Enquanto um novo ano se inicia, o aumento do custo de vida – moradia, energia e alimentos – pesa no orçamento de famílias em todo o mundo. A maioria está preocupada com a situação da economia. As perspectivas de emprego parecem incertas diante do avanço da inteligência artificial, da automação e de outras transformações profundas.

Essas preocupações têm ofuscado a urgência da ação pelo clima nas urnas e no debate político, especialmente em países mais ricos. Discussões intensas sobre políticas climáticas na União Europeia e recuos nos Estados Unidos refletem uma percepção comum: a de que enfrentar a mudança do clima pode agravar as dificuldades econômicas do dia a dia.

Ao mesmo tempo, porém, um número crescente de países vê a ação climática como uma das ferramentas mais eficazes para melhorar a vida das pessoas e fortalecer a economia. No Paquistão, por exemplo, a energia solar barata e confiável reduziu drasticamente os custos de eletricidade para famílias e empresas. No Brasil, a restauração de paisagens e florestas está gerando centenas de milhares de empregos em áreas rurais e em comunidades indígenas. Globalmente, cerca de 35 milhões de pessoas já trabalham no setor de energia limpa – mais do que em combustíveis fósseis.

Hoje, a questão não é mais se o mundo vai fazer a transição para um futuro de baixo carbono, mas como essa transição acontecerá. Quem paga a conta? Quem se beneficia? E quem corre o risco de ficar para trás?

Todos os anos, o Stories to Watch do WRI identifica os principais momentos, tendências e decisões que devem influenciar os rumos do mundo. Este ano, essas histórias não tratam de metas longínquas para o clima e a biodiversidade, mas sobre as escolhas que os países estão fazendo agora para enfrentar os desafios climáticos e econômicos simultaneamente – e sobre como podemos (e precisamos) melhorar a vida das pessoas hoje.

1) Crescimento econômico: a ação climática pode impulsionar uma nova era de prosperidade?

Um argumento recorrente contra a ação pelo clima é o de que ela frearia o crescimento econômico. Em dezembro passado, por exemplo, a Comissão Europeia suavizou seu plano histórico de banir a produção de carros a gasolina e diesel até 2035, cedendo às preocupações dos governos da Alemanha e da Itália com impactos sobre suas indústrias automobilísticas.

Na verdade, adiar a transição para veículos elétricos pode comprometer a competitividade e o crescimento de longo prazo da Europa.

Especialistas apontam que o crescimento de baixo carbono pode permitir que as economias cresçam mais rápido do que no cenário de “negócios como sempre”. Na China, por exemplo, a energia limpa já responde por mais de 10% do PIB – o equivalente a US$ 1,9 trilhão em 2024. Graças a investimentos antecipados e apoio governamental, o país domina os mercados globais de painéis solares, veículos elétricos e outras tecnologias limpas, setores que devem crescer fortemente na próxima década.

De forma mais ampla, um relatório da ONU indica que o mundo poderia gerar até US$ 20 trilhões adicionais em benefícios econômicos por ano até 2070 ao investir em energia limpa, sistemas alimentares resilientes e outras soluções climáticas.

Mas não se trata apenas de dinheiro.

Um crescimento inclusivo e de baixo carbono pode reduzir a pobreza e conectar famílias a energia confiável e acessível. A redução da poluição do ar, por si só, pode evitar cerca de 9 milhões de mortes prematuras até 2050 – com efeitos positivos diretos sobre as economias.

Gráfico sobre impactos potenciais da ação climática STW 26

Para colher esses benefícios, é preciso ser intencional sobre como o crescimento acontece.

No Quênia, por exemplo, o governo está priorizando a eletrificação de motocicletas e triciclos. Milhões de pessoas dependem desses veículos para se locomover e trabalhar como motoristas de táxi ou entregadores, mas o combustível pode consumir até metade da renda diária. Essas iniciativas não apenas aliviam o bolso das famílias, como também fortalecem deliberadamente a economia local, de baixo para cima.

No setor privado, a IKEA – maior varejista de móveis do mundo – mostra que sustentabilidade e crescimento podem caminhar juntos. Ao usar recursos de forma mais eficiente e investir em energia limpa, a empresa reduziu sua pegada climática em 30% desde 2016, enquanto sua receita cresceu quase 24% no mesmo período.

Ainda assim, precisamos ver muito mais exemplos como esse.

O que observar em 2026

  • Com evidências de que é possível crescer e descarbonizar ao mesmo tempo, líderes como o primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed, têm defendido políticas e investimentos verdes como a grande oportunidade de crescimento da próxima década. Mais países vão adotar planos de desenvolvimento de longo prazo que entreguem resultados para as pessoas, a natureza e o clima?
  • Na COP30, foram lançadas 13 novas plataformas nacionais para alinhar diferentes fontes de financiamento em torno de planos concretos de investimento. Mais países conseguirão direcionar recursos para suas prioridades de transição de baixo carbono?
  • A siderúrgica mais eletrificada do mundo está sendo construída na Suécia, com US$ 7 bilhões em financiamento. Continuaremos a ver grandes investimentos em industrialização limpa?
  • Toda transição econômica exige inovação e empreendedorismo. Países como Vietnã, Indonésia e Quênia, que buscam se tornar economias de alta renda até 2045, estão investindo em inovação verde local. Outros países seguirão esse caminho?

2) Acesso: soluções climáticas podem reduzir os custos do dia a dia?

Os preços subiram de forma perceptível no mundo todo. As pessoas estão pagando mais por alimentos, eletricidade, transporte e outros itens básicos.

Do estado de Nova York a países como Nigéria e Senegal, líderes têm citado a acessibilidade financeira como justificativa para continuar investindo em combustíveis fósseis diante do aumento da demanda por energia.

No entanto, a energia renovável já é mais barata para construir e operar do que a energia de fontes fósseis em quase todos os lugares. Com custos em queda contínua, países que apostarem na expansão da energia limpa têm a oportunidade de transformar essas economias de longo prazo em contas de luz mais baixas para os consumidores.

Embora a energia esteja no centro do debate, a moradia costuma ser o maior gasto das famílias. Nem sempre as pessoas associam habitação à mudança do clima, mas os edifícios respondem por cerca de 40% das emissões globais de gases de efeito estufa. Além disso, dependendo da localização e das condições das casas, famílias podem estar mais expostas a enchentes, incêndios e tempestades. Globalmente, uma em cada três pessoas vive em moradias inadequadas ou assentamentos informais.

No Brasil, onde mais de 16 milhões de pessoas vivem em assentamentos informais, o governo tem trabalhado junto às comunidades para cocriar bairros com moradias mais seguras, melhor acesso a serviços básicos, transporte e empregos. A solução não é deslocar as famílias, mas qualificar os lugares onde elas já vivem.

Garantir moradias dignas e resilientes pode custar mais no início, mas gera economia para famílias e governos no longo prazo. Mais líderes precisam começar a tratar clima e custo de vida como desafios interligados.

O que observar em 2026

  • Em maio, a habitação será tema central do Fórum Urbano Mundial, em Baku. A crise da moradia será reconhecida também como um desafio climático?
  • A energia solar está atingindo pontos de virada em países como Paquistão e África do Sul. Com a queda dos preços, mais países alcançarão esse estágio?
  • A demanda por energia cresce com a eletrificação, o aumento do uso de refrigeração e o crescimento econômico. Como os países atenderão essa demanda de forma acessível e limpa?
  • O comércio entrou definitivamente na agenda climática. Novas regras, como o Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira da UE, vão estimular ou frear o crescimento verde?

3) Empregos: os trabalhadores se beneficiarão da economia limpa?

A maior preocupação em qualquer transição econômica são os empregos. Poucas coisas são mais assustadoras do que perder o trabalho – não apenas pela renda, mas pelo impacto sobre identidade, dignidade e futuro das famílias.

O carvão é um exemplo clássico de perda de empregos relacionada ao clima, mas outros setores – como indústria, construção e agricultura – também serão afetados.

Ainda assim, espera-se que a transição crie mais empregos do que elimine. Pesquisas recentes indicam que mudanças em cinco setores-chave podem gerar um saldo líquido de 375 milhões de novos empregos nos próximos 10 anos.

gráfico sobre impacto da transição climática nos empregos STW 2026

Ao todo, cerca de 630 milhões de empregos, ou 18% da força de trabalho global, serão impactados pela transição de baixo carbono. Sem planejamento adequado, há riscos reais de desemprego.

Líderes precisam agir de forma proativa, investindo em requalificação, capacitação e planos de transição justos que coloquem os trabalhadores no centro.

Na Índia, grande fornecedora global de autopeças, estima-se que um em cada três trabalhadores do setor automotivo será afetado pela transição para veículos elétricos. Muitas empresas fornecedoras são pequenas e operam com margens apertadas, sem recursos para treinamento. Para enfrentar esse desafio, associações industriais, especialistas técnicos e parceiros da cadeia produtiva estão se unindo para apoiar os trabalhadores – inclusive abrindo caminhos para a entrada de mulheres em um setor historicamente dominado por homens.

Programas de requalificação ainda são incipientes em muitas partes do mundo. Apoiar de fato os trabalhadores exigirá mais esforço e investimento de governos, empresas, sindicatos, escolas e instituições de formação.

O que observar em 2026

  • Dados do LinkedIn mostram que a demanda por habilidades ligadas à sustentabilidade cresce quase duas vezes mais rápido que a oferta. As empresas vão integrar capacitação aos seus planos de transição?
  • Apenas metade dos países inclui planos explícitos para a força de trabalho em suas metas climáticas mais recentes – e só 1% detalha como financiar essas ações. Isso vai mudar?
  • A inteligência artificial já está transformando o mercado de trabalho. Como ela vai interagir com a economia de baixo carbono em 2026?

Construindo comunidades mais fortes hoje

Evidências do mundo todo mostram que a transição econômica de baixo carbono não acontecerá na velocidade e escala necessárias se as pessoas não estiverem no centro.

Em todo o mundo, famílias estão focadas em como ganhar a vida, pagar as contas e garantir um futuro seguro e otimista.

A transição é inevitável – mas seus efeitos sobre crescimento, custo de vida e empregos dependerão das escolhas que fizermos agora.

Governos, empresas e comunidades têm hoje a oportunidade de tornar essa transição positiva para as pessoas e para o planeta. Essas escolhas também estão ao alcance de cada um de nós em 2026.

Este artigo foi publicado originalmente no Insights.

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Ani Dasgupta -

Presidente & CEO WRI Global