A bioeconomia pan-amazônica representa um caminho para o desenvolvimento socioeconômico inclusivo da região. Baseada no uso sustentável da biodiversidade, ela valoriza o conhecimento tradicional, a inovação científica e os modos de vida locais, propondo modelos produtivos que mantêm a floresta em pé e geram renda para quem vive nela.  

Essa visão se alinha aos avanços internacionais e nacionais, como os Princípios de Alto Nível da Bioeconomia do G20 e à Política Nacional de Bioeconomia, e incorpora uma perspectiva territorial: reconhecer a floresta e seus povos como protagonistas da inovação.

Apesar dos avanços recentes, ainda há um gargalo importante: o de alinhar mecanismos financeiros disponíveis e seus requisitos com a realidade local das populações da Amazônia, um desafio enfrentado pela Força Tarefa de Financiamento da Rede Pan-Amazônia de Bioeconomia, que busca mobilizar financiamento multicapital com salvaguardas socioeconômicas e ambientais, criando entendimento comum e caminhos para a mobilização de recursos em escala.

O estudo “Financiando a bioeconomia na Pan-Amazônia”, coordenado pela Rede Pan-Amazônica de Bioeconomia – um espaço de articulação regional entre sociedade civil e instituições financeiras, da qual o WRI Brasil faz parte, desenvolvido pelo Impact Finance com apoio da Nature Finance, busca entender o cenário financeiro da bioeconomia para traçar caminhos que possam promover uma bioeconomia sustentável e liderada pelas populações locais em toda a Amazônia.

Os principais resultados do estudo foram apresentados no webinar “Financiando a Bioeconomia na Pan-Amazônia: evidências, oportunidades e caminhos”, que reuniu especialistas, organizações da sociedade civil e instituições que atuam na região para discutir oportunidades e desafios para ampliar o financiamento da bioeconomia. Assista à gravação do webinar abaixo.

Mapeamento revela lacunas e oportunidades

É o conjunto de atividades econômicas baseadas no uso sustentável da biodiversidade e da floresta em pé, organizadas por agricultores familiares, povos indígenas e comunidades tradicionais, que integram valores culturais e territoriais e se estruturam em modelos coletivos e inclusivos de produção, assegurando geração de renda, conservação ambiental e fortalecimento da governança local.

O estudo traz o primeiro mapeamento amplo de mecanismos financeiros voltados ao fortalecimento de cadeias produtivas sustentáveis na região. Entre abril e julho de 2025, a pesquisa identificou 141 mecanismos financeiros com potencial de impulsionar a bioeconomia. Embora o estudo tenha se proposto inicialmente a mapear exclusivamente mecanismos voltados à sociobioeconomia e identificar fatores de sucesso, a limitada disponibilidade de dados levou à inclusão de instrumentos que não atuam exclusivamente, nem majoritariamente, na sociobioeconomia. Como resultado, o mapeamento oferece um panorama mais amplo do ecossistema financeiro: apenas 48 (34%) atuam diretamente com cadeias de valor sustentáveis exclusivamente em cadeias de valor da bioeconomia 12 (8,5%) com a sociobiodiversidade.  

Os resultados revelam um ecossistema financeiro em crescimento, ainda fragmentado, mas com crescente interesse de investidores e instituições públicas e privadas em modelos que conciliam impacto socioambiental e retorno econômico.  

O ecossistema financeiro da bioeconomia em perspectiva  

Para analisar esse cenário diverso, o estudo organizou os mecanismos financeiros em oito categorias principais, desde doações e subvenções para projetos comunitários a investimentos híbridos e participações societárias voltadas a negócios sustentáveis e startups de biotecnologia. Essa classificação não pretende ser uma taxonomia definitiva, mas uma forma de identificar padrões, lacunas e oportunidades.  

A multiplicidade de atores e instrumentos reforça que a transição depende da combinação complementar de diferentes tipos de capital: fortalecer a bioeconomia demanda combinar recursos públicos, privados, filantrópicos e instrumentos inovadores, ajustando-os às realidades culturais, econômicas e territoriais da Pan-Amazônia.

Os mecanismos mais eficazes, segundo o estudo, são aqueles com governança transparente, clareza de propósito e participação ativa das comunidades locais. Iniciativas construídas com escuta territorial e desenho participativo tendem a gerar impactos sociais e ambientais mais duradouros.  

Nesse contexto, modelos financeiros tradicionais não se adequam completamente às dinâmicas da bioeconomia. Persistem gargalos estruturais como a exigência de garantias convencionais, a alta percepção de risco, a informalidade de muitas cadeias produtivas e a ausência de métricas de retorno ajustadas ao impacto socioambiental. Somam-se a isso barreiras de escala e de linguagem financeira: negócios pequenos, territorializados e frequentemente sem acesso a capital paciente ou instrumentos adaptados às suas realidades.  

Fortalecer o financiamento da bioeconomia pan-amazônica é também fortalecer o cumprimento de compromissos globais como o Acordo de Paris, o Marco Global da Biodiversidade e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Ao mesmo tempo, financiar a sociobioeconomia é, antes de tudo, um investimento em resiliência territorial e cultural, reconhecendo que o conhecimento local, os modos de vida tradicionais e a diversidade sociocultural da Amazônia são pilares para o desenvolvimento sustentável. Isso exige mecanismos realmente inovadores, flexíveis e desenhados a partir do território e não apenas a adaptação de instrumentos financeiros tradicionais. Mecanismos que valorizam o uso sustentável da natureza, promovem inclusão econômica e reduzem desigualdades ajudam a impulsionar uma transição justa e resiliente para a Amazônia.  

Convite à ação colaborativa

O relatório “Financiando a bioeconomia da Pan-Amazônia” está disponível para download gratuito. A publicação apresenta dados, análises e recomendações para ampliar o acesso a recursos e fortalecer cadeias produtivas sustentáveis em toda a região.

Mais do que um conceito econômico, a bioeconomia pan-amazônica é um projeto de futuro, que conecta sociobiodiversidade, cultura e ciência para transformar desafios ambientais em oportunidades de desenvolvimento.

A Rede Pan-Amazônica de Bioeconomia, que reúne organizações da sociedade civil, instituições financeiras e atores locais, fortalece uma bioeconomia sustentável e de base local, fundada em produtos e serviços compatíveis com a integridade ecológica do bioma amazônico e com a identidade cultural e inclusão socioeconômica de seus habitantes, também referida como sociobioeconomia. A Rede atua como um espaço de articulação regional que busca conectar comunidades, organizações territoriais e o sistema financeiro, criando condições para que mecanismos adequados à realidade pan-amazônica sejam co-construídos.

Nesse contexto, o estudo desenvolvido por Impact Finance e NatureFinance representa um primeiro esforço de mapeamento amplo das iniciativas existentes. Ele mostra o que já está em vigor, identifica lacunas e abre caminho para um entendimento mais sólido sobre o que pode e o que não pode ser interpretado como mecanismo de financiamento para a sociobioeconomia. Esse é um convite para seguir aprofundando o tema e enfrentar barreiras estruturais de mercado, de modo a ampliar a atuação do setor privado e fortalecer iniciativas lideradas pelo território.
Este estudo é, portanto, um convite à construção colaborativa de um ecossistema financeiro robusto, inclusivo e ajustado às realidades amazônicas capaz de valorizar a floresta em pé, o conhecimento tradicional e os empreendimentos sustentáveis que emergem do território. 

Featured WRI Experts:
Arthur Vieira -

Analista Sênior de Economia e Finanças para Natureza

Camila Barbosa -

Analista de Comunicação Pleno