A restauração florestal na Amazônia é uma das estratégias mais promissoras para enfrentar as crises climática, social e ambiental no Brasil. Mas para que a restauração de paisagens e florestas (RPF) aconteça de forma eficaz e em larga escala, é necessário entender quem são os atores envolvidos, quais papéis desempenham, como se conectam e de que maneira trocam informações e recursos. Também é essencial identificar aqueles que permanecem à margem dos espaços de governança, garantindo que todos possam participar ativamente do processo de restauração nas suas diferentes etapas.

Foi com esse propósito que a Aliança pela Restauração da Amazônia acaba de lançar o estudo “Atores da Restauração na Amazônia: desafios e oportunidades da governança da Restauração de Paisagens e Florestas”. O trabalho, produzido pelo WRI Brasil, em parceria com o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e o Instituto Internacional para Sustentabilidade (IIS), faz uma análise sobre a paisagem social da restauração, construída a partir do mapeamento das redes de financiamento, monitoramento, insumos e informações técnicas. As redes permitem analisar como as trocas desses diferentes temas se estruturam no território amazônico, revelando conexões, lacunas e oportunidades para fortalecer a restauração em escala.

O que é o mapeamento de atores e por que ele importa?

O mapeamento de atores é uma ferramenta que permite visualizar, com base em dados, quem são as organizações, instituições e coletivos envolvidos em uma agenda comum, no caso, a da restauração florestal, e como eles se conectam entre si. Essa abordagem foi adaptada da ROAM (Metodologia de Avaliação de Oportunidade de Restauração), criada pela União Internacional para Conservação da Natureza (UICN) e WRI, já aplicada em diversos países e estados para orientar estratégias de restauração fundamentada em critérios ecológicos, sociais e econômicos.  

No contexto amazônico, devido à complexidade socioterritorial, o mapeamento da paisagem social da RPF é essencial para identificar gargalos, sobreposições, lacunas de participação e oportunidades de colaboração. Em outras palavras, permite compreender quem está fazendo o quê, com quem, e onde é necessário fortalecer as conexões, garantindo mais efetividade e escala às inciativas de restauração.

Os resultados da pesquisa

O estudo identificou 187 atores diretamente envolvidos na restauração na Amazônia, organizados em quatro redes principais:

  • Informações técnicas;
  • Monitoramento;
  • Insumos e materiais;
  • Financiamento.

Essas redes revelam uma complexa teia de interações entre instituições públicas, privadas, organizações da sociedade civil e programas multissetoriais. A maior parte das conexões está centrada nas redes de informações técnicas e financiamento, onde ONGs e institutos de pesquisa aparecem como protagonistas na articulação e circulação de saberes e recursos financeiros.

Enquanto a publicação Panorama da Restauração na Amazônia revela que 52% da área restaurada está sob responsabilidade de empresas privadas, sugerindo um papel importante desse setor na ampliação da escala da restauração, os resultados da presente análise de redes apontam para um quadro distinto no que diz respeito à sua inserção nas dinâmicas de governança. O setor privado com fins lucrativos teve baixa representação e conectividade nas redes analisadas, aparecendo de forma pontual e, em geral, desconectado das principais arenas de articulação e tomada de decisão. Isso indica que, apesar de ser um executor relevante de ações no território, o setor privado ainda atua majoritariamente à margem dos espaços coletivos de planejamento e definição de estratégias para a restauração.

Essa desconexão também se reflete na escala e no perfil das iniciativas. Os dados mostram que 79% das ações de restauração ocorrem em áreas menores que 5 hectares, evidenciando a predominância de iniciativas de pequena escala e ressaltando a importância de apoiar comunidades e agricultores familiares para incorporar a restauração em suas práticas. No entanto, esse quadro, embora revele avanços significativos, também expõe desafios estruturais, há baixa representação de povos indígenas, agricultores familiares e comunidades tradicionais no centro dessas redes. Essa exclusão, muitas vezes causada por barreiras tecnológicas ou institucionais, enfraquece a governança e a legitimidade das ações. Ampliar e diversificar a participação é uma condição essencial para que a restauração florestal seja verdadeiramente eficaz e inclusiva.  

Governança colaborativa, o caminho para restaurar em escala  

Uma das principais mensagens da publicação é clara: restaurar florestas vai além do plantio de árvores. É necessário construir arranjos colaborativos entre diferentes setores da sociedade, integrando políticas públicas, saberes locais, recursos financeiros e conhecimentos técnicos. A governança da restauração precisa ser multissetorial, adaptativa e sensível às nuances socioterritoriais da Amazônia.  

A Aliança pela Restauração na Amazônia, rede que reúne dezenas de organizações comprometidas com esse objetivo, já vem mostrando como isso é possível na prática. Com ações coordenadas, sistemas de monitoramento participativo, políticas estaduais como o PRVN-PA e iniciativas como o Redário e as redes de coletores de sementes e a Vitrine da Restauração, é possível avançar rumo a uma economia mais sustentável, que gere benefícios para a floresta e para quem vive dela.

Baixe o relatório completo

O estudo completo “Atores da restauração na Amazônia: desafios e oportunidades da governança da RPF” está disponível para download gratuito neste link.

 

Featured WRI Experts:
Luciana Medeiros Alves -

Especialista em Restauração

Mariana Oliveira -

Diretora de Florestas e Uso da Terra

Camila Barbosa -

Analista de Comunicação Pleno