Os recentes retrocessos na ação climática não impedirão a transição verde
Em um momento em que todos os países precisam aumentar sua ambição em relação à ação climática, parece estar ocorrendo o oposto.
As manchetes e destaques na mídia mostram os tímidos avanços de um lado e, de outro, os retrocessos nos compromissos climáticos. Em 2024, por exemplo, em diversos processos eleitorais pelo mundo, a mudança do clima foi uma prioridade baixa para os eleitores em geral; apenas o Reino Unido elegeu um governo com uma plataforma voltada à ambição climática. A ajuda ao desenvolvimento internacional tem diminuído – com uma queda estimada entre 9% e 17% em 2025 – devido a cortes orçamentários na Europa e ao desmonte da USAID. Cientistas alertam que precisamos reduzir as emissões em 7% ao ano para evitar os piores impactos das mudanças no clima, mas, em 2024, as emissões aumentaram 0,9%. Por fim, tensões geopolíticas e guerras comerciais estão desestabilizando a economia global e dificultando os investimentos em um futuro mais limpo.
Em paralelo, a urgência por ação climática nunca foi tão grande. Em 2024, secas, enchentes, ondas de calor e outros desastres provocaram o deslocamento de 46 milhões de pessoas e causaram prejuízos de US$ 417 bilhões.
Esses retrocessos são reais e vão desacelerar nossas ações. Mas não vão nos tirar do caminho certo.
O novo possível global
Ani Dasgupta é presidente e CEO do WRI e autor do livro The New Global Possible: Rebuilding Optimism in the Age of Climate Crisis(em tradução livre, “O novo possível global: como reconstruir o otimismo em tempos de crise climática”), com lançamento previsto. A obra, baseada em conversas com mais de 100 líderes, traça um mapa do que pode ser feito diante do atraso na ação climática, com lições aprendidas de sucessos e fracassos do passado. Saiba mais.
Apesar das manchetes desanimadoras, a transição verde segue ganhando força. Em 2024, as energias renováveis representaram 90% das novas adições de capacidade energética – e já se tornaram a fonte mais barata para gerar eletricidade na maioria dos países. Além disso, um em cada cinco carros novos vendidos no mundo em 2024 foi elétrico.
Mudanças sistêmicas como essas não acontecem com a velocidade necessária – ainda. No entanto, como já vimos com outras grandes transformações sociais, como o direito ao voto, o acesso à internet e o uso de smartphones, as mudanças acontecem de forma fragmentada e lenta até que se atinja um ponto de inflexão. É papel de formuladores de políticas públicas, instituições filantrópicas, empresas e organizações como o WRI fazer com que o mundo chegue a esse ponto mais rápido – especialmente agora.
A boa notícia é que sabemos o que é necessário para acelerar a transição verde, mesmo diante de uma nova ordem mundial. Décadas de experiência e conquistas recentes mostram que avançar é possível. Será preciso ação coletiva e foco em três frentes principais, descritas a seguir.
1) Da redução de carbono à melhoria da qualidade de vida
A transição verde não é incompatível com a prosperidade econômica. Na verdade, investir em um crescimento econômico positivo para o clima e a natureza é a única maneira de garantir um futuro próspero. Essa não é uma verdade apenas do ponto de vista científico: empresas e países têm comprovado isso na prática. O Ingka Group, maior varejista da IKEA, reduziu sua pegada climática em mais de 30% e, ao mesmo tempo, aumentou os lucros em mais de 23%. Quarenta e nove países, incluindo Estados Unidos, França e Alemanha, encontraram formas de manter o crescimento econômico sem aumentar suas emissões.
Mas essa mensagem ainda não está clara para os líderes nem para os eleitores. Mesmo em países com sólido apoio público à ação climática, os partidos pró-clima perdem nas urnas. Por quê? Porque as pessoas ainda não enxergam como a transição para uma economia de baixo carbono pode melhorar suas vidas.
Uma transição econômica duradoura não é viável sem apoio político. Para serem bem-sucedidos, discurso e abordagem precisam priorizar as pessoas – e não o carbono. Por exemplo, a energia limpa não é apenas uma solução climática; muitas vezes, é também a fonte de energia mais acessível e confiável. O uso crescente de veículos elétricos não é apenas uma forma de reduzir emissões de combustíveis fósseis; pode gerar empregos na indústria, ampliar o acesso ao transporte e reduzir a poluição do ar, que causa uma em cada cinco mortes no mundo. Plantar árvores nas cidades embeleza o ambiente e, ao mesmo tempo, ajuda a refrescar as pessoas durante ondas de calor extremo.
Um bom exemplo de política pública em prol das pessoas e do planeta é o Acordo Tripartite Verde da Dinamarca. O plano prevê a restauração da natureza, o pagamento a agricultores para reduzirem a poluição por nitrogênio e a taxação de emissões da pecuária, de forma não apenas a incentivar, mas de fato apoiar os produtores na busca por uma produção mais eficiente. De forma semelhante, o sistema BRT da Cidade do México continua evoluindo porque trouxe uma série de benefícios para a população: menos congestionamento, ar mais limpo, acesso mais barato e melhor a empregos e outras oportunidades.
Esses tipos de soluções, em que há ganhos dos dois lados, são bem aceitas pela população. No entanto, para realmente decolarem, exigem investimentos, políticas públicas e outras formas de apoio direcionado que garantam uma implementação rápida, acessível e justa, sem prejudicar excessivamente quem depende das soluções antigas. A transição para a energia limpa é inevitável – mas não ocorrerá rápido o suficiente se deixada por conta própria. É preciso agir de forma sistemática para remover os obstáculos em todos os setores e garantir que as pessoas colham os benefícios de um futuro limpo e resiliente. Nem todas as políticas serão vantajosas para todos, mas os primeiros passos – e que trazem benefícios diretos à população – podem criar condições políticas mais favoráveis para decisões mais difíceis no futuro.
2) A transição das grandes economias emergentes
A liderança das economias de renda média é essencial para a transição verde. Elas são responsáveis por metade das emissões globais de gases de efeito estufa, porcentagem que tende a aumentar nos próximos anos. Também abrigam a maior parte das florestas tropicais restantes no mundo, as quais são centros vitais de biodiversidade. E concentram três quartos da população mundial, incluindo 62% das pessoas mais pobres. Se países de renda média como China, Índia, Indonésia, África do Sul e Brasil não conseguirem reduzir suas emissões, proteger seus ecossistemas naturais ou se adaptar aos impactos climáticos que se aproximam, toda a transição verde estará em risco. Um mundo seguro ficará fora de alcance.
Felizmente, a transição verde tem sido adotada como estratégia econômica por uma nova geração de líderes que vislumbram uma nova fase de desenvolvimento. A Indonésia, por exemplo, se comprometeu a tornar seu setor de uso da terra e florestas um sumidouro líquido de carbono até 2030, alinhando incentivos econômicos e valorizando comunidades florestais nesse esforço. O presidente da Colômbia prometeu encerrar a produção de combustíveis fósseis, sendo um dos primeiros líderes de um grande produtor de petróleo e carvão a fazer isso. Para muitos desses países, que não possuem grandes reservas de petróleo e gás, a transição para a energia limpa tem se tornado também uma estratégia importante de segurança energética.
O realinhamento geopolítico desencadeado pelas políticas comerciais e de segurança dos EUA vai acelerar nossa jornada rumo a um mundo mais multipolar. Os países de renda média terão um papel ainda mais relevante na formação dos debates globais. Essas nações – muitas das quais dependem do comércio para sustentar seu crescimento – têm grande interesse em preservar e fortalecer a cooperação multilateral. Para elas, um sistema internacional estável e baseado em regras (como o Acordo de Paris) não é apenas um bem global: é essencial para alcançar seus próprios objetivos de desenvolvimento. As decisões que tomarem no cenário internacional determinarão o sucesso da transição verde.
3) Olhar além da ajuda para o financiamento
Os países em desenvolvimento não conseguirão fazer a transição com sucesso sem financiamento adequado. Eles precisarão de US$ 1,3 trilhão por ano em financiamento externo até 2035 para mitigar e se adaptar às mudanças climáticas.
No ano passado, na COP29 em Baku, os países concordaram em mobilizar US$ 300 bilhões por ano até 2035 para os países em desenvolvimento e trabalhar para alcançar o patamar de US$ 1,3 trilhão. Os cortes recentes na ajuda bilateral são decepcionantes, mas esse tipo de apoio sempre representou apenas uma pequena parte do quebra-cabeça do financiamento climático. É possível ampliar outras fontes públicas por meio de aumentos de capital em bancos multilaterais – que podem transformar US$ 1 de dinheiro público em US$ 4 a US$ 10 – e mecanismos de financiamento inovadores, como taxas sobre aviação e transporte marítimo. Ainda assim, na melhor das hipóteses, especialistas concordam que apenas metade dos US$ 1,3 trilhão pode ser coberta com recursos públicos.
Como a outra metade só pode vir do setor privado, os países precisam concentrar seus esforços para esse objetivo. A Índia oferece um modelo de sucesso: o país alinhou metas setoriais ao seu plano climático nacional (NDC), implementou políticas de apoio em todos os níveis para viabilizar o financiamento da transição energética e destinou uma parcela significativa de seu orçamento nacional – US$ 2,4 bilhões em 2024 – à energia limpa. Essas medidas, em conjunto, atraíram investimentos externos substanciais para a transição energética da Índia.
Atrair financiamento climático público e privado em escala suficiente exige uma abordagem coordenada e focada. Os investimentos em transição nos países em desenvolvimento devem seguir um modelo de “empilhamento de capital”: o fundo mais disposto a assumir o risco inicial do projeto fica na base, apoiando outros tipos de capital com menor apetite por risco que são empilhados acima. Como no exemplo da Índia, a base dessa pilha deve ser formada por políticas e regulamentações públicas claras, seguidas por investimento público. A próxima camada pode ser composta por capital de ajuda bilateral e bancos multilaterais de desenvolvimento (MDBs). Por fim, as camadas superiores da pilha abrigam diferentes tipos de capital privado, de fontes nacionais e internacionais. O princípio central da integração vertical de capitais com diferentes níveis de tolerância ao risco é essencial para liberar financiamento em grande escala.
Em um cenário de redução da ajuda internacional, os recursos de desenvolvimento restantes se tornam ainda mais valiosos e devem ser utilizados de forma estratégica. O financiamento concessional (como subsídios e empréstimos com juros abaixo do mercado) deve ser direcionado aos países mais pobres e vulneráveis para que possam fazer investimentos com alto retorno social e ambiental, mas baixo retorno comercial. Em paralelo, outros tipos de ajuda desempenham papéis fundamentais para alavancar capital privado.
Ao que tudo indica, os países estão levando esses desafios de financiamento a sério. Brasil, Quênia, África do Sul e Barbados, por exemplo, têm apresentado “plataformas nacionais” e propostas ambiciosas para atrair mais financiamento internacional voltado para o que consideram suas maiores prioridades climáticas e ambientais. Essa abordagem inovadora permite que os países centralizem o financiamento em torno de um plano claro, em vez de continuar permitindo que iniciativas isoladas sejam financiadas por fontes separadas.
Promovendo mudanças sistêmicas em um mundo em transformação
É fácil perder a esperança em tempos como estes. Mas toda crise traz consigo uma oportunidade.
As mudanças estão acontecendo. Acelerá-las exige um nível de foco, colaboração e inovação que nunca tivemos antes. Precisamos deixar para trás a narrativa da descarbonização e concentrar esforços em construir um futuro melhor e mais próspero para as pessoas. Embora a transição em todos os países seja importante, a prioridade devem ser as grandes nações de renda média, devido ao seu potencial de gerar mudanças exponenciais. E, diante da redução da ajuda internacional, é essencial manter o foco no panorama geral: direcionar os recursos disponíveis de forma estratégica para viabilizar o US$ 1,3 trilhão necessário à transição global.
Já sabemos quais são as soluções. Agora, precisamos agir.
Este artigo foi publicado originalmente no Insights.