simultânea ou combinada de múltiplos perigos climáticos. Riscos compostos correspondem aos casos em que as entrevistadas relataram mais de um tipo de risco climático (como calor extremo, mudanças nos padrões de precipitação, secas e chuvas intensas) afetando conjuntamente suas condições de vida. 

Como o estudo foi realizado 

No Brasil, foram entrevistadas 48 mulheres cisgênero chefes de família ou com responsabilidade compartilhada, localizadas nos estados do Amazonas, Bahia, Pará, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Em 73% das entrevistas, as mulheres eram as principais responsáveis pelo domicílio ou exerciam papel central nas decisões domésticas. A maioria tinha mais de 35 anos e apresentava forte sobreposição entre trabalho remunerado e trabalho de cuidado não remunerado, com destaque para empregadas domésticas (22,9%) e aposentadas (18,8%). A renda mensal dos lares chefiados por mulheres concentrou-se principalmente em faixas próximas ao salário mínimo vigente em 2025 (correspondente a US$ 273,42)¹. 

Na Zâmbia, o estudo entrevistou 186 pessoas, chefes de família, sendo 156 mulheres localizadas nas províncias de Lusaka, a capital nacional e Southern. Em 75% das entrevistas, as mulheres eram as principais responsáveis pelo domicílio ou exerciam papel central nas decisões domésticas. A maioria também tinha mais de 35 anos e estava inserida em meios de subsistência rurais e informais, sobretudo agricultura (58,3%) e pequeno comércio (27,8%). Quando informada, a renda mensal concentrou-se majoritariamente em faixas baixas e muito baixas — 35,5% entre US$ 10 e US$ 50 por mês, e 7,5% abaixo de US$ 10 — evidenciando um contexto de vulnerabilidade econômica mais acentuado. 

As entrevistas foram conduzidas com perguntas abertas, linguagem neutra e garantia de privacidade. As participantes puderam optar por não responder perguntas sensíveis. Os resultados devem ser interpretados como evidências exploratórias e analíticas (o estudo não é amostral), já que seus resultados oferecem um retrato consistente de como a crise climática se traduz em custos no cotidiano de famílias chefiadas por mulheres. 

¹ As taxas utilizadas para conversão monetária são baseadas nas observações médias de 2025, para os meses de julho a agosto. Para o Brasil, os dados foram obtidos por meio do site do Banco Central do Brasil (USD por BRL, aproximado, 0,18). Para a Zâmbia, as taxas foram obtidas a partir das publicações oficiais do Bank of Zambia (USD por ZMW, aproximado, 0,04).

Reagir custa mais do que se preparar 

Os dados obtidos sugerem um desequilíbrio claro: nos dois países, são as famílias chefiadas por mulheres que mais relatam ter seus serviços básicos afetados durante eventos climáticos extremos (ver Gráfico 2). Na Zâmbia, a pressão recai sobretudo sobre alimentos e mercados (82) e água potável (74), além de saúde (45) e transporte (42). No Brasil, os maiores registros entre chefes de família aparecem em transporte (32) e alimentos e mercados (30). Esse padrão ajuda a entender por que, após os choques, gastos com itens essenciais tendem a se tornar recorrentes, enquanto a possibilidade de poupar ou investir preventivamente permanece limitada. 

Gráfico 2: Tipos de serviços afetados durante eventos climáticos extremos, segundo mulheres chefes de família ou com responsabilidade compartilhada no Brasil e na Zâmbia

Tipos de serviços afetados durante eventos climáticos extremos, segundo mulheres chefes de família ou com responsabilidade compartilhada no Brasil e na Zâmbia
Fonte: Elaboração própria, com base em dados do estudo Climate Bills: Research and Policy Recommendations.

Nota 1: Os dados do gráfico referem-se apenas ao número total qualificado de mulheres cis como chefe de família principal ou com responsabilidade compartilhada no Brasil, que foi de 48, enquanto na Zâmbia foi de 118.
Nota 2: Doze mulheres chefes de família (principal) e com responsabilidade compartilhada responderam "outro". O total de entrevistadas foi de 166 mulheres (48 no Brasil e 118 na Zâmbia). Cada entrevistada pôde indicar mais de um tipo de serviço afetado durante eventos climáticos extremos. Assim, as categorias não são mutuamente exclusivas e os valores apresentados correspondem ao número de respostas registradas em cada tipo de serviço.

Os valores monetários são apresentados em dólares ajustados por Paridade do Poder de Compra (USD PPP) para permitir comparações mais justas entre países com diferentes níveis de preços. O uso de PPP corrige distorções do câmbio nominal e reflete melhor o que a renda e os gastos efetivamente conseguem comprar em cada contexto nacional, tornando os valores de Brasil e Zâmbia comparáveis em termos de poder de compra.

O Gráfico 3 aprofunda a visão sobre os gastos ao relacionar renda mensal média e gastos médios mensais com prevenção, recuperação (resposta) e reservas para emergências climáticas, destacando variações territoriais para mulheres chefes de família e com responsabilidade compartilhada. Mesmo em contextos de renda distintos, a lógica se repete. No Brasil, onde a renda mensal média reportada foi de, aproximadamente, US$ 857 PPP (cerca de R$ 2.160), os gastos se concentram sobretudo na recuperação e, em alguns estados, os desembolsos médios mensais com resposta, prevenção e reservas foram próximos ou superiores à renda mensal média reportada. Na Zâmbia, apesar da renda média significativamente menor — cerca de US$ 190 PPP (aproximadamente ZMW 1.440) — observa-se o mesmo padrão: maior peso da resposta pós-evento e participação limitada de prevenção e reservas, ainda que com diferenças entre províncias.  

Gráfico 3: Renda mensal média e gastos médios mensais com prevenção, recuperação (resposta) e reservas para emergências climáticas, despendido por mulheres chefes de família principal e com responsabilidade compartilhada por estado/província no Brasil e na Zâmbia (USD PPP, jun–ago/2025) 

Gráfico mostra renda mensal média e gastos médios mensais com prevenção, recuperação e reservas para emergências climáticas
Fonte: Elaboração própria, com base em dados do estudo Climate Bills: Research and Policy Recommendations.

Nota: Os dados do gráfico referem-se apenas ao número total qualificado de mulheres cis como chefe de família principal ou com responsabilidade compartilhada no Brasil, que foi de 48, enquanto na Zâmbia foi de 118.  

Portanto, percebe-se que em ambos os países as contas climáticas pesam de forma desproporcional porque são puxadas principalmente por gastos de recuperação/resposta, enquanto prevenção e reservas permanecem secundárias. É importante ressaltar que, ainda assim, esses resultados devem ser interpretados com cautela, mas ajudam a entender como a conta climática pode pressionar o orçamento doméstico de forma intensa em determinados territórios. 

Os dados sugerem que a resposta cotidiana aos eventos climáticos também é financiada com tempo e trabalho não remunerado. O Gráfico 4 (ver a seguir), indica que a dedicação diária a atividades de cuidado varia conforme a ocupação, com médias que vão de 1 a 18 horas por dia. No Brasil, aparecem valores mais altos em alguns perfis — como serviços gerais (18 horas), ativista (16 horas), funcionária pública (12 horas) e agricultora (11 horas)  — ao lado de ocupações com médias em torno de 3 a 5 horas. Na Zâmbia, as médias observadas se concentram principalmente entre 3 e 6,4 horas, com registros de perfis como comerciante (6,4 horas) e agricultora (6,3 horas).  

Gráfico 4: Média de horas diárias dedicadas a atividades de cuidado (cozinhar, limpar e cuidar de crianças, idosos ou outras pessoas), despendidas por mulheres chefes de família ou com responsabilidade compartilhada, por ocupação principal no Brasil e na Zâmbia 

Gráfico mostra média de horas diárias dedicadas a atividades de cuidado
Fonte: Elaboração própria, com base em dados do estudo Climate Bills: Research and Policy Recommendations.

Nota: Os dados do gráfico referem-se apenas ao número total qualificado de mulheres cis como chefe de família principal ou com responsabilidade compartilhada no Brasil, que foi de 47 (um dado foi retirado), enquanto na Zâmbia foi de 118. 

Essas evidências sugerem que parte importante da “conta climática” aparece como trabalho invisível, ampliando a sobrecarga diária das mulheres. Em contextos de eventos climáticos frequentes e limitações financeiras para a prevenção, a adaptação cotidiana tende a se apoiar também na intensificação do cuidado, frequentemente invisível nas estatísticas econômicas. 

Custos sociais: quando o impacto não se restringe ao orçamento 

Os custos da crise climática vão muito além do dinheiro — eles aparecem no corpo, no sono e na pressão cotidiana de manter a casa de pé. 

Considerando as 166 mulheres cisgênero chefes de família ou com responsabilidade compartilhada (48 no Brasil e 118 na Zâmbia), quando o tema é saúde, os sinais dos impactos da mudança do clima também foram críticos. O problema mais recorrente foi respiratório, com 26 relatos (metade em cada país). No Brasil, além disso, o calor apareceu com força: sete mulheres relataram efeitos ligados a estresse térmico/insolação (sozinho ou combinado com outros impactos). Na Zâmbia, a crise se expressa mais como risco infeccioso: 44 respostas mencionaram malária (sozinha ou combinada) e 33 mencionaram diarreia.  

E quando a pergunta é sobre bem-estar emocional, o padrão é ainda mais contundente. A abordagem das contas climáticas permitiu registrar a percepção das mulheres quanto ao problema, em que 41 delas fizeram menções à tristeza, 36 à ansiedade, 31 à dificuldade para dormir e 27 à exaustão. Em 11 relatos, a angústia aparece diretamente conectada à segurança alimentar — a preocupação com o que vai ter na mesa, especialmente para as crianças. 

No fim, esses números ajudam a nomear algo que muitas vezes fica fora do debate: a crise climática não apenas adoece — ela redistribui o peso do cuidado. E, quando a maioria das mulheres já é o eixo que sustenta o domicílio, cada evento extremo aumenta a pressão de prover, proteger e seguir funcionando, mesmo quando o corpo e a mente pedem pausa. 

Para além do termômetro: mulheres como protagonistas da adaptação climática  

Reconhecer que as mulheres pagam a conta da crise climática é apenas parte da história. Conforme relatório da ONU Mulheres, países têm avançado — ainda que de forma desigual — na criação de mecanismos para integrar a perspectiva de gênero às políticas climáticas. O relatório aponta que 25 dos 64 países analisados com dados disponíveis possuem algum instrumento para integrar gênero às políticas climáticas.  

Esse movimento também se expressa no plano internacional. O novo Plano de Ação de Gênero da UNFCCC (2026–2034) reforça cinco prioridades centrais da agenda de gênero e clima: (A) capacitação, gestão do conhecimento e comunicação; (B) promoção do equilíbrio de gênero, com participação plena e liderança de mulheres e meninas; (C) fortalecimento da coerência e integração da agenda de gênero nos processos e instituições climáticas; (D) implementação de ações climáticas responsivas a gênero, com meios de implementação e acesso a financiamento; e (E) aprimoramento do monitoramento e do reporte para acompanhar avanços e resultados.  

Essas prioridades se conectam diretamente à Estratégia Transversal Mulheres e Clima do Brasil, desenhada para internalizar a perspectiva de gênero na ação climática em diferentes escalas: ao promover capacitação, conhecimento e comunicação (prioridade A); fortalecer o protagonismo, a participação e a liderança das mulheres (prioridade B); criar mecanismos de governança e integração intersetorial para dar coerência às políticas (prioridade C); orientar a implementação com meios de implementação e financiamento sensível a gênero (prioridade D) e estabelecer monitoramento, indicadores e avaliação para acompanhar resultados e corrigir rumos. 

Ao alinhar as prioridades, dá-se um passo para transformar reconhecimento em ação: fortalecer lideranças, garantir recursos e medir resultados para que a resposta climática seja mais justa, efetiva e com mulheres no centro das decisões e das soluções. 

Tornar visível quem paga a conta  

Ao tornar visíveis os custos econômicos e sociais da crise climática no cotidiano, o estudo das contas climáticas oferece uma abordagem para qualificar e quantificar dados desagregados por gênero.  

Ao explicitar custos, riscos e demandas diferenciadas — que, quando ignorados, são transferidos implicitamente para os domicílios, especialmente para as mulheres — essa abordagem pode orientar decisões de política fiscal e orçamentária de forma mais eficiente, equitativa e preventiva. Além disso, evidências como as produzidas pelo estudo podem informar políticas de proteção social, saúde, trabalho, infraestrutura e planejamento territorial.  

Colocar mulheres no centro é uma questão de justiça climática, pois ao mesmo tempo cria condições para respostas mais eficazes. Isso exige financiamento sustentado, instrumentos claros de monitoramento e indicadores interseccionais. É um caminho possível para romper com o ciclo em que mulheres seguem pagando — de forma invisível — a conta da crise climática, e, ao mesmo tempo, garantir que sejam reconhecidas e apoiadas como protagonistas das decisões sobre como enfrentá-la.  

Featured WRI Experts:
Lucilla Dias -

Coordenadora de Ação Climática

Stéfany Ferreira de Lima -

Estagiária em Socioeconomia e Finanças do Clima

Luana Betti -

Especialista em Socioeconomia e Finanças do Clima