Os assentamentos da reforma agrária, criados para garantir o acesso à terra e promover justiça social no campo, podem desempenhar um papel chave na proteção e restauração da floresta amazônica.  

Os assentamentos hoje ocupam aproximadamente 15% das áreas de vegetação secundária da Amazônia - as áreas de florestas que foram desmatadas no passado e estão, há pelo menos seis anos, se regenerando. São mais de 1 milhão de hectares com potencial de se tornar uma floresta madura dentro de assentamentos.  

Esse dado revela o enorme potencial que os assentamentos possuem para contribuir com a restauração florestal em larga escala, ao mesmo tempo em que fortalecem a agricultura familiar e a segurança alimentar das comunidades.  

Um novo estudo acompanhou iniciativas de restauração e produção de alimentos em assentamentos da reforma agrária no Pará para sistematizar experiências e entender como a recuperação da vegetação nativa pode ser uma aliada da agricultura familiar. A publicação “Assentamentos da Reforma Agrária na Amazônia: Lições aprendidas para dar escala à restauração”, do WRI Brasil em parceria com o Imazon e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST),  sistematiza a experiência de implementação da Regeneração Natural Assistida (RNA) e dos Sistemas Agroflorestais (SAFs) em cinco assentamentos localizados na região metropolitana de Belém (PA), envolvendo 147 famílias em um processo que uniu planejamento participativo, capacitação comunitária e implementação prática.

O trabalho mostra que a restauração em assentamentos não se limita à dimensão ecológica: ela também é social, pois está diretamente conectada às condições de vida das famílias, à produção de alimentos saudáveis e à construção de alternativas sustentáveis de desenvolvimento rural.

Assentamento da reforma agrária como territórios estratégicos

Os assentamentos da reforma agrária reúnem dimensões que os tornam estratégicos para os esforços de restauração na Amazônia. Por um lado, são territórios que abrigam vastas áreas de vegetação secundária, com grande capacidade de regeneração natural. Por outro, são espaços onde vivem milhares de famílias agricultoras que têm no uso da terra são apenas sua principal fonte de subsistência, mas também uma forma de organização social e política. Essa combinação cria condições únicas para que iniciativas de restauração sejam implementadas com legitimidade, participação comunitária e geração de múltiplos benefícios.  

A publicação destaca que a regeneração natural assistida tem enorme potencial para ganhar escala na Amazônia, especialmente quando associada a arranjos produtivos sustentáveis, como os sistemas agroflorestais. A RNA é uma técnica de baixo custo, que busca acelerar processos naturais de recuperação da floresta com intervenções mínimas, como cercamento, manejo de espécies nativas e enriquecimento de áreas degradadas. Já os SAFs conciliam produção agrícola com recuperação ambiental, garantindo diversidade produtiva, geração de renda e segurança alimentar. Nos assentamentos estudados, a combinação dessas duas metologias se mostrou uma solução viável e complementar, capaz de atender às necessidades das famílias e, ao mesmo tempo, restaurar ecossistemas degradados.  

Como a experiência foi construída

O estudo sistematiza três etapas centrais da experiência. A primeira foi o planejamento da restauração, que envolveu mapeamentos participativos, uso de imagens de satélite e coleta de dados de campo com a participação das próprias comunidades. Essa etapa foi fundamental para identificar áreas de RNA e SAF, além de reforçar o vínculo das famílias com o território e estimular uma leitura coletiva sobre as oportunidades de restauração.  

A segunda etapa foi a construção participativa do conhecimento, realizada com base na pedagogia de alternância, que integra teoria e prática. Oficinas, capacitações e atividades de campo foram organizadas em todos os assentamentos, reunindo agricultores, lideranças locais e técnicos. Esse processo fortaleceu a autonomia das famílias, promoveu a troca de saberes entre especialistas e comunidade e incentivou a incorporação de princípios agroecológicos nas práticas cotidianas.

Por fim, a terceira etapa foi a implementação, que envolveu a reativação e fortalecimento de viveiros comunitários, o plantio de mudas e o manejo de áreas já existentes. Foram estruturados cinco viveiros, implantados 152 SAFs e apoiadas 62 áreas de RNA, ampliando a diversidade de espécies e o alcance das práticas de restauração. O engajamento das famílias foi central para o sucesso da implementação, e a participação de jovens e mulheres mostrou-se especialmente importante para dar continuidade às ações e ampliar o alcance do projeto. 

Lições para o futuro da restauração na Amazônia

A Amazônia é o maior bioma do Brasil e uma das regiões mais estratégicas do planeta para o enfrentamento das mudanças climáticas. Além de concentrar a maior floresta tropical do mundo, a região desempenha um papel essencial na regulação do clima global, na manutenção da biodiversidade e no ciclo das águas. No entanto, as últimas décadas foram marcadas por taxas expressivas de desmatamento e degradação florestal, que já comprometeram milhões de hectares de vegetação nativa.  

Esse cenário torna urgente a implementação de soluções capazes de restaurar paisagens, recuperar a funcionalidade dos ecossistemas e gerar benefícios sociais e econômicos para populações locais.

O estudo do WRI Brasil e parceiros mostra que os assentamentos da reforma agrária podem ajudar a dar escala à restauração. Mas para isso, as comunidades precisam estar no centro do processo. O protagonismo das famílias assentadas, aliado ao apoio técnico e institucional, garante legitimidade e continuidade às iniciativas. Além disso, a integração entre regeneração natural e sistemas agroflorestais reforça que é possível conciliar recuperação ambiental, geração de renda e segurança alimentar.  

Para ampliar esse impacto e alcançar escala, será fundamental fortalecer políticas públicas, ampliar a assistência técnica e garantir recursos para insumos e infraestrutura. Os assentamentos demonstraram que podem ser protagonistas da restauração na Amazônia, desde que apoiados com as condições necessárias para que os benefícios ambientais, sociais e econômicos se consolidem ao longo do tempo.  

Featured WRI Experts:
Lídia Duarte -

Analista de Pesquisas Pleno

Luciana Medeiros Alves -

Especialista em Restauração

Ana Zillig -

Coordenadora de projetos

Camila Barbosa -

Analista de Comunicação Pleno