A luta contra as mudanças climáticas tem um problema de comunicação
No verão de 2024, a população holandesa considerou as mudanças climáticas o problema mais grave enfrentado pelo mundo. Mas, apenas alguns meses depois, elegeu um governo nacional cuja plataforma incluía retroceder nas políticas climáticas.
Isso não aconteceu apenas na Holanda, país que há muito se orgulha de ser um dos mais avançados da Europa em questões climáticas. No mundo todo, quatro em cada cinco pessoas dizem querer que seus países adotem ações climáticas mais robustas. Ainda assim, quando cidadãos de nações que somam mais da metade da população mundial foram às urnas em 2024, quase ninguém levou esse critério em conta na hora de votar. Apenas um país – o Reino Unido – elegeu um partido cuja plataforma incluía uma agenda climática ambiciosa.
Pesquisas mostram que os principais temas que definem eleições são economia, segurança e saúde. E todos estão intimamente ligados aos impactos do clima. Mesmo assim, em todo o mundo, pessoas que defendem a ação climática não estão elegendo governos comprometidos com essa pauta. Por que estamos falhando em mobilizar e manter o apoio político à ação climática, justamente no momento em que ela é mais urgente e relevante?
Muitas vezes, o problema não está nas questões em si, mas em como elas são apresentadas.
A narrativa predominante hoje é que a ação climática se resume a reduzir emissões e evitar perdas econômicas. E é evidente que esse discurso não toca as pessoas de forma significativa – isto é, não as convence a optar por governos dispostos a transformar nossas economias para um futuro melhor. Precisamos de uma nova abordagem, focada em demonstrar como o desenvolvimento de baixo carbono, resiliente e em harmonia com a natureza já está melhorando a vida das pessoas hoje.
Da contagem de carbono à transformação da economia
Já sabemos há algum tempo que combater as mudanças climáticas não se resume apenas a reduzir emissões ou aumentar a resiliência. Trata-se de transformar todos os setores da economia para que sejam não só positivos para o clima, mas também para as pessoas e para a natureza.
Há anos especialistas demonstram que a ação climática não só é compatível com o desenvolvimento econômico, como pode acrescentar trilhões em benefícios à economia global até 2030. Veículos elétricos e energias renováveis têm crescido rápido porque as pessoas os consideram alternativas melhores e cada vez mais acessíveis em relação aos combustíveis fósseis. Com diferentes formas de tecnologia limpa avançando de forma exponencial, hoje 91% da energia renovável já é mais barata do que as fósseis no mundo inteiro.
Ainda assim, tecnologia a preços justos e benefícios econômicos de longo prazo não são o suficiente. Para impulsionar a transição verde, precisamos mostrar à maioria das pessoas que investir em um futuro limpo melhora suas vidas não apenas daqui a dez anos, mas também agora.
Melhorando a vida das pessoas – agora
A boa notícia é que inúmeros exemplos já comprovam que políticas climáticas bem estruturadas trazem benefícios reais e imediatos.
O novo possível global
Em um momento de tensões geopolíticas, agravamento dos impactos climáticos e aumento das desigualdades, The New Global Possible: Rebuilding Optimism in the Age of Climate Crisis (“O Novo Possível Global: Reconstruindo o Otimismo na Era da Crise Climática”, em tradução livre) apresenta novas ideias para navegar pela complexidade das crises atuais – e transformá-las em oportunidades de progresso duradouro. Baseado em conversas com mais de 100 líderes e especialistas ao redor do mundo, o livro traça um caminho, ainda que estreito, rumo a um futuro mais esperançoso – que exige foco e determinação coletiva – e propõe uma nova e ousada prática para orquestrar mudanças. Saiba mais.
Novos empregos e novos mercados
Na África, quase dois terços das terras do continente sofre com degradação e seca. A restauração de terras é uma solução eficaz e rentável: cada US$ 1 investido em restauração pode gerar até US$ 30 em benefícios econômicos. Embora 34 países africanos tenham se comprometido a restaurar pelo menos 100 milhões de hectares de terras degradadas até 2030, é difícil alcançar algo nessa magnitude, uma vez que a restauração é uma atividade principalmente local.
Para reduzir essa lacuna, a plataforma TerraMatch tem trabalhado com financiadores para canalizar recursos e outros apoios a mais de 100 agentes locais de restauração, incluindo empreendedores, ONGs e agricultores, entre outros. Em 2024, conheci uma das beneficiárias, uma empresa de propriedade feminina chamada Exotic EPZ. Elas trabalham com dez mil agricultoras que cultivam nozes de macadâmia em terras degradadas no Quênia. A Exotic EPZ oferece uma renda estável às mulheres enquanto processa as nozes em sua fábrica e as exporta para mercados globais. Esse modelo coloca dinheiro diretamente nas mãos dos produtores, garantindo um incentivo real para que preservem as nogueiras de macadâmia, espécie que pode viver por 50 anos.
A longo prazo, esse trabalho de restauração vai sequestrar carbono, recarregar aquíferos e reduzir a erosão – tudo isso enquanto cria uma renda sustentável que melhora vidas e meios de subsistência por gerações.
Menos congestionamentos e ar mais limpo
Em Londres, políticas ambiciosas de sustentabilidade e qualidade do ar foram incorporadas à cidade nas últimas décadas.
Em 2000, quando o prefeito Ken Livingstone propôs uma taxa de congestionamento de £5 para veículos em um pequeno trecho da cidade com o objetivo de “colocar Londres em movimento”, quase todos apostaram que daria errado – incluindo a casa de apostas William Hill, que ofereceu cotações de 4 para 1. Mais de duas décadas depois, a taxa continua em vigor – e até aumentou de valor e se expandiu para novas áreas da cidade.
Desde que a política entrou em vigor, em 2003, Londres reinvestiu as receitas nos meios e infraestruturas de transporte público, como ônibus, ciclovias e calçadas. As pessoas sentiram na prática como a redução do congestionamento poupava tempo e dinheiro. E todos passaram a respirar um ar mais limpo.
Nas gestões seguintes, as políticas climáticas de Londres se tornaram ainda mais ambiciosas. Boris Johnson, prefeito de um partido conservador, complementou a Zona de Baixa Emissão criada por Livingstone em 2008 com a criação da Zona de Ultrabaixa Emissão (ULEZ) em 2015. Sadiq Khan, prefeito do partido trabalhista, tem colaborado com coalizões comunitárias, como o grupo Mums for Lungs, para expandir ainda mais a ULEZ. Embora essas políticas tenham enfrentado resistência, permaneceram em vigor porque trouxeram benefícios reais para muitas pessoas.
Esse efeito dominó não apenas consolidou um transporte mais limpo em Londres como inspirou outras cidades ao redor do mundo a adotarem suas próprias versões dessa política.
Vidas salvas e meios de subsistência preservados
Bangladesh destina mais de 10% de seu orçamento nacional à ação climática, em especial à adaptação. Para a maioria dos países, um investimento desse porte seria politicamente improvável, se não impossível. Ainda assim, a população de Bangladesh tem percebido os benefícios desse esforço – sobretudo as pessoas que vivem nas regiões costeiras, regularmente atingidas por tempestades e inundações.
Quando um ciclone de categoria 5 causou mais de 138 mil mortes em 1991, a população fez críticas severas à falta de preparo do governo. O país precisava de cinco mil abrigos para proteger a população, mas havia construído apenas 300. Desde então, o governo investiu em um amplo conjunto de programas de preparação para desastres, incluindo sistemas de alerta e iniciativas de empoderamento comunitário. Um exemplo foi o recrutamento de mulheres voluntárias, que contribuiu de forma decisiva para reduzir mortes de mulheres e crianças em situações de emergência. Quando o ciclone Mocha, também de categoria 5, atingiu Bangladesh em 2023, mais de 700 mil pessoas foram evacuadas a tempo, e o país registrou apenas três mortes indiretas.
Investimentos sistemáticos em adaptação como esses são raros, mas essenciais. O sucesso de Bangladesh tem inspirado outros países, como Gana e Sri Lanka, a adotar estratégias semelhantes e a fortalecer suas próprias respostas.
Esses exemplos demonstram que, quando projetos e políticas vão além da redução de carbono e oferecem benefícios claros e imediatos às pessoas, conseguem gerar mobilização política e resultados significativos em diversas frentes. Juntos, eles mostram que, se a transição for conduzida de forma certa, pode construir uma economia próspera e positiva para as pessoas, a natureza e o clima.
Reformulando e redesenhando a política climática
É hora de pensar, falar e agir de forma diferente.
Transformar um modelo econômico de séculos, caracterizado pela poluição e baseado na exploração da natureza, em uma alternativa com resultados radicalmente diferentes exige o envolvimento de toda a sociedade. Para orquestrar uma mudança dessa magnitude, precisamos pensar de maneira sistêmica.
Focar em maximizar os benefícios para as pessoas tem permitido que projetos climáticos prosperem, mesmo em cenários políticos adversos. Isso já se mostrou possível tanto em pequena quanto em grande escala. Há inúmeros exemplos ao redor do mundo que demonstram essa realidade, muitos dos quais estão incluídos no meu novo livro The New Global Possible: Rebuilding Optimism in the Age of Climate Crisis.
Em um momento de tensões geopolíticas, agravamento dos impactos climáticos e crescimento das desigualdades, nunca foi tão importante aprender com as iniciativas que já estão dando bons resultados. Precisamos aplicar soluções comprovadas para gerar benefícios em escala e consolidar uma nova prática de transformação positiva.
Este artigo foi publicado originalmente no Insights.