Como as empresas podem reduzir emissões associadas a mudanças no uso da terra e cumprir as metas climáticas
O setor de uso da terra – que engloba todas as atividades que utilizam a terra, como agricultura e silvicultura – contribui de forma significativa para as mudanças climáticas. Ele responde por quase um quarto das emissões globais de gases de efeito estufa (GEE), sendo que as mudanças no uso da terra – como a conversão de florestas em áreas agrícolas ou de pastagem – é responsável por cerca de metade dessas emissões.
Uma redução substancial das emissões provenientes de mudanças no uso da terra é fundamental para manter o aquecimento global alinhado do objetivo do Acordo de Paris de limitar o aumento da temperatura a 1,5°C e permitir que o mundo alcance o zero líquido. Para empresas de setores intensivos em uso da terra, diminuir essas emissões também contribui para tornar suas cadeias de abastecimento mais resilientes e adaptáveis, capazes de mitigar riscos climáticos futuros.
Embora medir essas emissões de forma precisa nas cadeias de valor seja um desafio há muito tempo, Land & Carbon Lab, WRI e Quantis estão lançando novas ferramentas, incluindo um guia e uma nota técnica, para orientar as empresas na contabilização e rastreabilidade de suas emissões por mudanças no uso da terra.
O que são emissões por mudanças no uso da terra e por que são importantes?
As emissões por mudanças no uso da terra são emissões de GEE resultantes da conversão de um tipo de uso da terra para outro – principalmente quando ecossistemas naturais, como florestas, são desmatados para o cultivo de commodities como óleo de palma ou soja ou para a criação de gado.
Rastrear as emissões por mudança no uso da terra:
- Mostra quais commodities impulsionaram o desmatamento e em quais regiões essas atividades são mais presentes.
- Revela se compromissos corporativos, como “desmatamento zero” ou “conversão zero”, estão de fato gerando benefícios climáticos reais.
- Oferece embasamento para as empresas na definição de metas realistas e possibilita uma contabilização precisa das emissões para medir o progresso em relação a essas metas.
Estabelecer metas e medir o progresso para reduzir emissões associadas ao uso da terra
Tudo que é medido pode ser administrado. Para empresas realmente comprometidas com o clima, metas realistas de reduções de emissões provenientes de mudanças no uso da terra devem estar alinhadas com as estimativas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) para trajetórias compatíveis com o limite de 1,5°C, utilizando como referência a estrutura da Science Based Targets initiative (SBTi).
Uma empresa deve elaborar inventários de GEE para contabilizar suas emissões anuais mensurando com precisão a pegada de carbono de seus produtos, o que fornece a linha referencial para acompanhar o progresso ao longo do tempo.
A contabilização corporativa de emissões por mudança no uso da terra tem ganhado força desde 2022, quando a SBTi lançou diretrizes para o setor de florestas, uso da terra e agricultura (FLAG). Trata-se da primeira estrutura padronizada que orienta as empresas para que estabeleçam metas alinhadas com a ciência climática mais atual. As empresas submetem essas metas para uma avaliação rigorosa com base em critérios definidos pela SBTi. Uma vez validadas, as metas se tornam públicas, e as empresas devem fazer a divulgação anual de seus avanços, garantindo transparência e credibilidade.
Por muitos anos, o Protocolo GEE tem complementado a SBTi ao fornecer uma estrutura de monitoramento de progresso para as empresas. Os principais programas de definição de metas, como a própria SBTi, e sistemas voluntários de divulgação são embasados e alinhados aos padrões do Protocolo GEE.
As Orientações para o Setor de Uso da Terra e Remoções do Protocolo GEE explicam como as empresas podem contabilizar e reportar suas emissões resultantes de mudanças no uso da terra e outros indicadores dentro de suas operações ou cadeia de valor.
O papel do desmatamento nas emissões do setor de uso da terra
Diminuir o desmatamento é essencial para cumprir as metas de redução de emissões, porque, quando florestas são derrubadas ou queimadas, o carbono armazenado nelas é liberado na atmosfera, transformando-as de sumidouros de carbono em fontes emissoras. Quase 25 anos de dados mostram que a principal fonte das emissões relacionadas às florestas tem sido a agricultura.
Como parte da definição das metas para o setor de florestas, uso da terra e agricultura da SBTi, as empresas precisam se comprometer em tornar suas cadeias de valor livres do desmatamento. Isso pode ser feito a partir das diretrizes da Accountability Framework initiative (AFi), que recomenda que as empresas adotem a data mais ambiciosa possível para alcançar o desmatamento zero em suas cadeias e utilizem uma data de corte em 2020 – ou seja, devem adquirir produtos provenientes de áreas que não tenham sido desmatadas desde 31 de dezembro de 2020. Além disso, as empresas precisam publicar relatórios anuais divulgando e quantificando seu progresso nesses compromissos.
Combater o desmatamento é fundamental para reduzir as emissões de GEE de muitas empresas do setor de florestas, uso da terra e agricultura. Sem isso, outras metas climáticas e de sustentabilidade se tornam praticamente inviáveis.
Decodificando as principais fontes de orientações sobre emissões de GEE para empresas
A seguir, alguns dos acrônimos mais comuns usados na contabilização e na divulgação corporativa de GEE:
AFi: a Accountability Framework initiative é um roteiro para alcançar cadeias de valor éticas que protejam florestas, ecossistemas naturais e direitos humanos. Fornece orientações alinhadas com a SBTi e o Protocolo GEE, apoiando as empresas em ações para conter o desmatamento, a conversão de ecossistemas e reduzir as emissões de GEE causadas por mudanças no uso da terra.
CDP: o CDP, anteriormente conhecido como Carbon Disclosure Project, é um sistema de divulgação ambiental voluntário utilizado por empresas para reportar indicadores de sustentabilidade. Em um único envio, as empresas compartilham informações por meio de um questionário sobre todos os temas do CDP, incluindo água, florestas, biodiversidade e mudanças climáticas.
Metas FLAG: forma como a SBTi denomina as metas climáticas relacionadas a florestas, uso da terra e agricultura, estabelecidas para reduzir as emissões associadas a mudanças no uso da terra e a ampliar remoções de carbono.
Protocolo GEE: o Greenhouse Gas Protocol fornece os padrões mais utilizados no mundo para medir e gerenciar emissões de gases de efeito estufa.
LSRG: refere-se às Orientações para o Setor de Uso da Terra e Remoções do Protocolo GEE, que explicam como as empresas devem contabilizar e reportar emissões e remoções relacionadas ao uso da terra, mudanças no uso da terra, produtos biogênicos e tecnologias de remoção de CO₂.
SBTi: a Science Based Targets initiative é uma iniciativa corporativa voluntária que ajuda empresas a definir metas de redução de emissões ambiciosas e fundamentadas na ciência, além de oferecer serviços de validação dessas metas.
Como contabilizar, na prática, as emissões por mudanças no uso da terra
Embora existam diretrizes e recursos disponíveis para as empresas por meio da SBTi e do Protocolo GEE, a divulgação corporativa dessas emissões ainda está em evolução, e hoje existem diversas abordagens diferentes para calcular emissões do setor de uso da terra. Ainda que as orientações do Protocolo GEE forneçam requisitos e diretrizes gerais sobre como empresas devem contabilizar e reportar essas emissões em seus inventários, o cálculo da mudança no uso da terra é complexo. Mesmo empresas que adquirem as mesmas commodities das mesmas regiões, devido a diversos fatores, podem apresentar resultados diferentes de emissões por mudanças no uso da terra e por ocupação da terra (a quantidade de área necessária para produzir uma determinada cultura). Por exemplo, as empresas podem usar tipos diferentes de dados, métodos e metodologias.
Essa multiplicidade de metodologias e fontes de dados – somada a variações de produtividade agrícola, práticas de manejo da terra e limitações de rastreabilidade em algumas cadeias de suprimentos – gera uma série de inconsistências no cálculo das emissões. E essas diferenças dificultam tanto a comparação entre empresas e quanto o direcionamento de é possível, de fato, reduzir emissões.
Embora não exista um modelo único capaz de atender a todas as situações devido à complexidade e as particularidades das mudanças no uso da terra, avanços contínuos em dados e ferramentas têm tornado essa complexidade cada vez mais manejável. Para promover mais consistência e transparência na forma como as empresas medem emissões por mudanças no uso da terra, o Land & Carbon Lab, o WRI e a Quantis lançaram uma metodologia e métricas de código aberto para calcular emissões decorrentes de desmatamento e ocupação da terra. Desenvolvido com apoio da Mérieux NutriSciences | Blonk e da HowGood, o guia utiliza os dados geoespaciais mais recentes para aumentar a precisão das estimativas de emissões.
Essa orientação foi criada para ajudar as empresas a identificarem com precisão os pontos críticos de emissões, alinhar cálculos e divulgar seu progresso de forma confiável. As próximas fases desse trabalho incluirão emissões de outros tipos de mudança no uso da terra além do desmatamento, bem como categorias adicionais de contabilização previstas nas Orientações para o Setor de Uso da Terra e Remoções do Protocolo GEE. Saiba mais aqui.
Desvendando os diferentes níveis de rastreabilidade na contabilização das emissões por mudanças no uso da terra
A capacidade de uma empresa de rastrear produtos até as áreas onde foram cultivados ou produzidos é essencial para o cálculo dessas emissões. Quanto mais refinada a rastreabilidade, mais refinados serão os cálculos.
A abordagem de mudança estatística no uso da terra (sLUC) tem alta escalabilidade porque os dados necessários são acessíveis, permitindo que empresas estimem emissões por mudança no uso da terra em um amplo portfólio de produtos e regiões. Contudo, a atribuição de emissões com base em dados aproximados pode perder detalhes importantes, como a visibilidade sobre pontos críticos de emissões.
Por outro lado, a abordagem de mudança direta no uso da terra (dLUC) exige que empresas tenham dados específicos sobre as culturas e sua localização ao longo dos últimos 20 anos, o que pode ser complexo e caro de implementar em todo o portfólio – em particular no caso de empresas com cadeias de valor extensas, multissetoriais e envolvendo fornecedores indiretos, a respeito dos quais é mais difícil obter os dados necessários.
A abordagem de mudança jurisdicional no uso da terra (jdLUC) oferece um meio-termo que aumenta a precisão em relação à sLUC, ao mesmo tempo em que evita parte dos desafios práticos das análises em nível de unidade de manejo da terra.
É como ajustar o zoom de uma câmera: a sLUC fornece uma visão panorâmica das emissões; a jdLUC e a dLUC permitem aproximar o foco para capturar detalhes e revelar os reais impactos das emissões por mudança no uso da terra.
O que a contabilização das emissões por mudanças no uso da terra significa para as empresas
Para as empresas, mais rastreabilidade pode implicar tanto no aumento quanto na redução das emissões reportadas. Mas o objetivo não é apenas o número final: dados mais precisos também permitem que as empresas desenvolvam soluções mais embasadas, capazes de proteger as florestas e reduzir as emissões de forma significativa.
Na prática, isso significa que as empresas podem:
- Compreender melhor os reais impactos climáticos de sua cadeia de valor: combinar métricas de mudança no uso da terra com dados de ocupação da terra para formar um panorama completo de sua pegada territorial.
- Identificar pontos críticos de emissões na cadeia de valor: analisar as causas desses pontos críticos e usar esses dados para agir no ponto exato em que as emissões ocorrem, investindo em práticas e intervenções que reduzam a pressão sobre a terra.
- Planejar intervenções de forma estratégica: dados de maior qualidade podem embasar a tomada de decisão. As empresas podem utilizá-los para desenvolver estratégias mais ambiciosas, além de fortalecer as relações e o envolvimento de fornecedores e jurisdições.
- Melhorar práticas agrícolas: ao abordar a mudança no uso da terra, responsável pela maior parte das emissões, as empresas criam uma base sólida para identificar oportunidades adicionais de redução de sua pegada, ao mesmo tempo em que mantêm ou até ampliam a produtividade e a eficiência.
Novos recursos padronizados permitem que as empresas superem desafios recorrentes e adotem métodos consistentes, independentemente do nível de rastreabilidade disponível, gerando informações mais sólidas para embasar ações mais focadas e efetivas. Trata-se de um avanço relevante para que as empresas compreendam, mensurem e reduzam seu impacto climático no curto prazo e, no médio e longo prazo, fortaleçam cadeias de suprimentos mais resilientes e preparadas para o futuro.