A região do Grande Siqueira contempla dez bairros na zona oeste de Fortaleza. A vulnerabilidade socioeconômica da região se expressa no acesso desigual à cidade: maiores tempos de deslocamento, opções mais limitadas de transporte público e menos oportunidades de emprego próximas de casa.  

Como a mobilidade urbana pode mitigar esses desafios?  

Esta foi a provocação que Fortaleza lançou ao setor privado no Desafio Mobilidade Cidadã. Com apoio da Toyota Mobility Foundation e do WRI Brasil, a Fundação de Ciência, Tecnologia e Inovação de Fortaleza (Citinova) selecionou três soluções que receberão um total de até US$ 265 mil para serem testadas no Grande Siqueira. Nos próximos três meses, as soluções terão sua viabilidade avaliada para definir aquelas que seguirão à etapa de pilotagem. 

Três abordagens para a mobilidade sustentável 

As soluções selecionadas abordam diferentes desafios: o conforto no transporte coletivo, o potencial de ampliar o uso da bicicleta e a importância de garantir acesso à cidade para todas as pessoas. 

BikeApp: bonificação para incentivar bicicleta

Fortaleza já é uma cidade que incentiva a bicicleta, por meio de uma rede conectada de ciclovias, integrada ao transporte coletivo. Cerca de 78,1% da população do Grande Siqueira vive a até 300 metros de uma infraestrutura para bicicleta, índice superior à média observada na cidade como um todo. A caminhada e a bicicleta são os principais modos de deslocamento para curtas distâncias, e o custo dos deslocamentos motorizados é uma barreira à mobilidade da população.  

Partindo do entendimento de que há um grande potencial para o aumento do uso da bicicleta, o BikeApp oferece incentivo adicional à bicicleta ao estruturar um sistema de bonificação para remunerar ciclistas de acordo com a quilometragem percorrida. Ao estimular o pedalar, a proposta promove a saúde e a redução de emissões de carbono.  

Os testes vão focar em identificar o potencial da solução para atrair usuários de outros modos para a bicicleta, além de medir o aumento do uso pela população que já é ciclista. Também serão uma oportunidade de aprimorar as definições sobre como será realizada a bonificação. 

Areja BTU: otimizando o uso do ar-condicionado

Fortaleza é caracterizada por altas temperaturas o ano todo. O resultado para os passageiros do transporte público é que o ar-condicionado por vezes tem dificuldades em aliviar o calor, gerando também um custo elevado para a operação que pressiona o valor da tarifa.  

A Areja criou uma solução de tecnologia que regula a entrada de ar externo ampliando o conforto térmico na cabine enquanto reduz o tempo de funcionamento do ar-condicionado, diminuindo também o gasto de combustível e a emissão de poluentes. 

A climatização é um dos pontos mais críticos para a satisfação dos passageiros. Assim, o Areja BTU tem potencial de aumentar a atratividade do transporte público enquanto reduz custos para o operador.  

Os testes vão focar em validar o desempenho técnico do Areja BTU, em especial no que tange à satisfação dos passageiros e à economia no consumo de combustível. 

Vamos Juntos: apoio aos deslocamentos 

O Vamos Juntos apresenta soluções para esse desafio. Entre elas, destaca-se a criação de uma rede multimodal comunitária, com o objetivo de garantir o direito à mobilidade para todas as pessoas, em especial grupos historicamente vulnerabilizados, como mulheres, idosos e pessoas com deficiência (PCD). 

Inicialmente a rede oferecerá duas opções de viagem zero emissão: com o uso de ciclo-riquixás e com a caminhada guiada. O foco é proporcionar apoio às pessoas que não se deslocam por medo ou por precisarem de assistência. As viagens poderão ser marcadas por um canal digital, e gerarão renda para moradores locais que operarão o sistema.  

Os testes vão avaliar a eficiência da rede como novo modo de transporte, por meio do monitoramento do uso dos ciclo-riquixás e da caminhada acompanhada, especialmente entre a população mais vulnerabilizada, além da análise da satisfação dos usuários quanto ao tempo de deslocamento e à segurança. 

Diagnóstico apoiou submissões e seleção

O WRI Brasil apoiou a Fortaleza com o desenvolvimento de um diagnóstico do Grande Siqueira, que apontou características como a desigualdade no acesso a oportunidades, a alta vulnerabilidade socioeconômica, deficiências de infraestrutura de transporte e percepção de baixa qualidade dos serviços como os principais desafios urbanos da região. 

As informações do diagnóstico se traduziram na diversidade das propostas submetidas, que foram avaliadas por uma comissão julgadora de especialistas com sólida experiência em inovação, mobilidade urbana e políticas sociais. Todos os integrantes representam as instituições organizadoras do desafio: William Chernicoff (Toyota Mobility Foundation), Paula Santos (WRI Brasil), Bruno Bertoncini (Universidade Federal do Ceará), Rebeca de Assis (Fundação Citinova), Dimas Barreira (SindiÔnibus), Ana Cláudia da Silva (ETUFOR), Jovanil Oliveira (Secretário da Regional 5).  

Desempenho de protótipos determinará pilotos

O Desafio de Mobilidade Cidadã está estruturado em duas fases: três meses de prototipagem e seis meses de pilotagem. Os finalistas desenvolverão seus protótipos e, ao final dessa etapa, serão avaliados com base em critérios como aderência ao cronograma, alcance dos indicadores estabelecidos e qualidade das entregas. Somente os que atenderem aos requisitos de desempenho avançarão para a fase de pilotagem. 

O Desafio evidencia um modelo colaborativo entre poder público, setor privado e sociedade civil para desenvolver soluções de mobilidade com impacto social. Além do financiamento, as equipes selecionadas receberão apoio técnico ao longo de todas as etapas, fortalecendo a implementação de propostas inovadoras com potencial de escalabilidade. 

Featured WRI Experts:
Ariadne Samios -

Coordenadora de Mobilidade Ativa

Cynthia Blank -

Analista de Mobilidade Urbana

Bruno Batista -

Analista Sênior de Mobilidade Ativa