A bioeconomia da sociobiodiversidade é praticada há séculos por povos e comunidades tradicionais. Esse modelo econômico se baseia no uso sustentável da biodiversidade a partir de tecnologias sociais geradas nos territórios para a produção de recursos materiais e para a manutenção dos modos de vida das populações tradicionais. Essas práticas se ajustam às condições e ritmos de produção do próprio bioma onde se estabelecem, contribuindo para a manutenção da floresta em pé e para a redução de impactos ambientais quando comparadas aos sistemas hegemônicos de produção.  

De acordo com a Rede Pan-Amazônica pela Bioeconomia, co-liderada pelo WRI Brasil, essa bioeconomia pode ser entendida como “produtos e serviços compatíveis com a integridade ecológica do bioma amazônico e com a identidade cultural e inclusão socioeconômica de seus habitantes”.

No entanto, existe uma importante lacuna de registros e classificações específicas para a bioeconomia em fontes oficiais de informações. Esse fato limita não apenas o desenho de políticas públicas apropriadas ao desenvolvimento do setor, como também o fluxo de investimentos públicos e privados para financiá-lo.  

O livro reúne 11 capítulos que apresentam experiências e reflexões sobre as economias da sociobiodiversidade em diferentes regiões do Brasil. A obra destaca o protagonismo de povos e comunidades tradicionais da construção de alternativas econômicas sustentáveis, a partir de contribuições de dezenas de organizações que atuam diretamente nos territórios.

Liderado pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), o Sistema Nacional de Informações e Conhecimento sobre a Bioeconomia tem em um de seus objetivos criar uma plataforma de dados sobre a bioeconomia brasileira. Para contribuir com recomendações ao novo sistema, o WRI Brasil analisou 16 bases de dados públicas que trazem informações relevantes sobre produção da bioeconomia da sociobiodiversidade. O estudo foi publicado no livro “Florescendo nas Brechas: territórios tradicionais e economias da sociobiodiversidade”, lançado em outubro de 2025 e organizado pelo Observatório das Economias da Sociobiodiversidade (ÓSociobio) – rede composta por organizações da sociedade civil de todo o Brasil - que atua para fomentar o desenvolvimento sustentável das atividades da sociobiodiversidade.  
 

Pesquisas realizadas pelo WRI Brasil mostram que bioeconomia já gera um PIB de R$ 12 bilhões somente na Amazônia Legal, muito além dos atuais indicadores. Com investimentos adicionais na bioeconomia estima-se que o PIB seria de pelo menos R$ 38,6 bilhões em 2050, gerando mais de 800 mil novos empregos, que substituiriam atividades associadas ao desmatamento.  

Frente às recentes iniciativas e espaços abertos que podem contribuir ao desenvolvimento da bioeconomia, como o lançamento do Bioeconomy Challenge no contexto da COP30, além de mecanismos financeiros como o Fundo Flora e debates estratégicos no âmbito do Tropical Forests Forever Facility (TFFF), torna-se ainda mais importante tratar de condições habilitantes a essa bioeconomia que depende da preservação da floresta e gera renda aos seus povos.  

Dados e informações são partes fundamentais da construção de uma bioeconomia sustentável e equitativa  

A bioeconomia pode ser entendida como uma economia de escopo, ou seja, ela é caracterizada pela variedade, porque cada região tem sua própria diversidade biológica e cultural. Dessa forma, o ganho de escala na bioeconomia não se dá pela homogeneização, mas, ao contrário, pela soma das múltiplas iniciativas. Nessa economia, não basta que o produto seja nativo, é preciso que o processo de produção seja compatível com a manutenção ou restauração do ecossistema e colabore com o fluxo circular de renda local. O açaí, por exemplo, produzido de forma a recuperar áreas degradadas ou garantir a biodiversidade das regiões extrativas é bastante diferente daquele baseado na monocultura alheio aos modos de vida tradicionais.

Embora seja bastante clara a diferença entre um processo produtivo e outro, os atuais sistemas de informações não permitem reconstruir as cadeias da sociobiodiversidade de acordo com esses princípios constitutivos da bioeconomia. Apenas o censo agropecuário, realizado a cada dez anos, traz algumas informações sobre os modos de produção, ainda assim, sem detalhes que permitem de fato separar se a produção veio de um sistema produtivo de baixo impacto (como Sistemas Agroflorestais – SAF) ou monocultura.

Mas não é preciso ir tão a fundo. Das bases de dados analisadas, identifica-se a ausência completa de produtos relevantes da bioeconomia, e, quando indicados, na maioria dos casos são agregados em categorias genéricas e abrangentes, como “outras frutas tropicais”.  

As inconsistências observadas decorrem, em grande medida, do fato de que as bases de dados oficiais foram concebidas a partir do modelo agroexportador brasileiro, o que privilegia culturas de grande escala e arranjos produtivos convencionais e torna os sistemas de informação pouco aderentes às especificidades das economias da sociobiodiversidade. Essas economias se caracterizam por uma produção difusa, descentralizada e realizada por agentes dispersos no território, frequentemente orientada ao autoconsumo e aos mercados locais, com baixo volume comercial, mas impactos relevantes nas economias locais e forte vínculo com a manutenção da floresta em pé. Como resultado, produtos de maior expressão econômica – como açaí, castanha e cacau – são bem captados, enquanto a maioria permanece agregada em categorias genéricas que dificultam análises mais específicas.  

A mensuração dessas atividades é ainda agravada por desafios técnicos de acesso aos territórios onde ocorrem, pela baixa compatibilidade com os modelos convencionais de coleta de dados e por limitações institucionais, como a falta de integração metodológica entre bases, variações de periodicidade e restrições operacionais dos sistemas, incluindo falhas de busca, filtros insuficientes e a indisponibilidade de dados não sensíveis.

Dados sobre beneficiamento e consumo da produção e trabalho  

Além das lacunas relacionadas aos produtos e aos processos produtivos no setor primário (agricultura e extrativismo), são raros os dados sistematizados sobre o setor secundário, especialmente sobre beneficiamento e transformação. Essas lacunas entre o que é produzido como matéria-prima e o que se transforma em insumos industriais dificultam a aferição do valor adicionado pela bioeconomia ao longo das cadeias e sua contribuição à economia nacional. No setor terciário, ainda não há um sistema de informações que permita acompanhar a quantidade consumida nos mercados domésticos, sendo possível identificar apenas as exportações, e, mesmo assim, para pouquíssimos produtos indexados pelos sistemas internacionais de classificações. Dessa forma, rastrear as cadeias da bioeconomia da produção ao consumo a partir da qualificação dos processos produtivos usando apenas dados oficiais ainda é uma tarefa inviável.  

Os dados sobre o mercado de trabalho permanecem praticamente inexistentes nas bases oficiais, como a Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) e o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED). Em levantamento da Organização Mundial do Trabalho (OIT), referente ao ano de 2021, foram identificados somente 28 vínculos empregatícios formais associados ao cultivo do açaí na Amazônia a partir da RAIS; por outro lado, um estudo do WRI Brasil encontrou aproximadamente 164,4 mil. Evidencia-se, portanto, a escassez e a baixa adequação das informações disponíveis nas fontes oficiais. Considerando que os arranjos ocupacionais nesse setor são majoritariamente marcados pela informalidade, torna-se ainda mais desafiador mensurar a real importância do mercado de trabalho da sociobioeconomia para a geração de renda local.


Caminhos para visibilizar a bioeconomia

As limitações de dados não devem inibir os esforços de dimensionamento da bioeconomia. Nesse sentido, duas estratégias complementares têm sido testadas de forma aplicada por meio dos esforços do WRI Brasil, a exemplo do estudo Nova Economia da Amazônia: (1) no uso dos dados oficiais, concentrar esforços na mensuração da bioeconomia com base na identificação dos produtos, reconhecendo que isso pode incluir processos produtivos diversos, incluindo aqueles que podem ser incompatíveis com seus princípios; e (2) complementar essas informações com dados não oficiais, coletados no território por diversas instituições, como institutos de pesquisa, agências de fomento e assistência técnica, iniciativas comunitárias.  

Mas isso não basta. Investimentos e políticas precisam de mais informações detalhadas para alcançar resultados concretos. Para melhorar a capacidade de dimensionamento da bioeconomia, o primeiro passo é ampliar e atualizar os sistemas de classificação de produtos e modos de produção para refletir a multiplicidade de arranjos existentes. Sem isso, a integração entre bases e a mensuração precisa da bioeconomia permanecem comprometidas.  Outro aspecto essencial é garantir rastreabilidade ao longo de toda a cadeia produtiva, incluindo origem, manejo, beneficiamento e distribuição de benefícios, o que aumenta o acesso a crédito, mercados e políticas públicas específicas.

É preciso adotar um olhar estratégico e comprometido com o potencial da bioeconomia da sociobiodiversidade como elemento fundamental à transição justa da economia amazônica. Desse modo, o setor pode contribuir para uma distribuição de renda que alcance os agentes que contribuem à manutenção da floresta em pé: comunidades tradicionais e povos indígenas.

Por fim, como a escassez de dados é frequentemente gerada em função das dificuldades técnicas em acessar territórios onde a sociobioeconomia ocorre, é indispensável garantir a participação ativa dos produtores e das associações que compõem a bioeconomia da sociobiodiversidade na definição das prioridades para coleta, sistematização e disponibilização dos dados – a exemplo do já instituído DadoSociobioeconomia, iniciativa também do ÓSocioBio, com apoio técnico do WRI Brasil. São esses os atores que realizam a bioeconomia na prática e mantêm a floresta em pé por meio de seus modos de produção, e que, portanto, melhor conhecem suas necessidades. 

Featured WRI Experts:
Henrique Roncada -

Analista de Pesquisa em Economia e Finanças II

Bruno Calixto -

Coordenador de Comunicação