Novas diretrizes fortalecem a Regeneração Natural Assistida como técnica para restaurar milhões de hectares no Brasil
Restaurar a vegetação nativa em larga escala é um dos maiores desafios do Brasil para enfrentar as mudanças climáticas, conservar a biodiversidade e fortalecer a produção sustentável no campo. Embora existam diferentes estratégias para recuperar áreas degradas, ampliar sua implementação depende não apenas de conhecimento técnico, mas também de políticas públicas capazes de orientar e incentivar sua adoção.
Entre essas estratégias, a Regeneração Natural Assistida (RNA) vem se consolidando como uma das abordagens mais promissoras para acelerar a restauração da vegetação nativa. Ao aproveitar a capacidade da própria natureza de se regenerar e realizar intervenções pontuais para remover obstáculos à recuperação, a RNA permite restaurar áreas degradadas de forma eficiente, reduzindo custos e ampliando o potencial de restauração em escala.
Para facilitar a implementação da RNA, a Resolução CONAVEG nº 9, de 7 de maio de 2026 estabelece, pela primeira vez, diretrizes técnicas nacionais para a aplicação da Regeneração Natural Assistida. A norma representa um marco para a política ambiental brasileira ao consolidar critérios que orientam sua implementação e fortalecem sua incorporação em instrumentos como a Política Nacional para Recuperação da Vegetação Nativa (PROVEG) e o Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa (PLANAVEG).
Mais do que uma norma técnica, a resolução reconhece a RNA como uma estratégia essencial para potencializar a recuperação da vegetação nativa no país e contribuir para que o Brasil avance em suas metas de restauração.
O que é a Regeneração Natural Assistida?
A Regeneração Natural Assistida parte de um princípio simples: em muitas áreas degradas, a natureza já possui as capacidades para iniciar seu processo de recuperação. O desafio é remover os fatores que impedem ou dificultam esse processo.
A RNA aproveita sementes presentes no solo, brotações, árvores remanescentes e a dispersão natural de sementes e propágulos para viabilizar a sucessão ecológica, reduzindo a necessidade de intervenções mais intensivas, como o plantio em área total.
Segundo a Resolução CONAVEG nº 9/2026, a RNA consiste em um conjunto de intervenções destinadas a remover barreiras à regeneração natural, facilitar e acelerar os processos naturais de sucessão ecológica e monitorar a recuperação da vegetação ao longo do tempo. A norma também reconhece a RNA como um método intermediário entre a regeneração natural passiva e o plantio total de mudas, podendo ser aplicada de forma isolada ou combinada com outras estratégias de restauração.
Na prática, isso pode demandar ações como cercamento e aceiro de áreas, controle de espécies invasoras, adensamento ou enriquecimento com espécies nativas, prevenção de incêndios e/ou outras intervenções voltadas para a criação de condições favoráveis ao restabelecimento da vegetação nativa.
Além de reduzir custos, essa abordagem favorece a conservação da biodiversidade, aumenta o armazenamento de carbono, protege recursos hídricos e recupera os serviços ecossistêmicos.
Princípios e procedimentos para apoiar a regeneração
Embora a RNA já estivesse prevista em diferentes instrumentos legais e de planejamento, como a Lei de Proteção da Vegetação Nativa e o PLANAVEG, não existia um documento nacional que estabelecesse orientações técnicas específicas para sua aplicação.
A Resolução CONAVEG nº 9/2026 preenche essa lacuna ao definir conceitos, princípios e procedimentos que orientam desde o diagnóstico das áreas e a implementação da técnica até o monitoramento da recuperação.
Entre seus principais avanços, a norma:
- Oficializa a definição da Regeneração Natural Assistida;
- Estabelece diretrizes para a avaliação da sua viabilidade e implementação;
- Incorpora a gestão integrada da paisagem como princípio orientador;
- Incentiva a integração entre ciência, saberes tradicionais e políticas públicas;
- Estrutura a implementação em três etapas principais: diagnóstico, implementação e monitoramento;
- Incentiva o uso de sensoriamento remoto e indicadores ecológicos para acompanhar os resultados;
- Determina que a Comissão Nacional é responsável por desenvolver ações estratégicas para ampliar a adoção da RNA, promovendo sua integração com programas de restauração, instrumentos de planejamento territorial e mecanismos de monitoramento; e
- Responsabiliza os órgãos ambientais estaduais por estabelecer parâmetros técnicos específicos de acordo com as características ecológicas de cada região.
Ao criar uma linguagem técnica comum para governos, pesquisadores e organizações, a resolução aumenta a segurança para a implementação da RNA e facilita sua incorporação em programas públicos e privados de restauração.
Uma estratégia para restaurar milhões de hectares
A publicação da resolução chega em um momento decisivo para o Brasil. O PLANAVEG estabeleceu a meta nacional de recuperar 12 milhões de hectares de vegetação nativa até 2030. Alcançar esse objetivo exige combinar diferentes estratégias de restauração e direcionar investimentos para métodos capazes de gerar resultados em larga escala.
É nesse contexto que a Regeneração Natural Assistida ganha protagonismo. Em áreas onde existe potencial de regeneração, a RNA permite ampliar significativamente a área restaurada com menor custo e maior eficiência, direcionando o plantio para locais onde ele é realmente necessário.
A própria resolução reconhece que a estratégia pode ser aplicada em diferentes contextos territoriais e integrada a outras técnicas para ampliar, de forma custo-efetiva, a recuperação da vegetação nativa.
Como o WRI Brasil contribui para esse avanço
O WRI Brasil atua para que a restauração da vegetação nativa aconteça em escala, apoiando governos e parceiros na construção de políticas públicas, estudos técnicos e ferramentas que fortaleçam a implementação da Regeneração Natural Assistida.
Em parceria com o Instituto Clima e Sociedade (iCS), a Sequoia Climate Foundation, Bezos Earth Fund e Imazon, a organização contribui para estruturar políticas de restauração, apoiar estados na elaboração de planos de recuperação da vegetação nativa e desenvolver estratégias que conciliem conservação ambiental, desenvolvimento rural sustentável e inclusão social.
A nova resolução reforça esse trabalho ao oferecer uma referência técnica nacional capaz de orientar políticas públicas, ampliar a segurança para investimentos em restauração e fortalecer iniciativas que já vêm sendo implementadas em diferentes regiões do país.
Do papel à prática: experiência que já mostram resultados
Muito antes da publicação da resolução, a Regeneração Natural Assistida já vinha sendo aplicada em iniciativas apoiadas pelo WRI Brasil. Um dos principais exemplos é o apoio à construção do Plano Estadual de Recuperação de Vegetação Nativa do Pará (PRVN-PA), que reconhece a RNA como estratégia prioritária para potencializar a restauração no estado.
As experiências desenvolvidas junto às comunidades demonstram que restaurar a vegetação nativa também significa fortalecer economias locais, ampliar a segurança alimentar e valorizar conhecimentos tradicionais.
Esses resultados podem ser conhecidos nos artigos Regeneração Natural Assistida fortalece restauração e o protagonismo comunitário no Pará, O que experiências dos assentamentos na Amazônia ensinam para a restauração, e Floresta e produção de alimentos crescem juntas em assentamentos na Amazônia.