Com rede de Ruas Completas, cidades paulistas tornam vias mais seguras e acessíveis
Rede Ruas Completas SP reuniu 20 municípios para compartilhar conhecimento, transformar ruas e qualificar políticas públicas, colocando as pessoas no centro das decisões sobre mobilidade
Uma rua é mais do que um espaço para os veículos circularem. Ela pode ser caminho para a escola, acesso ao trabalho, conexão com o transporte público, espaço para quem caminha ou pedala e local de convivência e permanência. Tornar as ruas mais seguras para todos os seus usuários é fundamental para garantir do acesso à cidade e às oportunidades.
A Praça Nossa Senhora Aparecida, na região oeste de Guarulhos, é um exemplo dessa transformação. Em 2022, as calçadas no entorno foram ampliadas, uma ciclovia e uma faixa para caminhada foram implementadas e o limite de velocidade foi reduzido para 30 km/h, tornando mais seguros e confortáveis os deslocamentos, o lazer e a atividade física da comunidade no local histórico e central para a vida no bairro.
“As nossas crianças brincam na praça. Tem mães que vêm trazer as crianças de bicicleta, e as mães também utilizam fazendo caminhada”, conta Elaine dos Santos, diretora da escola Siqueira Bueno. “Para as crianças, ficou muito mais seguro e para nós, como condutores, também”, avalia a motorista de transporte escolar Alessandra Louzenda.
Guarulhos não está sozinha: a cidade é uma das 20 integrantes da Rede Ruas Completas SP, que fortaleceu a capacidade de municípios paulistas para planejar e implementar ações de segurança viária priorizando o acesso seguro de todas as pessoas.
Entre 2021 e 2025, a iniciativa conjunta do WRI Brasil, Vital Strategies, Frente Nacional de Prefeitas e Prefeitos (FNP), Instituto Cordial e Detran-SP, no âmbito da Iniciativa Bloomberg para Segurança Viária Global (BIGRS), apoiou as cidades no desenvolvimento de 37 projetos de desenho viário e três planos municipais. Os resultados e aprendizados da iniciativa estão sistematizados em uma publicação lançada pelo WRI Brasil com as demais organizações parceiras.
A nota prática “Ruas Completas no estado de São Paulo” mostra como a atuação em rede permitiu a cidades com contextos diversos compartilhar experiências e desenvolver capacidades para planejar, implementar e monitorar soluções de desenho viário e políticas públicas para transformar seus territórios e ampliar o acesso seguro às oportunidades – uma prioridade estratégica do WRI Brasil.
Um compromisso com o trânsito seguro
A Rede Ruas Completas SP foi formada a partir de um compromisso coletivo com a redução de mortes e lesões e com a mudança de paradigma no planejamento das ruas, a partir dos princípios de Sistema Seguro e dos conceitos de Ruas Completas.
Durante cinco anos, a Rede ofereceu formação continuada por meio de grupos de trabalho, encontros presenciais, webinars e atividades técnicas. Foram realizados dez seminários, um curso de engenharia de segurança viária e capacitações sobre temas fundamentais, como Sistema Seguro e Visão Zero, urbanismo tático, dados para segurança viária e gestão de velocidades, comunicação, caminhabilidade, transporte coletivo e infraestrutura cicloviária.
A iniciativa buscou transformar esse conhecimento em ações concretas, por meio de dois grupos de trabalho (GTs) que apoiaram as cidades na construção de estratégias integradas em três escalas: projetos, programas e planos de segurança viária. Os projetos de desenho viário produzem efeitos localizados imediatos e geram aprendizados que podem ensejar novas iniciativas; programas articulam a implementação de intervenções em escala; e os planos garantem diretrizes e compromisso de longo prazo para que as mudanças sejam implementadas, sustentadas e disseminadas como política de Estado.
Projetos que semeiam a mudança
No período de atividade da Rede, as cidades integrantes implementaram 37 projetos de intervenções de segurança viária.
Em Campinas, por exemplo, os princípios de Ruas Completas foram incorporados ao redesenho da rua Dr. Delphino Cintra. A área, que concentra serviços de saúde e outros equipamentos urbanos, apresentava alto índice de sinistros e atropelamentos. Com medidas como extensões de calçadas, 12 travessias de pedestres sinalizadas, implantação de chicanas e criação de áreas de permanência, a rua foi reorganizada ampliando espaço para a mobilidade ativa e reduzindo a velocidade dos carros.
A comerciante Edina Lopes Ferreira vê as intervenções como uma oportunidade: “Eu achei que melhorou bastante o trânsito, não havia sinalização nenhuma, e ali é cadeirante, é idoso, pessoas com dificuldade para andar. Com isso, eu acredito que atraia mais pessoas para vir frequentar a região”.
Compartilhamento de experiências
Algumas cidades da Rede Ruas Completas SP já haviam participado da Rede Nacional pela Mobilidade de Baixo Carbono, iniciativa do WRI Brasil e da FNP que, entre 2017 e 2020, foi pioneira em trabalhar o conceito no país. Por meio do trabalho em rede, com encontros, seminários e GTs, técnicos de municípios com experiência anterior na temática podem compartilhar perspectivas e aprendizados, o que facilita a superação de desafios comuns e a disseminação de boas práticas.
Registro requalificou o entorno da Praça do Tik, agora conhecida como Boulevard Beira Rio, com implantação de uma área de convivência e de uma ciclofaixa. O processo envolveu a comunidade local desde o diagnóstico até a avaliação – positiva – dos resultados. O número de ciclistas aumentou em 46%, e o uso da área para permanência, em 186%. A experiência impulsionou novas intervenções de segurança viária no município.
Ribeirão Preto implementou seu projeto-piloto de Rua Completa na Praça Pedro Biagi, no entorno de uma escola. Após a aprovação significativa da intervenção – que ampliou o espaço para pedestres e moderou a velocidade dos carros –, o município realizou intervenções em outras ruas, com extensões de meio-fio, novas faixas de pedestres, ilhas de espera e redução das pistas para veículos motorizados.
Planos para sustentar a transformação
Planos ajudam a transformar a segurança viária em uma política contínua, ao definirem metas, indicadores e mecanismos de acompanhamento. A Rede Ruas Completas SP apoiou diretamente a construção de dois planos, detalhados na publicação: o Plano para a Mobilidade Segura e Inclusiva (PMSI) de Santo André e o Plano de Segurança Viária de Guarulhos. Ambos estabelecem metas de redução de 50% das mortes no trânsito até 2030, em linha com o Plano Nacional de Redução de Mortes e Lesões no Trânsito (Pnatrans) e a Década de Ação pela Segurança no Trânsito da ONU.
Desde sua conclusão, o PMSI passou a orientar projetos em Santo André, como diversas intervenções de urbanismo tático e os 4,2 quilômetros de corredores de ônibus concluídos em 2025 na área central da cidade. Após uma intervenção na rua Juquiá, houve redução de 50% no índice de severidade dos sinistros.
Os planos são, também, uma oportunidade de articular a atuação de diferentes setores em prol da segurança viária. Guarulhos construiu seu plano a partir de um diagnóstico dos sinistros na cidade e mobilizou diversas secretarias, forças de segurança e órgãos de saúde no processo de desenvolvimento.
No período, o WRI Brasil e a BIGRS também apoiaram a elaboração do Plano de Segurança Viária de Campinas (PSV-Campinas), que, segundo a cidade, poderá representar 903 vidas salvas até 2030.
Um legado que continua nas cidades
Um levantamento identificou mais de 94 km de intervenções impactadas pela Rede Ruas Completas SP
Durante os cinco anos em que esteve em atividade, a Rede Ruas Completas SP mostrou que transformar o acesso das pessoas à cidade exige mais do que redesenhar uma rua: é preciso transformar também a capacidade das instituições de planejar, implementar, avaliar e dar continuidade às mudanças. Esse legado rende frutos para além dos projetos diretamente apoiados.
Um levantamento junto às cidades participantes identificou mais de 94 km de intervenções de segurança viária que foram impactadas pela Rede Ruas Completas SP – seja pelo apoio direto das organizações ao desenho das soluções, seja porque as equipes municipais participaram das atividades da rede e puderam aplicar os conhecimentos em outros projetos. Assim, uma intervenção local pode ser o início de uma transformação maior, capaz de alcançar muito mais pessoas.