A presença do pedestre nas cidades vai muito além do que normalmente é percebido: no Brasil, em média 39% dos deslocamentos diários são realizados a pé – sem contar as viagens de transporte coletivo, que muitas vezes começam e terminam em caminhada. Mas os pedestres são também um dos grupos mais expostos nas ruas: segundo a OMS, correspondem a 22% do 1,2 milhão mortes anuais em sinistros de trânsito no mundo.

Mais de 5.600 pedestres perderam a vida no trânsito brasileiro em 2024, um número que tende a crescer com o aumento da circulação de veículos motorizados e a falta de infraestrutura segura para quem caminha. Esses dados evidenciam a necessidade de ações estruturadas e coordenadas para reduzir a exposição ao risco e qualificar os deslocamentos a pé. É uma mudança que começa nas cidades.

Em Campinas (SP), a realidade local reflete os desafios nacionais. Os pedestres foram o segundo grupo mais vulnerável na mobilidade urbana em 2024, respondendo por 28,8% das vítimas fatais no trânsito. Para enfrentar esses desafios de forma estruturada, a cidade lançou a “Cartilha de parâmetros de desenho viário seguro para pedestres de Campinas”, que reúne diretrizes e orientações para promover a segurança dos pedestres, fundamentadas nos princípios da Visão Zero e na abordagem de Sistemas Seguros.

Desenvolvida com apoio do WRI Brasil no âmbito da Iniciativa Bloomberg para Segurança Viária Global, a publicação reúne diretrizes e recomendações para tornar as ruas mais acessíveis, confortáveis e seguras para pedestres, por meio da qualificação de calçadas e travessias, medidas de moderação de tráfego e redução de velocidades. Confira a seguir três destaques da cartilha:

Redução de velocidades

A velocidade é o fator que mais contribui para a ocorrência e a gravidade dos sinistros de trânsito. Conforme a velocidade aumenta, as chances de fatalidade aumentam exponencialmente. Para garantir a segurança no trânsito, em especial dos pedestres em áreas escolares, comerciais e residenciais, o limite de 30 km/h é reconhecido internacionalmente como o patamar seguro. A essa velocidade, o risco de morte em caso de atropelamento é de aproximadamente 10% – a 50 km/h, o risco vai a 85%.

Mas não basta fixar limites seguros: é necessário adotar medidas físicas de diminuição de velocidade nas vias. O desenho viário, com sinalização e medidas de moderação de tráfego, pode ajudar a garantir velocidades adequadas e tornar as vias mais seguras.

A cartilha traz algumas soluções práticas que atuam diretamente na redução de velocidade, como faixas de pedestres com travessias e interseções elevadas, ondulações transversais, ilhas de refúgio, extensões de meio-fio, redução de raios de giro das esquinas, minirrotatórias, chicanas e sinalização semafórica para pedestres com adequação de tempo. São medidas que reorganizam o espaço viário, introduzem obstáculos físicos ou elevam o leito viário, exigindo maior atenção dos motoristas.

extensões de calçada
Intervenção no entorno da escola Vicente Rao, em Campinas: desenho mais seguro em área com grande fluxo de crianças e adolescentes (foto: Bruno Batista/WRI Brasil)

Proteção para os mais vulneráveis

As ruas pertencem a todos, inclusive aos mais vulneráveis – e precisam ser projetadas para proteger e acolher essas pessoas. Crianças, pessoas com deficiência (PCD) e idosos são os mais afetados pela falta de um desenho viário adequado. O documento traz orientações para priorizar a segurança desse público.

Áreas escolares

Crianças não se comportam como adultos no trânsito: têm menor percepção de risco, campo de visão reduzido, menor estatura e tendência a agir por impulso. Ambientes como o entorno escolar, por concentrarem grande fluxo de crianças e adolescentes, são áreas críticas que merecem atenção especial no planejamento urbano e viário. A cartilha de Campinas traz recomendações para essas áreas, como a criação de uma “praça de entrada”, com alargamento de calçadas, canteiros e mobiliário que formam uma área de proteção física diante do portão; travessias elevadas, que reforçam visualmente a prioridade para pedestres; portais e sinalização temática que alertam os motoristas de que estão entrando numa área calma; mobiliário e semáforos na altura do campo visual infantil (95 cm); e vagas de embarque e desembarque organizadas para reduzir conflitos.

Tempo para a travessia

Em Campinas, idosos representam o grupo de pedestres mais afetado, correspondendo a 35% das mortes de pedestres no trânsito. O desafio é o tempo: para uma pessoa idosa, a travessia de uma avenida pode ser um momento de tensão. Ao encurtar a travessia e reduzir a velocidade dos veículos, a cidade diminui esse estresse e devolve autonomia para pessoas com dificuldade de locomoção. O tempo semafórico dedicado aos pedestres deve garantir que quem caminha mais devagar consiga atravessar sem pressa e sem precisar correr. Outras medidas reforçam a proteção, como as ilhas de refúgio em vias largas e as extensões de meio-fio, que encurtam as travessias.

Acessibilidade universal

A cartilha também destaca a acessibilidade universal como elemento estruturante do projeto viário. Isso significa considerar as necessidades de pessoas com deficiência (PCD), garantindo calçadas com largura adequada, superfície regular, firme e antiderrapante, com rampas de rebaixamento bem executadas nas travessias, piso tátil de orientação e alerta e travessias no mesmo nível da calçada em intervenções elevadas.

Conexão segura com o transporte público

Para usuários que usam diariamente o transporte público, o trajeto não se inicia ao subir no ônibus: começa quando se sai casa, atravessa ruas e avenidas, chega ao ponto de parada, estação ou terminal. A qualidade de toda essa infraestrutura é crucial e tem impacto direto na segurança, conforto e eficiência da mobilidade urbana. Se o percurso é inseguro, o sistema inteiro perde qualidade. 

A cartilha de Campinas estabelece que estações, pontos de parada e terminais devem ser cercados por um ambiente urbano seguro, previsível e confortável. No entorno desses equipamentos, também deve-se aplicar medidas de proteção, como travessias próximas aos pontos de parada, ilhas de refúgio em avenidas largas e extensões de meio-fio.

Ruas pensadas para todos

Incentivar os modos ativos e sustentáveis nas cidades é uma ação climática inteligente, mas também uma medida de equidade. Priorizar a segurança de quem caminha gera cidades mais seguras e com mais qualidade de vida para todas as pessoas, em especial grupos vulnerabilizados como crianças, idosos e mulheres. 

A “Cartilha de parâmetros de desenho viário seguro para pedestres de Campinas” dissemina conhecimentos e diretrizes para que o planejamento e gestão da mobilidade avancem nessa direção necessária – não somente em Campinas, mas em outras cidades do estado de São Paulo e do Brasil.

Featured WRI Experts:
Reynaldo Neto -

Especialista de Mobilidade Urbana

Fernando Corrêa -

Coordenador de Comunicação

Camila Rocha dos Santos -

Estagiária de Comunicação