A Coalizão de Energia Limpa da América Latina (LACEC), presente no México e na Colômbia, chegou ao Brasil tendo Alagoas como ponto de partida para a agenda nacional de transição energética com foco na indústria. O lançamento aconteceu no evento “Diálogo sobre o futuro da energia limpa para a indústria do Brasil”, promovido pelo WRI Brasil em parceria com a Federação das Indústrias do Estado de Alagoas (FIEA) e o SENAI Alagoas, no dia 1º de setembro, em Maceió. O encontro resultou na assinatura de um Protocolo de Intenções para apoiar a implementação da iniciativa no estado. 

O compromisso prevê ações voltadas à produção de estudos, mobilização de parceiros, diálogo público-privado e desenvolvimento de soluções de mercado para a descarbonização industrial. A cooperação também abrange fontes como eletricidade renovável e bioenergia de origem sustentável e hidrogênio verde. 

O objetivo é ampliar o acesso do setor produtivo à energia limpa, competitiva e segura. A escolha de Alagoas para o lançamento da iniciativa responde ao peso do Nordeste no setor: a região concentra o maior potencial eólico e solar do Brasil e um parque sucroenergético consolidado, com potencial de escala em bioenergia.   

quatro pessoas posando para câmera
 Momento da assinatura do Protocolo de Intenções. Da esquerda para direita: José da Silva Nogueira Filho, Karen Silverwood-Cope, Mirela Sandrini e José Carlos Lyra de Andrade / Foto: Felipe Brasil

Para Mirela Sandrini, Diretora Executiva do WRI Brasil, o Protocolo de Intenções é um exemplo concreto de que é possível fazer uma parceria multisetorial para uma economia de baixo carbono a partir da descarbonização da indústria. “Conseguimos reunir as melhores inteligências, estratégias, investidores e muita intenção também de política pública. Tudo isso faz com que seja criado em Alagoas um grande ambiente favorável, não só para a incidência do próprio estado, mas também para ampliar essa agenda para que ela ganhe uma representação regional, incluindo principalmente o Consórcio Nordeste e, quem sabe, no médio prazo, influenciar o governo brasileiro e nos tornarmos um exemplo para o mundo em relação à transição energética”. 

A parceria dialoga com o Mapa Estratégico da Indústria de Alagoas 2025–2032, que identifica sustentabilidade, inovação e transição energética entre as prioridades para fortalecer a competitividade industrial no estado. “Hoje, quando falamos em desenvolvimento, já não podemos pensar apenas em crescer e produzir mais. Precisamos pensar em como produzir melhor, com mais eficiência, menor impacto ambiental e maior capacidade de competir em uma economia que passa por grandes transformações. E a energia ocupa uma posição central nesse processo”, acrescentou o Presidente da FIEA, José Carlos Lyra de Andrade. “Alagoas tem condições muito favoráveis para participar dessa transformação.” 

Um diálogo sobre prioridades para o país 

No encontro, representantes da indústria, setor financeiro, desenvolvedores de projetos, especialistas e formuladores de políticas públicas buscaram identificar, a partir da experiência alagoana, quais são os principais gargalos e oportunidades para qualificar o acesso do setor produtivo a soluções de energia limpa no país. Os temas debatidos envolveram financiamento, infraestrutura, ambiente regulatório, desenvolvimento de projetos e condições para que as novas soluções sejam técnica e economicamente viáveis. 

Para Diego Merizalde, líder da Coalizão de Energia Limpa da América Latina (LACEC) no WRI, compreender as particularidades de cada território é fundamental para definir as prioridades de atuação no Brasil. Segundo ele, o encontro em Alagoas buscou contribuir para esse processo, identificando tanto desafios específicos do estado quanto questões que se conectam à realidade nacional e podem orientar a agenda da LACEC no país.  

Grupo sentado à mesa em reunião
Os especialistas debateram sobre financiamento, infraestrutura, ambiente regulatório, desenvolvimento de projetos pensando em soluções técnica e economicamente viáveis / Foto: Felipe Brasil 

Essa construção a partir das demandas locais também reflete um dos diferenciais da LACEC: a combinação de uma atuação regional e multissetorial, reunindo desenvolvedores, compradores de energia, financiadores e associações, com uma forte conexão com mercados globais. A coalizão busca partir das demandas concretas desses atores para identificar os principais entraves à expansão do mercado. “O foco está nos desafios e gargalos práticos. Ao conversar com os atores do mercado, é possível entender muito bem o que realmente falta para que funcione, porque, em geral, países como Brasil e Colômbia têm marcos regulatórios muito fortes”, explica Merizalde. 

As contribuições levantadas durante o encontro vão subsidiar a construção das prioridades de atuação da LACEC no Brasil, tendo Alagoas como ponto de partida. A proposta é que essa primeira experiência também ajude a orientar a expansão da iniciativa para os demais estados do Nordeste e outros contextos industriais brasileiros. 

Para Júlio Zorzal, diretor de Tecnologia, Inovação e Sustentabilidade Industrial do SENAI e da FIEA, a iniciativa permite transformar o potencial energético de Alagoas em oportunidades concretas para o setor produtivo. “A partir da LACEC, vamos ampliar o diálogo, conectar empresas e instituições e a rede SENAI de inovação para desenvolver soluções sustentáveis que fortaleçam a competitividade do setor produtivo, ao mesmo tempo em que avançamos na agenda de descarbonização”, afirma. 

De Alagoas para a agenda internacional 

Os aprendizados do diálogo serão levados ao encontro da LACEC durante a Climate Week de Nova York, em 23 de setembro, conectando as discussões realizadas no Brasil às experiências da coalizão em outros países da América Latina. A Climate Week NYC 2026 acontece de 20 a 27 de setembro, paralelamente à Assembleia Geral das Nações Unidas, e reúne governos, empresas, investidores e organizações da sociedade civil para discutir soluções e compromissos relacionados à ação climática. 

A diretora de Clima e Energia do WRI Brasil, Karen Silverwood-Cope, explicou que o papel da coalizão é, sobretudo, viabilizar conversas e negociações entre vendedores, compradores e financiadores do mercado de energia limpa e de baixo carbono, tanto dentro quanto fora do país. “A LACEC vai trazer essa discussão empresa a empresa sobre como a gente soluciona, por exemplo, a estruturação de contratos, de modelos de financiamento e de soluções tecnológicas, incluindo aquelas que envolvem demandas de alta inovação. Além de levar esses casos ao mundo e a combinação da visão para os compradores e vendedores do setor privado e para financiadores internacionais.”  

Pessoas no palco em frente a um telão
A diretora de Clima e Energia do WRI Brasil, Karen Silverwood-Cope, durante sua fala no painel digital / Foto: Felipe Brasil

Para a diretora, as soluções apresentadas durante o evento serão fundamentais para fomentar as discussões acerca do tema com os demais países envolvidos com a LACEC, principalmente as que apresentam propostas de crescimento de negócios sustentáveis que promovem o crescimento da economia de baixo carbono.  

“O aproveitamento energético de resíduos, que geram soluções mais baratas que o próprio gás natural, por exemplo, para o México, que é muito dependente, são interessantes e podem ser comercializadas e transacionadas aqui na região, com um custo de logística muito menor. O acesso à energia aqui também é uma pauta incrível para levar para o México, para a Colômbia e com soluções testadas no território”, explica. 

Ao conectar a experiência de Alagoas aos debates nacional e latino-americano, a iniciativa busca transformar desafios identificados pelo próprio setor produtivo em uma agenda de soluções capaz de contribuir para uma indústria brasileira mais limpa, competitiva e preparada para a transição energética.