Em uma tarde de janeiro, enquanto o sol escaldante se esconde atrás dos prédios, uma rua na Comunidade do Pilar, no Centro Histórico do Recife, ganha novas cores como parte de uma iniciativa coletiva de qualificação do espaço público. 

Azul, amarelo, vermelho, roxo. Um grupo de pessoas percorre diligentemente o chão com rolos e pincéis embebidos em tinta, desenhando caminhos no piso de concreto. Sob o olhar de expectativa das crianças, o mutirão conclui mais um importante capítulo de uma transformação que tem sido construída coletivamente: a Rota da Infância, uma rede de espaços qualificados com e para as crianças da comunidade.

“Foi minha primeira vez participando de um mutirão na comunidade e espero estar em outros”, conta Cristiane Maria dos Santos, moradora cujo apartamento fica ao lado do trecho recém-colorido. "A pintura foi muito boa para as crianças. Fez elas entenderem que aquele é o melhor caminho, seja para a escola, para a creche, para o parquinho. Até os menorzinhos já sabem que o caminho para o parquinho é o caminho colorido!”

crianças brincando em praça
Contrastes: inserida no histórico Bairro do Recife, comunidade pouco se beneficia de investimentos na região (foto: Nicole Rodrigues/WRI Brasil)

Espaço para brincar e se desenvolver

A ausência de espaços públicos seguros, acessíveis e bem cuidados é uma das dimensões da desigualdade nas cidades brasileiras. Essa lacuna afeta de maneira desproporcional alguns grupos – em especial crianças e pessoas cuidadoras de comunidades periféricas, que dependem desses espaços para o lazer e a vida cotidiana. 

É o caso da Comunidade do Pilar. Em pleno Centro Histórico do Recife, o conjunto habitacional surgiu em razão da demanda por trabalho portuário entre a população de baixa renda. Concebido a partir de moradias autoconstruídas, infraestrutura precária e sem espaços públicos de suporte no entorno, foi apenas nos anos 2010 que o território passou a receber obras de urbanização, em andamento até hoje.

Essa história marcada pela luta por direito à moradia digna foi um dos fatores que levou a comunidade a ser selecionada pelo projeto Alianças para Transformação Urbana, que implementou laboratórios urbanos em cinco cidades latino-americanas. As alianças reúnem poder público, especialistas, sociedade civil e comunidades para experimentar abordagens e construir soluções de forma participativa, multisetorial e inclusiva, com foco em gerar soluções replicáveis e sustentáveis ao longo do tempo.

Entre as premissas da iniciativa, estava a de coconstruir soluções com as comunidades, que respondessem aos seus desafios e anseios. No final de 2021, o WRI Brasil iniciou a facilitação de um laboratório urbano na Comunidade do Pilar. Nasceu, assim, a Aliança pelo Centro do Recife. 

Governança e construção participativas

Técnicos e comunidade foram mobilizados para definir objetivos para a aliança a partir da leitura do território e da coleta de sonhos dos moradores. Assim, identificou-se como prioridades aprimorar os espaços públicos com foco nas crianças e em seus cuidadores e implementar soluções sustentáveis lideradas pela própria comunidade, fortalecendo a autonomia política e financeira dos moradores. 

pessoas conversam em torno de maquete
Consulta à comunidade para o projeto do novo trecho da Rota da Infância, em setembro de 2025 (foto: Silla Cadengue/WRI Brasil)

Foi esse processo participativo que levou ao desenvolvimento da Rota da Infância, uma série de intervenções urbanas de rápida implementação para conectar a comunidade ao entorno por meio de espaços mais qualificados e seguros. Elaborado por meio da aliança, o projeto foi apresentado aos demais moradores em eventos na comunidade. Foram implementadas extensões de calçada, medidas de moderação de tráfego e sinalização clara de que essa é uma área de rota escolar infantil.

mulheres reunidas conversando sobre planta baixa
Em setembro de 2025, equipe técnica do projeto se reuniu em oficina para planejar novo trecho da Rota da Infância (foto: Millena Oliveira/WRI Brasil)

A implementação se deu por mutirões envolvendo moradores e outros membros da Aliança e com intensa participação das crianças. Os mutirões funcionam como experimentos rápidos e de baixo custo para soluções que podem ser refinadas posteriormente, em um ciclo contínuo de aprendizado, e cultivam o engajamento comunitário ao incluir os moradores, da tomada de decisões à execução. 

O primeiro trecho foi implementado em dois mutirões, em 2022 e 2023, na rua entre o conjunto habitacional e a escola municipal que atende as crianças da região. Com ações de urbanismo tático – pinturas de pisos e instalação de bancos e mesas –, a rua foi reconfigurada para um uso mais seguro pelos moradores, em especial para as crianças brincarem. 

A nova rota conecta o trecho já existente à Praça do Pilar, por meio do corredor dos prédios mais recentes do conjunto habitacional Papa Francisco, concluído em 2025. O resultado são ruas mais vibrantes, lúdicas e acolhedoras, cocriadas com as crianças do conjunto habitacional. 

A Rota da Infância transforma o espaço público, incentiva o brincar, o encontro e o convívio. Contribui para criar ambientes que fortalecem o desenvolvimento infantil, o sentimento de pertencimento, os laços comunitários e a segurança viária. As cores, os desenhos no chão e os jogos pintados nas ruas não são apenas elementos estéticos: são convites para que as crianças ocupem a cidade como um espaço de descoberta, expressão e autonomia.

foto aérea de rota da infância
Resultado de mutirão realizado em 2025 na Comunidade do Pilar, em Recife (foto:Izabele Brito/Recentro)

Geração de renda e gestão de resíduos

As atividades no Pilar ao longo dos anos foram além da Rota da Infância. Na leitura do território e nos eventos e reuniões da Aliança pelo Centro do Recife, outros desafios identificados foram a gestão de resíduos e a geração de renda. Muitas moradoras do Pilar já trabalhavam com a coleta de materiais recicláveis.

Um grupo de trabalho específico promoveu atividades como oficinas e visitas a cooperativas para incrementar a renda de catadoras e catadores de recicláveis da comunidade. Uma das atividades foi uma capacitação para 30 mulheres em artesanato em papel machê, com resultados notáveis.

mulheres fazem artesanato
Capacitação e geração de renda: moradoras do Pilar participaram de capacitação em artesanato em papel machê (foto: Hermes Gonçalves/WRI Brasil)

Formou-se, assim, o grupo, que iniciou a produção conjunta de peças como colares e itens de decoração que passaram a vender em feiras da cidade. As peças foram expostas em eventos sobre mobilidade ativa, urbanismo social e na COP28, em Dubai, como exemplo de ação para melhorar as condições de vida em territórios vulneráveis.

Legado de articulação e aprendizados

O WRI Brasil incluiu aprendizados das Alianças no Guia do Plano de Ação Periferia Viva, que orienta a cocriação, com as comunidades, das melhorias a serem implementadas em mais de 50 territórios periféricos no Brasil beneficiados pelo Periferia Viva, programa nacional de urbanização de favelas.

Ao longo de mais de quatro anos, a Aliança pelo Centro do Recife promoveu melhorias permanentes no ambiente urbano, lideradas pela própria comunidade, e atuou sobre múltiplas dimensões da qualidade de vida: segurança viária, inclusão social e direito à cidade.

A governança participativa e o envolvimento contínuo de secretarias municipais na aliança permitiram que muitas pessoas tivessem, pela primeira vez, a oportunidade de dialogar com o poder público e com organizações da sociedade civil, como o Instituto Casa das Asas, que mantém contato e presença na comunidade.

As conexões físicas e simbólicas criadas com o Bairro do Recife e com outros atores ajudam a romper barreiras históricas de segregação urbana, trazem visibilidade para o território e deixam um legado de articulação comunitária. Essa trajetória está registrada no Relatório de Ciclo, um documento que conta a história do primeiro ciclo de existência e atuação da Aliança: o que foi construído até aqui, lições aprendidas e recomendações para o futuro.

crianças correndo em rua colorida
Novos caminhos: conexões com o bairro e com outros atores ajudam a romper barreiras e deixam um legado de articulação comunitária (foto: Nicole Rodrigues/WRI Brasil)

O futuro da Aliança pelo Centro do Recife

A moradora Cristiane dos Santos espera que a Rota da Infância chegue a outras ruas da Comunidade do Pilar. “Seria bom não só para as crianças, mas para os pais delas também. Você saber onde as crianças estão brincando dá uma segurança!”, diz, sonhando com um futuro em que ações semelhantes se multipliquem na Comunidade, “deixando tudo mais vivo, mais lúdico”.

Há muitos sonhos e caminhos a realizar na Comunidade do Pilar. Para que a Aliança pelo Centro do Recife siga atuando com autonomia, ao longo de 2025 foi construído um modelo de governança compartilhada e multissetorial, capaz de orientar o presente e projetar ações futuras da Aliança. A consolidação desse modelo marca o início de um novo ciclo.

A construção coletiva de um modelo participativo e adaptável demonstra que a força de uma governança está na qualidade das relações e compromissos que sustenta, apontando caminhos para sua replicação em outros territórios urbanos. As experiências do projeto Alianças para Transformação Urbana no Brasil oferecem inspirações e recomendações valiosas para outras iniciativas comunitárias.

Featured WRI Experts:
Isadora Freire -

Analista Sênior de Desenvolvimento Urbano

Millena Oliveira -

Analista Plena de Desenvolvimento Urbano

Paula Tavares -

Analista de Mobilidade Ativa Júnior

Fernando Corrêa -

Coordenador de Comunicação

Ariadne Samios -

Coordenadora de Mobilidade Ativa

Laura Azeredo -

Coordenadora de Desenvolvimento Urbano