Da implementação ao monitoramento: Unidades Demonstrativas avançam na restauração da Caatinga
Restaurar paisagens é também criar oportunidades para quem vive e produz nos territórios.
Na Caatinga, a recuperação da vegetação nativa contribui para a resiliência às mudanças climáticas, a conservação da biodiversidade e o fortalecimento de sistemas produtivos mais sustentáveis. É nessa conexão entre pessoas, natureza e clima que se insere o trabalho do WRI Brasil, que busca contribuir para um modelo de desenvolvimento capaz de combinar prosperidade econômica, inclusão social e conservação ambiental. Para agricultoras e agricultores familiares, conhecer diferentes formas de recuperar a vegetação nativa no bioma, produzir alimentos e cuidar do solo pode ser mais concreto quando essas práticas podem ser vistas e experimentadas a partir das realidades locais.
É um processo contínuo, que depende do engajamento territorial, de forma colaborativa com parceiros estratégicos e com a valorização do saber tradicional. Desde 2025, o Projeto Raízes da Caatinga, conduzido pela IDH, em parceria com o WRI Brasil e a Diaconia , aposta na estratégia de implementação de Unidades Demonstrativas de Restauração (UDs) no Sertão do Pajeú, em Pernambuco, e no Sertão do Apodi, no Rio Grande do Norte, como estratégia para fortalecer as capacidades de restauração na Caatinga e apoiar agricultores e agricultoras familiares no bioma.
Planejadas para aterrissar arranjos de restauração identificados a partir da metodologia de Avaliação das Oportunidades de Restauração (ROAM), que identificou uma oportunidade de restauração de mais de 500 mil hectares na Caatinga, as UDs também buscam mostrar como a restauração de paisagem pode contribuir não só com a recuperação da vegetação nativa, mas também com o fortalecimento das redes comunitárias e com a geração de oportunidades para os territórios, impulsionando a cadeia de valor da restauração.
A restauração é uma das principais estratégias adotadas para a convivência com o semiárido, especialmente para combater os efeitos das mudanças climáticas. Por isso, a partir de 2026 o projeto buscou a parceria com a Rede de Mulheres Produtoras do Pajeú (Sertão do Pajeú – PE) e com a Empresa de Pesquisa Agropecuária do Rio Grande do Norte – EMPARN (Apodi-RN), e assim fortalecer a capacidade de quem está no dia a dia das áreas em restauração, acompanhar o desenvolvimento e produzir conhecimento sobre os resultados. Graças a essas parcerias, foram conduzidas atividades reunindo agentes de assistência técnica e extensão rural, pesquisadores, organizações da sociedade civil, agricultoras e agricultores experimentadores e representantes do poder público para ampliar o conhecimento e conduzir métodos de monitoramento ecológico da restauração na Caatinga. Esse processo formativo e inclusivo, a partir dos conhecimentos das famílias agricultoras e das comunidades rurais envolvidas, tem contribuído para a ampliação das experiências e dos conhecimentos técnicos e dos saberes populares a partir da realidade dos territórios.
Da implementação ao monitoramento
Uma Unidade Demonstrativa (UD) é uma área modelo utilizada para testar, validar e exibir na prática técnicas de restauração e práticas agrícolas sustentáveis. Além disso, as UDs funcionam também como espaço de referência para a aprendizagem prática, troca de conhecimentos e demonstração de métodos de restauração associados à produção sustentável.
Em abril e maio de 2026, por exemplo, a UD de Sistema Agroflorestal (SAF) melífero implementada em parceria com a EMPARN no Sertão do Apodi recebeu duas turmas do curso de apicultura. No espaço, agricultoras, agricultores familiares e outros atores da cadeia do mel, que representam 9 organizações locais, puderam conhecer, na prática, diferentes aspectos relacionados à implementação e ao manejo do sistema, desde o planejamento e a identificação das espécies até os cuidados com a área e o manejo das colmeias. A realização da atividade também evidenciou a importância da parceria com as organizações do território, para viabilizar a iniciativa e ampliar seu alcance junto aos atores locais.
No Sertão do Pajeú, a UD foi implementada a partir de uma iniciativa conjunta entre o WRI Brasil, a Rede de Mulheres Produtoras do Pajeú, o Instituto Florestar, a Rede para Restauração da Caatinga (ReCaa), Centro de Pesquisas Ambientais do Nordeste (Cepan) e o Redário. Além do acompanhamento mensal, liderado pelas mulheres da Rede, foi realizado um dia de campo com propósito de disseminar métodos para a coleta e análise de dados para o monitoramento ecológico de áreas em processo de restauração na propriedade de Dona Evanice, articuladora da Rede de Mulheres Produtoras do Pajeú, na comunidade rural da Gameleira, em Itapetim-PE. A ação contribui para a multiplicação das práticas de manejos sustentáveis a partir da participação de outras mulheres e grupos produtivos em comunidades e municípios do território do Sertão do Pajeú, onde a Rede de Mulheres tem atuação.
A experiência da Rede de Mulheres Produtoras do Pajeú ganhou projeção internacional ao integrar a base de dados da WOCAT (Visão Mundial das Abordagens e Tecnologias de Conservação), plataforma internacional dedicada à documentação e ao compartilhamento de conhecimentos sobre o manejo sustentável da terra. Registrada como uma abordagem de gestão sustentável da terra, a experiência reconhece a organização e a atuação coletiva das mulheres como elementos importantes para a transformação dos territórios rurais.
A pesquisa foi apresentada durante a 17ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (COP17), realizada entre 17 e 28 de agosto de 2026, em Ulaanbaatar, na Mongólia, incluindo atividades no Pavilhão Brasil e eventos paralelos. O encontro internacional reuniu governos, organizações e diferentes atores sociais para discutir soluções para a degradação dos solos, a restauração de terras, a resiliência à seca e a segurança hídrica e alimentar.
O reconhecimento dessa abordagem evidencia a necessidade de compreender as mulheres como protagonistas das estratégias de restauração ambiental e não apenas como beneficiárias de projetos. Sua participação ativa na produção de alimentos, no cuidado com a biodiversidade, na gestão dos recursos naturais e na mobilização comunitária constitui uma dimensão fundamental da construção de territórios mais sustentáveis.
As duas experiências partiram de uma mesma ideia: acompanhar de perto se as Unidades Demonstrativas (UDs) estão alcançando os objetivos propostos e, ao mesmo tempo, ouvir quem vive e atua no território. A proposta foi criar espaços para observar os resultados das experiências, trocar aprendizados e compreender, a partir das diferentes perspectivas locais, o que está funcionando, os desafios encontrados e o que pode ser aprimorado nos caminhos da restauração na Caatinga.
Monitoramento ecológico no Sertão do Pajeú na prática
Um elemento importante das capacitações nas Unidades Demonstrativas é apoiar a comunidade com o monitoramento contínuo das ações de restauração.
No Pajeú, a capacitação reuniu experiências práticas envolvendo um Sistema Agroflorestal Forrageiro, semeadura direta combinada com plantio de mudas e uma área de Regeneração Natural Assistida.
Em cada uma delas, os participantes tiveram contato com diferentes indicadores utilizados para acompanhar a restauração. No Sistema Agroflorestal Forrageiro, a atividade abordou a riqueza de espécies. Já na área de Regeneração Natural Assistida, foi medida a cobertura do solo por vegetação. E, por último, na Unidade de semeadura direta e de plantio de mudas, foi medida a densidade de indivíduos. O percurso permitiu observar, na prática, como diferentes métodos podem ajudar a compreender a trajetória de uma área em restauração.
Ao todo, 80 pessoas, sendo 63 mulheres, de 31 organizações participaram da atividade, entre agricultoras e agricultores familiares, agentes de assistência técnica e extensão rural, pesquisadores, técnicos de organizações parceiras, estudantes e representantes do poder público.
A atividade também promoveu um espaço de escuta com agricultoras e agricultores familiares e agentes de ATER, que contribuíram com percepções e sugestões sobre a aplicabilidade do protocolo de monitoramento ecológico. Por estarem diretamente envolvidos no dia a dia das áreas de restauração, esses atores possuem conhecimento sobre a evolução das áreas e podem contribuir para identificar necessidades e orientar decisões de manejo adaptativo, tornando o monitoramento mais conectado à realidade dos territórios.
A restauração se faz no território
As atividades abriram espaço para ouvir quem vive e atua nos territórios e entender, a partir dessas experiências, como o monitoramento pode ganhar sentido e ser incorporado ao dia a dia da restauração na Caatinga. As contribuições, percepções e aprendizados compartilhados pelos participantes apontaram caminhos para aprimorar a replicação de práticas de restauração produtiva e a aplicabilidade do monitoramento ecológico na Caatinga.
Ao combinar capacitação, monitoramento ecológico, produção de conhecimento e articulação entre organizações e comunidades, as experiências do Projeto Raízes da Caatinga mostram como soluções construídas nos territórios podem gerar aprendizados e contribuir para transformações em maior escala. O protagonismo das agricultoras e dos agricultores familiares, especialmente das mulheres, é fundamental para fortalecer redes locais, aprimorar as práticas de restauração e ampliar sua aplicação em diferentes contextos. Essa trajetória reflete a estratégia do WRI Brasil de produzir conhecimento baseado em evidências, transformar esse conhecimento em resultados concretos e multiplicar soluções capazes de impulsionar um desenvolvimento mais justo, inclusivo e sustentável, com benefícios duradouros para as pessoas, a natureza e o clima.