5 temas de florestas para acompanhar na COP30
Não se pode falar de uma COP na Amazônia sem falar da natureza.
Com a COP30, a Conferência do Clima das Nações Unidas, acontecendo em Belém, no coração da maior floresta tropical do mundo, a natureza não será apenas um pano de fundo — ela estará em destaque.
Desde a assinatura do Acordo de Paris, em 2015, o foco das negociações das COPs tem sido em aumentar a ambição dos países na mitigação dos gases de efeito estufa e, mais recentemente, em ampliar esforços para que os países tenham meios de se adaptar às mudanças climáticas. A conta da mitigação e da adaptação não vão fechar se as florestas não estiverem presentes nos planos climáticos, ambientais e econômicos dos países.
O setor de uso da terra e agricultura representa entre 15%-20% das emissões globais, segundo o IPCC - e em países como o Brasil, essa proporção é ainda maior. A maior parte das emissões desse setor vem do desmatamento, e os dados da plataforma Global Forest Watch mostram que o mundo ainda está bastante distante de meta de parar e reverter o desmatamento definida em Glasgow. A comunidade internacional tem uma ótima oportunidade de aproveitar uma conferência na maior floresta tropical do mundo para incluir o setor em suas NDCs.
Como as florestas e a natureza estarão representadas nas negociações da COP30? Confira cinco temas que devem guiar as discussões sobre florestas.
1. Financiamento da conservação e restauração florestal
Esta COP será um ponto de virada na forma como pensamos o sistema financeiro e seu papel na ação climática. Hoje, apenas 3% do financiamento climático global vai para Soluções Baseadas na Natureza. Isso representa uma oportunidade perdida, já que mais da metade dos setores econômicos globais são altamente dependentes da natureza.
Para que as metas de conservação e restauração assumidas em compromissos internacionais, como a Declaração de Glasgow e o Desafio de Bonn, sejam cumpridas, são necessários investimentos para viabilizar a restauração, fortalecer cadeias produtivas sustentáveis, produzir alimentos sustentáveis e garantir a manutenção das áreas recuperadas e gerar renda para comunidades locais.
Os países precisam superar a lacuna de financiamento para a natureza por meio de políticas claras, incentivos de mercado e estruturas de investimento que reduzam riscos e atraiam financiamento privado. Por isso, é importante acompanhar os governos e as instituições financeiras, que devem anunciar novos financiamentos, reformas e iniciativas para investir em áreas como sistemas alimentares resilientes ao clima.
2. Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF)
Uma das iniciativas mais aguardadas da COP30 é o lançamento do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF), proposta brasileira que busca transformar a lógica do financiamento florestal. O fundo pretende garantir recursos permanentes para manter as florestas em pé, reconhecendo seu valor para os países que as abrigam e para o equilíbrio climático global.
É uma proposta ambiciosa — um fundo desenhado pelo Sul Global, para o Sul Global. Ele oferece pagamentos previsíveis, baseados em desempenho, aos países que mantêm suas florestas em pé, afastando-se da dependência da filantropia.
Para que funcione, é necessário que pelo menos US$ 25 bilhões de dólares sejam anunciados.
Durante a Semana do Clima de Nova Yorque (Climate Week NYC), em setembro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou investimento de US$ 1 bilhão para o TFFF. Agora, precisamos observar se os países desenvolvidos vão assumir essa responsabilidade e aportar recursos no fundo. Esse será uma pergunta crucial para o sucesso da COP.
A expectativa é que o TFFF entre em operação após a COP30. Sua governança será um ponto-chave: é preciso entender como os recursos serão aplicados, quais critérios serão adotados e como conquistar a confiança da comunidade internacional. Um ponto positivo é que o fundo prevê que pelo menos 20% dos recursos sejam direcionados para povos indígenas e comunidades tradicionais. Se bem estruturado, o fundo pode trazer mais previsibilidade às ações de conservação no mundo.
3. Resultados concretos: da promessa à prática
A Conferências das Partes é tradicionalmente marcada por negociações e anúncios de metas futuras, mas a expectativa por resultados tangíveis é cada vez mais esperada.
Na Oitava Carta da Presidência Brasileira da COP30, divulgada em 23 de outubro, André Correa do Lago, presidente designado do evento, destaca que: “Para além das negociações, a Agenda de Ação Climática da COP30 deve apresentar soluções concretas, para que Belém também seja lembrada como a COP da implementação da adaptação”.
O Brasil já conta com políticas públicas relevantes, como o Planaveg e o PRVN (Plano Estadual de Recuperação da Vegetação Nativa), que orientam ações de restauração e conservação.
Agora, é hora de mostrar que os compromissos assumidos podem se traduzir em práticas, a partir de abordagens como a restauração de paisagens e florestas, as Soluções Baseadas na Natureza, as agroflorestas, a recuperação de pastagens degradadas, a regeneração natural assistida, e tantas outras abordagens têm um papel crucial em aumentar a resiliência e reduzir impactos no campo.
Desse modo, a COP30 será uma vitrine para que o Brasil demonstre seu protagonismo em transformar planos em ações concretas, com impactos positivos para o clima e para as populações locais.
4. Bioeconomia no Brasil e economia florestal comunitária na África
A bioeconomia é uma estratégia promissora para conectar conservação florestal ao desenvolvimento socioeconômico dos países com florestas tropicais.
A bioeconomia é um modelo de desenvolvimento sustentável que orienta uma transição econômica justa e sistêmica, especialmente relevante para a Amazônia. Ela valoriza a floresta em pé e promove atividades produtivas baseadas na sociobiodiversidade, integrando saberes tradicionais e inovação tecnológica.
Dados da Nova Economia da Amazônia mostram que a bioeconomia já gera um PIB de R$12 bilhões. Com investimentos certos, ela poderia gerar um PIB de R$38 bilhões, criando 833 mil novos empregos.
Cadeias produtivas como a do açaí, da castanha e de outros produtos da sociobiodiversidade têm potencial para movimentar a economia local e manter a floresta em pé.
Na África, iniciativas lideradas por comunidades mostram caminhos semelhantes, unindo proteção ambiental e fortalecimento econômico. Com mais da metade das suas terras produtivas degradadas e 45% afetadas pela desertificação, o continente africado criou, em 2015, o AFR100 (Iniciativa para a Restauração da Paisagem Florestal Africana). Ele tem o objetivo de restaurar 100 milhões de hectares de florestas e paisagens na África até 2030 e conta com o comprometimento de 34 países.
A COP30 será uma oportunidade para discutir como essas experiências podem ganhar escala, com apoio de políticas públicas e financiamento adequado, consolidando a bioeconomia como vetor de desenvolvimento sustentável.
5. Engajamento do setor privado
A participação do setor privado é decisiva na agenda de proteção florestal. Muitas das cadeias de commodities associadas ao desmatamento, como soja e carne, são impulsionadas pela demanda global. Por isso, empresas precisam assumir compromissos claros com cadeias livres de desmatamento e conversão de ecossistemas, o chamado Deforestation and Conversion Free (DCF).
Além de impactar positivamente o mundo e demonstrar um engajamento com a sustentabilidade, organizações que assumem compromissos DCF têm um papel fundamental na eliminação do desmatamento e na conversão em cadeias produtivas.
Embora esse movimento já esteja em curso, é necessário ampliar sua escala e garantir transparência, com monitoramento rigoroso e envolvimento de todos os elos da cadeia produtiva. Na COP30, será preciso observar como grandes compradores e investidores vão se posicionar e se estarão dispostos a liderar uma agenda de responsabilidade compartilhada.
Uma agenda integrada
O fato da COP30 acontecer na Amazônia nos lembra que clima, biodiversidade e combate à desertificação não são agendas isoladas — fazem parte de uma mesma narrativa que teve início no Rio de Janeiro, em 1992, com a criação de três convenções fundamentais: a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), a Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) e a Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD).
Por décadas, essas iniciativas avançaram em paralelo, mas o contexto atual exige integração e ação coordenada. A natureza — e especialmente as florestas — representa o elo capaz de unir essas frentes e promover soluções sistêmicas. Reconhecer essa interdependência é essencial para construirmos um futuro mais resiliente e sustentável.